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agosto 21, 2013

Umas companhias

_... – mordi a minha língua para não lhe dizer mais nada, ele não merece mais um puto de confusão na sua vida; eu era uma soma de arrependimento e desprezo por mim mesma, chorando ali, quieta.
_VAI EMBORA! SAI!! SAI DAQUI!

Ele se virou imediatamente e foi até a porta, batendo-a ao entrar em casa, com força. O que provavelmente lhe renderia outra briga com o pai – o babaca já devia estar intolerante desde que o vira voltar para casa na madrugada anterior, naquele estado. Já eu era puro ódio. Por mim mesma, por toda a situação. Caminhei pela calçada, indo para o lado oposto ao que deveria ir, me afastando do ponto que levava até a minha casa. E andei seis ou sete quarteirões pelas ruazinhas de Santo Amaro até a casa do Binho. Ele se aprontava para sair – trabalhava num bar da Augusta –, vestia um jeans largo e regata branca.

_Nossa – arregalou os olhos ao me ver ali, parada na calçada –. O que VOCÊ tá fazendo aqui?!
_Sai aí. Preciso falar contigo.

O Binho era um cara do tamanho do Fer, negro, com tatuagens até o pescoço e um coração meio mole, por quem metade da ala feminina de Santo Amaro caía de amores. Estudáramos todos juntos – como a maioria dos nossos amigos até então –, portanto morava todo mundo perto, no mesmo bairro. A casa dos meus pais ficava a algumas quadras pro outro lado da do Fer. Como o Binho entrara no último colegial, isso queria dizer que eu o conhecia já há oito anos. E dados os acontecimentos da madrugada anterior, ele sabia de antemão do que se tratava, antes mesmo de eu abrir a boca.

_Escuta, ele não quer falar contigo. Cê não vai conseguir nada – falou, abrindo o portão.
_Eu sei. Eu acabei de vir de lá, tomei um puta coça. Você acha que eu não percebi? – ri, magoada, de braços cruzados – Foi uma bosta.
_Cê tá chorando, velho? – ele observou, agora mais próximo, e se lamentou – Puta merda, que que acontece com vocês dois, mano. Qual é! Vocês são amigos!!
_Não importa agora. Eu quero saber o que rolou ontem, vai... O Benatti veio falar que você trombou com o Fernando na Augusta e...
_Como o Benatti tá sabendo??!? Aliás, é mesmo, como VOCÊ tá sabendo??!?
_Você me diz. Você que começou essa PORRA... – aumentei um pouco a voz, um tanto fora de controle das minhas emoções – Eu tava na minha trabalhando hoje e recebo uma ligação do Benatti dizendo que falou com o Lipe, que conversou com você, que falou ontem com o Fernando. Eu quero saber o que tá rolando!
_Eu não vou TE  contar, o maluco tava mais louco que o Batman. Não tava falando nada com nada. Arrumou puta confusão lá dentro e ainda me fez tomar esporro do meu chefe! Cê acha que ele tava com a cabeça no lugar? Que falou alguma coisa com sentido?! – o Binho se apoiou contra o portão, acendendo um cigarro – Ele não falou nada! Disse que cê tava morta pra ele.
_Mas ele – hesitei – te contou por que da briga?
_Não. Ficou choramingando por duas horas por sua causa e a amizade de vocês, na calçada, e o caralho a quatro e depois surtou, aí se lamentou por causa do carro que tinha arranhado, disse que o pai ia matar ele, daí falou qualquer coisa da Mia, que ia ligar pra ela, xingou todo mundo, você, eu, ela, arrumou briga com metade do bar. Sei lá. Foi puta confusão. Esse moleque me deve uma...
_E você ele, por ter espalhado essa merda! Morre aqui esse assunto, fechou?! – dei uma leve bronca, lhe tomando o cigarro para uma tragada – Não quero que cês fiquem de fofoca aí, meu, na boa. Vai foder com tudo de vez, se isso chegar no Fernando.
_Mas o que rolou afinal? Com você e ele?!
_Nada – devolvi o cigarro –. Não posso falar. É melhor assim...

Só precisava saber o quanto você sabia. Dei um toque em seu ombro, me despedindo, antes de virar a caminho do ponto. “Agüenta aí”, ele disse, “eu vou praqueles lados também, vamo junto”. Esperei por algum tempo na frente da sua casa e ele enfim apareceu, agora de jaqueta nas mãos e um boné. Caminhamos lado a lado e pegamos o ônibus, falando de tudo menos o Fernando. O Binho se encontrava em crise, formado há quase um ano e sem saber o que fazer da vida. Bem-vindo ao clube, pensei. Me senti estranha. Talvez fosse toda a briga com o Fer, as incertezas do futuro, não sei, mas me senti como se eu e todos aqueles a meu redor estivéssemos perdidos. Toda a minha porra de geração. Arranjando briga e enchendo a cara na Augusta, morando com os pais, traindo uns aos outros, sem emprego, sem sair do lugar. De um jeito ruim.

