_Eu imagino.
_Toda nossa vida, meu... – tentei falar e senti a tristeza escapar entre as palavras, escalando garganta acima contra meus esforços – ...toda lembrança que eu tenho, aqui ou de quando a gente morava em Santo Amaro, qualquer merda que fiz na minha vida, velho, ele tava sempre comigo. No quarto do lado ou na rua debaixo. E agora eu tenho que pegar uma porra de um ônibus que leva quarenta minutos para ver o Fer. O Fer, mano! É bizarro.
_Ei. Mas cês ainda vão se ver, linda... – ela me olhou e sorriu, apoiando a cabeça no meu ombro – Vai ser estranho agora, hoje, amanhã, mas logo cê vai se sentir melhor. E vocês vão se acostumar, sabe, até conseguirem mudar isso, achar algo que funcione melhor.
_É. Sei lá...
_Flor, não fala assim! – me repreendeu – Eu sei o quanto você ama o Fer e o quanto você tentou nesses últimos meses, como você ficou do lado dele. É uma situação complicada.
_É. Mas...
_Nada.
_Linda? – a Marina insistiu, notando algo estranho – O que aconteceu?!
_Nada. Não quero falar sobre isso.
_Flor, não faz isso. Não guarda as coisas. Conversa comigo – pediu.
_E-eu... – respirei fundo, sentindo o peso devastador de cada palavra que estava prestes a confessar – ...f-fiquei com a Mia de novo, ontem.
_Com a Mia? ONTEM???
_Foi?
_Claro que foi! A, a Mia que veio pra cima, meu... – me justifiquei, já sabendo que estava errada – ...e e-eu... eu gosto dela, porra, você sabe que, que eu... não sei. Não sei! Eu. Não. Sei. Tá? A, a gente tinha bebido e... – passei a mão no rosto, frustrada – ...não foi planejado, a g-gente... Argh!
_E a Clara?
_Não é assim, Má, isso não muda nada. Ontem foi, f-foi um erro... – garanti – ...eu tô com a Clá.
_Hum. Foi o que você disse da última vez, não foi?
_E você não acha que ela tem direito de saber? – a Marina me interrompeu, sem paciência – Hein?!
_Acho. Mas é que e-ela, ela não entenderia... – senti o meu coração doer com a possibilidade de perdê-la – ...quer dizer, ela... diz que sim, mas eu sei que não. Nem a pau. Não a Mia. E eu não quero foder as coisas entre a gente. Não por uma noite, não por isso. E-eu sei o que parece, mas você tem que acreditar, Má. Eu amo mesmo a Clá, é com ela que eu quero ficar. É só que... – balancei a cabeça, confusa – ...às vezes, com a Mia, e-eu... não sei, eu não consigo evitar. Eu amei ela por, por tanto tempo e, e me fode demais a cabeça.
_Tudo bem. Mas não acho que a escolha seja só sua. Se eu estivesse no lugar da Clara, do Fer, eu ia querer saber, você não?
_Não é sempre tão simples assim.
_Céus...
_E-eu sei. Eu sei, tá? – me irritei comigo mesma – Nem eu suporto as coisas que eu tô dizendo. Mas eu não sei o que fazer, Marina!
_Escuta, vamos deixar uma coisa clara, não é um erro se continua acontecendo – sua voz ficou séria – E você precisa ser muito honesta consigo mesma sobre o que realmente foi e como você quer tratar as pessoas com quem você se importa. Se esforçar um pouco mais, sabe, não ser tão egoísta.
_Uau – deixei escapar um riso, ofendida – Valeu.
_Você sabe que é verdade. Eu não tô tentando ser escrota, flor, mas se você pensa que não tem problema só porque ninguém viu, se você acha que tudo bem sair por aí fazendo suas vontades contando que seja em segre...
_Eu não disse isso, Marina – a cortei.
_Ótimo. Porque eu me recuso a aceitar que você queira ser essa pessoa de novo. As coisas mudaram, flor. Você tá num relacionamento. E não é porque você e a Mia se livraram uma vez, que tudo bem sair se pegando quando dá na telha. Você tem que tentar se lembrar, sabe, de como se sente depois, de como isso te destruiu, de como quase acabou com a sua amizade, de como afetou o relacionamento deles. É isso o que você quer para você e a Clara? Porque não dá para você continuar assim aí, querendo ter as duas coisas... – argumentou – ...ou alguém vai se machucar.
_Espero que saiba o que vai fazer, flor.
