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maio 07, 2013

Lucille jamais me compreenderia

“Gosto de muitas coisas ao mesmo tempo e me confundo inteiro e fico todo enrolado correndo de uma estrela cadente para outra até desistir. Assim é a noite, e é isso o que ela faz com você, eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser minha própria confusão''. 
 Jack Kerouac

O assunto – claro – nos encontrou. Estávamos distraídas agora, discutindo as idas e vindas da Marina com a tal advogada Vivian, de quem ela parecia realmente estar gostando nas últimas semanas, quando bateram na porta. Lá estava ele, sem convite ou aviso – o Fer. Eu havia ficado largada no sofá, lidando ali com a minha própria ressaca, enquanto a Marina se levantara para abrir. “E aí?!”. A sua voz me fez pular imediatamente no sofá. Ele sorriu ao vê-la, a cumprimentando – “por que não foi ontem?”. Disse já entrando, largando a chave do carro na mesa ao lado da porta.

_Foi... muito em cima da hora – a Marina ficou sem reação por um instante, me olhando por detrás com as pupilas arregaladas –. É que eu... eu fui pra São Caetano com a minha irmã, na formatura de uma amiga.
_Hum. E você, hein?! – o Fer me encarou no sofá, pouco amigável – Como tá aí, palhaça?!

Eu  o observei atônita, ainda sem reflexo à sua presença.

_Vai pegar meu casaco lá, vai. Parei na vaga errada lá embaixo, não posso ficar.
_Aconteceu alguma coisa? – a Marina logo interveio, conforme eu me levantava para ir na direção do quarto, atordoada, ainda sem falar nada.

Inferno, inferno. A minha cabeça começou a martelar imediatamente, eu entrava no corredor. Abri a porta do meu quarto e observei os lençóis ainda desarrumados. Desde a minha trepada com a Mia. Puta merda. O meu estômago parecia apodrecer dentro de mim, sentia uma vontade repulsiva de vomitar a mim mesma. Eu sabia que ela o havia deixado para me encontrar naquela manhã. Caminhei até o armário num impulso e peguei a droga do casaco, emprestado na saída da Gambiarra. A minha mão hesitou antes de abrir novamente a porta que dava no corredor. Parte de mim queria morrer.

_Sabe, Má, ela é foda... – ele conversava com a Marina, em tom baixo, quando me aproximei da sala.
_Aqui.

Lhe entreguei o casaco e ele checou imediatamente os bolsos, ao pegá-lo das minhas mãos,  atrás do seu RG. Estava ali. Era isto, logo pensei. “Preciso ir nessa”, declarou então sem esperar muito e a Marina o abraçou para se despedir, dizendo em seu ouvido que falaria comigo. Provavelmente sobre a quantidade de álcool e desrespeito que eu despejara na pista da The Week naquela madrugada. O Fer olhou para mim em seguida, como se esperasse algo. Uma desculpa, talvez. Por uma briga da qual eu sequer lembrava. Murmurei um agradecimento tímido por ter passado lá, sem conseguir encará-lo direito. E ele foi em direção ao lado de fora.

 _Fer! – o chamei antes que chegasse à porta, argh – Espera, quero falar com você.
_Preciso ir, vou chamando o elevador. Beleza?

Assim que me pus à frente para segui-lo, a Marina me segurou pela mão e cochichou prontamente – ele já não estava mais no apartamento –. “Não fala nada agora, não me inventa de falar qualquer coisa”. Eu a olhei, um pouco relutante.

_Você não pensou isto direito. Espera a Mia te responder, não me vai dar uma das suas de abrir a boca e se arrepender depois. Você não vai saber lidar com isto agora – disse séria na minha direção.
_Eu não vou falar. Eu só – passei a mão na cabeça, confusa –, não sei.
_Está tudo bem – ela me acalmou, ainda sussurrando –, tá. Vai lá!

Saí no corredor e o Fernando me esperava encostado contra a parede, à frente do elevador.  Nuns jeans largos, com uma camiseta velha do Jethro Tull. A mão segurando o casaco. A sua Hannya, tatuada no braço, estava virada para o meu lado. Argh. Não importava os vinte e tantos anos, ele ainda parecia um moleque – o meu moleque. E eu sequer sabia a merda que havíamos discutido na madrugada anterior, os dois bêbados. Tive receio de saber.

_Você está bravo comigo? – murmurei ao me aproximar, cruzando os braços e encostando ao seu lado.
_Não tô bravo. Mas você também é foda, né, velho...
_Eu... tava louca da cabeça, Fer; fiquei muito chapada.
_Tá, e daí?! Eu também tava – começou a me dar bronca, aumentando o tom –; eu também bebo, porra. Eu também perco a noção e saio, quebro tudo. Mas eu não parto pra cima de você, cacete!
_Desculpa, eu nã... – suspirei, já me detestando; argh – ...o que eu disse, afinal?
_Ah! Me mandou à merda, mandou todo mundo à merda. Disse pra eu te deixar em paz quando a gente tava tentando te levar pra fora, cê já tava completamente fora de si... – reclamou, irritado comigo –. Ficou falando que era “fácil” eu falar, que eu tinha a droga a minha vida e do meu namoro; que eu não sabia o que você tava passando. Meu, todo mundo entendeu que você tava chateada, porra, que era por causa da Clara e o caralho – abaixei a cabeça, me arrependendo mais a cada palavra que ele dizia –; só que você desconta em quem tá tentando ajudar, velho, não dá! Eu já tive que escutar de você antes; a Marina também já passou por isto, sabe. Você tem umas, cara, que é foda aguentar. Foda mesmo.

