_Qual é, Mia?! – me soltei da sua mão, grosseiramente – Ficou louca?!
De onde diabos você surgiu, inferno?!
Ela estava furiosa, e nitidamente bêbada. No meio de toda
aquela gente, os seus olhos me repreendendo – como se eu tivesse cometido algum
crime. Mas aí não disse nada, claro, e eu me enchi bem rápido daquela
merda. Tirei o maço do bolso, não tô com paciência pra lidar, em deboche,
entediada até a morte por aqueles dois segundos de silêncio dela. Coloquei um
cigarro meio de qualquer jeito entre os lábios e ela pareceu se irritar mais
ainda, me fuzilando com o olhar.
_VÃO TE PÔR PRA FORA SE VOCÊ FUMAR, IMBECIL!
Arrancou o cigarro da minha boca, o jogando no chão num movimento
brusco. E eu demorei um segundo para entender o que estava acontecendo. Meu cigarro, cacete! Abaixei o olhar,
vendo-o ser massacrado pelos pés alheios e senti um ódio infantil da Mia por
aquilo.
_Qual seu problema??!
_VOCÊ SABE MUITO BEM! – a Mia retrucou quase imediatamente, sua
voz competindo com a música – V-você, meu... – ela passou as mãos no rosto, irritada
– ...VOCÊ TÁ AGINDO QUE NEM UMA IDIOTA!!
_Mano... CÊ TÁ LOUCA, PORRA?! DO QUE DIABOS CÊ TÁ FALANDO?!?
Questionei e ela cruzou os braços, me encarando como se fosse óbvio.
Ah, não me vem com essa.
_DIZ! DIZ, MIA! – a provoquei, brigando de volta no meio da
multidão – DIZ O QUE CÊ QUER DIZER!! FALA QUAL É O PROBLEMA!
_O MEU PROBLEMA É VOCÊ!!
_EU?! – balancei a cabeça, sem paciência para suas meias palavras
– Olha, até onde eu sei essa noite é minha e eu posso fazer o que eu quiser, garota.
_FODA-SE QUE A NOITE É SUA! FODA-SE! O problema... – me pegou de
novo pelo braço – ...é que cê tá fazendo de propósito... – se aproximou do meu
ouvido – ...e VOCÊ SABE!
_TÔ FAZENDO DE PROPÓSITO?! – me soltei, com raiva – ESCUTA, MEU
MUNDO NÃO GIRA MAIS EM TORNO DE VOCÊ, SABIA?!?
Por
um segundo, vi os seus olhos se perderem.
_E, e-e... QUEM DISSE QUE É ISSO QUE EU QUERO?!
Rebateu. E eu comecei a rir, “quem disse...” – nervosa,
sem disposição pra engolir uma só mentira que saía da sua boca. Não depois de
assistir os seus olhos me seguirem desconfortáveis por toda aquela porra
daquela balada, a cada droga de boca que eu beijava, a cada garota que eu
segurava, a cada maldito segundo, a merda da noite inteira. Agora vinha com
esse discursinho para cima de mim. “Quem
disse”.
_Não quer, né? – a encarei e ri, irônica – Tá bom, então, Mia.
_Você não sabe de NADA! – rebateu.
_É e você obviamente não entendeu PORRA NENHUMA TAMBÉM! – pistolei,
sem acreditar na cara de pau dela, puta merda – NÃO PARA VIR AQUI E AINDA
SE ACHAR NO DIREITO DE FALAR MERDA PRA MIM! EU NÃO TE DEVO DROGA NENHUMA,
GAROTA, NÃO ENCHE! VAI LÁ ACHAR O SEU NAMORADO, VAI!
_CALA A BOCA! VAI SE FODER!!
Berrou, com ódio, antes de dar as costas para mim e se enfiar
na multidão. Perdi de vez a cabeça. VAI TOMAR NO CU, TOMAR NO CU, minha
respiração acelerou, com uma raiva que mal cabia dentro de mim, QUEM VOCÊ
PENSA QUE É? Desviei grosseiramente
de um grupo de meninas que dançava à minha direita, seguindo em direção ao bar.
E trombei com o Fer, a menos de três metros de onde estávamos. Ele vinha com
duas bebidas nas mãos e me olhou como se tivesse visto uma parte, tentando entender
por que diabos nós duas tínhamos acabado de discutir e agora saíamos cada uma
para um lado.
_O que aconteceu ali?!?!
_NADA! – resmunguei, esbarrando nele para passar.
Não te devo satisfação.
O Fer ficou parado, com os copos em mãos, me observando ir para o
outro lado. Eu estava fora de mim. Trombei com mais pessoas a caminho do bar,
deixando atrás de mim um rastro de má educação. Meses, cara... Meses! E essa porra dessa mina ainda me tira do sério, me indignei. Não conseguia me
conformar com como seguia me deixando afetar por ela, tomada por um ódio desmedido. Me dá um fora e agora vem com essa?!, todo o sangue que eu tinha me subiu
à cabeça. Sem acreditar na cara de pau da Mia, puta merda, se achando a
certa ali, perigosamente afogada em doses e mais doses de tequila. Ah, você perdeu o direito, garota, eu fervia
de ódio, pedindo a quinta ou sexta dose da noite. Virei o shot assim que chegou,
numa tacada só. E fiquei de costas contra o balcão, apoiando os antebraços na
madeira atrás de mim e respirando fundo, tentando recuperar a calma. Um,
dois, três, quatro..., em vão, com rancor, dez. Olhei para a pista
movimentada à frente.
Agora eu
vou fazer de propósito, sua desgraçada.