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dezembro 30, 2011

"Here I go...

...and I don’t know why”
(Patti Smith)

Saí do banho com uma certa folga ainda no horário. Eram poucos minutos após as dez; o filme só começava lá pelas onze e tantas. Desfilei de um lado ao outro do quarto, indecisa quanto ao que usar, semi-vestida com duas calcinhas sobrepostas e o cabelo ainda úmido. Retornei ao banheiro para secá-lo; o Fer e a Mia estavam trancados no quarto já há algum tempo. No meio do barulho e daquele ar quente todo, desavisada do que estava por vir, ouvi chegar uma mensagem no meu celular, largado na pia.

Entre os fios bagunçados no meu rosto, li: “Oi, ñ sei se seu numero eh o msm. Qria ter falado + com vc hj. Foi estranho te ver, fiquei pensando mto nisso dps... mas, enfim, ñ vou falar por aqui. Hj vou estar com um amigo na Hot Hot, tô indo pra lá daqui a pouco, se ñ for fazer nd. Te devo uma? Bjs, Clara”. Fiquei parada por um instante, sem reação. Precisava de algum tempo para processar – direito – todos os acontecimentos daquele dia. Li mais uma vez, em silêncio, e coloquei o telefone de volta na pia em seguida.

Sem respondê-la.

De alguma maneira, as suas palavras me inquietavam, sentia-me cutucada – só não tinha certeza em que sentido. Não vou fazer isto, pensei. Não ia revirar aquilo dentro de mim, não ia me desgastar respondendo. Re-liguei o secador, a fim de não me distrair do meu objetivo ali, observando os meus olhos por inércia no espelho. A inquietude, contudo, continuava lá. Em algum lugar. Joguei o cabelo para um lado, mexendo-o sob o ar quente. Pouco tempo depois, não o suficiente para secá-lo, virei para o outro lado. E então ao oposto, o mesmo de antes, mais uma vez. E aí virei de novo, merda. Senti a ansiedade crescer.

Dane-se. Coloquei todo o cabelo para a frente, abaixando a cabeça perpendicular ao chão, ignorando o sentimento. Comecei pela franja, aí subi para a nuca e a lateral esquerda, a diagonal da frente. A de trás. A direita. A outra diagonal. A mesma de antes. Voltei à nuca. O lado esquerdo. A franja. Não importava quanto bagunçava meu cabelo, não secava; deixei o ar correr em cima dos fios por um tempo, depois joguei-os para trás e tornei a secá-los normalmente, mas não ia direito. Parecia que eu estava ali há horas – e, provavelmente, tinha ficado menos de 5 minutos. Droga. Peguei o celular e li mais uma vez a mensagem.

Apoiei ambos os antebraços na borda da pia, segurando o telefone em mãos e olhando para a tempestade em copo d’água que eu, de repente, estava fazendo com o ressurgimento da Clara. E o ciúmes da Mia na sala. Considerei responder, mas, o que diabos eu diria? “Já tenho planos.”? Não, mano. E por algum motivo besta, eu não conseguia dispensá-la. Passei a mão na nuca, encarando o teto e respirando fundo, me livrando mentalmente daquela situação babaca. Engoli todas as minhas idiotices psicológicas e devolvi o aparelho à pia, pegando novamente o secador e ligando-o na última potência.

Fechei os olhos e dei início à maior barulheira contínua, secando os fios de um lado para o outro ininterrumptamente. Sacudia-os com as mãos, pela raiz, bagunçando-os abrutalhada e sem pensar em porcaria nenhuma, cada vez mais fortemente. De todos os lados, todos os ângulos. 1... 2... 3... 19... 20... Chega. Larguei o secador sobre a pia do banheiro, de maneira grosseira. E apoiei ambas as mãos na superfície fria, irritada. Respirei fundo. Isto não está certo, briguei comigo mesma, não com a Patti. Me forçaria àquilo, agora; a ir na porcaria do cinema e foda-se a merda da Clara.

Retornei ao quarto com o cabelo semi-seco, porém bonito. Determinada. Peguei os meus novos tênis favoritos – um par dourado de canos médios, todo descolado – e coloquei-os com um minishorts jeans escuro. Apanhei então uma regata branca, destas quase transparentes e largas, indecentes, que ficam soltas ao redor do corpo. Com as pernas de fora, enfiei o celular no bolso e peguei o meu maço e isqueiro acoplado. Sentia como se não pudesse parar um segundo ou faria, de certo, alguma merda muito grande.

Saí do quarto, ainda decidida, e fui para a sala atrás da minha carteira. O Fer estava na cozinha agora, apenas de shorts e descalço; a luz acesa. Se dirigiu à porta do corredor, apoiando-se de lado na parede e me olhando, enquanto comia um lanche improvisado. Encontrei a carteira, ufa. Peguei-a apertada no vão do sofá, provavelmente ali desde que estávamos sentados jogando videogame à tarde. Separei apenas o documento e o dinheiro, colocando-os no bolso junto ao maço e largando a carteira de volta no sofá.

_Humm... – o Fer disse, então, me olhando de cima a baixo toda trabalhada na correria – ...bom encontro com a namoradinha, hein!

Revirei os olhos, sem lhe dar ouvidos. Ela não é minha nam..., interrompi o pensamento antes que a frase saísse pela minha boca, argh, deixa pra lá. Me movi em direção à porta, sem intenção alguma de desacelerar e apanhei a chave na saída. Andei pelo corredor em linha reta, chamei e o elevador chegou rápido. Já no térreo, atravessei a entrada do prédio determinada e desci para a rua. O shopping Frei Caneca era a poucas quadras dali. Acendi um cigarro, comecei a andar. No entanto, agora, no escuro e perigosamente sozinha, sentia-me estranha. Com um sentimento conhecido no estômago, merda.

Segui em frente, ignorando. Passei pela banca, pelos outros prédios. E atravessei a primeira rua. Os jovens bêbados e escandalosos começavam a circular pela Frei e pela Augusta, ao lado; podia ouvi-los ao longe. Caminhei mais alguns passos, olhando os meus tênis novos contra o cimento, tentando me distrair, então encarei o escuro à minha frente e parei. Inferno. Virei-me, a cinco metros do ponto de táxi, tomada por uma curiosidade masoquista que não deveria existir. A última coisa que eu queria era provar o Fer certo da sua babaquice barata. Olhei no celular e já eram onze horas, droga. Hesitei ao encostar na porta, querendo voltar ao mesmo lado que estava indo – foco, porra. O motorista me encarava confuso, do lado de dentro de um Palio, com a luz acesa. Entrei.

