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dezembro 23, 2012

Interfone

_Clara!
 
Me curvei na direção do viva-voz, desesperada.
 
_O que cê tá fazendo aqui, meu?
_Só me escuta, por favor! Por favor, Bi...
 
A ouvi suspirar. E me senti como nos meses finais do meu relacionamento com a Marina – implorando para que me aceitasse de volta, errada, terrivelmente errada, era assim que me sentia. E como era frustrante ser a porra do denominador comum.
 
_Vai para casa, tá tudo bem, Bo. Tá mesmo, s-só... – a Clara murmurou no interfone, soando indisposta – ...só vai pra casa. A gente se fala amanhã, meu.
_Não! Eu não posso, Bi, eu não consigo, não vou deixar as coisas assim com você. Não vou! Por favor!
_...
_Linda, por favor.
_Vai pra casa, meu. Cê devia ter pensado nisso antes de sair fazendo merda...
_Eu sei! Eu sei, Clara, porra. Mas eu, e-eu não tava pensando... Não mesmo! E-eu não sei que porra eu tava fazendo! – levantei a voz, discutindo ali em pé com o interfone, sozinha no escuro em frente ao seu prédio.
_Mano, cê... c-cê tá transformando isso numa puta cena, meu. Eu não quero isso.
_Só abre a porta, Clá. Conversa comigo. Vamos resolver. Eu sei que não tenho direito nenhum de te pedir nada, que eu não mereço nenhuma chance de, d-de me explicar... – as palavras saíam da minha boca, irracionais – ...e eu sei que eu, e-eu sou uma babaca, toda vez, mas... caralho, eu... e-eu amo você. Eu amo você demais, porra. E eu nunca fui tão feliz assim. Você, cara, v-você é a única coisa que importa na minha vida. Eu não sei o que diabos eu tava fazendo! Eu juro que não sei! Eu, e-eu tava muito louca, Bi, cê tem que acreditar em mim, eu não tava pensando! Eu não quis... – hesitei – ...por favor. Só conversa comigo. Eu, e-eu não quis te desrespeitar, eu sequer queria ficar com a porra da garota, tô pouco me fodendo pra qualquer mina naquela festa, eu amo você. Você! E-eu só tava muito, muito chapada e, e eu não tinha ideia do que tava falando com ela, com ninguém, do que tava fazendo. E... e eu sei que não é justo você ter que engolir as minhas merdas, sabe, lidar com as, as coisas que eu faço sem pensar, eu sei. Eu sei disso, Bi. Me desculpa...
_Não faz isso... – respirou fundo, me interrompendo.
_Me deixa subir, vai, por favor. A, a gente tava bêbada, Clá. Eu, você, sabe... e e-eu não quero ter que me desculpar mais uma, dez, cem vezes pelas coisas que eu faço. Eu vou tentar, cara. Eu prometo! Eu... – abaixei a cabeça, encarando o chão e começando a chorar, bêbada, com uma angústia entalada na garganta – ...e-eu não sei o que acontece comigo, eu... sabe, pareço me desligar das coisas, não penso na hora. Não penso em nada! Não é por mal, não sei, eu só... s-só sei que nunca quis te fazer mais passar por isso, por nada disso. Eu te amo tanto. E eu não posso te perder, n-não, porra, não quero deixar as coisas como tão, n-não quero conversar amanhã. Eu quero resolver, linda. Não me manda pra casa, cara, por favor. Me deixa consertar...
_...
_Bi, por favor. Por favor, me deixa subir.
_...
_Por favor, por favor... – murmurei, repetidamente.
 
E alguns segundos depois, do nada, escutei a porta de entrada destravar.
 
Tirei as mãos da parede no mesmo instante e empurrei a maçaneta, abrindo a porta corredor adentro. Aí subi as escadas num só pique, batendo de leve na porta da Clara. Minha cabeça ainda girava, ainda mais depois de todos aqueles degraus. Escutei-a virar a chave e mal abriu a porta, eu me apressei para entrar, levando as mãos ao seu rosto e a beijando. Como se não nos víssemos há uma eternidade, como se pudesse mostrar o quanto a amava com um só beijo.
 
Me senti uma babaca. Mais completa, sim, ao seu lado, mas uma babaca. Cacete. Desejando que pudesse voltar atrás em todas as merdas que fiz e enxugando as minhas lágrimas, embriagada, lhe prometendo com sinceridade, entre um beijo e outro, “eu te amo tanto, cê é minha pessoa nesse mundo, porra”.
 
E ela era.

As discordâncias

_Eu vou pra casa – a Clara murmurou, virada para a rua vazia.
 
Numa integridade a que eu era incapaz com aquele tanto de álcool correndo dentro de mim. A luz acesa sobre um táxi que se aproximava, à distância, a fez dar alguns passos na direção da rua e sinalizar. “Não” – me adiantei. Não podia deixar que fosse embora sem resolver aquilo. E eu sabia que ela iria. Sem sequer olhar para trás. “Não vai, meu, por favor”, pedi então, com o rabo entre as pernas. Numa angústia irracional ao vê-la sentar no banco de trás daquele táxi. Ainda que soubesse que não tinha direito de pedir coisa alguma.
 
_Bi – insisti, mesmo assim – Por favor.
_Tá tudo bem. Vai pra casa, cura a ressaca, sabe? Fica sóbria... – me respondeu, com a mão já na porta – Amanhã a gente se fala.
_Clara, n...
 
Bateu a porta antes que eu terminasse e o táxi começou a andar. Merda. Merda! Tudo o que eu conseguia pensar era só não, não, não – observando o carro se afastar. Impotente e arrependida. Presa a um final que eu não tinha escolhido para aquela noite, para a gente, ainda que o tivesse provocado. E é. Talvez se eu não estivesse tão fora de mim, como estava naquele momento, talvez eu não tivesse respondido daquele jeito. Talvez não tivesse sido tão estúpida. Talvez. Talvez se nós tivéssemos deixado pra conversar no dia seguinte, com menos álcool fodendo nossa cabeça, os ânimos, tudo não passasse de uma brincadeira, de uma bronca aos risos – como tantas vezes aconteceu entre nós. E talvez se eu não tivesse metido a porra do meu nariz na primeira carreira que me botaram na frente, talvez eu sequer me achasse no direito de ter sentado ali, que nem uma idiota, que nem uma puta duma idiota, do lado de outra garota.
 
A raiva começou a me dominar.
 
Imbecil. Sou uma porra duma imbecil. Esfreguei as mãos no rosto numa tentativa vã de trazer qualquer sanidade para a minha cabeça. Ainda chapada e sozinha naquela rua escura, em plena madrugada em São Paulo, que porra tá acontecendo. A tontura e o ritmo acelerado com que o sangue corria nas minhas veias começavam a me irritar. A situação toda me revirava o estômago. Caralho. E lá estava eu, fodendo tudo com a única garota com quem eu devia me importar.
 
