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agosto 25, 2013

Waitin' every day

*Out of frequency – The Asteroids Galaxy Tour

_Você está enrolando, garota... – eu ria, olhando-a aflita naquela calçada.

A Mia balançou a cabeça para mim, usando uma das minhas regatas pretas e uns óculos escuros que eu não fazia ideia de como foram parar no meu apartamento, para começo de conversa. Ela escondia a cara destruída; o sábado amanhecera e não melhorara a nossa aparência de esfomeadas, ressacadas. “Só vai logo. Faz uma hora que estamos aqui, meu”, resmunguei, ainda rindo, e ela me ignorou, entre uma tragada nervosa e outra. Eu me divertia assistindo-a, ali. “Não faz nem vinte minutos, tá?”, ela soltou a fumaça no ar, com convicção do que dizia, e espiou por cima do ombro. Na direção do portão. “Merda”, sussurrou.

Eu me sentei no meio-fio, à espera das suas bolas. Completamente inexistentes – coragem, mulher, vai. Estávamos na frente do seu prédio. E enrolávamos. Por minha vez, ainda não contara a ela que tinha visto o Fernando na noite anterior – o que talvez fosse a minha parcela de covardia naquela história, pelo menos até então. Planejava contar. O Du nos enviara um SMS minutos antes, chamando para um festival gratuito de jazz no parque Ibirapuera. Era quase quatro da tarde já. O sol logo ia se pôr e a Mia não se movia, ali, o medo lhe tomava os olhos de maneira vergonhosa.

_Então... – comentei, agora com as costas deitadas na calçada, esparramada em Higienópolis como uma indigente – ...qual o plano? – as pessoas que passavam me encaravam, indignadas – Você se muda para o meu apartamento e nos casamos semana que vem?
_Isso, me zomba mesmo, sua trouxa... – a Mia me chutou os pés no asfalto e eu ri, ainda deitada.
_O quê? Acho muito sapatão da sua parte, eu acho ótimo...
_Sabe, você podia me dar um pouco mais de apoio... – ela ajoelhou ao meu lado na calçada, dando-me um tapa no braço; nos divertíamos – É difícil pra mim, tá? E não vou me mudar, eu só vou pegar o meu laptop! Preciso mandar algumas coisas pro meu orientador e não quero ver os meus pais tão cedo, é só até segunda. Eu já vou sair da sua vida e te deixar em paz, ok.
_Claro. E o que você vai fazer segunda? Arranjar um bom moço judeu para levar para casa?
_Aham. Valeu!
_Qual é! – eu ria, num shorts jeans e All Stars velhos – Aposto que eles nem tão aí; aliás, tenho certeza que ninguém ouviu porra nenhuma quinta. Só vai lá e pega de uma vez, vai levar cinco minutos... – me ergui, apoiando os cotovelos na calçada, e a olhei – ...vai ficar tudo bem, linda, de boa.

Sorri. Estava convencida de que todo aquele drama era algo infundado que ela inventara em sua própria cabeça – e logo descobriria, todavia, o meu equívoco. A Mia me deixou plantada no corredor, havia um pequeno “hall” até o apartamento dos pais dela – que ocupava o andar inteiro. Só por precaução, ela disse. Concordei. Cinco minutos se passaram e então dez, logo vinte. Nada dela voltar. Aproximavam-se dos trinta minutos quando enfim escutei alguma movimentação interna e o que me pareceram passos por detrás da porta. Vi a luz oscilar pela fresta no chão.

_Você não vai entrar aqui, ficar DEZ MINUTOS – tecnicamente, vinte e oito – e ir embora, ESTÁ ME OUVINDO?! – alguém gritava, pude ouvir assim que a porta entreabriu.
_É?? PORQUE NÃO LEMBRO DE PRECISAR DE PERMISSÃO PRA IR E VIR DESSA CASA! – a Mia berrou, esta era ela com certeza, de volta; ainda segurando a maçaneta mal aberta.

Merda. Aquele era o momento desconfortável em que você está prestes a presenciar uma briga entre alguém da sua idade e um integrante mais velho da família deles e não sabe o que diabos fazer com a sua cara, com a sua presença intrometida, ali. Onde porra eu me enfio? A porta enfim escancarou, conforme a Mia caminhava furiosa apartamento afora, numa troca de calça por um shorts de cintura alta, e a madeira bateu contra a parede, do lado de dentro. O seu cabelo estava preso de qualquer jeito num coque, que desfiava sobre o rosto.

