maio 25, 2012

Os valores modernos

Podia sentir todos os olhos em nós, mesmo com os meus fechados. Expostas ali, pela primeira vez – em meio aos sons exagerados da festa, o rádio gritando e as pessoas que nos rodeavam, bêbadas, atentas a cada gesto nosso. Avancei no vazio. E as nossas mãos se encontraram sobre o piso de madeira, as pontas dos meus dedos tocaram os dela, assim, de leve. E a minha pressão caiu na mesma hora.
 
Não, me retraí. Não posso d-dar bandeira.
 
Dei-me conta de que não sabia como beijá-la assim. Em público. Não sabia o que não fazer. Confusa do bancar ou não na frente de todo mundo – porque, se por um lado eu não podia me conter demais, perigando transparecer o quanto aquilo me afetava; por outro, também não podíamos demonstrar intimidade. Na forma como nos segurávamos. E logo me dei conta de que eu não sabia como fingir desconhecimento. Da sua boca, do seu ritmo, de como inclinar a porra da cabeça, de como me encaixar nos movimentos dela, inferno. Tudo isso, em milésimos de segundo, passou pela minha mente – milhares de pensamentos revirando meu cérebro, o meu estômago. Argh.
 
Embriagada e ainda com os olhos fechados, podia sentir a Mia sorrir a meros milímetros do meu rosto. Tá se divertindo, desgraça? Fui me aproximando, me inclinei para frente, cacete. Cacete, cacete. Até os nossos lábios, enfim, se tocarem. Puta merda, tá acontecendo mesmo. O nervosismo desceu meus braços, lambendo meus ossos e se espalhando pelas minhas mãos, plantadas no chão. Agora menos firmes do que um segundo antes. Mas então a Mia entreabriu a sua boca e o seu gosto se fundiu naturalmente em mim.
 
De repente, tudo era como sempre fora. Fácil, instintivo. Nosso. A sala, o som do rádio, tudo ao redor se tornou líquido num instante – a Mia a única coisa sólida restante, real, e meus dedos tomados pela vontade de a tocar, de me agarrar à sua presença, agora tão palpável, concreta. Durou quatro, seis segundos no máximo. O suficiente, no entanto, para empurrar a Mia com tudo de volta à minha realidade – me lembrando de todos os beijos que eu ainda tinha guardados para ela dentro de mim. Como é difícil te negar, garota.
 
E quando acabou, reabrimos os nossos olhos e nos encaramos rapidamente. Inferno. O que diabos estamos fazendo? O constrangimento cobriu meu rosto. E eu tentei não a olhar por tempo demais, abaixando logo a cabeça. Forcei uma expressão de revolta – “eu vou matar todos vocês”, reclamei em voz alta. Todo mundo na roda riu. Minhas bochechas ainda queimando. Nos afastamos, engatinhando ao revés até voltar para os nossos devidos lugares, num teatro até que convincente. E assim que sentei de novo, o Fernando abriu a boca:
 
_Quer dizer, então... – fez graça, tragando um cigarro – ...que agora eu posso dar uns beijos na Clarinha?!
_N-não ouse, babaca!
 
O ameacei. E no segundo seguinte, um copo plástico voou na sua direção das mãos da Mia, com um resto qualquer de bebida. Ele riu e se curvou, sendo atingido na altura do ombro. Todo mundo riu também. A situação parecia que seria esquecida logo, sucumbindo entre os demais desdobramentos da festa e passando despercebida – mas é claro, claro, que não acabou aí. Ah, não. Não. Os idiotas dos nossos amigos não iam deixar tão barato assim. Madrugada afora, pelas horas seguintes, fizeram questão de me atazanar incansavelmente por causa daquela porra de beijo.
 
_Mandou bem, hein... – um dos nossos amigos comentou por cima do meu ombro, me alcançando no corredor – ...pegou e com aval ainda.
_Cala a boca, Igor.
_Quê?! – retrucou, achando graça – A Mia é mó gata, meu.
_QUAL O SEU PROBLEMA?!?
 
Desviei do idiota, encerrando aquela “conversa”, e entrei pela porta da cozinha. Mas não importava aonde fosse, eu não conseguia fugir. Em todos os cantos daquela merda de apartamento, tinha algum engraçadinho com um comentário a respeito do maldito beijo. Haja paciência. E se não eram os meus amigos cara-de-pau, era a Mia – quem eu pretendia, sim, evitar pelo restante da festa. Para não levantar mais suspeitas. Não tô podendo.
 
Lá pelas tantas, saí no corredor do prédio para respirar em paz por um segundo. E vi a Thaís mais adiante, perto do elevador, conversando com quem presumi ser a Ju. Uma butch gorda e forte que tinha um undercut com topete, desses meio anos 50. Puta merda. Rapidamente entendi todo o nervosismo da minha amiga em falar com ela – a mina é gata mesmo. Sorri ao ver as duas ali e sentei ao lado da porta do apartamento, com as costas apoiadas na parede. Acendi um cigarro e estiquei as pernas, aliviada por ter um momento tranquilo.
 
Foi quando alguém abriu a porta do apê, deixando o som da festa escapar para o corredor. Virei o rosto para cima para ver quem era e dei de cara com o Marcos, com a mão ainda na maçaneta, fechando a porta atrás de si.
 
_Ah, maravilha... – murmurei, irônica – ...era só o que faltava mesmo.
 
Ele riu, tendo ouvido parte do comentário e captando minha empolgação. Bati as cinzas do cigarro no chão, sem paciência para ouvir sermão, e ele se sentou ao meu lado, me olhando rabugenta ali. Por que diabos eu fui aceitar esse desafio?

