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julho 17, 2013

A calçada da Frei

O clima não ficou melhor – ao contrário do que qualquer um preveria. As lágrimas aos poucos cessaram, mas não havia alívio algum no passar do tempo. Ainda pesava. O tiquetaquear do relógio na parede da cozinha agora ecoava no apartamento silencioso – e não havia leveza alguma nisto. As palavras do Fernando, a dor dele, não me abandonaram em momento algum. Mas algo mudara – sim. E o meu coração se veria em breve dividido entre o luto da minha amizade e a responsabilidade dilacerante de estar diante dos olhos marejados da Mia, das suas mãos tremendo, inquietas, no meio-fio.

Ela. Ela chegou vinte minutos depois da ligação, sem avisar. Contrariando os pedidos da Marina para que me esperasse, para que ficasse em casa até estar tudo melhor. E quando estaria, afinal? Não apareceu na minha porta – não subiu. Ao menos isso. Dava assim a oportunidade para que eu dissesse que não a queria ver, não naquele momento. E talvez eu não quisesse mesmo – em todos os caminhos errados que a minha mente tomava. E que se foda; eu sou o que eu sinto e eu não queria. Não queria, porra. Não era um sentimento permanente, não era um consciente não-a-querer; estava mais para um espera-por-favor -espera. Alarmista como sou – e que mal tem? Espera passar. Duas, três horas – o que você tiver para me dar. Posso? Só processar, o que for. E o que foi? Isso? O que foi tudo? Por que assim, por que agora? O meu coração, a minha realidade, como a conheço, está em um fio meio fino, bem fino, ultrafino, de incertezas sobre o passado e determinismos sobre o futuro, cercado por afiadas e imensas, tremendas, invisíveis tesouras, cheias de culpa e é tudo tão, tão complicado, entende, meio fora do tempo e espaço, então não balance, não me toque por ora, só me deixa, que eu fio sozinha e volto, juro que volto, volto logo. Volto sã, volto lã. Só não tive tempo ainda – de fiar, de respirar. Era complexo. E eu não estava certa quando entrei no elevador – foi a expectativa de reprovação da Marina que me empurrara apartamento afora, no instante em que o interfone tocou. Eu desci. E a Marina ficou. Pedi que arrumasse a sala junto ao Du, não queria que a Mia visse o apartamento daquele jeito, não queria que se sentisse pior por tudo aquilo. E a encontrei na calçada da frente – tinha os dedos entrelaçados na grade do portão; e me observava caminhar o curto, eterno recuo do prédio até a rua.

Como dois cachorros vira-latas, reconhecíamos os olhos inchados uma da outra. Mas foi só quando cheguei realmente perto, que ela disse:

_Desculpa. E-eu não queria vir –  abri o portão, escutando-a dizer –, mas e-eu precisava te ver, saber c-como você tá. NÃO SABIA O Q-QUE FAZER! M-me – a Mia pôs as suas mãos mornas sobre o meu rosto; eu agora diante dela, do lado de fora; ela tinha os olhos rapidamente encharcados – me perdoa, m-me desculpa. POR FAVOR! Eu não queria nada disso, eu não queria fazer v-vocês brigarem, e-eu...

Toquei-a de volta e a beijei. Com toda a liberdade que já beijara dezenas de garotas em frente ao meu prédio, naquela mesma calçada. Num impulso. A sua ansiedade me empurrava para um estado calmo, muito seguro de mim. Como se eu tivesse que estar no controle da situação. Ao menos, pela Mia. Como se eu pudesse protegê-la da merda que a meti. And I never was smart with love. I let the bad ones in and the good ones go. But – I’m gonna love you like I’ve never been hurt before, I’m gonna love you like I’m indestructible. Me afastei – e a esta altura, ela devia pensar que eu tinha sérios problemas de estabilidade por descer ali e a beijar assim, depois de praticamente dispensá-la ao telefone, mas, sério? Mesmo? Você realmente nunca reparou em como ‘fazer sentido’ não parecem ser palavras na minha cabeça?! Faz parte do meu charme; ou algo assim –. Ela sorriu, um breve sorriso.

_Não esquenta – murmurei então, ainda quanto às suas preocupações anteriores – Não é como se tivesse sido uma noite agradável para você também...

Tirei o maço do bolso, num ato recluso, e me sentei no meio-fio adiante. A Frei Caneca não tinha tanto movimento, era tarde. Acendi um cigarro sentada ali, sozinha, e soltei lentamente a fumaça no ar – olhei então para trás e a Mia ainda estava em pé na frente do portão.  O silêncio evidenciava a ausência de passos seus na minha direção. Fiz um gesto para ela com a cabeça: “vem, senta aqui”.

16 comentários:

TekaSak disse...

FINALMENTE! parece que agora vai!

Anônimo disse...

A atitude da F.M foi incrível, ter que ficar forte para proteger a Mia da sua fragilidade, mesmo estando destruída! *-*

Anônimo disse...

Unf!

Que ressaca sentimental, que peso... por ambas.

:s

Anônimo disse...

Esse beijo!
É esse o beijo que eu esperei por todos esses anos!
Ah, eu sempre vou ser team Mia. SEMPRE!
Tá lindo, Mel! Pode postar o próximo já

Anônimo disse...

Caralho, achei sensacional a poesia q vc fez com os pensamentos da Fm... digno de postar no OBC! hahaha.

Mas fiquei meio sem entender também o q diabos ela tava fazendo beijando a Mia, contradizendo toda a poesia de pensamentos antes, querendo um tempo.. Ela é mesmo imprevisível. Fazer sentido pra que? pra quem, né?

adorei! posta o outro, por favor! =)

PinkPrincess disse...

O ato da F.M foi lindo demais, mesmo estando completamente destruída, se fez forte para pode amparar e proteger a Mia do medo dela! *-*
Mal posso esperar pelo próximo ><

Anônimo disse...

"volto sã. volto lã"

gênio!

Anônimo disse...

Eu AMO a loca da Fm!!! <333

Anônimo disse...

ROBYN *-* AAAAAAAHHHH!!! ESSA MUSICA EH MUITO ELAS DUAS!!!!!!!!!!!AMEI AMEI AMEI!!!!!!!!!!!!!!!

Anônimo disse...

Lindo a F.M se fazendo de forte para proteger a Mia até dos seus próprios sentimentos..
Mais um please!!

T disse...

nem terminei de ler, mas como só falta um e eu tenho certeza de que já encontrei o meu trecho favorito, deixo o meu comentário aqui.
eu simplesmente comi as palavras em itálico.

Ianca disse...

Tuas palavras säo fantásticas, que capacidade linda que tu tem, um domínio danado. Senti tudo isso, e esse beijo foi esperado nesses anos, nas vidas delas e nas nossas que estamos aqui como expectadoras. Elas existem sim, em algum lugar. MUITO OBRIGADA, MEL!

( the girl fucking Mia ) disse...

Aww, suas lindas! Obrigada ♥ (:

Pathy disse...

FM tratando a Mia com o devido "respeito", gostei :)

P.S.: Já disse que você arrasa né?! Sua linda <3

Flavs disse...

gente, falar o que sobre esse post??? que foda!

Anônimo disse...

que linda a atitude da fm, apesar de ter sido meio nonsense (creio eu), foi incrível! <3