_MIA! VOCÊ NÃO DÊ AS COSTAS PRA MIM! – a mãe dela gritava, agora eu a via, nitidamente irritada; e a Mia me agarrou pelo braço murmurando um “vamos”, apressada – VOLTA AQUI! VOLTA AQUI E TERMINA ESSA CONVERSA!!
_E-eu acho que, que talv... – comecei a sugerir para a Mia, hesitante, sendo arrastada corredor adiante até o elevador, no calor da emoção, quando a sua mãe me encarou. E só então me reconheceu.
_O q... o que VOCÊ está fazendo aqui? – perguntou e se enfureceu com ela – MIA! O QUE ELA ESTÁ FAZENDO AQUI?? HEIN?? VOCÊ PODE ME EXPLICAR?!?
_Foda-se... – a Mia trombou com o elevador fechado, fora do piso, e me puxou na direção contrária, ignorando a briga – ...vamos de escada! Vem.

E achou graça enfim, sorrindo, conforme descemos os primeiros degraus. A porta corta-fogo abafou a voz estridente da sua mãe. Descíamos correndo. Eu sequer sabia por que nos apressávamos assim, um degrau após o outro, em ritmo frenético como se arriscássemos ser alcançadas, pegas de alguma forma. Numa realidade delirante – que diabos. “Eu acho que ela não está nos seguindo”, comentei alto, lá pelo quarto andar. Ri, eu estava ofegante. A Mia continuou me puxando – “não para, ela é louca, vem! Vem!”. Seguimos. A porcaria daquela escada era eterna. Em que andar você mora? No 154º?? Os meus pés se sucediam com rapidez, se eu pensasse demais corria o risco de tropeçar.

O meu sedentarismo se revelava, já passado o terceiro andar. “Você sabe que eu fumo desde os doze, né?”, ri, quase morrendo, ao chegarmos ao segundo. “Quem é você, o Charlie Sheen?”, a Mia gritou, sem me esperar, agora correndo à minha frente. Recuperava o meu fôlego e prossegui, “não digo ‘regularmente’”. “Sabe o que ajuda?”, ela comentou então, de costas para mim, “não falar!”. Eu ri. Ela não diminuía o ritmo. Saltei os três últimos degraus até o trecho plano. E a alcancei a mão, puxando-a de volta. Pressionei a Mia contra a porta do primeiro andar.

_Sabe pra quê eu guardo o meu fôlego? – sorri, beijando-a na escada do prédio.

21 comentários:

Anônimo disse...

Como a Mel pode parar um post assim????
Muita maldade Melzita :C
Adoreeeei <3

Anônimo disse...

quanto tempo eu esperei para elas voltarem nesse clima uhuu, ta certo que esta tudo de cabeça pra baixo
OBRIGADA MEL

Anônimo disse...

Eeeeeeita

Anônimo disse...

Que post lindo <333 Só eu fiquei sem fôlego também? KKK

Anônimo disse...

Amando a Mia rebelde.

Anônimo disse...

"Quem é você Charlie Sheen?", podia ser a filha shiuahsuahis, adorei demais o post!

Sabrina disse...

In love pela Mia <3

Cris F Santana disse...

Isso tá tão tão tão fofo! *-*

Ianca' disse...

Achei esse post tão diferente, gostoso. Sla ><

Anônimo disse...

PEGAÇAO NA ESCADA!!!! ARRASOU!!!!

Gabs disse...

Adorei o post. >'<

Anônimo disse...

Ameiiii este post super delicinha.... Q no fundo é uma prévia da B.O. que está por vir...
Me preparando p a tempestade...
Obg Mel!! Arrasou!!
(Mariana Curi)

Juliana Nadu disse...

noooooooossa a mãe dela ouviu a briga!?!?! gente que foda!! e como a pessoa sobrevivi dias sem trocar as roupas?!!? arrghhhhtt #miacascão "só vou pegar meu laptop" hahahah

( the girl fucking Mia ) disse...

Mas ela tá com as da FM, pô. Não é esse o maior benefício de ser lésbica? rs

Anônimo disse...

roupas emprestadas!!! <3

Anônimo disse...

Genial! hahaha. <3

Anônimo disse...

"nao para, ela é louca" bela sogra hein? hahahaha

Pathy disse...

Parece aquele "amor adolescente". hahahahah <3
E que nunca teve uma "briga" com a mãe na frente da namorada?! É frustante e se torna cômico depois.. hahahahhahahahaha
Como vocês mesmas disseram, as roupas emprestadas são tuuuudo.. u_u

E o post tá tão delicinha.

Juliana Nadu disse...

hahahahah ahhhh sei lá viu!!! Eu tenho essas coisas de não dividir roupas, chinelos e principalmente calcinhas.. hahahaha ps: eu sei podem me julgar..

Anônimo disse...

Bonnie and Clyde feelings, foge FM e Mia, FOGE! <3

Anônimo disse...

Da a mia e a FM pra mim? *-*