- »

julho 24, 2013

Lil’ troublemaker

_Não responde! – a Marina implorou, sentada no sofá da sala já madrugada adentro.

“Ela que perguntou...”, tentei me justificar. As duas riram. O Du havia abandonado o barco e ido dormir uns minutos antes. Com a presença reconfortante da minha ex-namorada – que estava sóbria –, eu e a Mia enchíamos a cara há já algum tempo, tagarelando superficialmente. Sobre tudo que não fosse o Fernando. Qualquer assunto que nos remetesse a um lugar bem distante da briga, numa espécie de realidade paralela forçada – e inerte –; sem fôlego para discutir o que nos pesara tanto nas últimas horas. O dia se estendia, prolongando-se. A Mia estava sentada no tapete da sala; eu e a Marina acomodadas no sofá, cada qual na sua – e a cidadã tatuada levemente alterada queria saber, de mim, a maior filha da putice que eu já cometera num encontro. Como se fossem poucas para lembrar, assim.

_Vai! Desembucha! Quero ver onde eu tô me metendo... – falou para mim e piscou brevemente para a Marina, as duas riram juntas.
_Ah, meu. É difícil assim! Sei lá. Teve... ah! Teve uma vez que eu surtei, SURTEI, tipo, estava comendo uma mina e saí andando, do nada. Não quis mais – dei um gole rápido na minha cerveja –. Aí voltei a pé pra casa naquele dia, larguei ela no carro com as roupas pela metade. E isso depois de ter feito ela me buscar na puta que pariu na Barra Funda e ainda ficar enrolando por horas, meu. A gente foi comer, demos um puta rolê e ela pagou tequila pra mim num bar.
_Gente...
_É, tá vendo... – a Marina alcançou minha mão no sofá, num carinho sarcástico – ...esse é o tipo de gente decente que eu namorei.
_Não, e fica pior... – eu ri – ...ainda dei puta esporro nela, as duas trêbadas também, do lado da Paulista. Fiz o maior escândalo, seis da manhã na calçada. Cheguei em casa e ainda discuti com o Fer. Eu tenho problema, cara... na boa, a garota não fez nada! Foi super de boa comigo. Eu é que sou zoada.
_Bom, pelo menos você reconhece... – a Mia achava graça, me olhando de longe ali do tapete.  
_É. Vai rindo, vai... Eu sei muito bem que você não é nenhuma santa também, cê é toda cheia de surto de ciuminho. Toda louca. Rolava umas brigas aqui no apê, Má, que, meu, faziam eu achar as minhas merdas tranqüilas.

Ela – a Mia – me encarou rindo, com as pernas cruzadas no chão, em um jeans rasgado e meio ofendida.

_Ah, ótimo – a Marina resmungou –. Já vi que vou ter que mudar de número de celular agora.

Acendi um cigarro, me ajeitando no sofá, e mandei minha ex à merda. Então ri. Ok. Talvez eu e a Mia não tivéssemos sido o melhor exemplo, até o momento, de casal bem resolvido e sem grandes atritos. A nossa relação nunca fora algo perto disso. Mas, de alguma forma, eu mantinha a confiança de que estava numa nova fase da minha vida. Uma menos dramática –desconsiderando o problema, naquele momento abafado, que eu acabara de criar com o Fernando; a Mia, em potencial, com a família; e nós, as duas, com todos os nossos amigos.

Otimismo nem sempre é uma ciência, sabe.

