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setembro 21, 2013

Águas passadas

Custa? Me joguei de costas contra o sofá, deitada, após a saída dos meus pais do apartamento. Faz oito anos, porra, custa pegar um livro? Ler um artigo que seja? Ir numa droga de Parada e conversar com as pessoas? Comigo?!, passei as mãos pelo rosto; a falta de conhecimento ou empenho da minha mãe em entender a minha homossexualidade me enfadava, às vezes. Me ergui novamente, alcançando o maço na mesinha de centro. E acendi um cigarro, antes de ir na direção do banheiro para ver a Mia.

_Você está realmente aí? – eu ri, encostando a porta atrás de mim.
_Eles já foram? – ela perguntou debaixo do chuveiro e eu acenei com a cabeça, olhando-a dentro do box – Eu enrolei um pouco, mas achei que ia demorar... e não queria passar de novo pelo corredor – traguei mais uma vez, observava a água deslizar pelas tatuagens da Mia –. E aí entrei. Foi tudo bem?
_Foi – menti, soltando a fumaça.
_É? Por que sua mãe não pareceu muito feliz...
_Ela pode ir à merda – segurei o cigarro na boca e comecei a tirar a calça –, você não tem que se preocupar com isso... – murmurei, descobrindo as pernas.
_Mas são seus pais, né, meu...
_E daí? – ri, com o filtro entre os lábios – Olha, eu amo eles. Mas... – apoiei o cigarro na pia, por um instante, para tirar a blusa – ...os meus pais têm a vida deles em Santo Amaro, eles não fazem parte da minha aqui, há muito tempo. Vai ficar tudo bem...
_Eu achei que eles aceitavam melhor.
_Eles aceit... – hesitei, pegando o cigarro novamente – ...é que, sei lá.
_Você vai entrar com isso? – a Mia riu, mudando rapidamente de assunto.
_Não. Vou deixar aberto um pouco... – entrei e a beijei, mantendo a mão com o cigarro porta afora; sentia o seu corpo molhado contra a minha pele, era gostoso – ...você está fria... – comentei e ela sorriu – ...essa água não está gelada demais?
_Não, não. Deixa assim. Está calor hoje...

“Tá bem”, eu ri. E ainda com o box aberto, coloquei o cigarro na boca e me abaixei, ajeitando o corpo no chão. Apoiei os pés na parede do chuveiro. Sentia a água escorrer nas minhas pernas e contra as minhas costas, deitada nos ladrilhos. A porta – emparelhada com o meu ombro – ainda permitia uma abertura longe do chuveiro para o cigarro aceso.

_Os meus pais aceitam... – retomei e tirei o filtro dos lábios, batendo as cinzas no chão seco, do lado de fora do box – A minha mãe só achou ruim por causa do Fer, na real... É que aí ela não concorda com alguma coisa e começa com umas merdas que me irritam...
_Como assim?
_Ah. É difícil explicar...

A Mia havia se sentado ao lado dos meus pés, mais adiante. O chuveiro molhava agora parte de seu corpo, das suas pernas cruzadas no chão.

_...não é que eles não aceitam. Meu pai não fala a respeito, mas também não se incomoda de me ver com meninas, o que é meio bizarro. Eu acho que forcei tanto a minha normalidade neles que eles meio que acostumaram – ri, tragando mais uma vez –. E a minha mãe é muito tranquila, ela até pergunta das minhas namoradas. Foi muito amiga da Marina, por exemplo... Mas ainda tem umas coisas que são puro preconceito, sabe. Assim, saca, de não poder ter cabelo curto, ela não gosta de nada que seja estereotipado, muito “caminhão”; e eles dão um peso diferente para os relacionamentos héteros. Nem sei se eu devia achar ruim, mas me irrita...
_Eu também acharia ruim...
_É. É que tem gente que vive coisa muito pior, sabe. E no começo eu achava que tudo bem, que eu tava levando a melhor e eu tô mesmo, só que... porra, faz quase dez anos que eu contei, mano! Às vezes eu acho que eles, no fundo, pensam que eu estou “brincando” de ser gay. Ou sei lá, que não é sério, que é tudo porralouquice...
_Velho. Se os seus pais são assim – revirou os olhos –, imagina os meus...
_Ah, linda, as pessoas te surpreendem – tentei confortá-la – sei lá, cada um reage de um jeito. E você não precisa contar, é que eu sou da linha mais “sinceridade política”.
_”Política”?! – ela riu, se inclinando nua sobre o meu corpo para dar um trago rápido.

Eu segurei o filtro para ela, com a mão ainda seca.

_É. Eu acho covardia com quem vive fora do armário e leva porrada sozinho. Sei lá. Eu não tenho uma realidade ruim, manja? Eu posso me assumir. Mesmo que signifique discutir com a minha mãe, às vezes...
_Mas você acha que não vai melhorar? – ela cruzou as pernas na frente do corpo, abraçando os joelhos.
_Já está melhor. Do que os primeiros meses, pelo menos... Com o meu pai é que foi complicado. Mas eu nunca tive uma postura de ficar “me desculpando”, sabe, por ser quem eu era e ele me respeitava por isso. E também melhora muito depois que você sai de casa... Aí eles não têm muito mais o que dizer – ri.
_E você era muito nova?
_Ah. Saí assim que arranjei um emprego melhorzinho, foi logo depois que fiz dezoito. Por isso nem fiz a faculdade inteira...
_Achei que você tinha ficado mais tempo...
_Fiquei. Eu fiz até metade do quinto semestre, mas aí o lugar que eu trampava fechou e eu fiquei sem grana. Comecei num job que pagava bem menos. Foi quando o Fer e eu começamos a morar juntos e a gente veio pra cá. Eu tinha acabado de terminar com a Marina, foi um ano dos infernos esse...
_Cara! Eu ainda não consigo imaginar vocês juntas, mano... – a Mia riu.

