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abril 30, 2012

Mesma velha história

A minha respiração oscilava pesada, insegura. Os olhos ainda fechados, a parte de trás da minha cabeça apoiada contra a grade. Poucas pessoas passavam pela calçada frente ao prédio, já eram mais de 23h. Soltei a fumaça, nervosa; o cigarro anterior estava amassado contra a sarjeta. Conversara com a Mia por mais de 40 minutos na última hora e o que começara como uma noite de grandes decisões e amadurecimento pessoal tomara, aos poucos, a direção contrária. Sentia-me agora mais perdida do que quando começara. Inferno de garota na minha vida, balancei a cabeça em negação e bati as cinzas sobre o cimento.

A conversa nada saudável havia passado por cada momento nosso, numa nostalgia estúpida de se permitir, logo eu e ao telefone, em meio à noite paulistana. Os beijos, o sexo, as nossas mãos dadas no escuro. Toda a porra da nossa história. Cada um destes apartamentos, olhei para o alto do prédio no outro lado da rua, certamente é ocupado por algum outro ser humano fodido. É o que estamos. Todos nós estamos. Pensei num instante que o amor nada mais fosse que a forma doentia do universo de nos compensar a sorte da vida. Tudo está em equilíbrio – e eu sabia. A lógica é repugnante; às vezes, cruel. Bati mais uma vez as cinzas na calçada ao meu lado. Até mesmo da Marina, e as minhas noites com ela, a Mia lembrara.

O fofoqueiro do Fer foi quem abriu a boca na Sarajevo, no seu aniversário, e ela chegou a insinuar no fumódromo que ainda tínhamos algo, lembrei, enquanto tragava com calma. O que nos levou ao andar de cima... A pista escura, a música dos Distillers atravessando o chão sob os nossos pés – eu quase podia sentir o seu corpo no breu, frente ao meu, a estática que nos cercava; por um breve momento; os nossos toques leves, a intensidade dos acontecimentos durante aquela festa. Enquanto isto, ali na Frei Caneca, progressivamente, a noite esfriava. Cada vez menos os passantes interrompiam a minha linha de pensamento. A rua estava ficando vazia.

O problema, pensei, é que em cada um destes momentos, dos quais eu tinha saudades tão vívidas (e, aparentemente, ela também), o meu melhor amigo também estava lá. Entre nós duas: e exatamente onde ele continuava no presente momento. Só que por mais que eu a questionasse, era ali que ele sempre ficava. Pelo menos agora eu questiono, achei graça sozinha, irônica. “É, é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?”, ela me perguntou receosa ao telefone, após muita insistência da minha parte. Possível é, né, retirei o cigarro da boca.

Judiava dos meus lábios entre uma tragada e outra, mordiscando-os distraída. Os meus pés agora inquietos na calçada. Metida naquela porra daquela confusão de novo – inacreditável! –, argh. Não: não existe uma bendita alma neste planeta com maior tendência à imbecilidade deliberada do que eu, puta que pariu, viu. A situação já estava até tediosa de tão familiar. Ok, mentira – eu continuava, não obstante, tão ansiosa quanto. E fumava como se a minha única solução estivesse para ser encontrada no final daquele filtro. Maldita Nicotina way of life. A verdade é que eu a entendia. Sem que o quisesse, mas mais do que qualquer outra garota, a entendia. Sabia o que era gostar de duas pessoas simultaneamente e sentir-se dividida entre ambas. Passara por isto inúmeras vezes, enxergava em outros amigos. Era como todo mundo na porra da cidade de São Paulo parecia se relacionar!

Mas esta não pode ser a solução. Não para nós. Por mais que eu tivesse entrado naquela com ambos os olhos abertos – sabendo, portanto, que a compartilhava com ambas as mãos do meu melhor amigo –, aquilo eu não podia aceitar. Não mais. Já havia sofrido demais por aquela garota, por toda aquela merda de situação; gostar de duas pessoas estava fora de questão àquela altura. E muito, muito longe dos limites toleráveis do meu ciúme insano dela, de tudo o que dizia respeito à Mia. Cara, como você ainda pode estar em dúvida?!, me revoltei, sentindo o meu coração entalar na garganta, sentada ali na calçada. Depois de tudo, tudo o que te ouvi dizer hoje, porra! Não, o seu “argumento” não entrava na minha cabeça.