“Bom, bonitas, eu acho que vou indo...”, a Marina anunciou, de repente. E eu contestei – a Mia me acompanhou na reclamação. “Não dá”, a Má retrucou, “preciso ir pra casa, florzinhas, amanhã eu trabalho”. E daí, eu também... Não eram nem três da manhã ainda! Mas não teve conversa. A Marina me ajudou a levar tudo para a cozinha e, num ato de disposição incompreensível, lavou parte da louça produzida. Fiquei sentada sobre a mesa, fazendo-lhe companhia, enquanto a Mia seguia na sala. Descansando – estávamos todas cansadas. Eu podia notar o esforço da Marina em não trazer à tona o que acontecera mais cedo naquela noite, no apartamento. Então dei início ao assunto:

_Escuta... Obrigada por hoje, Má. Mesmo.
_Não! Não por isso – ela disse, enxugando as mãos num pano de prato –. Foi gostoso ficar aqui com vocês, no final das constas... – sorriu.
_É.
_Só, flor, me promete que você vai ficar bem? – pediu, se aproximando, e colocou as mãos sobre os meus joelhos dobrados – Deixa os dias passarem, vai, não vai inventar de fazer nada. Fala comigo sempre antes de, sabe...?

Acenei com a cabeça. A Marina me deu então um abraço demorado, mas eu estava embriagada demais para reclamar da boiolice. Voltamos para a sala, onde a Mia se encontrava deitada no tapete, ouvindo um CD do Arctic Monkeys. Despediram-se de longe e eu acompanhei a Marina até o elevador. Quando enfim voltei, fechei a porta atrás de mim. E apaguei as luzes. Descalcei os tênis lentamente, o tão rápido quanto o álcool me permitia, e deixei-os de lado, num canto perto da parede. Caminhei então – pude sentir o piso e o tapete felpudo sob os meus pés descalços. Até me deitar ao lado da Mia, no chão.

Sonolenta, ela me abraçou automaticamente e colocou a cabeça no meu ombro. Murmurando:

_Hey, little troublemaker... – bêbada, brincou como no último filme do Tarantino.
_Eu, né?!
_Vo-cê. Eu sou ótima, não faço essas coisas...
_Olha, eu tenho algo a dizer, sabia – olhei para ela no escuro, achando graça – em minha defesa... você também teve participação naquela merda toda, viu.
_EU?!? – ela riu – Essa é boa!
_É. Você que não lembra, mas eu te liguei aquele dia, sabia, quando voltei do encontro. Era sete da manhã.  Não lembra?
_Ligou? Eu não lembro disso. Você disse alguma coisa?
_Não. Nada direito, pelo menos. Eu tava mal, tava chorando. Não falei nada com nada, estava chapada...
_Mas chorando, por quê?!
_Ah, você me deu um fora, bem no dia anterior – ri –. Foi quando você e o Fer br... q-quando eu disse que estava apaixonada por você, a primeira vez. E aí você não disse nada.
_Hum...
_Eu fiquei puta. Nem sei direito porque saí com a menina! – continuei falando, antes que ela pudesse dizer algo – Briguei com a Marina naquele dia, também. Chamei ela pra conversar na Augusta depois que você saiu daqui e ela apareceu com a merda da ex dela, era uma babaca que eu odiava; aí falei um monte pra Marina, depois acabei caindo numa balada na Barra Funda com a Lê, fiquei muito mal. E peguei carona de volta com essa garota, nada a ver, eu tinha conhecido ela uns dias antes e pedi para ela me buscar lá. Foi uma merda atrás da outra, na boa. E no final da noite eu tava completamente alucinada, fui muito escrota com a coitada.
_Espera. Essa não é a menina do chupão, é?
_Qu...?
_N-no seu pescoço, naquele dia – ela me interrompeu, já respondendo.
_Caralho, hein! Você não lembra de uma ligação, emocionada, toda devota, mas lembra de um chupão da menina?! – eu comecei a rir – Sim, é. A própria! É ela mesma.
_Eu SA-BI-A que você tinha ficado com ela. SABIA! Velho... SÓ VOCÊ pra falar que não!!
_M-mas... E-EU NÃO TINHA MESMO! – comecei a rir e me apoiei num dos cotovelos, virando o corpo levantado em sua direção – Isso é ridículo, na boa. O dia que eu conheci a menina, ela era uma sem noção. Encanou que queria ficar comigo! E aí, num momento de vulnerabilidade – me surpreendi com a minha capacidade de articular esta palavra, ainda que embriagada –, quando eu tava brisando MUITO forte, lá na casa de uns amigos depois da balada, ela meio que me atacou. Foi ELA que me chupou. O pescoço, QUE FIQUE CLARO! – a Mia me olhou, se divertindo, como se não acreditasse em mim – É VERDADE! Eu não tive nada a ver com isso! E-eu mandei ela parar, sequer beijei a menina de volta, mano. Foi um acidente. Totalmente inocente – “aham”, ela continuava rindo da minha cara –. É sério, caralho. Quando eu te disse, lá no dia, que não tinha ficado com ela, eu realmente NÃO TINHA!! Eu só fiquei depois que você me deu um puta fora e eu nem terminei a porra do serviço!
_Você não precisa se explicar para mim...
_Não estou me exp... – suspirei – Você está fazendo eu soar como uma louca, pára.
_Foi uma pergunta simples. Eu não acho que você tem que explicar nada – ela riu e eu me diverti.
_Tá. Agora cala a boca.

