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dezembro 21, 2011

À diante

Encostou a cabeça sutilmente na parede, curvando-se de lado. Os longos fios morenos pendiam no ar, o ombro tocava apenas de leve a parede do corredor. Havíamos conversado por mais de uma hora sentadas na escada de um edifício pequeno em Perdizes, onde morava com duas amigas, e agora parávamos para eu fumar já próximas a seu apartamento. Deslizou o corpo lentamente e percorreu as costas na parede fria, apoiando-se dos ombros à cabeça, agora por completo. Me olhava, à espera. Era como se a Patti posasse, disponível e de certa forma serena, voltada de frente para mim.

Eu estava sentada do outro lado do corredor, as pernas dobradas e abertas de leve, os braços apoiados nos joelhos. Uma das mãos segurava um cigarro já quase terminado e a outra, acima da cabeça, mantinha a minha franja bagunçada fora do rosto, enquanto observava-a de gracinha ali comigo, em pé. Cara. Já sentiram como se pudessem, de fato, sofrer por vontade de uma garota? Vontade dela, vontade física, porra. Mesmo que contida só por alguns instantes – você ali, parada. Perdendo qualquer sanidade. Puta que pariu.

Incontáveis vezes, na minha vida. E esta era uma delas.

Sorri breve, sem tirar os olhos de cima da Patti. Você vai me matar, mano, pensei e joguei fora a bituca, preciso parar com essa imbecilidade de pôr hétero na minha cama. Imbecilidade porque eu já sabia como era e certamente o seria. O lance com as inexperientes no ramo da sapataria é que elas freqüentemente funcionam como fáceis elogios ao nosso desempenho e, consequentemente, acabam por tirar-nos do sério.

E tiram, mais ainda, por não saber retribuir o favor. Te enlouquecem por horas, de maneira não premeditada, alheias a qualquer autoconsciência sexual saphos e você acaba por terminar a noite exausta, gratificante e previsivelmente com o ego fora das devidas proporções, mas prestes a explodir. E digo, realmente prestes a explodir. É de socar o travesseiro, morder o lençol, chutar a porra da porta do quarto e ir fumar a um mínimo de quinze metros de distância da garota. É o tipo de frustração egocêntrica que vicia. E aí quando você finalmente se cansa da tortura, passa os meses seguintes comendo lésbicas de carteirinha, uma atrás da outra. Orgasmo garantido e etc.

Agora lá estava eu, de volta ao primeiro estágio do masoquismo egocêntrico. Já sofrendo por antecipação, com uma mulher maravilhosa à minha frente e um potencial carinhoso tremendo. Vamos lá. Levantei-me, indo direto na sua direção. Precisava garantir-me naquela e ela estava ainda na parada sugestiva e sutil, tateando as possibilidades. Eu já não. Coloquei as mãos na sua cintura, beijando-a contra a parede, num movimento brusco – e desci os dedos firmemente para as suas coxas, erguendo-a no meu colo. Não teve sequer tempo de pensar, entre um beijo e outro. Mas abraçou-me com vontade, segurando-se.

Pelo tempo que agüentei-a. E não foi pouco.

No quarto, porém, o tom mudou. Não a intensidade, nem o foco. Acompanhava agora à meia luz, mas da mesma forma, cada uma das suas curvas. E ela parecia insistir em esconder-se, de si mesma e de mim, sei lá, transparecia constrangimento. Ou uma insegurança inédita no nosso convívio. Fosse o território desconhecido, fosse a merda da suposta autoconsciência feminina, aquela imagem ridícula que algumas têm do próprio corpo – e que eu sempre, sempre odiei. Especialmente na ala hétero, uma incidência muito mais pesada do que na lésbica, tradicionalmente mais livre de conceitos sociais. Algo a ver com o feminismo, talvez. Presumia e ela disfarçava bem, via seu esforço em manter-se desinibida. Por uma noite, aquela.

Nua. Eu empunhava o lençol, deslizando-o lentamente pelo decorrer do seu corpo.  Aos poucos, descobriam-se uma a uma as tatuagens old school que lhe decoravam a pele e eu a olhava, admirada, sem desviar o meu interesse. Nem por um segundo. O lençol percorreu, por fim, os seus dedos. E aí caiu liso sobre o colchão. A Patti permaneceu deitada, ainda que inquieta; apenas sua respiração pulsando sob uma espera que lhe parecia agonizante.

Ah. Sempre existiu, ainda que não houvesse qualquer forma de contato, de mútuo tato, algo de muito intenso e íntimo em duas mulheres despidas numa mesma cama. Sem pressa, movimentando-se femininas. E movi-me então na sua direção. Ela me aguardava tensa, como se fechasse os olhos antes de um grande salto. E fiz com que os abrisse. A melhor parte é estar solta no ar, garota. Procurei meios que a fizessem compreender, lentamente, o que eu tanto via nela. Em cada centímetro dela. Em cada pedaço que, pouco a pouco, eu percorria. Com os dedos, com a boca. Com todas as minhas mais vivas intenções.

E ela por fim, entendeu.

19 comentários:

Ivett disse...

Ai, Mel, que maldade terminar assim... Espero que o próximo post não demore.

beatrice disse...

que fofasssss! não demora não mel :(

Ma disse...