Senti vontade de destruir alguma coisa, de cometer qualquer atrocidade. Ir arranjar briga, chutar a boca do primeiro que aparecesse; de encher ainda mais a cara até vomitar as minhas entranhas e cada grama daquilo que me intoxicava em algum banheiro sujo de boteco; qualquer porra que me fizesse esquecer o desespero que eu estava sentindo. Num impulso idiota, de gritar, não sei, de explodir. Mas não o fiz – num impasse desgraçado, que me rasgava por dentro –, pois sabia que minha cabeça exagerava e sentia uma necessidade irracional de ter bom senso, de ser melhor para a Clara. De repente, dei-me conta do quanto precisava dela. E meu coração apertou.
 
Coloquei um cigarro entre os lábios e sentei no meio-fio, sentindo meus pensamentos me machucarem, se revirando dentro da minha cabeça. Burra, burra. O que eu tô fazendo, porra? Agindo feito uma idiota a noite toda, todos aqueles meses, inferno, como quem procura desesperadamente por um motivo, qualquer motivo, escrota, mas sem conseguir lidar com as consequências quando a merda finalmente acontece, e é claro que ia dar merda, caralho, o que eu tava pensando, vendo a Clara se magoar e me arrependendo no mesmo segundo, com um medo desgraçado de a perder, puta que pariu.
 
Não posso deixar as coisas assim, pensei, angustiada por tudo o que eu desperdiçava. Alcancei, então, a carteira no bolso e contei o dinheiro que tinha ali. Não dava nem nove reais. Foda-se, decidi, ando pra casa depois. Me levantei e fui até o ponto de táxi na esquina com a Teodoro, ainda sentindo minha cabeça rodar. O motorista tinha um bigode grosso e uma corrente de ouro dessas bem de bicheiro no pescoço. Me levou até o prédio da Clara, a umas boas quadras dali. Ao final da corrida, me restavam menos de dois reais em míseras moedas.
 
Andei até o interruptor do seu apartamento. E toquei. Por favor, por favor, esteja acordada. Esperei pelo que me pareceu uma eternidade, sem resposta. Suspirei. E toquei de novo, segurando o botão pressionado por mais tempo agora. Nada. Atende, por favor. Respirei fundo, com ambas as mãos apoiadas na parede do seu prédio. Aí toquei uma terceira vez – encarando, bêbada e ansiosa, o viva-voz abaixo dos botões com os números dos apartamentos. Esperando por qualquer sinal. Qual é, Clara, me atende, por favor. Os segundos se prolongavam vazios em frente ao seu prédio, num silêncio desconfortável.
 
Dane-se. Peguei então o celular e tentei ligar para ela – mas a chamada foi direto para a caixa postal. Maldição. Quis jogar o telefone longe. Caralho. Tornei a enfrentar a merda do interfone. Chamei o seu número, pela quarta vez. Nenhuma resposta. Nada. Apoiei a testa contra a parede, sentindo como se estivesse ali há horas, agora pressionando o botão continuamente. Ouvia o zunir da campainha, incessante, e o imaginava cortar o silêncio do seu apartamento. Vez ou outra, deixava o dedo subir alguns milímetros e tornava a pressionar o botão, propositalmente irritante. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende, cacete.
 
Até que, enfim, escutei o ‘cléc’ do interfone sendo tirado do gancho do outro lado.

dezembro 20, 2012

All babes are wolves

_Vamos embora!
_O... o que... – a encarei, confusa – ...o que cê tá fazendo, porra?!
_Não me faz de idiota... – a voz da Clara seguiu firme – Veste a roupa e vem!
_Não, mano! Claro que não! – retruquei, bêbada, como se tivesse sido injustamente acusada – Eu tô conversando e vou continuar conversando!
_Escuta aqui, se eu passar por aquela porta sozinha... – apontou a entrada, me ameaçando – ...você pode esquecer o meu número, o meu endereço, você pode me esquecer. Cê tá me entendendo?!?
_Mas, gata... – a mina se pronunciou, em minha defesa – A gente só tava convers...
_VOCÊ CALA A BOCA, MARÍLIA! – a Clara a interrompeu, irritada com a intromissão – EU E VOCÊ NÃO SOMOS AMIGAS! E eu não sou obrigada a escutar o que você tem pra dizer. A minha conversa é com ela! Não com você!
_Mas, Bi... – tentei acalmar os ânimos – ...a gente não tava fazendo nada. A, a gente só tava conversando numa boa, meu. Ela me perguntou da tatuagem e eu di...
_Ótimo! Bom pra você! Já se divertiu! Agora a sua cara de pau tem cinco minutos pra me encontrar lá embaixo – descruzou os braços, pronta para ir, com o vestido ainda amassado – Cinco minutos, Bo, ou eu vou embora! E se você não estiver na frente daquele elevador, não precisa nem se dar ao trabalho de vir se desculpar depois...
_Clara, e-eu... – tentei apelar, mas ela já tinha virado as costas.
 
Merda.
 
Levantei numa afobação súbita e comecei a procurar a droga da minha regata, com os movimentos atrapalhados por toda a bebida. A minha cabeça não funcionava, não direito. Comecei a me irritar, cadê essa merda?! Me debrucei para ver debaixo dos móveis, ajoelhada naquele chão imundo, e encontrei minha blusa amarrotada no pé empoeirado do sofá. Argh, alcancei o tecido com a mão, ficando novamente em pé e vestindo a regata suja às pressas. Não sabia quanto tempo tinha perdido procurando. Me meti entre as convidadas da festa, sem me despedir da tal Marília, que observava tudo ainda sentada, e fechei a porta atrás de mim, num estrondo. Aí chamei o elevador, agitada. Apoiei as mãos na parede, pouco acima do interruptor, sentindo meu estômago revirar de ansiedade. Por que porra eu saí de casa hoje?, me angustiei. Entrei e apertei o térreo.
 
E quando a porta abriu, certamente já tinham se passado mais do que cinco minutos. Mas ela ainda estava lá.
 
_Bi, eu... – ia começar a implorar, mas a Clara saiu andando.
 
Tinha um maço de cigarro nas mãos e continuou, sem olhar para trás, indo para o lado de fora. Me ignorando. Volta aqui, quis dizer, mas me contive – ela já estava longe demais e não queria arriscar erguer a minha voz. Corri então para alcançá-la. Inferno. A Clara seguiu como se fosse para a Teodoro, talvez para o ponto de táxi mais adiante. Senti que a corrida me deixou ainda mais embriagada, meio desnorteada. Pedi que me esperasse e ela continuou andando, sem nem me ouvir. Estava uns dois, três metros adiante.
 
_NÃO FAZ ISSO, LINDA! – subi o tom de voz, por fim – POR FAVOR!
 
Então ela se virou. E me encarou, contendo a raiva nos olhos.
 
