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junho 07, 2013

Plano B ou C

Numa resistência que me divertia, a Mia se recusava a levantar. Estávamos sentadas frente ao meu prédio há pelo menos uma hora e meia, conversando um tanto distraídas. “Você precisa ir, vai...”, eu a despachava agora e ela se negava veemente a mover. Tentei convencê-la de que tinha sono. “Sem chance, eu não vou entrar num táxi a esta altura do campeonato”, ela ria e balançava a cabeça para mim – eu olhava para ela, em pé frente ao meio-fio e às suas pernas no asfalto. Ofereci-lhe então a minha mão e ela cruzou os braços, em recusa.

_Vai logo, porra! – ordenei, de mão ainda esticada, e dei mais um trago com a outra num cigarro, soltando a fumaça em seguida.

Já eram quatro ou talvez cinco da manhã. E começava a esfriar. As pessoas ainda passavam pela Frei Caneca, transitando entre os bares ao lado na Augusta. “Não vou, meu”. A Mia aí argumentou que dali algumas horas tinha que estar do outro lado da cidade – e preferia não dormir. Fazia parte da sua pesquisa para o trabalho de conclusão de curso, o da faculdade. “E só por isto eu não posso dormir?”, achei graça, ainda sobre os meus pés meio embriagados e instáveis, frente a ela. A Lê descia a Augusta junto à Ana – o SMS delas iniciara aquela discussão toda.

_Ali! Elas estão aí já... – indiquei com o queixo na direção da esquina, a qual minhas amigas agora viraram.

A Mia as olhou sobre o ombro, sem se comover muito. Ambas se aproximaram com os olhos cansados, as costas largadas em desânimo – “não lembrava que era tão pra baixo, velho!”, a Ana resmungou sobre a minha moradia na baixa-Frei. “O Flamingo é que é pra cima demais!”, ri. Ela se apoiava num dos ombros da Letícia. Entreguei a chave a elas e disse que iria logo menos, a Lê não entendeu por que não subiríamos. E então a Mia se levantou, declarando prontamente – “vamos subir, sim!”. Não. Não vamos. As alcancei uns passos adiante, mas já era tarde demais. A Mia me olhou com ares de vitória.

Antes de subirmos no elevador, murmurei em seu ouvido – “vou te fazer companhia até dar o horário e é só, depois você vai”. Ela não contestou. Tão logo, porém, as garotas despencaram em suas camas (a Ana num colchão improvisado no meu quarto e a Lê na sala), me encontrei confinada com aquele shorts imprestável na cozinha. Puta merda, ô inferno na Terra. A Mia andava meio bêbada e ainda fazia barulho, sem intenção de incomodar o resto do apartamento todo, que ao contrário de nós já dormia. Pedi que abaixasse a voz.

_Por quê?! – apoiou desmedida o corpo sobre a mesa frente a mim, assim com os antebraços, e causou um ruído ainda maior ao arrastar aqueles quatro pés de metal contra o chão – Quando é você, né, aí ninguém fala nada.
_Eu?! – ri, olhando-a – E quando eu fui na sua casa fazer barulho, garota?
_Ah. Não pessoalmente. Mas você já me ligou bêbada de madrugada e o celular tocou, tocou lá do outro lado do quarto.
_Eu nunca, jamais fiz isso... – garanti, mentindo.

E nós rimos.

_E você lembra... – a Mia escalou a mesa, subindo embriagada com antebraços e joelhos agora apoiados no tampo – ...quando você, aquela vez...

Ela se arrastou até mim, um tanto descoordenada e estranhamente instigante; a observava com uma das mãos sobre a mesa e as costas contra a parede, sentada numa das cadeiras adiante. “Desce da mesa, vai, sua louca”, eu me divertia. A Mia engatinhou até perto suficiente do meu rosto e tive vontade de beijá-la. Um gosto por mulheres livres e loucas. Ela então se virou –  Sabe?”, deitou à minha frente, encarando agora o teto da cozinha. E eu neguei, olhando as suas tatuagens se revelarem em uma pequena brecha entre a cintura do shorts e o pano dobrado de sua camiseta. Não me recordava de nada. E ela também não explicara bem que vez.

_Certeza que sabe... – olhou para mim e riu, voltando os olhos castanhos de novo para cima, falando com leveza – ...você me ligou e eu te disse, lembra. Todas as coisas que você, que eu queria que você fizesse comigo. Era tarde, cê tinha voltado da Augusta.
_Ah. Essa vez.
_Você lembra ainda... – sorriu, agora maliciosa – ...hum? O que era?
_...
_Que eu te disse que queria.
_Lembro.
_Aquele dia foi, hum. Bom. É uma pena só que – ela fechou as pálpebras, delicada – as suas mãos estavam ocupadas... só com você; e tão longe.

As minhas pupilas, a minha saliva pareciam hipnotizadas pela Mia ; pelo movimento dos seus lábios. Falando tão desinibida, deitada naquela mesa. Que tive que controlar os meus pensamentos para que não deliberassem – assim perversos. A minha imaginação, que fluía sem filtros. O canto da sua boca esboçou então um sorriso, ainda de olhos cerrados. Caralho, meu – fala, o que você está pensando aí, garota?, eu a observei compulsivamente, pelo que durou apenas um instante. E ela se sentou raídamente sobre a mesa, levantando em seguida.

