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julho 17, 2013

La Mia Famiglia

A coisa mais importante a se entender sobre a Mia e eu era essa nossa estranha habilidade de estarmos juntas, de conversar sobre qualquer coisa – ou coisa alguma, como ela ou Tarantino me lembrariam –. Isto é, à exceção de nós duas. Sobre isto, não haviam palavras apropriadas – nunca. E em partes, foi o que me fizera apaixonar por ela. Este não saber eterno de quem ela era comigo, sim; mas também um saber fluido de todo o resto. E em outras tardes, antes de toda a confusão, ela ia comigo até a banca da frente para comprar um maço e nos sentávamos naquela mesma sarjeta, falando de filosofias existenciais em meio a uma São Paulo que escurecia, até alguém dar por nossa falta.

Agora que ninguém nos aguardava – e puta merda... –, o nosso relacionamento era o último tópico a ser superado. Um último – e já enfraquecido – desconforto, por assim dizer.

_Escuta – pedi ainda de cabeça baixa, enquanto ela se ajeitava ao meu lado, no chão, num jeans rasgado e com uma blusa larga que lhe revelava os ombros –. Me desculpa por não ter te atendido aquela hora, eu fui meio babaca...
_N-não foi.

Ela cruzou as pernas e as abraçou, frente ao corpo. Eu a olhei. Você está tão fodida nisto quanto eu, garota – pensei com pesar, as minhas pupilas admiradas. A Marina, pra variar, acertava e de repente, não fazia sentido algum não tê-la atendido. Queria tê-la ali. Queria o resultado de tudo aquilo, das brigas, das lágrimas tão indesejadas. Mas mais importante do que tudo, não queria vê-la machucada.

Aquela ânsia momentânea por solidão se dissipava em mim – era estranho. E rápido.

_Mas eu fui. E eu devia saber melhor – lamentei –, fui eu que quis tudo isso. A culpa não é sua. É-é só que, eu acho que eu precisava de... um tempo, sabe... sei lá. Hoje foi pesado.
_E-eu sei... está tudo bem.
_É... – abaixei a cabeça, deixando a fumaça fluir aos poucos.
_O Fer, ele saiu furioso – a Mia continuou, insegura –, eu não sabia o que fazer. M-mas não achei que ele ia vir pra cá, eu a-achei que ele fosse voltar. E me dizer tanta coisa que, que não disse. Foi tudo tão rápido!
_Hum. Você deu sorte então... – ri, num comentário irônico, em um tom baixo.
_Não. Q-quando você me falou que ele estava vindo aqui, eu me arrependi d-de não ter ido atrás dele, de não ter... sei lá. Eu não consegui explicar nada direito!! Ele explodiu! Não q-quis acreditar n-no que eu dizia, me xingou de tudo o que podia. Quase quebrou a-a porta na saída...
_É. Por aqui também não foi... – meu peito doía – ...fácil.
_E e-eu, eu quis vir d-depois que te liguei a primeira vez, mas a, a hora que eu saí do quarto para, sabe, para... e-eu vi q-que tinha gente em casa e... e e-eu... – a sua voz hesitava – ...não sei.

Foi então que vi o seu semblante se refrear em angústia. Incerta.

Puta merda.

_Mia.
_E-eu... não... n-não importa... – as suas mãos tremiam, ao posicioná-las sobre o rosto.
_Espera – fui tomada subitamente por uma força inexplicável, me virando na sua direção – Você acha que alguém escutou vocês?
_N-não, e-eu... – respondeu com dificuldade e eu mudei imediatamente de postura, vendo-a controlar um medo que não ousava pronunciar, num impulso de protegê-la de um processo que eu bem conhecia – ...ai, e-eu, eu não sei. E-eu...
_Mia, está tudo bem.
_Assim, q-quando... n-nós entramos no quarto, não tinha ninguém, m-mas a gente – ela se inquietava – ficou lá por tanto tempo! E a-a hora que ele descobriu, f-foi tudo muito... n-não sei, rápido e alto.
_Mas você viu alguém quando você saiu?!
_Só a luz. Do corredor, n-não estava acesa antes. E-eu... – ela se abalava, tentando não fazer grande caso, sem querer desviar o foco da conversa até então.
_Mia. Calma. Eu tenho certeza de que se alguém tivesse ouvido vocês, teria ido falar alguma coisa...
_S-sim. Eu sei. É só que e-eu não queria q-que... a-a m... minha mãe, os meus pais e-eles não são m-muito... sabe... s-se, se eles... e-eu não... p-posso, e-eu...
_Ei – segurei a sua mão, vendo-a se afligir aos poucos; tentando lhe transmitir alguma segurança, seja lá quão pouco valesse a minha palavra – calma, vai ficar tudo bem.
_E-eu... eu estou b-bem. N-não é importante, mesmo... – ela se continha, visivelmente angustiada, em alguma forma irracional de respeito pela minha briga com o Fernando, que agora pouco me importava –...e-eu n-não sei. Eu só não quero voltar para lá h-hoje, t-tudo bem?

Suspirou, sem conseguir lidar com a possibilidade.

_Está tudo bem – toquei o seu rosto e sorri.
_... – e ela sorriu de volta.
_Vamos subir, vem... A Marina tá aí – eu disse, já me levantando , a gente pode encher a cara.