_Você... v-você é UMA BABACA! – passou as mãos no rosto – Escuta, eu me segurei para não falar lá em cima, pra não fazer escândalo, mas... VOCÊ É! VOCÊ É UMA PUTA DUMA BABACA! EU TAVA ALI DO LADO...
_NÃO! ESPERA LÁ! – comecei a retrucar, insultada, mas a sua voz sobrepôs a minha, ainda mais brava.
_...E VOCÊ NÃO TEVE A DECÊNCIA DE ESCONDER O QUE TAVA FAZENDO! NA FRENTE DE TODO MUNDO, PORRA! VOCÊ FOI COMIGO NAQUELA FESTA!!! COMIGO!!
_MANO! O... – me irritei com o comentário – O QUE DIABOS EU FIZ?!
_SÓ FALTOU VOCÊ COMER AQUELA GAROTA!! NA M...
_COMER?!? COMER???!??! – comecei a rir, embriagada – CLARA, CARALHO, EU SEQUER BEIJEI A MENINA!!! MAL ENCOSTEI UM DEDO NELA!! CÊ NÃO ACHA QUE TÁ EXAGERANDO?!? CACETE!! A GENTE CONVERSOU POR MEIO MINUTO E VOCÊ ME ARRANCA DA FESTA PORQUE ACHA QUE EU TAVA QUASE COMENDO A PORRA DUMA MINA QUE NUNCA VI NA VIDA?!??
_AH, É, PORQUE SEU CRITÉRIO PRA SE METER NO MEIO DAS PERNAS DE ALGUÉM É REALMENTE “QUANTOS ANOS A GENTE JÁ SE CONHECE”, NÃO É??
_AH, NÃO! – balancei o dedo no ar, indignada – NÃO VEM COM IRONIA PRA CIMA DE MIM, NÃO! NÃO VOCÊ! Porque você pode, né, chamar fulana pra ir jantar na sua casa, sair com meio mundo quando quer, se agarrar com uma imbecil na merda do Vegas...
_O Vegas?! O VEGAS?!? – me interrompeu, furiosa – EU SEQUER SABIA QUE VOCÊ TAVA LÁ AQUELE DIA, PORRA!! CÊ VAI JOGAR ISSO NA MINHA CARA QUASE DOIS ANOS DEPOIS DESSA MERDA DESSA HISTÓRIA?! ACORDA!!! VOCÊ TAVA PEGANDO A MIA NA ÉPOCA, CARALHO!! – berrou de volta, alarmando toda a rua da nossa briga alcoolizada – NA BOA, NÃO ENTENDO!! Não sei por que o seu ego tá tão ofendido até agora... VAI À MERDA! ISSO É RIDÍCULO! – sacudiu a cabeça, fumando a dois metros de mim – E eu chamei a mina na minha casa, CHAMEI, SIM! A gente tinha acabado de começar a sair de novo, cacete, isso não é nada. NADA! Você acha que eu tô vendo alguém agora?! Acha que eu vi alguém nesse último ano?!? Você acha que eu TÔ FAZENDO O QUÊ COM VOCÊ, SUA IDIOTA?! TE TRAZENDO PARA CONHECER MINHAS AMIGAS, TE LEVANDO A SÉRIO... VOCÊ!!
_CLARA, A GENTE NÃO FEZ NADA!!
_NÃO INTERESSA!!! EU AMO VOCÊ, CARALHO!! – começou a gritar de novo, magoada – E EU NÃO QUERO VOCÊ DANDO EM CIMA DE OUTRA ASSIM NA MINHA FRENTE!! É PEDIR DEMAIS??!? ENQUANTO TÔ LÁ, TOMANDO ESPORRO DA DONA DA FESTA, SABE?? VOCÊ ACHA QUE TUDO BEM AGIR ASSIM?? FINGIR QUE EU NÃO EXISTO, INFERNO, NA FRENTE DAS MINHAS AMIGAS?!?! VOCÊ SEQUER ENTENDE O DESRESPEITO QUE ISSO É COMIGO?! COM A GENTE?!?!? JÁ IMAGINOU SE EU FAÇO A MESMA COISA NA CASA DA LÊ?? DA THAÍS?? QUAL É O SEU PROBLEMA?!?!
 
Me olhava com uma decepção tão doída que me destruía. Puta merda, nem eu me entendia. C-c-c-c-c-come on, babe. A Clara cruzou os braços, injuriada. I never knew that you needed me. E nós duas ficamos em silêncio, por um instante, naquela sarjeta escura. No que diabos eu tava pensando? Me senti um lixo. I was born on the wrong side. Eu não queria aquilo, eu queria a Clara. Não queria foder tudo. Caralho. E precisava assumir quando estava errada ao invés de me proteger das suas acusações feito uma idiota. The wrong side, the wrong side of everything. Me arrependia violentamente.

dezembro 17, 2012

“Não é o que você pensa”

O rádio tocava Le Tigre no último volume e a voz da Kathleen Hanna gritava “who took the bomp from the bompalompalomp?” vez atrás de outra, ensurdecendo todo mundo, que agora tinha que rasgar a garganta para falar quase tão alto quanto a música. A sala estava caótica. Num êxtase ruidoso – gente demais para um apartamento de um só quarto em Pinheiros. E eu não conseguia entender de onde saíam tantos copos, garrafas ou marcas redondas espalhadas pelas mesas e cadeiras e pelo chão, cada vez mais imundo.
 
Olhei para trás e a Clara parecia ainda discutir com a Natali, a alguns metros dali, relativamente exaltada – os meus olhos estavam subitamente dispersos e minha cabeça disparava como se lutasse contra o meu corpo imóvel. Não conseguia focar. Em nada. Em porra nenhuma. Fechei as pálpebras e as reabri, entorpecida, ainda confusa.
 
_E o que você acha que eu tô pensando? – a garota riu da minha resposta.
_E-eu... – enrolei a língua para falar, meio atordoada – ...é um, um cara. “Fer” é um cara.
_Hum... – sorriu – ...interessante.
_Quê?
_Logo você, hétero.
_Não, mano... – ri.
_Não?
_Ele mora, quer dizer... morava comigo. É um amigo só.
 
Ela ergueu as sobrancelhas. E eu a observava, admirada, numa irracionalidade alcóolica. Seus cachos pareciam formar desenhos suntuosos no ar hype da festa atrás de nós. Estava com uns shorts dourados, sob a camisa preta transparente. Aproximou-se então do meu rosto e disse em tom baixo “menos mal”, colocando a mão na minha perna. Virei o rosto na sua direção, a encarando. Não dificulta minha vida. Podia sentir meu corpo, minha cabeça fritar. A pior versão de mim escalando pelas minhas paredes, me destruindo. Outra garota estava literalmente desmaiada no sofá, a menos de dois metros de onde a gente estava. E os minutos pareceram escapar do meu controle, de repente. A ínfima parte ainda sóbria em mim me alertava de que a mina sentada ao meu lado provavelmente era conhecida da Clara. E eu sabia que devia ter saído dali. Entretanto, o resto do meu corpo parecia já ter esquecido o que eu estava fazendo naquela festa. E pior, com quem.
 
Os arredores me invadiam os sentidos; a cabeça entupida de cocaína, de tequila, afundada naquela poltrona. Senti suas mãos tateando o tigre tatuado na minha costela, no escuro. E me entretive, a olhando. Não tinha intenção de beijá-la – não realmente. Era só, sei lá, acaso. Sentada ali ao seu lado, sem qualquer traço restante de sobriedade, numa conversa que se desdobrava numas ambiguidades. Não sei explicar. Não pensei direito a respeito. Deixei rolar.
 
