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dezembro 06, 2010

O Almoço

Quando faltavam onze minutos para a uma da tarde, a Mia me escreveu. Li a mensagem com as mãos e o celular embaixo da mesa, enquanto almoçava com meus pais, e achei graça. “Sua amiga causou um caos entre minhas amigas, rs. Estamos falando de 6ª aqui, qria poder contar de vc... :’)”. Ao mesmo tempo, minha mãe tagarelava incessantemente sobre qualquer assunto do qual esqueci dois segundos após o fim da conversa. Irrelevante. “Eh, com meus pais foi a msm coisa...”, digitei discretamente de volta e enviei.

_Espero que você não esteja mexendo nesse seu celular, mocinha! – ouvi a voz de reprovação da minha mãe sobre a mesa e levantei os olhos novamente para ela, que me encarava como se eu tivesse cinco anos de idade.

Sorri, sem graça, desligando-o na mesma hora, e coloquei o aparelho já apagado ao lado dos meus talhares abandonados. Culpada, admito. É que alguns hábitos são difíceis de mudar – e esse, segundo a minha família, é o meu pior. Ou um forte candidato a. A minha sorte é que eu passei a minha adolescência vomitando, bêbada, nos lugares menos apropriados possíveis do nosso lar; falando sempre em tom e linguajar inapropriado para as mais diversas ocasiões; rendendo telefonemas nada agradáveis, arranjando problemas na escola ou fora dela também; tendo brigas amorosas escandalosas em plena madrugada; e, aos 17 anos, ainda contei de forma não muito bem-sucedida que todas elas foram com indivíduos do sexo feminino... o que, evidentemente, tornou minha compulsão por telefones celulares ligeiramente insignificante nas pautas das reuniões familiares.

_E a casa? – meu pai perguntou, mudando de assunto.
_Ah... tá lá. Sei lá.
_“Está lá”? – minha mãe me ironizou.
_Vocês estão precisando de alguma coisa? – ele prosseguiu.
_Não, acho que não... não sei... – me pus a pensar, brevemente – ...a gente tem tudo, eu acho. Tipo, tudo funciona. Não é perfeito, né, mas está dando pra levar. Teve uns vazamentos esses tempos aí, mas o Fer consertou... quase.
_Se você fosse morar com a sua prima, sabe... – minha mãe resmungou – ...ela tem um flat tão bonitinho no Morumbi. Você já foi lá?
_Mãe, eu não vou morar com a Nádia. Não tem nada a ver, eu e ela... e, além disso, eu gosto de morar com o Fer.
_Ai, mas vocês ficam aqui no meio da...

Zona.

_Tá. Só que é do lado de tudo! Eu posso ir pra balada a pé, é do lado da Paulista, do metrô, de todas as lojas e restaurantes. Vários amigos meus moram por aqui, meu. Fora que, se eu fosse pro Morumbi, ia ser um inferno ir pro trabalho todo dia e você sabe disso.
_É que nós ficamos preocupados com você... – meu pai disse, como se eles já tivessem conversado extensamente a respeito antes do nosso encontro – ...sabe, andando a pé por aí o tempo todo.
_Me dá um carro, então! – argumentei.
_Engraçadinha... – ele me olhou.
_Uma moto?! – sorri.
_Não, fora de cogitação.
_Pô... – me fingi de desanimada – ...uma máquina de café?
_Para quê você precisa de uma cafeteira?
_Como para quê? Para existir, oras!
_Vou pensar no seu caso... – ele riu.
_Sei, sei... – disse, sem esperanças.

Quando se tratava de dinheiro, eu e meus pais não entrávamos em acordo. Eles, só estavam dispostos a me dar o que eu precisava. E eu, a pedir justamente o contrário. Pois é, me recusava a ir mendigar auxílio financeiro para eles, sempre fui moralmente contra, e a tendência só piorou depois que saí de casa – uma questão de orgulho trabalhista. Contudo, não tinha nada contra presentes, uma vez que fossem de boa vontade, e esses não rolavam nunca, digo, não com tanta freqüência – bem ao contrário daquela predisposição de ambos para me ajudar com as contas do apê. Essa, sim, era mais do que constante.

Meus pais, então, desencadearam um papo que não me dizia respeito. Sobre uma outra fatura a pagar. E eu sentei ali por longos minutos, sem mais o que fazer senão escutá-los, brisando sozinha, de braços cruzados. Será que a Mia respondeu?, eu olhava para o meu celular desligado, apoiado sobre a mesa.

4 comentários:

Jamile disse...

QUE COISA MAIS LINDA ESSA MENSAGEM DA MIAAAAAAAAAAAAA *-*

Nah disse...

Meel a Mia não tem irmãos?

R. disse...

Pais sao sempre iguais, eu tbm uma obsessao com o meu celular, mas eles tbm relevaram por coisas mais importantes haha

Dessa vez nao fui a primeira, e juro, acho que vou ficar cega, a letra fica minuscula pra ler aqui no cel

E de fato a msg da mia foi fofa :)
Bjs

Ianca' disse...

Me dá um carro, então! - argumentei.
...
Uma moto?! - sorri

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
faço isso, sei bem como é, foi bem no meu assim, na minha vida, minha mãe implicando por eu falar no celular a noite, por eu ficar demais na internet.. coisa de pais!