_Sabe onde é a Hot Hot, amigo?
_Lá pros lado da Bela Vista, na R. Sto Antônio?
_É... – afundei-me contra o encosto do táxi num suspiro desgraçado, já me odiando.

dezembro 28, 2011

Irredutível

_Mas e aí, que rolou hoje?
_Não, nada. Só... me cumprimentou na rua e eu, sei lá, tipo... disse que tava indo tatuar lá perto. Mas não rolou nada.
_Cê ficou de boa?
_Fiquei... ou, não sei, na real. Foi estranho. Não esperava encontrar ela lá, manja, sei lá. Me pegou meio de surpresa, saca, e fazia tempo que eu não pensava nela... – disse, mas meio dando de ombros, e bebi mais um pouco da cerveja.
_Hm, sei...
_Ela tava... bonita, meu. Bem bonita... 
_Ihhh... – o Fer já começou  rir.

A Mia subiu novamente os olhos, a muito contragosto.

_Quê?!
_Vai começar, hein...
_Vai começar o quê, meu?! – me indignei.
_Você aí... – ele riu, acendendo um cigarro – ...já vai lá se interessar pela menina de novo, certeza.
_Não vou nada...
_Ah, vai, sim. É a sua cara isto... é só você tomar um fora que cê fica obcecada pela garota – tragou, soltando a fumaça logo em seguida; a Mia me observava e eu seguia indignada com a observação dele – Essa mina mesmo, meu! Quanto tempo você ficou com ela antes? E depois tava lá toda mal, sofrendo. Puta bad e vocês nem tinham namorado, tinham se visto sei lá, quatro vezes no máximo.
_É que ela era ótima, ué! Só por isto... cê nunca sentiu nada assim, por ninguém que saiu quatro, cinco vezes? Ah, vá Fernando!
_Não. Não é isto. É você que não resiste a um pé na bunda. Não resiste mesmo, meu. Se for trocada por outra, então... nossa, aí você entra em surto até conseguir a mina de volta. Faça sol, faça chuva, você dá um jeito!
_Cala boca, mano. Nada a ver! – me revoltei – E eu não vou sair com ela, não é nada disto, eu tô só te contando, porra... por isto que não te falo mais as coisas, você só me enche, cacete! Não tem nada a ver, nada a ver... Eu tô em outra, meu.
_“Tá bom”... – riu e encostou de volta no sofá, sendo irônico – ...vai ser igual aquela lá, como chamava? No colegial a, a... Ná! Não era isso, Natália?

Ah, a maldita dona do Infinito.

_O que tem a ver?!
_Ela não te deu um fora depois que vocês se pegaram, tipo, no começo do segundo ano e você ficou toda obcecada com a mina até conseguir namorar com ela no meio do terceiro e foi uma grande merda eterna por sei lá quanto tempo?!
_Não foi uma grande merda – murmurei, contrariada.
_Claro que foi, vocês só brigavam!
_Porque foi uma das minhas primeiras, porra. Você queria o quê?! Eu fiquei quase dois anos com ela, todo mundo briga com as primeiras namoradas, é tipo uma lei universal. Você não sabe se comportar num relacionamento, tem que ter vários antes – como se eu, em algum momento, tivesse aprendido... – e outra: eu tô saindo com uma mina agora, ótima, e a Clara nã...
_Ah é, porque isto sempre te impediu! – me interrompeu.
_Não, babaca, eu quis dizer uma das boas... do tipo, estou afim de ficar com você mesmo, saca? Não do tipo quero te comer e de boa.
_Quem, aquela lá do Vegas?
_É, a Patti...

A Mia voltara-se novamente à TV, emburrada. Fingindo não se interessar pela conversa. É, agora faz diferença, né. Enquanto isto o Fer, me zombando de apaixonadinha, me enchia de socos de brincadeira e acabamos nos engajamos numa pancadaria amigável bêbada, rindo. Eu estava, mesmo, afim dela.

À toa

De volta ao apartamento, após algumas horas vendo a Lê sofrer para adquirir sua carpa, já pelas 4 da tarde, passei pela porta de entrada e encontrei com o Fer e a Mia sentados na sala jogando videogame. Havia uma travessa de bolo de chocolate parcialmente cheia sobre a mesa de centro. Pediram que sentasse um pouco ali com eles, quer dizer, o Fer quis ver a tatuagem nova. Me acomodei ao seu lado no sofá, roubei a sua cerveja e, por um instante, puxei a lateral da camisa para a que visse, já tomando um gole. Os restos de tinta e um pouco de sangue haviam tirado um tanto da visibilidade por detrás do plástico; o Fer esticou-o com os dedos tentando não me machucar.

Sentada no chão ao seu lado – digo, do outro lado – a Mia levantou os olhos discretamente na minha direção e observou o desenho por um segundo. Depois tornou a olhar para frente, para a televisão. Fiquei algum tempo comentando a ida ao estúdio com o Fer, a blusa já abaixada e um dos pés sobre a mesinha de centro, segurando a cerveja em mãos. Retomaram a disputa, Guitar Hero, e eu acabei ficando por ali com preguiça de fazer qualquer outra coisa.

_Come um pedaço aí... – o Fer comentou, referindo-se ao bolo, sem tirar os olhos da televisão – ...a Mia que fez agora à tarde.
_Não, tô de boa. Acabei de tatuar, meu, nem posso comer chocolate...
_Nada a ver, mano, cala a boca. Não dá nada! Eu nunca faço essas merdas e todas as minhas tão normais, meu...
_Ah, sei lá, né... – respondi, não muito convencida.

Então olhei para a travessa, toda coberta com a calda de chocolate que sobrepunha o bolo, daquelas grossas e obviamente deliciosas. E aí, claro, mudei de idéia; esticando-me para pegar o que chamei de “tá vai, só um pedacinho”. O Fer riu de mim.

_Pô, ficou gostoso mesmo, hein... parabéns! – comentei, de boca cheia, e a Mia apenas me olhou por um instante sem me dar bola ou agradecer.

