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agosto 06, 2011

Filosofia, pernas nuas e chá verde

O meu lance com a Marina começou uns cinco anos antes e foi por querer, ao contrário da maioria dos meus antigos relacionamentos e amores à beira do platônico. Não começou com más decisões ou impulsos, não nos agarramos bêbadas em lugar algum – não de início, pelo menos –, não era como se eu tivesse saído atirando de qualquer jeito, como sempre faço. Foi pensado, eu a quis aos poucos. Conheci-a anos antes através de uma amiga em comum, elas cursavam faculdade juntas; estavam no segundo ano de Jornalismo. A Marina é um pouco mais velha do que eu e eu a via da mesma forma que enxergo todas as garotas de início. Mas não a reparava – não o fiz por meses.  Nos trombamos acidentalmente em alguns encontros das meninas, pura aleatoriedade, fosse numa tarde vendo filme na casa da Lê ou em um happy hour vez ou outra.

Foi daquele seu jeito de ser, meio desastrada e um tanto tagarela, bonita e toda bem articulada por detrás dos seus óculos, nas nossas conversas tranqüilas que ultrapassavam as horas do relógio e os fins das festas em que nos encontrávamos, que a Marina entrou sem intenção nenhuma na minha cabeça. Nos tornamos amigas de ocasião: cada uma levava sua vida. Não era como se marcássemos de nos ver ou nos ligássemos ocasionalmente, nunca foi amizade de verdade. Só que quando a via entre minhas amigas, em qualquer lugar que fosse, sempre ficava feliz que estivesse lá. Pensava comigo mesma “cara, essa garota é um barato” e a assistia falar, admirada. Não passava disso. A questão é que enquanto eu gastei minha adolescência toda explorando os banheiros femininos em boa companhia, a Marina passou anos e anos namorando um cara qualquer ou outro sem muito sucesso. Ela estava apenas começando a ficar com outras garotas, tinha beijado uma ou outra em festas da faculdade. E nunca, aliás, havia dormido com uma.

Achei besteira ir arás dela justamente por isso, porque ainda tinha o que descobrir, sozinha, e porque as primeiras sempre são intensas. Não era essa a minha intenção ali, defitivamente, mas inevitavelmente a encontrava pelos quatro cantos. E inevitavelmente pensava nela de novo. Nela e nos seus traços delicados, aquele seu jeito mais dona de si do que as outras garotas que eu conhecia, na sua pele branquinha e nos seus olhos espertos, inquietos, nos seus ares de intelectual e principalmente nos seus cabelos longos, castanhos – ah, eu e as morenas –, desarrumados sempre de uma maneira bonita. Não foi imediato. A idéia ia e vinha na minha cabeça, oscilava dentro de mim, toda santa vez que a via. E eu, aos poucos, fui deixando escapar as minhas intenções, transparecer. Ela não demorou para perceber, em sua sagacidade natural, e achou graça naquilo. Fomos expandindo os nossos interesses, aos poucos, as nossas fronteiras; é, fomos nos experimentando, testando o sentimento, cada qual na sua, sem falar nada a respeito. Até que um dia, meio sem programar, acabamos nos beijando no quarto da casa de uma amiga.

O namoro veio logo em seguida e já começou turbulento, porque no fundo tínhamos ritmos completamente diferentes. A Marina não sabe ser de outro jeito e eu também não. Só que eu estava curiosa, ela era de longe a garota mais centrada com a qual eu me relacionava, e ela estava totalmente apaixonada. Eu devia saber, claro. Porque a primeira é sempre a primeira, não importa com quem você namore. Eu tinha a minha tatuada no pulso e a Marina me tinha metida nos bolsos, se apegou a mim. Sempre nos entendemos muito, contudo, nos conhecíamos mutuamente, passávamos horas na cama conversando sem roupa e nos divertíamos assim.

Não como eu me entretinha com as outras garotas. A Marina sempre foi muito tranqüila, sempre foi muito Marina, digamos, em sua mania de dichavar tudo, desmontar o mundo com as palavras, aquela profundidade constante, entende, mesmo quando falávamos sobre coisas sem importância. E isso às vezes me cansava... Só que o meu sentimento por ela era muito diferente do que já havia tido por qualquer outra garota. Acho que eu encontrava mais uma amiga na Marina, um ponto de equilíbrio, do que uma namorada propriamente dita. Ela era a resposta à minha inquietude, pelo menos naquele momento, e todas as outras garotas que eu acabava por ir encontrar quando não estava com ela eram... sei lá, o que quer que fossem.