_...e umas flores aqui... – deslizei as minhas mãos por um dos seus braços, a persuadindo a se tatuar também – ...algo que flua, sabe?
_Sei...
_Uma das minhas melhores amigas tatua... – afundei de novo no sofá, acendendo um cigarro meio de qualquer jeito – ...quando cê quiser mesmo fazer uma, me liga. Te levo lá, meu.
_Hum. Quer dizer... – ela sorriu com o canto dos lábios e se debruçou sobre a minha perna – ...que cê vai me dar o seu telefone?
_Bom, eu...
 
Antes que eu pudesse terminar de responder, a Clara veio voando na nossa direção. Merda. Empurrou o meu pé para fora do joelho onde estava apoiado, me desequilibrando. A garota também quase caiu do sofá, de tão na ponta que estava. E tão em cima. Merda, merda. Olhei para cima e encontrei os olhos enfurecidos da Clara, prestes a me chamar de todos os nomes que eu bem merecia.

dezembro 13, 2012

¡Al centro!

_Vem, porra... – a Clara sussurrava no meu ouvido.
 
Já vai. Minha cabeça rodava. Três horas antes eu não conhecia ninguém naquela festa e agora me entrosava com meia dúzia de sapatonas, em meio àquele caos ensurdecedor. Os risos exagerados e as trombadas inertes, o ritmo frenético, numa inconsciência alcóolica. Com avidez, as mãos da Clara me puxavam pela lateral da regata. E eu tinha os meus dedos entremetidos na parte mais cheia das suas coxas, a sentindo me apertar, enquanto a minha atenção se voltava toda para a conversa.
 
As outras nos observavam conforme eu tagarelava, uma babaquice atrás da outra, como se em duas realidades concomitantes – ali, entre seis, sete pessoas desconhecidas e sendo agarrada na lateral. A Clara subia pelo meu pescoço, a música no ambiente aumentava progressivamente e o calor me fazia suar cada dose de tequila que eu virava. Uma atrás da outra, elas continuavam vindo. As perguntas também. Sequer sabia mais o que estava metendo garganta abaixo. Ou narina acima. A Clara me pedia para desacelerar e eu ignorava. Aí ouvia as garotas gritarem, aos risos, entre si, perdendo trechos inteiros da conversa, meio atordoada. A decência tinha abandonado aquele apartamento há pelo menos duas horas. Minha namorada se atracava em mim, com os lábios esfomeados e as pernas inquietas. Ia me tirando do sério, se contorcendo no meu colo – mas eu continuava falando e falando e falando, fora de mim.
 
_O câncer de São Paulo são essas porras desses alternativos de merda, cara! Com dinheiro e um bando de piadinhas internas com os seus coleguinhas de agência, vai se foder! Se acham originais pra caralho... – senti meu coração disparar, conforme vomitava um resmungo atrás do outro e as outras riam – ...me dá asco, mano. Asco! Acharem que a Augusta agora é isso, rolêzinho de publicitário hétero, e as baladas aí cobrando setenta na porta, porra.
_Ah, não. Meu! Na agência que eu trampo é uma galera muito sussa... – uma das garotas rebateu.
_Mano... – pisquei na sua direção, a provocando – Silêncio aí, vai! Ninguém te chamou pra defender sua classe!
_Silêncio você! – ela riu.
 
Aham, ela era exatamente o tipo de pessoa a quem eu me referia, bêbada de vodka com suco de morango num vestido de 400 conto da Antix e meia tatuagem em linha fina no antebraço, dessas roubadas do Tumblr.
 
_São todos uns merdas, cara... sem exceção... – a interrompi e abaixei a cabeça, no segundo seguinte, sentindo minha pele esquentar de dentro pra fora – ...mano, que porra, tá muito quente aqui.
 
Droga. Começava a sentir a combinação me tirar a consciência. O coração acelerado, o ego disparado. Fazia mais de um ano que eu não pegava tão pesado assim. Inferno. A Clara me persuadia, grudada no meu pescoço, com a mão metida por debaixo da minha regata, enquanto eu falava. E as minhas palavras se atropelavam, perdiam-se confusas, nuns lapsos de puta-merda-essa-garota-sabe-o-que-tá-fazendo antes que eu retomasse a minha linha de raciocínio e conseguisse voltar ao que estava dizendo. E o que era mesmo? Uma das garotas me respondia, empolgada, na ponta de um sofá do outro lado. Eu não calava a boca. Sequer sabia o que estava dizendo mais, resmungando da gentrificação da Augusta, do aluguel subindo, entre casos intermináveis, entre um cigarro e outro aceso, fazendo graça com a minha boca suja e rindo das histórias das outras sapatonas, interagindo meio irracionalmente, assim, sem nos conhecer direito.
 
Os dedos da Clara subiam impacientes, se afundando na lateral do meu corpo. Prestes a me deixar uma marca. Me beijava a nuca. E então deslizava pelo meu rosto, interrompendo meus lábios com os seus. O que eu...?, me perdi na sua língua, de repente, sem nem chance de pensar a respeito. Foi aí que perdi mesmo a noção do que estava acontecendo. Afundei em seu gosto pelo que me pareceram minutos infindáveis naquela poltrona. O que..., a beijava de volta, caralho. Sentia como se a gente fosse se comer ali mesmo. E tinha a minha regata tirada em meio a desconhecidas naquela sala lotada, as luzes apagadas, a agarrando naquela poltrona. Sentada no meu colo, a Clara se pressionava contra o meu jeans, os meus peitos. E não entendia como sequer saber como tínhamos começado aquilo. Cacete.
 
Alguém passou por trás da poltrona e nos deu um tapa na cabeça. A Clara ergueu o dedo do meio, sem ver quem era, me beijando, incansável. Eu a mordia entre seus beijos, sem dar a mínima para o que acontecia além do alcance das minhas mãos. Erguendo seu vestido até a sua cintura. A segunda pessoa passou, nos provocando, e a Clara revirou os olhos – desmontou do meu colo, de uma só vez, e me puxou pelo passador do cinto através da sala. Até o corredor. Aí nos enfiamos às agressões no quarto da tal da Natali. E transamos na cama da garota, sobre a colcha, contra o armário, sabe-se lá, só restavam flashes na minha memória e hematomas pelo meu corpo. Nuns estranhos espasmos de consciência.
 
Quarenta, cinquenta minutos depois, não sei, saímos de lá descabeladas e amarrotadas. E cruzamos caminho com a anfitriã, que nitidamente já não ia com a minha cara. Ela segurou a Clara pelo braço. “Você quer me explicar o q...”, ouvi apenas o começo da frase emputecida, conforme seguia adiante para me sentar no sofá. Com os peitos ainda de fora, sentindo a minha cabeça doer. Não sabia direito o que fazer com as mãos, as pernas. Soltei o corpo todo contra o encosto, afundando-me ali, minha cabeça rodando. Não tinha comido nada o dia inteiro além de meia salada no set e o hambúrguer que a Mia me levou às 5 da tarde. Talvez não tenha sido a melhor estratégia, é, encher o cu de pó e bebida na minha condição, mas... sabe quando cê tá na merda e começa a implorar pra dar um ruim tão grande que te tire do lugar? Pois é.
 