Num raciocínio dos não muito complexos, concluí que ainda me ressentia pela outra noite. Se bem que, na minha humilde opinião, elas nem eram tão amigas assim. Pensei comigo mesma, eu é que deveria estar brava, meu... Mas deixei quieto. Apenas me afundei no sofá, acomodada. Sem nada para fazer até aquela noite, o que era ótimo. A tarde começava agora a perder aquele calor todo das horas anteriores, tornando-se agradável pouco a pouco. Ainda assim, o ar entrava abafado pela janela aberta.

Bem queria poder arrancar as calças, que me incomodavam categoricamente toda vez que chegava em casa, mas de uns tempos para cá a presença da Mia passara a me inibir. Ela estava de mini-shorts preto e um sutiã da mesma cor por debaixo da regata branca; o Fer vestia uma bermuda qualquer e camiseta branca também. Só eu naquele pano todo, argh.

Tentei compensar na cerveja gelada, com preguiça de mover-me até o quarto e me trocar. Mandei uma mensagem para a Patti enquanto jazia ali, largada no sofá, bebendo afundada entre as almofadas. Combinei nossa saída à noite, assisti o jogo deles, disputei algumas partidas, depois fiquei à toa. Enchendo a cabeça de pensamentos aleatórios e de Stella, que era uma raridade num apartamento sempre pouco abastado.

_Ei, que cê tá toda brisando aí? – o Fer me perguntou um tempo depois, me cutucando com as costas da mão – Hein, tá pensando em quê?
_Nada... pensando só... – tomei mais um gole da minha terceira ou quarta cerveja – ...rolou uma parada, sei lá, estranha hoje.
_Conta aí, mano. Rolou o quê?!
_Ah, encontrei uma... mina... sei lá, não sei se você lembra dela... a Clara, manja?

Na mesma hora, os olhos da Mia voltaram à minha direção. Abaixou-os novamente ao chão, em seguida, e não falou nada, me ignorou. Fingiu não se interessar. O Fer, por outro lado, seguia interessado. Disse lembrar dela por todo o escândalo que eu fiz – enfatizou – no dia que a peguei com outra no Vegas, quando saí chutando todas as suas coisas na sala, e pela festa que demos dias depois no apê para me tirar da fossa. A mesma em que me tranquei no banheiro com a Mia, pela primeira vez. Beijara-a semanas antes daquilo, de madrugada no corredor; a Mia havia vindo bater na minha porta, inquieta. Havíamos discutido sobre a Clara naquele dia, na cozinha, primeira vez que a vi reagir, com ciúmes. E lembrei então da minha tarde com a Clara, a disputa pelas camisetas e por quem seríamos como estrelas do rock. As pernas dela sobre as minhas, as suas mãos. A pontinha da língua entre os dentes, rindo de mim. Minha cabeça divagou por um instante, encarando o Fer nos olhos enquanto ele falava. Sobre a festa, ainda.

dezembro 27, 2011

Björk

Puxou-me pela mão, entre as pessoas, e sorriu ao me identificar ali no meio; os arredores da Calixto estavam o caos que sempre eram. Ao menos, aos sábados. Arqueei as sobrancelhas surpresa, sem saber direito como reagir àquilo, e tirei o cigarro da boca por um momento. Segurei-o para baixo, ela estava com uma regata preta e o cabelo preso em um grande coque improvisado sobre a cabeça. Me olhou de cima a baixo, me deixando sem jeito, e me cumprimentou absolutamente tranquila. Estava bonita; as pintinhas, a pele branca e os olhos amendoados, aqueles ares de argentina. De jeans básico e ainda All Star, o que estranhei tamanho o calor que fazia.

_Nossa, o que... – ela sorriu, receptiva e animada comigo – ...você está fazendo pra estes lados?
_Eu tô com uma amiga aí – fiz um gesto com a cabeça e a mão que segurava o cigarro, apontando a direção em que a Lê fora; desconfortável em estar falando com ela assim de repente –, nós...
_Mas vocês vieram pra feirinha?

Me interrompeu, perguntando interessada. Agíamos como boas conhecidas, não sei bem. Pôs uma das mãos, então, na curva entre o ombro e o seu pescoço delicado, num gesto leve e sutil daqueles que a tornavam realmente, filha-da-mãe, muito sexy. O calor, a situação e toda aquela gente passando ao redor começavam a me incomodar. Mas, por qualquer motivo imbecil, eu não caí fora na mesma hora.

_Não, eu... eu vim tatuar lá no, sabe, aqui em baixo depois da Schaumann. O que vo... – me atrapalhei um pouco, estranhamente confusa – ...o que você tá... – ela me olhava, tentando entender o que eu estava dizendo de forma bem pouco articulada, e sorria; só então eu me dei conta – ...ah! Você... você trabalha aqui, não?!
_Sim – ela riu.

E foi aí que me toquei de que estava a um quarteirão da loja onde ela trampava e onde, aliás, eu viera buscá-la incontáveis meses antes, uma vez. Ocasião na qual me enxarquei toda de chuva. A mesma noite que fomos no Glória, pensei e tudo me voltou de uma só vez, as recordações da Clara, caindo a ficha da situação em que me encontrava naquele instante, embrulhou-me o estômago. E ela percebeu.

_Faz tempo, não faz? – comentou e sorriu para mim.
_Faz. Olha, eu preciso ir, a minha amiga já está lá na frente... – disse, dando sinais com o corpo de que ia sair; a sua presença me deixava estranha – ...eu, a gente... tem que voltar lá pro estúdio, então.

O meu desconforto crescia, merda. Não consegui sorrir, mas por algum motivo tentei ser educada. Quando passa algum tempo, acho, certas coisas perdem a importância. E os erros dela desapareceram. Ela sorriu de leve, de volta, agora um pouco constrangida.

_Tá bem... – encostou uma das mãos no meu braço, com intimidade, me olhando com carinho – ...a gente se fala, espero.

Murmurei um “aham” qualquer, meio grosseiro, concordando com a cabeça, e fui colocando o cigarro de volta entre os lábios, já me virando para descer e sair dali. Não dei bola, tentei ao menos. Ela ficou me olhando ainda, a menos de um metro na mesma calçada, e eu procurei não pensar naquilo. Desci a rua até encontrar a Lê, já do outro lado da feira, reclamando que nos atrasaríamos e perguntando quem era. Ah, uma garota aí..., eu disse, meio chateada.