Disse, do nada: “eu vou entrar na água, quer vir?”.

Os meus olhos a acompanharam, imóvel na cadeira. Espera. Onde? E ela foi em direção ao corredor. Ouvi a porta do banheiro se fechar então – ah, filha da... Com algumas coisas eu simplesmente não podia. Aquilo era jogo sujo, baixo. Isto não vai, porra, não vai prestar. Hesitei ainda por algum tempo, sentada na cozinha toda vazia. O relógio da parede tiqueava os segundos. A minha mão dedilhou nervosa sobre a mesa. Dane-se. Empurrei a cadeira para trás e me levantei, indo atrás dela. É claro.

A água do chuveiro já corria. I have so many bruises. Fechei a porta atrás de mim, trancando-nos ali, e me livrei de toda a roupa. But you have such a smile. Largando-as no chão. A Mia deixava as gotas caírem massivas sobre as suas costas, sobre a sua nuca – ficava mais sóbria. I have so many scars. A abracei a dois passos após entrar no box. E deslizei a minha boca sobre os seus ombros molhados, os meus dedos por sua cintura. Oh, but you have such smile. As suas mãos permaneciam contra os ladrilhos frios. Desci as minhas por entre as suas pernas. Tudo o que você quiser, garota, senti os fios do meu cabelo molhar, eu faço. E fiz.

As horas seguintes se desdobraram entre um cumprir imprestável e umas conversas à toa, a esmo; com as pernas sob o chuveiro, respingos leves no rosto e as costas deitadas na água que se acumulava, no chão do box. A tremenda conta que viria, todavia, era a menor das minhas preocupações naquela semana. Eu logo ia descobrir.

22 comentários:

Anônimo disse...

É muito talento pra mexer com os sentimentos das pobres leitoras, jesus!
Cadê o sono depois disso? hahaha
Uau, muito bom o post :)

Anônimo disse...

Eehh, a FM resistiu até onde deu..

E agora eu to querendo ver essa semana aí, hein.

Juliana Nadu disse...

=O

A pessoa não tem noção do que é ler um post desses em lugares inapropriados!!! #tensão ou quer dizer...................rsrsrsrs

ps: Mt foda!

Anônimo disse...

hora hora, agora sim eu vi que qualquer pessoa pode deixar um comentário.. haha. Bem, ameeeei esse post e todos os outros. Obg por me fazer feliz com tudo isso :P hehehe, beijo

/nm.

Anônimo disse...

Tá estudando francês, escritora? Je t'aime Mélanie Pain ;)

Anônimo disse...

"What is there to know?
All this is what it is
You and me alone
Sheer simplicity"

Pathy disse...

Gente, que post.. 66'
E já vem B.O, quer ver?!

Anônimo disse...

Puts! Muito bom. Manda mais, Mel. =)

Flavs disse...

OMFG! Que post foi esse?? Ah Mia <3

Anônimo disse...

Sustentabilidade, cadê????

Anônimo disse...

mais post....qro mais....

Anônimo disse...

sensacional esse post! hahahaha. todo mundo sabia q a FM não iria resistir ao shortinho. Diz que a preocupação dela durante a semana será por conta do término de fato entre a mia e o fer, diz? Diz q a Mia finalmente contou sobre elas, diiiiz? =)

sissi disse...

AMO CADA PALAVRA TUA,AMO A MIA,CARA TE ACOMPANHO DESDE O INICIO,ESPERO QUE VIRE LIVRO.QUERO AUTOGRAFADO.

Anônimo disse...

Por favor, a Mia é sensacional,apenas! Hahahaha

Anônimo disse...

mia muito mais que encantadora.

francielli# disse...

Em uma unica palavra oq esse post eh Fantastico.. Cada detalhe q envolve e vc se imagina na situaçao na cena enfim.. Mas a Fm aguentou ate onde deu mesmo.. Afinal quem resistiria a um convite desse.. Fantastico post

Anônimo disse...

Menina...que post!
E que que é isso, Mia? Vem ser maravilhosa aqui em casa, please...
Amei,amei,amei e quero mais.
Team Mia desde sempre e pra sempre.

Elder Ferreira disse...

Fiz um post no meu blog sobre literatura homoafetiva e quando postei o link do post num grupo do Facebook uma mocinha me recomendou a ler seu blog.

De fato, muito bom, tu escreves muito bem, parabéns!

Nesse fim de semana vou lá pros posts de 2009 entender como tudo aconteceu :)

Sarinha Scherzy disse...

acabou o conto ?

Anônimo disse...

Faz um post com elas duas junto ao protesto na Paulista! :)

Anônimo disse...

Gente, tô ansiosa aguardando o próximo post! Alguma previsão, Mel? Acho que já estou em crise de abstinência...rsrsrs

Babaloodeuva disse...

Sem palavras pra descrever maravilhoso.