Peguei o celular em mãos, com certa dificuldade. Eram 2:13. O visor marcava os números numa luz forte que me incomodava os olhos, junto com uma mensagem não lida do Fernando. A gente tinha trocado ideia umas horas antes, quando eu tava no táxi, sobre o lance da Marina. Mas eu não tinha visto nada depois disso. Abri o SMS – “mas sdds, mano. Me liga de vz em qdo, porra!”.
 
_Hum... – ouvi ao meu lado – ...quem é essa “Fer” aí?
_Hein?! – ergui a cabeça sem entender e notei uma das garotas que estava na roda antes, com uma camisa quase transparente e um black – Como é?
_Eu perguntei... “quem é “Fer”?
_Por... – estranhei a pergunta, ainda chapada; aí a observei por um instante, a forma como me olhava e, caralho, preciso parar isso por aqui – ...que?
_Curiosidade. De saber quem ganhou esse sorriso aí...

dezembro 12, 2012

Pinheiros

Merda. Merda, merda, enfiei minhas coisas no bolso e saí para a rua, em direção ao ponto de táxi, já atrasada. A gravação tinha ido até tarde e eu precisava chegar no Largo da Batata em quinze minutos. Ia com a Clara na festa de uma amiga dela – uma tal de Natali que não conhecia. Peguei um táxi até Pinheiros e assim que desci, acendi um cigarro só para ter o que fazer com as mãos. A Clara ainda não estava lá. Argh. Mantive os olhos abertos, checando os bolsos com certa paranoia, enquanto tragava. Tinha sido assaltada a poucas quadras dali, uns anos antes, e sem qualquer motivo racional minha cabeça achava que ia acontecer de novo toda vez que estava nas redondezas.
 
_Cê não vinha a pé? – estranhei, assim que vi a Clara descer de um táxi também.
_Vinha. Mas, ah... – suspirou, ajeitando os ombros sob o meu braço – ...já tava tarde, achei melhor vir assim!
 
Abraçou o meu corpo e eu lhe dei um beijo rápido na testa, conforme andávamos para a rua da sua amiga. E é. É verdade que, no caminho até lá, hesitei sobre o que diabos estava fazendo com a minha vida, sobre os meus sentimentos. E o quanto era realmente capaz de lidar com aquela, ahm, situação. Ver a Mia sempre me bagunçava a cabeça, mas falar com a Marina mais cedo também me fez cair em mim. No caso, espatifada, bem no meio do meu caos emocional. E talvez aquele não fosse o melhor estado de espírito para me meter numa festa barulhenta na Sumidouro, não é?
 
Mas que se foda, virei dois shots de tequila assim que passamos pela porta e decidi que não – não ia me deixar levar pela minha própria confusão. Tão rápido a minha garganta parou de queimar, todavia, dose atrás de dose, logo percebi que talvez eu não estivesse tão no controle assim.

dezembro 11, 2012

Pacaembu

O problema é que, ao mesmo tempo, a Mia também não facilitava.
 
Quase cinco da tarde e lá estava eu, me desgastando numa gravação sem fim no estádio do Pacaembu, discutindo com uns quatro incompetentes ao mesmo tempo, quando ela me mandou mensagem. Estressada, peguei o celular entre um argumento e outro e olhei para o visor rapidamente – “ñ ta na hr dum cigarro?”, o SMS dizia. Como se lesse a minha mente. Horas antes, na minha última pausa, a Mia tinha me ligado e nós ficamos conversando por um tempo. Eu a diverti com as minhas reclamações sobre o buffet contratado pra gravação, que interpretou o meu “precisa ter opção vegetariana” como “que tal picar uma salada murcha de alface com meia rúcula”. Por que diabos não fazem uma porra dum macarrão? 
 
_Ô! – assobiei e chamei uma das minhas colegas, a uns metros dali, antes de me virar para a roda de pessoas que ainda discutiam – Gente, ó, resolve com ela aqui. Preciso dar uns 5!
 
Larguei a bucha na mão de outra assistente e fui em direção à saída, já procurando o número da Mia nas ligações recentes. Bati o maço desajeitadamente na perna, puxando um cigarro com a boca, conforme discava e atravessava o portão de entrada. E foi quando dei de cara com a Mia.
 
_O que... – sorri, na mesma hora, tirando o filtro da boca – ...o-o que cê tá fazendo aqui?
 
Ela sorriu de volta. De chinelo e vestida numa roupa de quem só saiu pra dar uma volta no bairro e que, puta merda, me dava uma vontade desgraçada de estar em casa com ela, vendo TV e dando uns beijos à toa no sofá, sabe? Meu corpo quase a podia sentir aninhada em mim. E como se pudesse me ouvir, ela aproximou e tirou a franja da minha cara, segurando o riso. Em uma das suas mãos, notei um saco pardo desses de padaria.
 
_Bom, eu tava com saudade. E né, imaginei que cê devia tá morrendo de fome, depois do fiasco mais cedo, então trouxe um lanche...
_Cê...
 
Deixei escapar mais um sorriso, sentindo meu coração encher.
 
_...cê não existe, meu.
 
Passei a mão no rosto, meio sem acreditar que ela estava mesmo ali. E de repente, me senti a garota mais feliz de toda São Paulo – ou sei lá, do Pacaembu. Enquanto os carros começavam a se engarrafar nas ruas ao redor de nós e a luz do sol ia ganhando um tom alaranjado. Puxei a Mia pela mão e fomos até a lateral do estádio, sentando num canto escondido, onde comi meu burguer vegano e fumamos um juntas.
 
Foram os melhores vinte minutos da semana inteira.

dezembro 10, 2012

0800-LESBOFOFOCA

_CÊ TÁ SAINDO COM A MIA DE NOVO?!! É sério isso?!?!
_Bom dia pra você também, ô educada! – resmunguei para a Marina, ao telefone.
 
Mal tinha pisado pra fora do chuveiro, plenas oito da manhã, com a água ainda pingando das minhas pernas e a minha ex-namorada já gritava comigo do outro lado da linha. Três dias depois da minha ida ao estúdio.
 
_Mas espera... – apoiei o telefone na pia e coloquei a chamada no viva-voz – Quem te falou que tô saindo com a Mia?
_Ah, então, É VERDADE?!?
_Você falou com a Thaís, meu?
_Não, não, ela falou com a Lê e a Lê me contou!
_Hum, sei. E foi divertido pra vocês? – resmunguei – Se meter na minha vida assim?!
_Ai, flor, a gente tá preocupada.
_Marina, não é como se...
_Meu, você não falou no começo do ano que “agora” TAVA COM A CLARA? – me interrompeu, a indignação vibrando na sua voz – COMO ASSIM VOCÊ TÁ SAINDO COM A MIA?? E POR QUE CÊ NÃO ME CONTOU??
_PORQUE SABIA QUE CÊ IA REAGIR ASSIM!
_Sinceramente... – ouvi ela respirar fundo – ...não sei nem o que falar pra você, de verdade. Cansei. Cansei de tentar entender você e essa menina!
isso, então? – reclamei, me enxugando com a toalha – Cê me ligou três vezes enquanto eu tava no banho pra me dar bronca?!
_Não! E-eu...
_Não?
_...eu já ia ligar para conversar de outra coisa, mas aí a Lê me mandou mensagem e eu até esqueci o que ia perguntar, meu, e-eu... – argumentou – ...eu não acredito que você não me falou!
_Tá, tá. Mas o que cê ia perguntar?
 