Não sabia por que me sentia tão estranha. Não tinha sequer gostado de vê-la. Ou gostara, não sabia dizer. A Lê insistiu ainda, curiosa, e eu mudei de assunto, preferia não falar daquilo. Voltamos ao estúdio e eu ficaria, de qualquer forma, fechada ali pelas próximas horas.

dezembro 26, 2011

Pain Lovers

Eu havia esquecido de quanto, filho da puta do caralho, aquilo doía. Argh. Minha costela parecia rasgar-se aos poucos. E o açogueiro que sobre ela pendia, o tatuador, achava graça no meu sofrimento. Aliás, ele e a minha amiga da onça, toda vingativa, que me chamou de “bicha” durante o processo inteiro.  

O lugar também não ajudava: a pele ali é fina e o osso por debaixo aumenta a sensibilidade. É um dos piores. Todas as minhas outras haviam doído menos, algumas deram até gosto. Já aquela estava me matando; era complexa e sólida, feita para transformar qualquer um em macho. A minha outra da costela, a do Pequeno Príncipe, já no lado oposto, era pequena e vazada, fora bastante simples de suportar. A nova, uma caveira do Día de los Muertos rodeada por rosas vermelhas, quase me fez desistir após terminado o contorno. Mas o cara era rápido – e eu já tinha pagado, de qualquer forma. Então, com muito esforço, engoli.

O mesmo tipo de rosas, com traços old school, compunha a minha maior até então. Ficava no alto do braço direito – lado oposto àquela nova – e foi, por muito tempo, a favorita da Mia. Ela gostava de flores tatuadas, as minhas me lembravam ela. Todas as outras estavam espalhadas pelo corpo, eram menores e mais significativas. Duas semelhantes associadas aos meus pais, em locais diferentes; uma para minha primeira namorada, o símbolo do infinito no pulso; uma ao redor do tornozelo; e um pequeno triângulo vazado no antebraço, por dentro. De certa forma, eu me apegava às minhas tatuagens.

Mais do que às mulheres. E os meus planos incluíam ainda uma série delas – pelas quais eu ansiava durante o ano todo e juntava dinheiro religiosamente. A última havia sido para a minha mãe, no alto das costas – a dedicada ao meu pai eu fizera há anos e ela, claro, reclamou. Não me importava, atribuía significado a todas. A caveira do Día de Los Muertos, por mais contraditório que soasse, simbolizava a vida e era importante para a minha nova fase.

Da mesma forma, encantavam-me as mulheres tatuadas, numa intensidade justificada apenas por fetiche. Conversei ao longo das horas com o tatuador e a Lê sobre os mais belos exemplos que haviam por aí – ele se divertia conosco e com os nossos comentários dyke pride. Imprestabilidade imensa. Rimos muito, o que ajudou a esquecer um pouco a dor em determinados momentos.  

Quando enfim terminou, o cara limpou todo o sangue da minha pele e a sujeira de tinta preta e vermelha ao redor; e eu me levantei para ver no espelho. Do caralho. Muito do caralho, meu. Sorri como se tivesse vencido uma maratona, absolutamente recompensada. Foda-se o dinheiro, foda-se a dor desgraçada. Aquilo ia sempre valer a pena. Em seguida, a Lê se aproximou e com o celular em mãos, elogiou o trabalho dele, enquanto tirava uma foto para o Instagr.am – me posicionei reta, na lateral, toda orgulhosa.

Platifiquei-me. Agora era a vez da Lê de sofrer nas mãos do cara, mas antes sairíamos para almoçar os três. Ele encontrou um amigo no bar próximo. Tínhamos uma hora, eu e a Lê, o que me sobrava tempo para ir olhar as câmeras na feirinha da Calixto. O sol estava de rachar, subimos a Teodoro e pegamos qualquer coisa para comer no Habib’s da esquina, seguindo direto para a feira lotada. Me entreti por algum tempo na barraca de um maluco cheio das polaroids antigas, mas como toda vez que eu ia na Calixto, percebi que não tinha dinheiro para pagar nem um quinto do que pediam por cada antiguidade e artefato ali.

Subimos um pouco mais na Teodoro, passando pelas infinitas lojas de novos designers e de instrumentos musicais, até a ruazinha da Choque Cultural onde trabalhava uma amiga da Lê. Cara, eu adoro este bairro. Batemos papo por algum tempo, entretidas, mas aí já era hora de voltarmos. Conforme fomos descendo a Teodoro, me engajei em conseguir acender um cigarro no meio daquela gente e andando sem pausa. E foi quando dei de cara com a Clara.

dezembro 24, 2011

OST 3!

Então... é Natal! ;-)

E a tempo de salvá-las dos lamentáveis hits da Simone, chegou a 3ª edição da trilha sonora do Fucking Mia. Eee! Com direito a capa (todas criadas pela leitora e incrível Marcella Oliveira, obrigada! ♥) e até casa nova, para quem estava reclamando que o link não rolava. Todos os downloads, inclusive dos dois CDs anteriores, foram dispostos e organizados num Tumblr muito gracinha feito pela sensacional Tate, que algumas de vocês devem conhecer do podcast "Fuck Art, Let's Dance!". Eu ameeeei o novo endereço e estava louca para compartilhar com vocês.

Desejo a todo mundo que lê o blog, suas lindas e lindos, um feliz Natal e absolutamente fantástico Ano Novo. Calma, ainda vai rolar posts em 2011! rs Peço desculpas também pela minha ausência aqui do blog, esta vida de gente grande não tá fácil, galera... Espero que continuem lendo e gostando tanto assim, amo os comentários e a participação de vocês. Muita coisa boa para rolar!



Sem mais delongas, portanto, eis as trilhas sonoras do BLOG:

dezembro 23, 2011

Mancadas clássicas

_Hm... que horas são? – murmurei sonolenta, enfiada no travesseiro.