Quando descemos na Augusta já era quase onze e o Binho estava atrasado, caminhei com ele até a porta do Carniceria. E então virei a esquina mais adiante para entrar na Frei Caneca, andando o pedaço que restava até o meu prédio. Parei antes num dos botecos e comprei uma Coca de dois litros e uma empadinha. Mal comera o dia todo. Quando entrei no apartamento e acendi a luz, encontrei a Mia dormindo no sofá de pernas descobertas. A sala ainda estava um caos. Ela não acordou. Um sentimento familiar sobrepôs então aquela agonia que sentira minutos antes pela minha geração, um calor interno e brando – deixei a sacola com o refrigerante de lado, subindo junto a ela no sofá da sala. E me aconcheguei a seu lado. “Você ainda está aqui”, disse baixinho, pondo os braços ao seu redor. E ela murmurou um ruído afirmativo, meio suspirante e sonolento.

_Uh-hm. Você demorou...

20 comentários:

Anônimo disse...

ta bom, achei a Mia

Anônimo disse...

Mel fala que tem volta a Fm com o Fer
:(

Juliana Nadu disse...

A vida é foda... a gente nunca pode ter tudo... por um lado a dor de perder a amizade de toda uma vida e do outro o amor que parece sossegar o coração!! Em reposta a postagem de cima: Claro que tem volta! Amizade é isso... disso eu tenho certeza.. mas nesse momento o único remédio se chama: Tempo!

Anônimo disse...

Confesso que só li o que me interessava.. o final do post. Mia! *-*

Anônimo disse...

Aaaaawnnn q fofo

Ianca' disse...

Que nó na cabeça que ta me dando. Essa incerteza dela e de toda uma geração. Esse blog consegue entrar tanto na minha vida, mano.

Anônimo disse...

Coisa amada essas duas rsrs
Isso aí, FM que deixe de ser chata e dê TEMPO pro Fer elaborar as perdas. Depois eles se acertam. Afinal, são amigos, é assim que as coisas andam :)

Anônimo disse...

enqnt o fer voltou e encontrou nada, a FM voltou e encontrou a Mia. O mundo dá voltas. <3 (sorry, fer..)

Anônimo disse...

ai, que delícia! quero a mia me esperando no sofá da sala qnd eu chegar tbm! muito amor!

Anônimo disse...

obs: bate aqui, Binho! =/

Anônimo disse...

alias, a FM é formada em q? haha.. tem isso na história? nao me lembro!

@livia_skw disse...

Mia é a representação da Panacéia na vida da F.M., haha. Perto dela, nada fica ruim.

The disse...

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidencia... ou não.

Anônimo disse...

depois de tudo, só a mia pra acalmar um pouco as coisas. Ou nao né...

Anônimo disse...

Eu sei q é foda a situação c o Fer mas eu me derreto c essa coisa gostosa q elas tem... aiai <3
Só me resta torcer p o universo conspirar e tudo entrar no eixo sem mais muitoooo sofrimento. Quero o impossível será??
Aguardando sempre por mais Mel!! E obg viu. Mandando muitooo bem como sempre!! ;)
(Mariana Curi)

( the girl fucking Mia ) disse...

Anônimo das 20:14,

Não tem! rs Eu tenho alguns palpites pessoais, mas acho que nunca os coloquei em post algum. Vou propor a discussão lá no grupo do blog para ver o que as meninas imaginam.

Está convidada(o) a participar!
https://www.facebook.com/groups/fckmia :D

pathy disse...

Essa parada de geração aí é tensa.. Mas a Mia esperando a FM deitadinha no sofá.. Awn *----------*

Anônimo disse...

tava achando que não teria mia nesse post, ela deixamtudo sempre melhor

Cris F Santana disse...

Toda a incerteza desaparece só de a Mia estar por perto..

*--*

Anônimo disse...

Own, eu adorei esses dois ultimos posts. Nossa, abri um sorriso tão grande com apenas uma frase, no final desse "_Uh-hm. Você demorou..."
aiaiai que linda essa Mia!
Eu não imaginava que ela ainda estaria ali, esperando a fm. #AnsiosaPelosProximosPosts