Peguei o telefone, já seca, e fui até o quarto. Aí vesti a primeira cueca preta que encontrei, enquanto escutava a Marina na linha.
 
_Era sobre o Fer. Ontem, meu chefe na redação comentou que o cara de T.I. da revista vai sair, perguntou se eu não conhecia alguém. Aí pensei em indicar o Fer! Ele já conseguiu alguma coisa?
_Que eu saiba, não... – disse, colocando uma regata também preta – ...vou mandar mensagem pra ele. Mas, porra, ia ser incrível!
_Ia? Não sei... – desdenhou – ...não sei o que você quer da sua vida agora, né, já que você tá COMENDO A NAMORADA DELE DE NOVO!
_Ai, Marina. Dá pra parar?!? – revirei os olhos, irritada – E olha, nem vem, que eu sei que o que realmente tá te incomodando não sou eu, não é a Mia, não é meu relacionamento com a Clara. É eu não ter te contado!
_Não é verdade! – contestou.
_É, SIM!
_Não, agora sério, linda, cê tem certeza do tá fazendo?
_Não, Má! Não tenho! Não tenho certeza de porra nenhuma – respondi, numa sinceridade exaltada – Mas eu também não sei que merda fazer, então...
_Mas você ama a Clara?
_Cê sabe que sim.
_E a Mia?
_...
_Você ama a Mia?
_E-eu...
_Céus. Cê tá apaixonada por ela, de novo, não tá?
_E-eu... – hesitei – ...eu preciso ir, Má. Tô atrasada pro trampo. Escuta, depois a gente se fala melhor, pode ser?
_Flor. Flor! – ela contestou antes que eu desligasse – Olha, cê não pode continuar com isso...
_Depois a gente conversa, tá? Beijo!
 
A interrompi, às pressas. Era difícil falar sobre os meus sentimentos assim, em voz alta. Se sequer tinha contado para a Marina – a Marina! – o que estava fazendo com a Mia nos últimos meses, que dirá confessar o que sentia por ela. Ou pela Clara. E todo o rolo emocional em que vinha me metendo deliberadamente. Não. Não dá. Parte de mim sabia que o primeiro sinal de que as coisas andam realmente mal é quando se começa a ocultar informação dos seus amigos – e era exatamente isso que eu estava fazendo. Evitava comentar porque, no fundo, não queria ouvir o que tinham a dizer, sabia o quanto ia me destruir por dentro.
 
Argh.

dezembro 08, 2012

I've exposed your lies

“…baby, the underneath’s no big surprise”
(Muse)
 
_Você vem, Bo?
_Não, não, vão vocês.
 
Pisquei rapidamente para a Clara e ela se virou para acompanhar a Ju do lado de fora, aproveitando a pausa para fumar um enquanto a Thaís trocava a agulha da máquina. Fiquei largada no sofá e minha amiga começou a procurar as tintas e as agulhas de preenchimento na gaveta duma bancada baixa. Já tinha terminado todo o contorno.
 
Àquela altura, já fazia umas duas horas desde que a Mia tinha ligado e eu não tinha checado meu celular desde então – apesar de tê-lo sentido vibrar mais algumas vezes. Temporariamente sozinha naquele sofá, tirei-o do bolso e vi mais uma chamada não atendida, junto com três mensagens não lidas da Mia. Era estranho. Ela nunca me ligava. Preocupada, abri minha caixa de entrada e li um “ME ATENDEEE” em caixa alta, seguido de “PFVRRRR CADE VCCC? PRECISO TE PERGUNTAR UMA COISA KKKK”. E sequer pretendia responder, sabia que a Clara estava logo ali, do lado de fora, mas aí li o terceiro SMS – “É URGENTE! A gnt ja fez rebuceteio???”.
 
Quê?!
 
Comecei a rir na mesma hora. E me afundei no sofá, sem conseguir me conter, digitando de volta: “ESSA eh sua pergunta importante?? rs”. O rádio tocava Muse ao fundo e, nem trinta segundos depois, chegou a resposta – “sim!!! :x pq?? vc ja fez???”. “C sabe do q vc ta falando?”, achei graça. “Ñ! kkkk to no bar aqui na rua debaixo do Mackenzie e uma sapata q estuda cmg tava falando q mandou ver no rebuceteio e eu fiquei curiosa kkkk”. Passei a mão no rosto, me divertindo. “Acho q vc ta achando q eh outra coisa, Mia, rs”, enviei e me pus a digitar a explicação. Antes que terminasse a mensagem, no entanto, chegou mais um SMS – “ñ eh sexo?? ela falou q foi dormir na casa duma mina la..”.
 
Estava quase gargalhando sozinha no sofá. Essa é a melhor conversa que já tive na vida, pensei. E expliquei, “eh uma gíria sapatao pra qdo vc pega alguem q sua ex ou sua amiga ja pegou”. “Ah, tipo talarico?”, a Mia pareceu decepcionada. “Ñ, ñ, talarico eh mais na maldade e o rebuceteio eh..inevitavel. pq a cena lesbica eh um ovo e td mundo ja se pegou rs, ñ tem como fugir, uma hr c acaba participando”. Passei a mão cara, tirando o meu cabelo bagunçado dos olhos para ler sua mensagem seguinte – “e c ja participou??”. “Ah, ja :P td mundo ja”. “Com qm?”. “Ah meu, sei la.. eu peguei a jessica, q pegou a thais, q pegou a le cmg, q hj pega a jessica tb e q ja pegou a marina, q eh minha ex, q ja pegou a clara... por ai vai, rs”, descrevi rindo.
 
_Com quem cê tá falando? – a Thaís questionou, do outro lado da sala.
 
Ergui os olhos e vi a minha amiga ali, me encarando de volta, como quem suspeita de algo, enquanto separava na bancada as cores que ia usar na tatuagem.
 
_Não, nada... – desconversei – ...c-com ninguém.
_Sei – retrucou – O mesmo “ninguém”?
_...
_Cê tá falando com a Mia, não tá?
 
Respirei fundo, sem responder à bronca gratuita, enfiando o celular de volta no bolso. E a Thaís observou os meus movimentos, também quieta. Quê, meu?!, me incomodei, se tem alguma coisa pra falar, fala logo. Ela se esticou para alcançar uma cerveja sobre a bancada e, então, continuou.
 
_Olha, eu não vou me meter... – resmungou, abrindo a latinha entre as pernas, com os antebraços apoiados nos joelhos, e aí olhou pela janela para ver se as garotas continuavam fumando – ...mas a Clara é uma puta mina da hora.
_Eu sei, porra, n...
_E eu pensaria bem antes de foder as coisas com ela... – me interrompeu, com certa seriedade – ...ainda mais se for com alguém que já te deixou tão na merda.
_Não é assim, meu.
_Então, como é? – deu um gole, indisposta com a minha desonestidade – Porque até onde eu sei, ela ainda namora seu amigo.
_Mano, a gente só tava trocando mensagem...
_Tá bom, então – se irritou.
_Qual é, Thaís?!
_Velho, só não quero ver você quebrando a cara de novo por essa mina... só isso. E eu sei que você ama a Clara, que não quer magoar ela...
_E-eu... – hesitei, sem saber o que responder direito, e aí esfreguei a mão no rosto – ...eu, eu sei. E eu não quero mesmo, porra, é só que... – me angustiei – ...inferno. Eu gosto dela, Thá. Eu... e-eu ainda gosto dela pra caralho e, e eu não sei o que fazer...
 