A Patti estava em pé, apoiada na janela, com um cigarro na mão. E completamente nua. Como se eu a tivesse libertado dela mesma – observei-a com admiração e sorri. Hum, só 19 anos..., acompanhei a âncora tatuada em sua coxa com meus olhos esticados por cima do travesseiro. Ela, que antes olhava o movimento lá fora, agora me encarava de volta serena, com um meio-sorriso no canto da boca. Repeti-lhe a pergunta e ela sorriu um pouco mais, arqueando as costas para olhar um relógio na parede atrás de mim.

_Dez e vinte.

Respondeu.

_Tá brincando?! – dei um pulo, na mesma hora, já pegando a calcinha no chão – ...merda, merda... mil vezes merda... – vesti-a rapidamente e comecei então a procurar pelas minhas roupas.
_O que foi? – ela se assustou – Você tem que ir??
_Eu vou tatuar, tá marcado às 10 e meia... – coloquei (sem abotoar) o jeans e fui calçando de qualquer jeito os All Stars – ...que merda, mano. Minha amiga vai me matar, cara!
_Calma, eu te levo! Onde é? É perto?
_Não, meu. Fica aí! Não precisa se vestir, sair correndo... – coloquei o sutiã preto, vestindo a camiseta amarrotada e fechando já as calças -  ...deixa, eu pego o metrô. Dá tempo!

Mentira. Não dá.

Beijei-a rapidamente, num selinho firme. E corri escada abaixo para pegar o primeiro táxi que aparecesse, desgraça. O desenho estava bem dobrado no bolso da jaqueta. Podia ouvir, na minha cabeça, a Lê me xingando de todos os nomes possíveis. Não ia dar tempo. Por que diabos eu fui insistir de ser a primeira? Agora eu ia conseguir foder de vez o barraco e o tatuador certamente ia querer sair para almoçar depois, a pausa ia ficar imensa e uma de nós não tatuaria tudo naquele dia. Cara, eu era uma mulher morta. Morta. Droga!

(...)

Só me dei conta da grosseria – e tamanha – quando já estava longe demais para reparar o dano, inferno. Fechei os olhos, apertando-os em arrependimento, conforme o taxista descia a Arcoverde. Não se larga uma garota assim, não uma hétero, porra, depois da sua primeira noite ever com uma mina ainda! Por um segundo, por um segundo temi que pensasse mal de todas as lésbicas do mundo, como um todo – e que passasse, agora, a ficar com um pé atrás comigo. Ah, isto não.

Escrevi: “Ei, desculpa sair correndo assim. Mas a minha amiga vai me matar, juro juro. Posso te compensar, talvez, com um jantar mais tarde? ;-)”. Após enviar, já mais aliviada, olhei para frente pela janela e notei o trânsito em que estávamos. Um pouco mais abaixo, a Arcoverde estava completamente congestionada por conta da tradicional feirinha boêmia da Calixto. Quinze para as onze em pleno sábado, é óbvio.

_Deixa, amigo... vou a pé daqui! – toquei no ombro do motorista, já tirando o dinheiro da carteira – Quanto deu?

Bati a porta do táxi, descendo a rua entre os carros com pressa. Já havia subido na calçada quando a Patti me respondeu. “Relaxa, vms sim!”, ufa. Segui descendo e digitei apressada, dividindo minha atenção entre a rua esburacada e o visor do celular. Perguntei o que ela queria fazer e, para o infortuno dos meus extintos anos de estudante, ela escolheu ir ao cinema. Não discuti a respeito, contudo; aceitaria qualquer coisa que propusesse e pelo menos era do lado de casa, no shopping da Frei Caneca. Devo esta a ela, pensei, já a poucas quadras do estúdio de tatuagem.

Atravessei a Henrique Schaumann – o semáforo da avenida não fechava nunca! – com certa impaciência. Tinha em mãos o primeiro cigarro do dia, já pela metade. Sabia que teria que entrar direto assim que chegasse e me preocupava o meu estômago vazio. Andei mais duas quadras já na Francisco Leitão e logo pude avistar a minha amiga, revoltada, parada em frente ao estúdio e apoiada em um poste, com os óculos escuros moderninhos e o cabelo curtinho arrepiado para cima. Estava de bermuda, daquelas bem sapatão mesmo, porque decidiu de última hora que tatuaria na panturrilha. Fumava impaciente. Me aproximei, já receosa da bronca, atravessando a rua até ela.

_Mano, tomar no cu você e essa merda da sua pontualidade, cara. Eu vou te matar... – a Lê tirou os óculos, me segurando pelo braço como uma criança e arrastando para dentro do estúdio, jogando o cigarro fora na sarjeta.

dezembro 21, 2011

À diante

Encostou a cabeça sutilmente na parede, curvando-se de lado. Os longos fios morenos pendiam no ar, o ombro tocava apenas de leve a parede do corredor. Havíamos conversado por mais de uma hora sentadas na escada de um edifício pequeno em Perdizes, onde morava com duas amigas, e agora parávamos para eu fumar já próximas a seu apartamento. Deslizou o corpo lentamente e percorreu as costas na parede fria, apoiando-se dos ombros à cabeça, agora por completo. Me olhava, à espera. Era como se a Patti posasse, disponível e de certa forma serena, voltada de frente para mim.

Eu estava sentada do outro lado do corredor, as pernas dobradas e abertas de leve, os braços apoiados nos joelhos. Uma das mãos segurava um cigarro já quase terminado e a outra, acima da cabeça, mantinha a minha franja bagunçada fora do rosto, enquanto observava-a de gracinha ali comigo, em pé. Cara. Já sentiram como se pudessem, de fato, sofrer por vontade de uma garota? Vontade dela, vontade física, porra. Mesmo que contida só por alguns instantes – você ali, parada. Perdendo qualquer sanidade. Puta que pariu.

Incontáveis vezes, na minha vida. E esta era uma delas.

Sorri breve, sem tirar os olhos de cima da Patti. Você vai me matar, mano, pensei e joguei fora a bituca, preciso parar com essa imbecilidade de pôr hétero na minha cama. Imbecilidade porque eu já sabia como era e certamente o seria. O lance com as inexperientes no ramo da sapataria é que elas freqüentemente funcionam como fáceis elogios ao nosso desempenho e, consequentemente, acabam por tirar-nos do sério.