27 comentários:

  1. Puta merda! Será que dá pra situação ficar mais complicada pra FM?

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  2. Sinto que esse Marcos ainda vai ser um filho da puta nessa história...


    @sapatown

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  3. quem é esse marcos? qual o nome do amigo do fer que sasbe sobre ela e a mia?

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  4. A sua descrição do beijo foi tão linda, tão perfeita. Senti o nervosismo e o segredo entre elas, adorei. Ri muito com os amigos vindo falar e POR QUE O MARCOS TÁ RINDO???????? TENSO!

    Amo este blog.

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  5. Marcos? Pq não passou pela minha cabeça? PUTA QUE PARIU!
    Tava tudo muito lindo, tudo muito azul ¬¬
    E que ceninha é essa? Dando bandeira assim FM? hahahahaha
    Maravilhoso Mel :D

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  6. Caralho, achei que esse Marcos nem existia mais. Sério. Puta merda, véi. Tô, sei lá, com dó da FM. agora.

    E, cara, o beijo! Ah *-*
    Quero mais <3

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  7. Vai ter treta, esse Marcos não é boa coisa D: UAHSUAHSUHAUSHAUH'

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  8. Bom,bom,bom,boooom!
    Quer dizer, óóóótimo!
    Adorei a descrição da cena do beijo, os sentimentos da FM, muito bem escrito, Mel!
    Agora, o Marcos?
    Vai dar merda...

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  9. é agora que o circo pega fogo! mais mais mais mais mais. faz uma twitcam com os próximos posts sendo escritos ao vivo, hahahahaha! vai se sucesso!

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  10. HAHAHA, Dea, não! Eu pareço uma louca escrevendo, falo sozinha, gesticulo, fecho os olhos e entro em vários personagens, fico tensa, me descabelo. Tenho certeza que ia ser um show, mas não do tipo que eu me permitiria dar.

    hahahahahahahahahaha ;P
    Aguaaaaaaaaardem o próximo!

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  11. Odeio a Mia, sei que a FM está nessa por causa dela. Af. Eu queria que desse certo com a Clara, poxa ): Fernando idiota, que tipo de homem deixa a amiga lesbica pegar a namorada? Todo? Isso é bem coisa de homem (preconceito feminino). E agora a FM tem que lidar com tudo isso.... POR QUE ELA NÃO PODIA TÁ COM A CLARA?

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  12. Medo do Marcos agora! O que será que vai rolar meu, não tem nem como eu tentar imaginar. Será que ele vai ameaçar ela, ficar todo sarcástico pro lado dela, meu, quero muito saber o que vai rolar, se antes eu já estava ansiosa, agora então que fudeu tudo! Mais, mais, mais e mais. Tá ótimo isso aqui Mel!

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  13. mas eu sou a favor de você fazer uma twitcam qualquer dia, em que as leitoras pudessem fazer perguntas e você as respondesse ao vivo; olha que legal! daí a gente combina um dia em que eu esteja junto, pra gente montar a lan house no colchão e eu ajudar a selecionar as melhores perguntas. Mia e a Isa seriam super bem vindas tbm, hahaha :) vai ser sucesso, cara!

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  14. Nooooossa, linda a descrição do beijo delas. ADOREI! E esse marcos hein, qe vem do alem, do aquem da onde nao vem ninguem. De onde surgiu está criatura? Eu super apoio a idéia da twitcam. Acho bem interessante. ;) . Mas enfim, no agurado das cenas dos proximos capitulos.

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  15. só esse beijinho miseravel? hahaha ah nao mel

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  16. o Marcos vai ser a peça do cheque mate dessa historia!!

    JuhNadu

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  17. fiquei sem fôlego com esse post AI MINHA NOSSA SENHORA :O quero mais *----*

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  18. FOi tanta emoção... Ate chegar o Marcos....
    Ae a porra ficou séria!

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  19. Maldito beijo, maldito Marcos. Nossa ele apareceu do nada, seria bem legal se ele tropeçasse e tivesse amnesia.

    E agora? ja estou agoniada dando F5

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  20. Nossa!!
    Agora a coisa ficou seria!
    Juro q quando eu tava lendo eu pensei 'ainda bem que aquele amigo da msg errada não tá na festa' huauhauhauha
    Mas a Mel é mt evil!!
    Adoro!!
    Maaaais!

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  21. ah, achei o beijo tao rapido ): e a FM com ciumes? hahahahaha que lindls.
    marcos fazia tanto tempo... nem tava lembrando mais, mas agora a porra ficou séria O: ou nao...

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  22. Tinha que aparecer o Marcos? Oh shit! HAHAHAHAHHA

    A descrição do beijo foi sensacional. A-M-E-I!! ♥

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  23. Só esse blog lindo mesmo pra me animar em uma manhã! <3

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  24. Nossa juro que tentei...mas não consigo adivinhar o que o Benatti quis dizer com "mina pr"...O que é esse "pr"????
    sou lerdinha eu sei...mas é q to curiosa. =)

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  25. Bibi, quando escrevi, a frase original era: "aquela mina é problema, cara". Tipo, para qualquer amigo do Fer... O Benatti estava falando sobre como passou pela cabeça de todos eles, hahaha.

    Mas pode ser qualquer coisa... "PRA foder o bom senso de qualquer um", por exemplo. ;P

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  26. Ahhhh hahahahaa...tendeu, gostei da definição "PRA foder o bom senso" acho que é a que melhor se enquadra rs... Valeu M. ;)

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