*Troublemaker é, em tradução do inglês, quem cria problemas ou não presta. “Ei, pequena troublemaker” é uma frase icônica do filme Django (2012).

22 comentários:

Pathy disse...

Elas assim, até parece que vai ser tudo ~lindo~! :(

P.S.: Obrigada por escrever mesmo estando frio e sua mão quase congelando.. <3

Chris disse...

Ah que lindas <3

Anônimo disse...

Tudo tão natural entre elas <3...
Perfeito como sempre Mel,obrigada.

TekaSak disse...

<3

Anônimo disse...

QUE LINDAAAAAAAAAAAAS <3333333333333333

bru disse...

GOSTOSAS!! <3

Anônimo disse...

Gentee.. Que fofuraa.. Quero uma mia pra mim..

Sabrina disse...

Django ♥

Anônimo disse...

Perfeitas! Sem mais.

Ianca' disse...

Que clima delicinha entre elas :3
Vem tempestade aí??

Anônimo disse...

que delícia de post leve dps dessa sequencia tensa. adorei relembrar esses momentos citados! mas cara, vou te falar q essa filha da putagem q a FM mencionou é PAREO DURO com a que ela fez com a Patti, heim? Quem lembra??? hahaha... mas ok, ela tava chapada demais hoje e, como ela mesma salientou, não são poucas pra ela dar conta de lembrar assim... hahahahahaha.

arrasou, mel!

Anônimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=_4KQhsWMFzY

Flavs disse...

que coisinha mais gostosa essas duas,da vontade de entrar nas cenas as vezes <3

Anônimo disse...

esperei uma vida pra ler esses momentos...

coxiba disse...

Que lindo as duas juntas e a Marina se dando bem com a Mia *-*

Juliana Nadu disse...

Ahhhhhhhhhhh Mia♥ Nossa! que alivio esse post... gostosinho pakas... mas mesmo assim não consegui esquecer como que o Fer deve estar nesse momento! =/

ps: aiii ainda não vi Django!!!!!

Anônimo disse...

Com quem a Marina se daria mal, fala pra mim?

Anônimo disse...

Ah, que lindo, que fofas, que gostosas...que post leve e tranquilo de ler depois dos ultimos!
E elas têm TUDO a ver uma com a outra, tô amando.
Obrigada, Mel!

Anônimo disse...

Ah.. fofas! Mia ♥
Quero mais!!!

Onde eu encontro uma Mia? =/

Anônimo disse...

casal lindo.

Cris F Santana disse...

Mia.. *-*

Anônimo disse...

Sei não viu! O sentimento é q a calmaria não vai durar muito, masssssssssssssssssss estou achando lindo elas nessa sintonia, nesse carinho, nesse amor.... <3 Fato q nasceram uma p a outra!!
Vlw Mel!! De verdade...
(Mariana Curi)