E tiram, mais ainda, por não saber retribuir o favor. Te enlouquecem por horas, de maneira não premeditada, alheias a qualquer autoconsciência sexual saphos e você acaba por terminar a noite exausta, gratificante e previsivelmente com o ego fora das devidas proporções, mas prestes a explodir. E digo, realmente prestes a explodir. É de socar o travesseiro, morder o lençol, chutar a porra da porta do quarto e ir fumar a um mínimo de quinze metros de distância da garota. É o tipo de frustração egocêntrica que vicia. E aí quando você finalmente se cansa da tortura, passa os meses seguintes comendo lésbicas de carteirinha, uma atrás da outra. Orgasmo garantido e etc.

Agora lá estava eu, de volta ao primeiro estágio do masoquismo egocêntrico. Já sofrendo por antecipação, com uma mulher maravilhosa à minha frente e um potencial carinhoso tremendo. Vamos lá. Levantei-me, indo direto na sua direção. Precisava garantir-me naquela e ela estava ainda na parada sugestiva e sutil, tateando as possibilidades. Eu já não. Coloquei as mãos na sua cintura, beijando-a contra a parede, num movimento brusco – e desci os dedos firmemente para as suas coxas, erguendo-a no meu colo. Não teve sequer tempo de pensar, entre um beijo e outro. Mas abraçou-me com vontade, segurando-se.

Pelo tempo que agüentei-a. E não foi pouco.

No quarto, porém, o tom mudou. Não a intensidade, nem o foco. Acompanhava agora à meia luz, mas da mesma forma, cada uma das suas curvas. E ela parecia insistir em esconder-se, de si mesma e de mim, sei lá, transparecia constrangimento. Ou uma insegurança inédita no nosso convívio. Fosse o território desconhecido, fosse a merda da suposta autoconsciência feminina, aquela imagem ridícula que algumas têm do próprio corpo – e que eu sempre, sempre odiei. Especialmente na ala hétero, uma incidência muito mais pesada do que na lésbica, tradicionalmente mais livre de conceitos sociais. Algo a ver com o feminismo, talvez. Presumia e ela disfarçava bem, via seu esforço em manter-se desinibida. Por uma noite, aquela.

Nua. Eu empunhava o lençol, deslizando-o lentamente pelo decorrer do seu corpo.  Aos poucos, descobriam-se uma a uma as tatuagens old school que lhe decoravam a pele e eu a olhava, admirada, sem desviar o meu interesse. Nem por um segundo. O lençol percorreu, por fim, os seus dedos. E aí caiu liso sobre o colchão. A Patti permaneceu deitada, ainda que inquieta; apenas sua respiração pulsando sob uma espera que lhe parecia agonizante.

Ah. Sempre existiu, ainda que não houvesse qualquer forma de contato, de mútuo tato, algo de muito intenso e íntimo em duas mulheres despidas numa mesma cama. Sem pressa, movimentando-se femininas. E movi-me então na sua direção. Ela me aguardava tensa, como se fechasse os olhos antes de um grande salto. E fiz com que os abrisse. A melhor parte é estar solta no ar, garota. Procurei meios que a fizessem compreender, lentamente, o que eu tanto via nela. Em cada centímetro dela. Em cada pedaço que, pouco a pouco, eu percorria. Com os dedos, com a boca. Com todas as minhas mais vivas intenções.

E ela por fim, entendeu.

dezembro 19, 2011

Hipotética infundada

E ainda assim, a ideia não saía da minha cabeça. Filhos da puta.

Ah, não. Eu não ia enlouquecer por culpa daqueles dois mal-amados. Eu me recusava, isto sim, até o último copo de whisky. E passei a madrugada seguinte em claro, atormentada pela média de acertos dos comentários da Marina sobre a minha vida, mas me entretendo com uma garrafa irlandesa e a coleção de videogames do Fernando, que me acompanhou na imprestabilidade sedentária até as duas. E aí foi-se dormir para conseguir trabalhar direito no dia seguinte. Segui sozinha – estas eram, afinal, minhas primeiras “férias” em muito tempo –, convencendo-me entre uma pista e outra de Mario Kart de que a Mia não tinha influência alguma em quem eu queria ou deixava de querer.

Já na tarde que se seguiu, pouco depois das 13h, a ressaca me puxou semi-adormecida do sofá e arrastou-me até o chão frio do banheiro, onde acordei de vez. Ótima maneira de passar as mini-férias. Precisava agora me apressar para conseguir chegar a tempo num exame admissional, nas redondezas da praça da Sé, às 14h. Inferno. O calor abafado e aquelas nuvens enjoadas que cobriam o céu paulistano quase me fizeram vomitar por diversas vezes naquele metrô suado. Cheguei intacta, porém, e saí da mesma forma.

Ufa.

Fui direto ao meu antigo trabalho, resgatar a carteira de trabalho que havia deixado lá para assinarem. A Patti me enviara uma mensagem durante o percurso, em algum momento, mas li-a apenas ao sair do estúdio. Caminhava cansada e azeda pelas ruas estreitas da Vila Madalena, em direção à casa do Tchiello para pegar o meu desenho, e por algum motivo não consegui lhe responder. Bloqueio emocional estúpido. O calor começava a me irritar, baixando minha pressão e deixando-me mole. “Ele saiu faz uns 10 minutos, foi levar a Pri no metrô”, disse a mãe dele no portão, referindo-se à namorada do Tchiello, “já, já deve tá chegando aí!”.

Droga, esperei. E na volta, já com o desenho em mãos, amassei meu amigo num surto de felicidade. Quase sufocado, ele me xingou repetidas vezes, rindo. Aquela seria a minha a minha oitava. Delírio, endorfina das puras. Fiquei para algumas cervejas com ele e saí já com o sol ameaçando se pôr. Pensei na Patti de repente, na manhã anterior. Cara, eu estou sendo uma idiota. Pensei que estragaria tudo, como sempre, e a respiração apertou o meu peito. Não sabia porque gostava dela, apenas três dias depois e assim, tão inesperada e gratuitamente – mas o fato, danem-se, é que gostava. Com Mia ou sem Mia antes.

Peguei meu celular. Hope my new star doesn't turn to dust – disquei para ela. You think I'm playing with you..., poucos instantes depois ela atendeu e eu sorri, aliviada, ...but i'm just afraid to lose. Cumprimentei-a animada, já brincando, fazendo qualquer gracinha que me veio à cabeça, quase chegando à estação de metrô Clínicas. Ela parecia feliz de ouvir-me dizer seu nome, competindo com o tráfego de ônibus e carros barulhentos.