Nisto, o elevador chegou. E eu não consegui falar nada, irritada comigo mesma. Acrescida à culpa que sentia pela conversa com a Mia. Eles provavelmente haviam discutido naquela manhã, antes dela vir – e eu sabia. “Está aí já. Escuta, tá de boa, sabe...”, ele disse, meio querendo sair logo, “mas preciso ir”. Tinha gente esperando dentro do elevador. O Fernando foi naquela direção, sem se despedir de mim. E senti vontade de voltar a chorar, o meu peito estava destroçado desde aquela tarde. Pedi então que esperasse – e ele viu os meus olhos marejados. Merda. Deixou ir o elevador.

_Ei... – mudou imediatamente de atitude, assustado.
_Me desculpa, Fer, me desculpa. Por favor – pressionei a cabeça contra o seu peito, arrasada, lhe implorando –. Eu, eu não queria ter feito nada disto. Eu sou uma idiota! Eu tava fora de mim. Por favor, me perdoa.
_Ei, calma. O que acontece... – ele me abraçou, um tanto preocupado, e riu – ...não precisa chorar. Tá tudo bem, sua bicha. Não foi nada. Quantas vezes eu já num fiquei mais louco que o Batman também e fiz um monte de merda?! Relaxa. Acontece.
_Não tá. Não tá tudo bem – choraminguei – Não tá, eu... – ergui então o rosto, esfregando a mão contra a cara; e o olhei, desesperada com a situação – ...o que eu vou fazer, Fer? Sério, que merda eu vou fazer?!

A esta altura, a pergunta claramente não era quanto à bebida ou a minha atitude estúpida toda vez que bebia. Era o que diabos eu ia fazer com a minha vida. O que eu ia fazer com ele, o que ia fazer com a Mia. As minhas entranhas se dilaceravam, indecisas, em aflição. E ele me olhou, levemente surpreso. Arrependido por achar ter sido ele a causar aquilo. Eu não tô uma dentro, não é possível, pensei, ao abraçá-lo então. Ele me segurou de volta – como se eu fosse uma criança, desamparada.  

_Escuta, ei, a culpa foi minha. Eu não devia ter falado nada, foi mal... – ele me disse e se desvencilhou dos meus braços, me segurando o rosto –. Tá tudo bem, está mesmo.

21 comentários:

Anônimo disse...

Ai mds, quase chorei ca FM.
E que lindo o Fer!
E que puta história vei D:

Anônimo disse...

Agora esta me batendo a percepção de que nao vai ser do jeito romantico e surreal que eu achei que ia ser mia e FM juntas. Aquela fantasia..Vai ser foda. Vai ser real e vai destruir um monte de personagem pelo caminho. Vc eh demais, Mell!

Anônimo disse...

AAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!!! NAO TA TUDO BEM!!!! =((((((((

Ianca' disse...

Não tá tudo bem, Fernando :((((((

Anônimo disse...

Claro que a Melissa tinha que ser perfeita e citar Kerouac. Posso morrer feliz?

Anônimo disse...

:O
Mal sabe ele...
e ela tbm :|

Bárbara Leão disse...

Aiiiin quase chorei no trabalho, que merdaaaa!!!
O Fer é tão fofinhoooo,
não merece essas duas fdps, Mia e FM!
Aflita pelo próximo post!

@livia_skw disse...

Kerouac <3

Jethro Tull <3

Fer lindão sendo fofo com a FM <3

Anônimo disse...

Essa situação é angustiante.
O Fê e a FM são amigos, mas existe o que a FM sente pela Mia. O relacionamento da Mia e do Fê já tava falido, mas não tem como não se sentir culpada. O bicho é o melhor amigo dela.
Tô sofrendo pela a FM :/

Anônimo disse...

FM, sua bicha! hahaha. Brinks.

Flavs disse...

hahahaha por um instante senti uma angústia tão grande lendo esse post :(

Anônimo disse...

bateu uma vontade de chorar agora :/

Aléxia Carneiro disse...

Chorei. Poxa poxa poxa! ai Fm, ai Fer </3 Mia ¬¬

Babaloodeuva disse...

To com medo do próximo post, SÉRIO!!!

francielli# disse...

na sequencia dos fatos não sei oq eh melhor a FM fazer, bem complicada, mas se ela escolher a mia perde o fer certamente ..

Anônimo disse...

E agora? Meu coração tá miúdo demais... Escolher entre dois gdes amores... O Fer ou a Mia? Q foda.. =(
Mel vc é realmente demais... Aposto q cada pessoa q leu esta sentindo no peito a angústia e a dúvida q a FM tá vivendo.... Parabéns e obg viu...
(ANA CURI)

Bruna disse...

Putz... ele tem que ser um super querido pra piorar mais ainda o sentimento da FM né?!
Aiii... q foda! =/

Camyla disse...

Deu uma angústia tão grande "ver" a FM desse jeito:c

Anônimo disse...

li toda a historia em uma semana, chego aqui nao tem mais...qro maaaiiss post ..

Anônimo disse...

FM fica com a Mia, e o Fer fica comigo!
Seria ótimo assim! :)

Pathy disse...

Meu coração apertou, achei que ela fosse contar. :(

Ain FM não chora! mimimi