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novembro 18, 2011

Perspicácia

_E aí? Como foi lá? – a Marina sorriu ao abrir a porta para mim.
_Ah, foi normal...

Fui entrando, largando minha jaqueta no móvel ao lado da entrada e tirando o celular do bolso para ver se a Patti havia me respondido antes de largá-lo junto. O dia já estava escurecendo no apartamento da Marina, na artística Vila Madalena. Ela se aproximou, colocando estranhamente os braços ao meu redor num gesto um tanto desconfortável, enquanto eu lia o SMS gracinha da hétero da vez. “Eu não ganho um abraço, hum?”, a Marina disse, numa atitude incomum. Fechei a mensagem, sem dar muita bola para a estranheza da Marina, e depositei o celular sobre o móvel da entrada, me voltando à sala onde bizarramente sentava a Bia, observando-nos.

_E aí, beleza? – cumprimentei-a surpreendida, ao cruzar os meus olhos nos dela, que me respondeu com um breve movimento do queixo sem dizer nada.

Ah, isto é simplesmente fantástico, pensei em ironia. Começava já a ficar com preguiça da noite que se seguiria e me arrependera terrivelmente de ter sequer ligado para a Marina. Ensaiei dois ou três passos na direção do sofá – oposto àquele no qual a Bia estava sentada –, sem vontade alguma de estar bem no meio daquela situação desconfortável, até que me acomodei largada entre as almofadas. Afundava o corpo numa má postura de quem não quer, de fato, estar ali. Voltei a cabeça para a Marina, ainda em pé arrumando qualquer coisa no canto da sala, toda bem-humorada.

_E o seu chefe, hein, achou ruim? – perguntou casualmente, trazendo o que parecia ser uma cartela de pílulas para a Bia.
_Não, cara, ele... – observei-as – ...ele disse que já sabia que eu não tava feliz lá e que já estava pensando em me cortar mesmo, me desejou boa sorte. Sei lá. No fundo, ele foi um babaca, mas menos do que eu achei que fosse ser.

“Hum”, ela murmurou em resposta. Caminhava na direção da Bia, com o remédio em mãos, que pela cor pressupus ser contra dor ou cólica. Aquilo era estranho, no entanto. A Marina era certamente a primeira a se preocupar quando alguém estava mal, por qualquer motivo que fosse, ainda mais uma dor física. Numa situação normal, ela estaria enchendo a garota de chá verde e bolsa de água quente e o caralho a quatro. No entanto, entregou a cartela num gesto rápido e desapegado, sem sequer olhar para a Bia, sentada ali. Agindo com certa leveza incomum, superior. Ahh, filha-da-mãe, eu conheço esta cara..., disparou-se um estalo repentino em mim.

_Posso... – pedi imediatamente, já me levantando – ...posso pegar alguma coisa pra comer na cozinha?

Olhei-a fixamente, que fingiu que nada estava acontecendo na maior pachorra e caminhou até mim, agindo normalmente, deslizando a mão delicadamente pelo meu ombro e me encaminhando junto a ela. “Claro, linda”. A Bia fechou a cara na mesma hora. Mas você é muito cara de pau mesmo, hein, observei a Marina atuar. Fomos até a cozinha, a Bia continuava quieta na sala, e ela logo se enfiou na geladeira retirando vasilhames com os restos do almoço – arroz, feijão, um pouco de salada. Apoiei os antebraços sobre a porta da geladeira, colocando a cabeça em cima deles, e olhei-a.

_Por que a Bia está aqui...? – perguntei.

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