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dezembro 16, 2010

Cerveja não sobe, só desce

Por um instante, esqueci onde estava. Reabri os olhos, como se só os tivesse fechado por dez segundos, e o apartamento continuava exatamente como o havíamos deixado. As luzes acesas e o resto intacto, imóvel. O meu braço estava preso, entre o encosto do sofá e o cabelo semi-preso da Marina, que dormia com a cabeça apoiada no meu ombro direito. A sua mão descansava a poucos centímetros do meu umbigo, acima dele, e eu movi os olhos discretamente, na tentativa de me localizar no cômodo sem acordá-la.

O chá restava quase terminado sobre o tapete da sala, perigando ser derrubado da caneca assim que a Marina levantasse. Mas que horas são?, tentei esticar a visão até o meu celular, apoiado em cima da mesa de canto, onde nossas pernas se emparelhavam largadas, uma ao lado da outra, e sonolentas. Nada, não dava para ver. Que inferno, suspirei. Dei mais uma olhada em volta e percebi que não conseguia, de fato, me mexer. Tentei ensaiar uma escorregada discreta para a esquerda, sem sucesso. Ótimo. Lá vou eu chegar atrasada amanhã, de novo.

E quando eu achava que não poderia piorar, subitamente, senti todas as latinhas de cerveja ingeridas previamente naquela tarde latejarem na minha bexiga. Merda, mil vezes merda. Agora era inevitável: motivo de força maior, a Marina que me desculpe. Retirei o braço do jeito menos impactante possível, apoiando a sua cabeça delicadamente no sofá e caí fora assim que me vi livre. Corri para o banheiro, isto é.

Ufa.

Quando voltei, tudo estava igual – exceto pelo sofá. Cadê a Marina? Andei, curiosa, até a cozinha e apoiei-me no batente. Ela estava lá, em pé frente a pia, meio descabelada e com a mesma cara de cansada, mas ainda bonita; lavando a caneca do chá, óbvio, naquela sua necessidade de não deixar nada para depois. Achei graça. Olhei em volta e notei que o apartamento continuava vazio.

_Sua irmã não está aí? – perguntei.
_Ah, ela quase não fica aí de fim de semana – respondeu, sem tirar os olhos da água.
_Engraçado, né. Quando a gente estava juntas, ela insistia em aparecer toda santa vez... ô inferno! – eu ri, indo lentamente na sua direção, e sentei-me na pia, ao seu lado – mas agora que não tem mais perigo, ela nunca está aí, né!
_Ela arranjou um namorado... faz um ano, mais ou menos – explicou, com o humor um pouco melhor, enxugando a caneca limpa com um pano – aí fica o tempo todo lá, só de dia de semana que não.
_É sempre assim... – comentei indiferente, apoiada na beirada, e aí olhei para o lado, curiosa – ...e ela ainda me odeia?
_Odeia... – a Marina ensaiou um sorriso, achando graça.

3 comentários:

( Gih ;p) disse...

É, elas sempre odeias, e sempre irão odiá-las... meirda...

R. disse...

nao deu pra comentar rapido hoje :(
eu tava num protesto pra nao aumentarem a tarifa do onibus quando vc postou, mas enfim...

eu adoro esse lado amigo da FM :]
e a marina é forte, ela vai ficar bem, eu acredito nisso pelo menos.
bjs mel

Marina disse...

e tem motivo pra ñ odiar neh?!