Nisso, ouvimos a porta abrir. E a Clara entrou junto com a Ju, rindo, interrompendo imediatamente as palavras que saíam da minha boca.

dezembro 07, 2012

Encontro às cegas

_Escuta... – a Thaís perguntou, do nada – Cê ainda tá com a Clara?
_Do que cê tá falando, mano?!
 
Estranhei, equilibrando o celular contra o ombro, enquanto assinava um orçamento e tentava despachar toda papelada que ainda tinha que entregar antes de ir embora naquela terça. Minha amiga parecia estar na rua, pelo som do outro lado da linha, e eu podia ouvir alguém rindo ao seu lado.
 
_Não é... – respondeu, tentando segurar o riso – ...é só que tava indo comprar comida agora e encontrei uma mina aqui, que comentou de você. E mano... Na moral, puta gata!
_Quê?!
_Pensei em apresentar vocês hoje, sabe, se cê tiver solteira... Ela morava na Argentina, sabe, fala espanhol, trabalha numa loja de música aqui perto e tem cabelo comprido, assim, um undercut... – foi listando, fazendo graça – ...uma tatuagem na linha do ombro.
_Sei... – comecei a rir.
_Ouvi dizer que ela gosta dumas trouxas igual você.
_Vai se foder...
_É sério, velho, acabou de me falar aqui que num resiste a uma sapatão ruim de sinuca.
_Olha, Thaís, cê nem vem cuspir no prato que comeu! – eu ri, revirando os olhos, e assinei mais uns papéis sem nem ver direito – Mas, agora sério, onde cês tão? Saio daqui uns quinze, vinte minutos, se pá...
_Tamo voltando pro estúdio, vou tatuar a Ju hoje. Cola lá!
_Bora.
 
Desliguei o telefone ainda rindo. A amizade da Thaís com a Clara era fundamentada quase exclusivamente em me zombar, a cada oportunidade que surgia. Trouxas. Me apressei para terminar o que faltava de trabalho e saí da produtora pouco antes das sete. A semana mal tinha começado e eu já estava cansada. Pelo menos agora, com o Du dividindo o apartamento comigo, já não precisava mais me forçar a tanta hora extra. Subi a rua até o metrô e fui em direção a Pinheiros para o meu date misterioso.
 
Quando cheguei no estúdio, uns quarenta minutos depois da ligação, a minha amiga estava debruçada sobre a sua namorada, tentando acertar um decalque nas suas costas. Ao lado delas, com as mãos apoiadas na maca, a Clara se inclinava para acompanhar o processo de perto. Numa regata branca que roubou de mim uns meses antes porque ficava larga e confortável no seu corpo, seu cabelo preso numa trança sobre o seu ombro, revelando uma tatuagem que tinha na nuca.
 
Fechei a porta atrás de mim e a Clara se virou, sorrindo ao me ver. Sorri de volta, caminhando até onde elas estavam. O estúdio tinha paredes pretas com desenhos e decalques colados por todo lado, um sofá grande e umas espadas de São Jorge em vasos pelos cantos. Todos os outros tatuadores já tinham ido embora, só restavam as três ali. A Thaís levantou brevemente a cabeça para me cumprimentar, enquanto fazia uns retoques de caneta no decalque, e a Ju ergueu a mão, sem poder se mover muito.  
 
_Hum... – me aproximei da Clara, fazendo graça – ...então é você que eu ia conhecer hoje?
_É – ela colocou os braços em volta do meu pescoço – Mas não sei, ouvi um papo aí que cê namora...
_Eu?! Não... – balancei a cabeça, na maior cara de pau – ...cê tá me confundindo.
_Ah, tô?
 
Ela riu e eu deslizei as mãos até suas coxas, a erguendo no meu colo num só movimento. E nos beijamos, ainda rindo, conforme ela cruzava as pernas ao redor do meu corpo. “Olha, se eu soubesse que cê era gata assim...”, cochichei, com a boca a centímetros da sua.  “Hum”, a Clara se divertia, me instigando, “me diz o que cê ia fazer”. A Thaís revirou os olhos ao longe, gritando na nossa direção:
 
_PODE PARAR. SEM BAIXARIA AQUI DENTRO, VOCÊS DUAS!
 
Nós a ignoramos. Os meus pés encontraram intuitivamente o caminho até o sofá no centro do estúdio, caindo junto com a Clara sobre as almofadas. E a Thaís começou a resmungar alto. A gente riu, se agarrando quase de propósito. Subi em cima da Clara e a apertei pela cintura, nuns beijos com gosto. “TEM CÂMERA AQUI DENTRO!”, minha amiga insistia, nos xingando. E a gente fez que não escutava. Entre um beijo e outro, senti o meu celular vibrar. Tirei ele do bolso, ainda entre as pernas da Clara, e olhei rapidamente no visor. Merda. Era a Mia ligando. Recusei a chamada, num reflexo rápido.
 
E guardei o telefone no bolso.

dezembro 06, 2012

Bons começos

Morar com o Du foi estranho nos primeiros dias. Aquilo era diferente de todas as vezes em que eu e o Fer cedemos o nosso sofá a algum amigo temporariamente sem teto – brigado com a namorada ou desistente de qualquer perspectiva de vida, o que fosse. Aquilo parecia mais permanente. E o meu cérebro precisava dum tempo para o associar à luz acesa quando entrava no apartamento. Na primeira noite em que voltei do trabalho, tomei um susto quando trombei com ele no meio da sala.
 
Já o Du, por sua vez, precisou de alguns dias para se acostumar com a minha aversão a calças, ou roupas em geral. Éramos dois estranhos num ninho, dividindo panelas e cômodos. Não demorou muito para que o Du conhecesse a outra garota que frequentava o meu quarto. A Clara veio no domingo e ele a cumprimentou com um sorriso no rosto, na sala, me olhando fixo em seguida. Eu sei o que cê tá pensando, o encarei de volta, mas juro que não é assim. E implorei com os olhos para que ele não comentasse nada. O Du apenas riu. No dia seguinte, quando nos encontramos sozinhos na cozinha, ele não me perguntou nada.
 
E tá – era para ter parado por aí.
 
Mas aí a Mia reapareceu na terça. Numa passada rápida por lá, antes de encontrar o Fer em Santo Amaro, sob o pretexto de me deixar a camiseta que emprestou no sábado. E a gente acabou se comendo contra a parede do quarto, de leve. A Clara veio na quinta e então ficou até sábado. Pouco antes dela ir para trabalhar, o Du saiu do quarto acompanhado dum cara que deve ter arranjado na Gambiarra. Nos trombamos no corredor. Ele olhou para mim e eu não sabia onde enfiar a minha cara de pau.
 