25 comentários:

TekaSak disse...

Gente do Céu!

Anônimo disse...

é sacanagem deixar suas leitoras tão ansiosas pelo próximo post. quero agora!

Anônimo disse...

Aí todas enchem a cara e as três se pegam :DD a que acha q tá faltando drama kkkkkk simplesmente amanndo, mel!

Anônimo disse...

ú.ù

Anônimo disse...

Mia saindo do armário de uma vez. legal! hahahahaha...
Ai, Marina linda! A noite vai ser Mara! Rumo ao recorde de post sobre um único dia! hahahaha

Anônimo disse...

E quando a gente achava que já tinha lido todos os posts perfeitos dessa história, me chega esse...

A dor da Mia... a dor da FM... a dor do Fê... as perdas da vida...

Pathy disse...

Mia preocupada se alguém ouviu que ela tava traindo o namorado com uma MENINA?! Ok.. ¬¬

Anônimo disse...

AMAY o título. hahaha

Ianca' disse...

Coitado de todos. O drama da Mia tb é muito horrível, po. Traiu o namorado com a melhor amiga, amigA e ainda tem uma família pra encarar. COITADA, velho. E espero que o dia termine um pouco melhor do que todo o pesar que já teve. Não recordo de muitos momentos em que a Mia e a Marina habitaram um mesmo ambiente, estou enganada?
Seria pedir muito um próximo post?

Anônimo disse...

Simplismente maravilhoso. <3

francielli# disse...

Depois da tempestade uma calmaria???

Bruna disse...

Finalmente... que lindas! *.*

Anônimo disse...

Nunca fui a São Paulo e nem pretendo,mas tu consegue me levar para este pedaço de São Paulo que enxergo na visão dos personagens.Não me canso de tê dar parabéns.

Anônimo disse...

"Aí todas enchem a cara e as três se pegam" nossa gente, nao, por favor! hahahaha

Sabrina disse...

Aw, Mia :')

isa disse...

Tenho uma preguiça da Mia que vocês nem sabem. Me julguem.

Anônimo disse...

Mas que coisa bem boa, depois de 10 dias de ansiedade chegar aqui e ter não só um, mas DOIS posts, cada um mais fantástico que o outro.
Amei, amei!
Essas duas são muito fofas e você escreve muito bem, Mel.
E tô louca de pena da Mia, querida. Muita coisa pra um dia só.

Ana disse...

Awwwwn... que perfeito Mel. Favoritei esse post na minha lista de cenas favoritas do Fuckin Mia ^^


Só uma dúvida: A história não está na season finale né?

Juliana Nadu disse...

nossa gente.."as tres juntas" ???? pelamor v6 soh pensam sacanagem..rss ..acho q o momento nao eh pra sacanagem...

c' disse...

Acho que o momento nao e pra sacanagem - 2
Tem nem clima ne gente .
Mas ja quero o proximo.
Ja quero mais de Marina.

Anônimo disse...

Tadinha da Mia. Sofrendo e dizendo que não é importante... Que dó!

Anônimo disse...

Pow, me sentindo uma Mia depois desse post u,u
Serio, não é msm hr de saknagem gnt.

Gabs disse...

Na boa, me coloque nessa história, porque eu PRECISO casar com a Marina. Ela nem apareceu neste post, mas eu não comentei o que ela dá uma bronca na FM, então...
E medo agora dos pais da Mia, ao descobrirem sua opção sexual, darem uma de "Tierra del Lobos" e mandarem ela pra um convento. Sei que não vai rolar, mas me lembrei e fui obrigada a comentar sobre a série. Kkkk
No mais, como sempre, vou te parabenizar por escrever maravilhosamente bem. E te intimar que, se por acaso estiver passando na sua cabeça dar um fim a essa história interminável, eu e mais suas outras leitoras, vamos sair a protestar nas ruas, ou melhor, na frente da sua residência, obrigada. u_u
Já acompanho o blog a um tempo e comento com o mesmo nome, apesar de você provavelmente não saber quem eu sou. Haha
Ps: Esperando ansiosamente pelo próximo post.

bru disse...

Fui em sao paulo recentemente e tudo em que conseguia pensar era em todos os cantos, ruas, calçadas, avenidas e bares que já foram descritos aqui. O blog passou a ser parte importante da minha vida e de certa forma sao paulo tambem. Mel, as tuas descricoes sao lindas, nem sei explicar o que tu (indiretamente) me fez sentir nos 5 dias que passei em sao paulo... mas queria (diretamente) te agradecer por isso.

Agora, pra comentar o post, pra mim este foi o melhor. Aquele onde o peso da culpa saiu dos ombros das duas e como diria isabela taviani: na dor o sofrimento é dividido. Elas merecem a felicidade que (espero) virá.

( the girl fucking Mia ) disse...

Meninas, obrigada pelos comentários incríveis. Gabs, super acompanho os seus comentários! Eu sempre sei de todo mundo que comenta aqui e bizarramente tenho uma memória ótima para isso (e ruim para todo o resto!). Bru, que coisa mais linda! Fico muito, muito feliz que tenha lembrado do blog em São Paulo. E achei seu comentário incrível! O de todas vocês. Vocês são lindas demais (:

Obrigada mesmo!!