Sequer sabia se queria mesmo que ela se decidisse, que se decidisse por mim, que me escolhesse. Havia ainda a Clara para eu cogitar, para eu somar à conta. Inferno. Passei a mão pela cabeça, segurei-a por um instante contra a nuca em hesitação. Por mais que o meu coração acelerasse com cada palavra da Mia naquela noite, eu tinha todo o restante na minha vida pesando contra ela e a sua irresistibilidade de merda. Todo o meu bom senso – ou o que restara dele, pelo menos. Após anos, anos seguidos atrás daquela garota, que maldição. Sentia como se tivesse gastado tempo em excesso numa corrida que eu sempre soube que não era minha para ganhar.

Por que, então, correr, porra?

Talvez eu gostasse mesmo de endorfina, talvez fosse uma imprestável incurável e todas as minhas ex-namoradas insuportáveis tivessem enfim razão. Sabe, eu bem poderia alcançar a chegada, algum dia – disto eu não tinha dúvidas! –, mas sempre dividiria o pódio e o prêmio. Ou seja, não levaria os créditos e nem a garota. Tê-la pela metade é mesmo melhor do que não ter nada sequer dela? Era o que parecia ter sido a minha linha de raciocínio por todos aqueles meses. E agora não fazia mais sentido – talvez o meu fôlego acabara.

Traguei o cigarro já quase terminado; só mais uma tragada. Mas talvez eu seja mesmo capaz de tê-la por inteiro, raciocinei, contra todo amor próprio que me restava, agora que ela está... mudad. Mudara mesmo? Seguia atenta ao som dos meus pensamentos, olhando para o vazio da rua e segurando o filtro inquieta entre os meus dedos. Minha mente tomava rumos solitários quando era cercada assim de escuridão, da ausência de pessoas com quem falar. E quantas vezes mais eu vou me perguntar as mesmas perguntas? As mesmas coisas, de novo e de novo, caralho? – até quando, meu?! A minha cabeça doía em agonia constante, exausta. Todavia, havia sempre alguma coisa. Um olhar, um “talvez” dela, qualquer coisa. Algo que me puxava de volta e me impedia de, de fato, decidir. Desta vez, a sinceridade inédita nas suas palavras. Merda.

O meu celular vibrou, por um instante curto e logo então cessou. Era um SMS. Alcancei-o na parte de trás do meu jeans, abrindo a mensagem instantaneamente, e por falar no diabo... Li: “Queria que você tivesse subido hj”, enviada às 23:44. Ah, garota, como se você ligasse para as consequências disto..., apertei o celular nas minhas mãos, meu humor instável. Como fizesse a mínima diferença, como se uma subida minha mudasse a importância que o Fer ainda tem na sua vida. Levantei-me, agora realmente inquieta.

Não mudou antes e não muda agora, não é mesmo? Encostei a cabeça contra o portão do prédio, irritada, tentando me acalmar; segurando a grade fria nas mãos e procurando bom senso. O que você quer de mim, o que você espera que eu te responda? Pressionei as faixas de metal e senti, apesar de tudo, uma vontade demente, impensada de largar tudo e subir no primeiro táxi que encontrasse para a porra do seu apartamento e subir. Subir. Subir e te beijar, incansavelmente, mais uma vez. Bati o celular forte contra a grade, num impulso de frustração, de raiva, de irracionalidade; puta merda!

16 comentários:

Ma disse...

PERA... hahahahahahah


É incrível poder estar dentro da cabeça da FM assim! INCRÍVEL! *-*
Conseguir saber cada coisinha que passa ali e até se identificar com algumas (muitas), não só os pensamentos dela, mas se identificar como 'Mia' pra alguém ahahahaha
Demais!

E você ainda diz que tem mais um hoje! Pqp! *-*
Bom, dá pra ler esse de novo enquanto o outro não vem! :B

1bj;*

ohana sanvés disse...

pega o taxi e sobe e beija a Mia e tenha uma parte dela pra você *O* hahahahahaha parei. mas poxa, é melhor ter alguma parte da Mia do que nada... não, FM?
ah, eu preferia assim ._.
FM e suas indecisões...
cadê o proximo e dizendo você, importante, Mel? *-*

Anônimo disse...