_E aí, já cansou de mim?
_Estranhamente, não... – ela riu.
_Posso ir te ver então?

A mudança automática de percurso veio, como muitas vezes antes viera. Arrependível, ah, isto com certeza. Mas foda-se a Marina. Ela sem esforço algum provaria-me errada, e muito em breve, só que hoje não. Hoje não. Esta noite, garota, I'm trying hard to find my way to keep you.

dezembro 16, 2011

Hush! Hush!

Vc. me faz sentir em casa, de um jeito estranho”. Olhei a sua mensagem, já pela terceira vez, e sorri. Estiquei os pés sobre o apoio lateral do sofá e traguei mais uma vez. Dei uma bola, segurei o hashishe por alguns instantes no pulmão, o corpo calmamente apoiado nas almofadas. E então deixei que a fumaça saísse. O sol começava a se pôr do lado de fora da Frei Caneca, todo o cômodo tomara aos poucos um tom alaranjado. Eu já havia respondido a mensagem, há alguns minutos, e não obstante olhava-a incansavelmente.

Aquela tarde de quinta-feira estava tranqüila. Tirei da tela, apertando o botão de backspace, e abri campo para uma nova mensagem. Coloquei animada o número do celular da Marina, decorado há alguns anos, no destinatário. “Qdo vc. ñ consegue parar de ler uma msg...”, hesitei. ...quer dizer que você está apaixonadinha? Ah, não mesmo. Não dava. Por mais que fosse a Marina, alguém que possivelmente adoraria receber este tipo de insight, principalmente um que partisse de mim, eu não podia mandar aquilo. Deletei tudo, de uma vez. E comecei de novo: “Ñ consigo parar de olhar p/ a msg de uma garota”.

Resumi.

E a Marina, claro, respondeu no mesmo instante, antes que eu levasse mais uma vez a seda cuidadosamente apertada aos lábios. “QUE GAROTA????? :) :) :)”, em letras maiúscilas exageradas, eu comecei rir sozinha. Você se empolga, né, Marina. Não havia lhe contado direito sobre a Patti e a noite de terça no Vegas, dada a situação com a Bia no dia anterior. Ocupara-me a manhã toda, aquela, com a Patti e a sua boca e seus sorrisos e cochichos delicados  na minha cama. Dávamo-nos bem. E em raras ocasiões na minha vida, isto pareceu-me melhor do que... bem, sexo. Respondi.

“Mas essa ñ é a q. vc. conhece faz, sei lá, 1 dia?”, ela respondeu. “E?”, soltei a fumaça no ar despreocupadamente e sentei-me, o meu cabelo começava a bagunçar pelo tempo ali deitada. Curvei-me sobre a mesinha de centro e aí deslizei suavemente uma das pontas na parede do cinzeiro, fazendo com que as poucas cinzas formadas caíssem. Ainda estava com o celular em mãos, mas a Marina não me respondia. Larguei-o sobre a mesa, ao lado do cinzeiro já um tanto sujo. Preciso limpar isto algum dia ou vai impregnar a casa toda, pensei. Sem me mover um centímetro, no entanto, óbvio.

Traguei mais uma vez e decidi parar naquela – hash batia mais forte em mim, apenas um pouco além daquilo e eu ficaria realmente chapada. Deixei estar e apaguei-o no cinzeiro, deixando-o apoiado na borda. O celular vibrou sobre a mesa. “Vc. ñ acha q.”, li, “pode estar projetando um pouco? :-/”. Ofendi-me na mesma hora. Meu... projetando o que, Marina?! Ah, não, eu não precisava daquele tipo de comentário. Não dela. Bufei, toda irritada. Olhava a tela do celular e não entendia aquela postura, deixei-me afetar a contragosto.

Projetando o que, meu?!

Neste mesmo instante, o Fer entrou no apartamento carregado de sacolas plásticas nas mãos. Me cumprimentou, falando qualquer coisa que não prestei atenção, e deixou as chaves sobre a mesa ali ao lado. Atravessou então o cômodo e foi direto para a cozinha, onde acomodou as compras pelos cinco minutos seguintes. Aí retornou à sala; eu ainda não havia respondido para a Marina. Ele começou a falar e eu virei-me para olhá-lo, em pé metros atrás do sofá, tentando abrir um pacote com os dedos e os dentes.

_Fez o que... – perguntou-me quase indecifravelmente, com a boca ligeiramente ocupada – ...o dia todo?
_Fui lá no Tchiello agora à tarde, pedi pra ele desenhar uma parada pra mim... vou com a Lê, sábado, tatuar.
_É? Mas cês vão onde?
_Num lá em Pinheiros.

Notei mais uma mensagem da Marina no celular largado sobre a mesa, mas não peguei-o para ler. Não quero saber.

_Hum... – finalmente conseguiu abrir o pacote e sentou-se na poltrona ao lado do sofá onde eu estava – ...e quem tava aí hoje de manhã?
_Ah, uma menina – espreguicei-me, enquando falava, esticando-me contra o encosto.
_Não, jura?! E você resolveu inovar também em... sei lá... outras áreas da sua vida?
_Babaca – eu comecei a rir dele e peguei o celular para ler.

“Flor, ñ se chateia. Eu só acho q. vc. devia ir com calma e ver se... se é isto msm”, a Marina havia me escrito.

_Que menina?! – o Fer prosseguiu, deixando as brincadeiras de lado, e eu desviei o olhar da mensagem.
_Ah, aquela lá, do Vegas – sorri para ele – Patrícia, Patti.

Então ele me olhou, como se estranhasse, arregalando os olhos por um instante e aí suspendeu as sobrancelhas, dando de ombros. Como se dissesse “bom, então tá”. Não entendia a reação das pessoas. Qual é agora?! Não era como se eu nunca tivesse me interessado por ninguém, na minha vida toda, por mais de um dia. Ainda que, ... ok. Consecutividade podia não ser exatamente o meu forte, mas, meu, e daí?! Me deixa, porra. Finjam menos supresa, exibam menos relutância; sejam educados, caralho.