E sabe, eu bem queria poder culpar outra pessoa pelo que eu estava fazendo. Pelos meus erros, a minha calhordice. Mas a verdade é que não tinha nenhuma justificativa. Nenhuma porra de alívio moral. Nada. Era egoísta – e eu sabia. Sabia toda vez que procurava a Mia e sabia, semana atrás de semana, a cada vez que não contava para a Clara. Ou para o Fer. Era egoísta, sim, mas o egoísmo agora era outro. Não como outras vezes em que traí outras namoradas, anos antes, numa arrogância adolescente e entediada. Desta vez, não. Desta vez, o que eu queria era tempo.
 
Esse era o meu egoísmo.
 
E sequer era para ter durado tanto, eu é que perdi o controle. Passou um mês. Depois outro. E eu continuei, me metendo cada vez mais naquele buraco, com a lama até o pescoço e sem conseguir parar de cavar. Até chegar ao ponto em que falava com a Mia todo maldito dia, me deixando apaixonar de novo, mas sem conseguir imaginar a minha vida sem a Clara. Cacete. O meu coração estava uma bagunça. E eu enrolava, covardemente, sabendo que uma hora o buraco ia começar a desbarrancar.

dezembro 04, 2012

Leves

Ainda rindo, a Mia balançou a cabeça e disse que precisava ir ao banheiro, fugindo da perguntando. “Isso é um não?” – o Du achou graça, nos observando juntas no corredor.
 
_Isso é um “bem que ela gostaria” – a Mia zombou.
_Vai se foder!
 
Eu ri. Tá engraçadinha, é? E ela entrou no banheiro. Me virei para terminar de empurrar o maldito colchão com o Du. Não dormi o suficiente pra estar carregando isso, resmunguei mentalmente. Meu novo colega de apartamento se pôs, então, a organizar as suas coisas no antigo quarto do Fer e eu voltei sozinha para o corredor. Podia ouvir a água correndo na pia do banheiro. Caminhei até a porta entreaberta e espiei a Mia ali dentro, enquanto ela molhava o rosto – as pernas de fora numa camiseta minha que sempre disse que ia roubar, com a capa do “Power Never Die” do The Comes e uns furos de traça de tão velha.  
 
_Que foi? – a Mia perguntou, ao me notar pelo reflexo do espelho.
_Nada, só que... – sorri – ...cê fica bem assim.

dezembro 02, 2012

Uns não-relacionamentos

O som do meu celular me perturbou os ouvidos. Abri os olhos, sentindo minha cabeça pulsar pelas horas não dormidas. Uma das pernas da Mia estava entrelaçada na minha e os lençóis emaranhados entre nós, desconfortáveis, retorcidos contra a minha pele. O telefone ainda gritava e a Mia se moveu ao meu lado, inconsciente, afundando-se em meio aos seus próprios cabelos bagunçados no travesseiro que dividíamos. Demorei alguns segundos para me situar, o barulho também me incomodava.
 
Quem diabos tá lig...?
 
Sonolenta, olhei para o relógio e o visor marcava 8:03. Foi aí que caiu a ficha. Puta merda! O Du, caralho, saltei e tropecei para fora do colchão, desnorteada. Aparentemente a gente tinha dormido invertidas na cama, com o travesseiro jogado onde deveriam ficar os pés e os lençóis soltos. Meu cérebro não estava entendendo nada. Droga. O telefone seguia se esgoelando. Droga, droga. Alcancei-o na mesa de cabeceira:
 
_Alô, alô! – atendi, atrapalhada – Pronto. Oi. Desculpa!
_Bom dia... – o Du riu – Escuta, tô aqui embaixo. Tava tentando o interfone, mas ninguém aten...
_E-eu, eu sei, desculpa. É que fui dormir tarde ontem e, e capotei, não escutei, meu. Foi mal! Pode subir, eu... – esfreguei a mão no rosto, ainda desorientada, atropelando as minhas palavras – ...e-eu vou ligar na portaria pra te liberar, peraí!
 
Desliguei num suspiro, ainda azucrinada. Já estava quase largando o moleque com toda a mudança no meio da calçada da Frei Caneca. Grande primeira impressão, hein. Tirei o cabelo bagunçado da cara, tentando me concentrar. Tá, o que era mesmo que eu precisava fazer? Respirei fundo, confusa. Interfonar para a portaria, me lembrei, é isso. Ainda sem uma roupa no corpo, fui até a cozinha e liberei a entrada do “Eduardo”. Sabe-se-lá quanto tempo o coitado já estava esperando lá embaixo. Então abri a geladeira e dei um gole ou dois na garrafa de água, sentindo a minha boca seca. O dia estava ensolarado. Voltei para o quarto e vesti a primeira boxer que peguei na gaveta. A Mia seguia desmaiada na cama e eu senti uma vontade desgraçada de me afundar com ela ali e não fazer mais nada naquela manhã. Argh, não. Preciso botar uma roupa.
 
Coloquei uma camiseta larga, me resignando a admirar a Mia à distância. Aí a campainha tocou. O Du. Saí do quarto e atravessei a sala para abrir a porta. O coitado estava soterrado em malas e sacos amarrados uns nos outros. O cumprimentei, achando graça na desorganização, e ajudei a carregar tudo até o quarto do Fer. Meti as mesmas calças do dia anterior, largadas em frente ao sofá, e calcei um chinelo perto da porta para ajudar a pegar o que faltava no carro do amigo dele. Descemos com o elevador. E o tal amigo me estranhou – descabelada e sem sutiã naquela camiseta branca, em plena luz do dia. São peitos, cara, supera. Tiramos tudo que deu do carro. E antes que o amigo fosse embora, o Du se curvou sobre a janela aberta e o agradeceu com um beijo.
 
_E aí... – perguntei, me espremendo com ele e todas as tralhas no elevador – ...é seu namorado?
_Quem? O Caio?! – estranhou – Não.
_Não?!
_Bom... – o Du riu – ...não exatamente.
 
E aí eu entendi.
 
_Hum... – a porta do elevador abriu e empurramos o colchão e todo resto para o corredor – Então ele é o cara com carro?
_É. Mais ou menos isso...
 
Ele riu de novo e aquilo me fez gostar do Du – pelo que provavelmente eram os motivos errados. Carregamos o colchão até o apartamento, tentando não fazer barulho enquanto passávamos pelo corredor. Mas aquele diacho insistia em escorregar das minhas mãos e eu dava com o colchão entre os pés, tropeçando a cada dez centímetros. Ô inferno. Meus braços ainda sentindo o baque da noite anterior. Avançamos entre um xingo e outro meu. E quando já estávamos quase dentro do quarto do Fer, a Mia abriu a porta do meu. Nos observando ali no corredor.
 
_Te acordei?
 
Perguntei e ela negou com a cabeça, veio caminhando até mim e me deu um beijo rápido. Tinha os cabelos desarrumados e os pés descalços, com uma camiseta minha. O Du a cumprimentou à distância, nos assistindo do outro lado do colchão.
 
_É sua namorada?
 
Eu ri e eu encarei a Mia, arqueando as sobrancelhas.
 
_E aí, o que eu digo?