Daí a gente acompanha o masoquismo todo sofrendo tanto quanto. Amo hahahaha
Cara, é I N C R Í V E L como você escreve! Sensacional! Parabéns pela enésima vez! Lindo.

Dá até um friozinho na barriga imaginar o rumo que isso vai levar, saber exatamente por que a Patti tá aí e por quanto tempo. To ansiosa, muito obrigada.... Hahaha noites sem dormir agora! Só pra saber essas respostas.

até esqueci da Mia nesse post. mas já lembrei! cadê? hahahah vou pentelhar mesmo.

1bj!

Krystal Campioni disse...

Muito bom, muito bom, muito bom. E quem já colocou hetero na cama sabe q ë exatamente assim, viciante... Rsrs Aguardando ansiosa pelo próximo :)

Pathy disse...

e vc termina um post assim.. tão, tão uiiiiiii u.u
Não demora muito pro proximo Melzita.. :D


Mia, Mia.. vc está "fora" do foco da FM, se liga mulher! heheheheh

Patti <3

Anônimo disse...

Que post SENSACIONAL!
Acho incrível como a Mel consegue descrever todos esses sentimentos, a impressão que a maioria tem é que cada um toma o lugar das pessoas que compõem a cena.

Thaynan disse...

Post incrível!
Poderia enumerar tudo que gosto no blog, na história ou na maneira que você escreve, mas hoje, nesse post, o que me surpreendeu foram os detalhes. Pude visualizar toda a cena como se estivesse ali, vendo a FM sentada no chão ou as expressões de constrangimento da Patti diante da situação nova.
ADOREI!

Parabéns Mel!
Você tem um talento sem ímpar e merece todo o sucesso do mundo!

Beijos pra todas =*

Raianny disse...

UAU.
to aqui parada em frente ao pc, pensando no que escrever, mas a única coisa que consigo pensar é: UAU!!!

Beatryz Ramos disse...

bad girl, bad bad girl! ):
é maldade terminar um post assim, Mel..

Curiosidade nível maximo!!!
Será q a Mia perdeu o lugar no coração da FM pra Patti? Ou será q ela ainda vai aparecer pra estragar todo esse clima perfeito entre as duas?

Não demora com o próximo post, pleeeeeease!

Parabéns vc ta sustentando um novo vicio meu.. rs ;)

Flora disse...

Eu to gostando bastante dessa Patti, viu...

Marj disse...

Aiiiii gente o que foi esse capitulo assim vc me mata Mel *----*
Ainda to esperando o barraco, pq ta tudo mundo bonitinho hahahahah não que eu esteja reclamando, mas sempre tem :p
Torcendo pela FM e pela Patti demais \o\

Ianca' disse...

:| o jeito que tu escreve me deixando tipo: uau!
O jeito que a Patti tá chegando me deixa intrigada, eu quero a Mia =(

Anônimo disse...

Haha...que prático, a FM já tem todo o esquema de seu alado ciclo hétero vicioso.
Mestre.

c' disse...

"Já sentiram como se pudessem, de fato,
sofrer por vontade de uma garota? Vontade dela, vontade física, porra."

nossa mano, qe post foi esse. Meu pai do céu. Tipo to sem ter oq falar. Depois do post da ultima noite de amor entre fm e mia esse foi o mais intenso.
todas as emocoes, todas as semsacoes, tudo muito bem descrito. Cara me senti praticamente na cena.
visei aqela cena de velozes e furiosos nesse post cara. Do primeiro filme qe o cara levanta a mulher pela cintura e dai se desenrola toda a cena.
muito bom o post mel, parabens. To me apaixonando pela patti cara. Mas ja qero barraco fm e mia.
na demora pra att nao. Por favooooor!

Anônimo disse...

Essa Patty ta roubando o coração de todo mundo, ate da FM.
Aiai quase me esqueci da Mia tbm. Bemmm que ela podia aparecer, tipo... na minha cama hsuahsuhauhsua

Anônimo disse...

Posts da madrugada são sempre "quentes" hein, hahaha.

'duuda disse...

gente, safadinha essa patti hein... e é aquela história, hetero todo mundo já foi um dia, até experimentar o outro lado e mudar de idéia. hahahahaha vamos acompanhar

Juliana Nadu disse...

“No quarto, porém, o tom mudou. Não a intensidade, nem o foco. Acompanhava agora à meia luz, mas da mesma forma, cada uma das suas curvas. E ela parecia insistir em esconder-se, de si mesma e de mim, sei lá, transparecia constrangimento. Ou uma insegurança inédita no nosso convívio. Fosse o território desconhecido, fosse à merda da suposta autoconsciência feminina, aquela imagem ridícula que algumas têm do próprio corpo – e que eu sempre, sempre odiei. Especialmente na ala hétero, uma incidência muito mais pesada do que na lésbica, tradicionalmente mais livre de conceitos sociais. Algo a ver com o feminismo, talvez. Presumia e ela disfarçava bem, via seu esforço em manter-se desinibida. Por uma noite, aquela.”

Foi a coisa mais incrível que vc escreveu pra mim!

Eu posso estar enganada mais isso só pode vir de uma pessoa que pensa exatamente assim, não dá pra acreditar que alguém consigo encarnar tamanha profundidade em uma situação.

Não vou elogiar mais. Não cabe mais aqui.

Vc é incrível!!!

Anônimo disse...

O melhor post! Esqueci totalmente da Mia. Patti Smith <3 Rs