Emburrei-me, balançando a cabeça comigo mesma e parei de olhar na direção do Fer. Isto é ridículo. Quem era a Marina também para ficar aí pressupondo teorias conspiratórias a meu respeito, a respeito do que eu sinto ou não por uma garota?! Eu estava bem – e estava bem há meses –, estava livre, limpa de romantismo fracassado. Não era como se, como se, se a garota estivesse substituindo a porcaria da Mia na minha vida. No meu coração.

dezembro 05, 2011

Os Minutos

[ 6:08 ]
A posição terrivelmente incômoda, acabei acordando. Estava desconfortável. Os meus pés encontravam-se largados no chão, as pernas afastadas e meio de qualquer jeito. Meu corpo havia pendido um tanto para a esquerda, sentada contra a cama do meu quarto, as costas no meio da beirada de madeira e o pescoço doendo latejante, após o que provavelmente haviam sido horas forçando-o na direção errada. Dei um suspiro repentino, saindo daquele estado semi-desperto dolorido, e retomei a consciência. Lá fora, o dia amanheceria chuvoso; havia uma brisa gelada e certa luminosidade vinda da janela – não o suficiente, porém, para indicar o fim da madrugada.

Ergui o rosto, olhando para o colchão trás de mim: também apagada, mas numa posição um pouco melhor, a Patti dormia confortavelmente. Os pés descalços, as pernas num shorts jeans curto desses de-ficar-em-casa e uma camisa xadrez azul da última moda, de flanela e bem acinturada, as mangas arregaçadas até a metade do antebraço. Havíamos conversado no quarto, antes, até altas horas após terminado o filme lá na sala e, em algum momento, sem planejar, capotamos as duas. O Fer não estava em casa, ou não o ouvi chegar. Arranquei os meus tênis, largando-os no chão. Apenas com as meias agora nos pés, subi na cama, passando por cima de seus joelhos até o outro lado, em silêncio, e me acomodei no restante de colchão entre ela e a parede.

Afundei-me no travesseiro, de forma gostosa; sentia-me aconchegada. O quarto estava frio e ali, não. Ajeitei a cabeça, olhando-a dormir, bem de perto, e pensei por um instante em colocar o meu braço ao seu redor. Hesitei estranhamente, contudo. Observava-a, quieta. Sentia como se pudesse quebrar rápido demais qualquer barreira, sem o seu consentimento, adormecida e ainda ligeiramente hétero ao meu lado. Me acomodei, então, na minha. Dobrei o braço por debaixo do travesseiro, apoiando o rosto, e fechei os olhos. Não demoraria a cair também no sono.

[ 6:23]
Revirei o corpo, as costas para cima, encostando a barriga contra o colchão. Ela acordou. Senti-a despertar num suspiro, movendo-se ao meu lado; o meu sono estava leve. Fiquei em silêncio por um tempo, o rosto afundado em inércia no travesseiro. Nada por alguns instantes. Até que, milimetricamente, o lençol de algodão abaixo de mim deslizou.

Virei o rosto para o seu lado e encontrei-a, com os olhos levemente abertos. Observava o teto, calmamente. Retirei o cabelo de cima da cara, com uma das mãos, e deitei esta mesma em seguida sobre a sua camisa xadrez. O que você está pensando, hum, aí quietinha? E como se não contestasse o meu gesto anterior, afundei deliberadamente os dedos pela flanela, no decorrer da sua cintura morna. Quase abraçava-a, daquele jeito; apoiei o braço por cima do seu estômago e fiquei. Ajeitei-me com o corpo, agora de lado.

_Acordou? – disse, noutro suspiro.

Ela virou o rosto na minha direção e sorriu. Mas não respondeu. Eu sorri de volta, ainda com sono. Sentia-me bem, fluíamos naturalmente; ela tornou a olhar para os cantos intocáveis do cômodo. O amanhecer estava tranqüilo. A calma, o silêncio preenchiam o quarto de forma agradável, fora do tempo. A minha mão permanecia imóvel, na lateral oposta do seu corpo. Instantes depois, virou-se igualmente de frente para a mim; o corpo de lado no colchão; e apoiou a cabeça também sobre o braço dobrado. Desta vez, eu sorri primeiro.

_Acho que a gente... – murmurou, sorrindo de volta – ...acabou meio que...
_É...

Ela achou graça, espreguiçando-se aos poucos. Disse que perderia meio período, que estava com preguiça de levantar. “Está quentinho aqui”, brincou. Minhas mãos escorregaram por sua cintura, procurando um canto confortável. Apesar de novidade, a Patti me dava um sentimento quase nostálgico. E eu estava gostando de estar ali com ela. Acordara com preguiça do mundo porta afora, fiquei. Sem levantar correndo, sem dar desculpas. A observava, em silêncio, tranqüila. Como se não tivéssemos nada para fazer naquela manhã de quinta-feira. Era curioso, ela parecia cheia de pensamentos escondidos. Os meus dedos passeavam lentamente sobre a sua blusa, acompanhando os traços sutis do xadrez. Ela virou para mim novamente, deitando o rosto sobre o braço.

_E eu... eu sou a primeira hétero a... – sorriu, falando baixo – ...digamos, “dormir” na sua cama?
_Não... – eu ri, sincera – ...teve algumas outras.
_Teve?
_Bom – retomei –, dormindo deste jeito... talvez não.
_Hum. Então quer dizer que você gosta de garotas difíceis... – pressupôs e eu achei graça.
_Não, na verdade não importa muito.

Mas eu gosto de você.

Me olhava. Levantei a mão até o seu rosto, delicadamente. E deslizei os dedos pela lateral da sua face, os olhos, as bochechas, o queixo... a sua boca. Havia algo nela que me desconcertava, na Patti. Patti... Patti “Smith”. Ela me atraía sem esforço algum. Percorri os poucos centímetros de pano, ainda entre nós, movendo-me na sua direção. E beijei-a suavemente. Um após o outro, pequenos selinhos curtos. E lentos. Os meus lábios tocavam-na e suspendiam-se, sucessivas e intencionadas vezes no canto da sua boca. Deixei os meus dedos entrarem nas mechas morenas do seu cabelo. Ela subiu uma das mãos, de leve, pelo meu braço e a apoiou em meu rosto. Entreabriu os lábios e beijou-me de verdade.