Trechos que vou guardar pra sempre, porque é exatamente as coisas que eu estou pensando: "Pensei num instante que o amor nada mais que a fosse a forma doentia do universo nos compensar a sorte da vida."

"Não: não existe um bendita alma neste planeta com maior tendência à imbecilidade do que eu, puta que pariu, viu. A situação já estava até tediosa de tão familiar. Ok, mentira - eu continuava, não obstante, tão ansiosa quanto. E fumava como se a minha única solução estivesse para ser encontrada no final daquele filtro. Maldita Nicotina way of life."

Enfim...
NÃO CURTO ESSA CONTRADIÇÃO TODA. FM, ESQUECE O FER POR UMAS HORAS, FAZ FAVOR? E VÁ COMER A PORRA DA MIA, PORQUE SIM, É ISSO QUE TU QUERES.

POOOOOOOOOOOSTA MAIS, MEL!

Anônimo disse...

Eu iria na casa da Mia, com certeza!

@carolcastr disse...

Adoro esses capitulos que a gente consegue perceber toda a angustia da FM...sofrimentos passados...sofrimentos futuros..
Maas... acho msm q ela tem q ir la! kkk
#TeamMia

Anônimo disse...

Ufaaaaa!
Muito bom, os pensamentos caóticos, contraditórios da FM, a dúvida e, acima de tudo o desejo irrefreável de ir atrás da Mia.
Vai, FM, vai pra alegria tua, da Mia e nossa...
Parabéns de novo, Mel!

Anônimo disse...

Como eu gosto dessas loongas divagações da FM. *-*
É uma ficção muito real, you know?

Mia na cabeçaa!!!!
GO!

Lu disse...

Run, Forest! Run!

The question is "to or from"?! :)

Anônimo disse...

Nossa, frases gênias no decorrer do post. Você é sensacional! Essa história é demais!!!

Flavs disse...

PEGA UM TAXI E VAI! :3

livia_skw disse...

"Cada um destes apartamentos, olhei para o alto do prédio no outro lado da rua, certamente é ocupado por algum outro ser humano fodido. É o que estamos. Todos nós estamos. Pensei num instante que o amor nada mais fosse que a forma doentia do universo de nos compensar a sorte da vida. Tudo está em equilíbrio – e eu sabia. A lógica é repugnante; às vezes cruel."

Ianca' disse...

Pontos marcantes que estão martelando:
1 - "Sentia como se tivesse gasto tempo em excesso numa corrida que eu sempre soube que não era minha..." ADOREI
2 - O horário da mensagem hahaha
3 - Porque a dúvida sempre paira? Essa incapacidade em decidir, em se posicionar quando não depende só de nós, acaba conosco, espero que com a FM, o final seja diferente do que já presenciei!

Amanda disse...

Quem tem que esquecer o Fer por umas horas é a Mia, né? Porra, eu tava na torcida louca porque achava que ela tinha decidido de verdade que queria a FM. Mas falar na cara da mulher que quer dois? Não, FM que fique com a Clara mesmo e espere pela próxima paixão arrebatadora. Até lá um bom sexo e carinho resolvem aos poucos.

'duuda disse...

gente, esse post foi tão... profundo! cada frase que eu lia, acabava tipo pensando sobre, e dai não conseguia ler a próxima frase com atenção... e recomeçava. hahahaha
mas que agoniazinha, fm :/

Anônimo disse...

cara isso é muito, muito bom! são post como esse que fazem a graça do blog, na minha opinião.

adoro seu lado meio psicóloga, que vc explora no blog. rola quase uma análise da personagem com ela mesma. haha. é excepcional!

Raianny disse...

Ahhhhhhhh!!! Agora sim colocando a leitura em dia, deixei acumular pra ler qnd estivesse em um estado de espírito bom hahaha
Sentido invejinha de todo mundo que já leu e agora só eu na agonia aqui u.u

Sobe FM, sobe (yn)