Passamos quase um ano inteiro juntas, numa relação intensa e meio apegada demais. Discutíamos muito e ela sempre corria atrás do relacionamento, resolvendo. Brigávamos mais do que dormíamos juntas. E eu me encontrava outras camas sem dificuldade – ou escrúpulos –, aí ela se machucava. Não terminávamos, porém; demoramos mais do que devíamos. No fundo porque nosso sentimento nunca foi nítido: amor se confundia com amizade, com aquela paixão dela de primeiras viagens e, no meu caso, com tesão e com uma admiração imensa, incomparável às outras. Sempre tive um carinho enorme por ela, sempre a amei de um jeito meu, independente de funcionarmos ou não juntas, e por isso não aceitava o fato de que eu a pudesse magoar ainda mais. Esperava, então, que ela o fizesse, que terminasse de vez comigo. Mas ela, cabeça-dura como era, na sua necessidade de consertar tudo, não o fazia – e o nosso cotidiano se tornou insustentável.

Quanto enfim nos separamos, ela não quis mais me ver, obviamente. E, de fato, não me viu. Por anos, aliás. Eu sumi e ela foi viver sua vida, se graduou nos relacionamentos com garotas, se aventurou, terminou a faculdade, começou a trabalhar num emprego de verdade, virou gente grande e dormiu com uma das minhas melhores amigas no meio do caminho. Quando voltamos a nos falar, aos poucos e por telefone – ela me ligou, uma bela noite, do nada –, a Marina revelou-se a melhor conselheira que uma garota poderia ter em plena São Paulo. Nos tornamos amigas, pouco a pouco; coisa que deveríamos ter feito desde o início, aliás. De um jeito estranho, porém, havíamos mantido a conexão de anos antes, nos conhecíamos muito bem e eu tinha um forte sentimento com relação a ela, um carinho incomum, uma necessidade de protegê-la, de fazer com que ficasse sempre bem e vice-versa – o que me assustou um pouco quando voltamos a nos falar. Me questionei se ainda sentia algo por ela, o que não seria nada imprevisível dada a egocentricidade dos meus processos amorosos, mas não. Não. O que eu tinha pela Marina era outra coisa.

E naquele momento, sentada debaixo do MASP, com um cigarro aceso entre os dedos e o celular na outra mão, o que eu tinha por ela era a mais pura saudades. De ouvir a sua voz inteligente e contrariada; de ver aqueles seus óculos pretinhos, os seus olhos bonitos por detrás; de me divertir com as suas teorias a meu respeito, de conversar de boa. De tê-la, de fato, na minha vida. Ela, minha pequena, que me entendia e me fazia entender tanta coisa. Ahh... que caralho, viu, traguei mais uma vez e deixei a fumaça soltar lentamente no ar, olhando o seu nome na tela do celular. E num impulso, apertei o botão de ligar.

Esperei, tocou três ou quatro vezes, e então ela atendeu. Tranqüila, mas com certa seriedade. Estava surpresa em me ouvir.

8 comentários:

Ianca' disse...

Awwwwwwn *------*
Estava faltando uma explicação mais concreta sobre a Marina, tão linda, tão Marina, em suas palavas!
Ter aquele alguém é sempre bom.
Espero que tudo se resolva, belíssimo post!

Anônimo disse...

Lindo post. Mesmo sendo "team" Mia gosto muito da Marina hehe.

Anônimo disse...

Filosofia, pernas nuas e chá verde *-*
Por incrível que pareça, quanto mais Marina, melhor Fuckin'Mia!

Ma disse...

Ai, a Marina é tão Marina, né? Existe igual? hahaha
AMEI saber o caminho das duas juntas! Lindaslindas! *-*

Umbeijo! ;*

Kelem disse...

A amizade é o sentimento mais belo que existe, principalmente quando rola uns pegas desses como o da FM e da Marina.
Parabéns Mel, a historia da Marina e da FM esta exatamente na parte da historia que deveria estar, vc é foda.

'duuda disse...

aii que post mais lindo!!
FM sempre cafajeste, até com a marina linda, tsc tsc. hahahahaha
acho digno fazer uma campanha pra todas as ex serem marinas, imagina *-* hahahaha beijobeijo

Tais disse...

Se serve de consolo FM, vc não é a única com saudades da Marina >.<`
Post todo sobre minha personagem favorita, tem como ficar melhor?

Marina disse...

Mel, sua linda, terceiro parágrafo, está escrito "Achei besteira ir arás dela..."
Sei lá, vai que vc queria corrigir ^^