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novembro 17, 2010

Mormaço

Quando enfim saí – do banho mais demorado da história da humanidade –, a luz do sol já perigava a desaparecer, ainda que disfarçada pelo céu coberto, e transformava-se deprimentemente num pôr-do-sol acinzentado. Um fim de tarde bem paulistano – com uma garoa à espreita em meio àquele tempo frio – e que me desanimava de tudo. Contudo, sentia-me melhor. Andava pelo quarto só de calcinha e moletom, cabelo molhado preso em um coque mal-feito, procurando calças-de-ficar-em-casa que não me apertassem.

Achei!, celebrei sentindo uma felicidade bobinha ao encontrar a parte de baixo de um pijama antigo engruvinhado sob a cama. Vesti-a, uma calça branca de algodão com listinhas ultrafinas azuis na vertical, depois me sentei confortável na cama, com as pernas cruzadas sobre no edredom. Olhei para a janela, fechada, mas não tive paciência de observar o frio do cão que fazia do outro lado do vidro. Queria um cigarro agora. Mas não tinha um sequer, me lembrei ao pensar no maço vazio largado há tempos na sala. E, dentre todos os fumantes do mundo, não queria pedir “emprestado” logo para o Fer. Isso não, né. Não seria apropriado, não naquele momento, pelo menos de acordo com o meu conceito deturpado de moral – “Já fiquei com a sua garota, não vou mexer nos seus cigarros”, ou algo do tipo.

A ressaca e o tempo ruim haviam inutilizado o meu sábado. Apenas a idéia de sair para a rua me causava pesadelos do pior tipo. Tomada por uma preguiça imobilizadora, me sentei ali por o que me pareceram minutos intermináveis de tédio, até que o vício enfim me venceu. Num movimento lento, observei o meu jeans largado em frente à cama e pensei no quanto andava precisando lavá-lo. Programão para o meu saturday night, hein, revirei os olhos. Procrastinando, enrolando o máximo que me fosse possível para tomar uma atitude, continuei a olhá-lo, sem coragem de trocar as calças naquele frio, dividida pela minha moleza pós-horas-de-choro-e-um-banho-quente e a minha maldita necessidade por nicotina.

Que se foda, enfiei um All Star velho no pé e peguei dinheiro em cima da mesa do computador, sem trocar calça alguma. A banca não era tão longe, afinal, praticamente só atravessar o lado da rua. E eu não estava com paciência, não demoraria mais do que cinco minutos. Desci e cruzei até a outra calçada, sentindo aquele vento gelado na cara e no cabelo molhado preso – porra, São Paulo! –, aí contei minhas moedas em frente ao atendente da banca de jornal, para ver se conseguia pagar um Marlboro vermelho, mas o dinheiro não deu.

_Me vê qualquer um, então – disse irritada, meio de saco cheio da minha pobreza crônica, resultante do excesso de cervejas e baladas.

Acendi o primeiro logo que virei as costas, enquanto esperava os carros terminarem de passar na minha frente. Atravessei a rua de volta, morrendo de frio com aquelas calças finas inapropriadas, e parei no portão do meu prédio para terminar o cigarro. Por que não se fuma em elevadores?, me indaguei descontente, como se alguma autoridade da administração de edifícios pudesse me ouvir, congelando ali, do lado de fora.

Distraída, observava o cimento que compunha a sarjeta e a sujeira ao redor, conforme caminhava lentamente e a esmo pela beira da calçada, um pé na frente do outro. O fim de tarde atraía um bando de bêbados, putas, indies, filhinhos-de-papai metidos, pseudo-cults, baladeiros de plantão e adolescentes em fase de auto-afirmação para as redondezas da minha rua. Ou melhor, para a do lado, a Augusta. Todavia, a minha sempre se enchia por tabela, é claro. E eu era obrigada a agüentar comentários masculinos deploráveis – argh –, da população que subia e descia por ali, enquanto a porra do cigarro não terminava.

Pouco depois, joguei a bituca no chão, pisei na brasa e entrei no prédio. Subi pelo elevador, entrei no apartamento, peguei o maço antigo, joguei-o fora, meti as chaves no bolso direito do moletom e chequei o celular. Uma chamada não-atendida. E, óbvio, era a Mia. Ótimo, suspirei, meio inquieta. Coloquei o que restava de dinheiro da noite anterior, que estava espalhado sobre a mesinha de centro, e juntei ao troco de dez mínimos centavos da banca de jornal, no bolso esquerdo do moletom.

Fui para o meu quarto, uma verdadeira zona àquela segunda vista, e tranquei a porta atrás de mim. Sentei na cadeira do computador e olhei um bilhete, um post-it amarelo grudado na torre do PC – uma auto-notificação escrita por mim mesma, dias atrás, de que meus pais me visitariam naquele domingo. Inferno, lembrei com desgosto do compromisso, que me dava mais um motivo para lavar a porcaria da roupa suja, que se amontoava vergonhosamente pelo chão do quarto. Eu odiava como aquelas visitas familiares desnecessárias tiravam o caos – cultivado com tanto carinho – da minha rotina.

Peguei o celular novamente, na mão, e olhei para a tela. Mia, respirei fundo, preciso ligar de volta. E sem pensar muito mais, apertei o botão verde sob o meu dedo, vendo o seu número chamar pacientemente.

3 comentários:

cigarrosdebaunilha disse...

Ô, vícios...

Nicotina e Mia, no caso.

R. disse...

visitas de pais sempre trazem esse sentimento...

e brigada por postar mesmo depois de todo o trabalho mel ^^

- Tucca disse...

Dá uma tristeza só de pensar nesse frio :x
Opa, conversinha a vista hein... Acheei que elas fossem demorar um pouco mais pra se falarem. Ainda bem que não :D Thanks, Mel!