De repente, fazendo certo barulho com a porta, o Du entrou. Tirou o fone, surpreso, do ouvido e olhou para nós duas ali, sem roupa no chuveiro – “desculpa, não tava trancada!”. A Mia achou graça, confortavelmente escondida atrás das próprias pernas. E eu traguei uma última vez, antes de apagar o cigarro no piso frio, do lado de fora box. “Tudo bem”. Não era como se eu já não andasse pelada pelo apartamento...

_Eu juro que não estou tentando pegar vocês duas trepando, juro. Mas vocês ficam aparecendo peladas na minha frente, mano! – argumentou, com certa indignação.
_Dessa vez, a gente só está conversando... – ri, com peitos e pubianos à mostra.
_Mas vocês vão demorar ainda?
_Sei lá...
_Cheguei agora do ensaio. E mano, tá muito calor na rua, sério...
_Ah, não, vá... a gente acabou de entrar! – a Mia contestou.
_Qual é, rapidinho, depois vocês entram de novo...
_Nem a pau – recusei –. Vai tomar um ar na geladeira, abre uma cerveja...
_É rapidinho, por favor...

Ele puxou a camiseta por cima da cabeça e começou a descalçar os tênis. “Du, NÃO!”, reforcei. A Mia espalhava gotinhas de água sobre a minha barriga, escorrendo-as das pontas de seus dedos. Antes que eu pudesse me contrapor, entretanto, ele já estava arrancando shorts e cueca ao mesmo tempo. Pulei na mesma hora, me sentando às pressas. “Mano! Que diabos você está fazendo?!”. “É dois segundos...”, ele riu, quase entrando no box. “Pára! Não!”, eu e a Mia contestamos às pressas, gritando. “TÁ MUITO QUENTE LÁ FORA! É S-É-R-I-O!”, ele se divertia. “NÃO! Sai! Sai! Eu não quero ver isso!”, briguei com ele, jogando água na sua direção. A Mia ria.

_Você está expulso dessa porra de apartamento! – ameacei.
_Deixa de ser bicha, eu já vou sair...

Ele se meteu debaixo do chuveiro, completamente nu, e os respingos todos vieram na nossa direção. Eu mereço. “Deus...” – essa não era a relação que eu queria ter com o meu colega de quarto.

_Pensando bem, não tem problema... – a Mia levantou, magnífica em pele e tatuagens – ...ele é gay.
_Sério que você não vê o problema?! – olhei para cima, na direção dos dois.
_É. Eu sou gay... – ele repetiu, rindo, e colocou um dos braços ao redor dela.
_”Gay” – me levantei, tirando a sua mão de cima da Mia; agora em pé junto aos dois – Porque noutro dia tava aí, todo “viva a bissexualidade”, comendo uma ruiva no quarto. Pode ficar longe, ô sua meia-bicha!
_VOCÊ É BI?! – o queixo da Mia caiu, agora constrangida.
_Calma. Em teoria, tá mais pra 98% bicha e só uns 2% bi...

Aham. E o expulsamos do chuveiro, não obstante.

27 comentários:

Anônimo disse...

Hahahahaha muito bom

Anônimo disse...

Cara, é a segunda vez q elas tomam banho juntas e é a segunda vez q eu estranho a cena, da outra eu nao comentei nada, mas agora eu vou: gente, elas sentam/deitam no chão do box?!?!?!? hahahahahahaha... que nojiiiinho q eu tenho disso!!! acho sujo, sei la. hahahahaha.. enfim, achei curioso e fiquei pensando se é "normal" as pessoas sentarem durante o banho. hahaha

Anônimo disse...

ah, outra dia eu perguntei se a FM era formada, veio hoje a resposta. hahaha.. Só nao veio o curso que ela largou. =P

Anônimo disse...

SQHOISHOIUQSHOISQHIQSUHQUS, esse blog ta otimo! adoro esas jogadas de verde entre amigos.. rsrs

Vitória Régia disse...

HAHAHAHAHAHAHA AMEEEEI <333
tô amando esses posts com a mia <3

( the girl fucking Mia ) disse...

Anônimo das 20:27,

Na sua própria casa? :O Para mim, conversas e sexo no chuveiro são uma coisa normal. E gostosa (:

Anônimo disse...

SIM, até na minha casa! hahaha... certeza q deve ser uma delícia, mas nao consigo, gente. enfim, achei interessante. farei uma enquete com meus amigos sobre isso. hahaha

( the girl fucking Mia ) disse...

Menina, hahaha! Desencana. Sexo e bate-papo é bom no chão, em cima da mesa, no tapete... Hahahaha <3

Anônimo disse...

po me achei cheia de pudores agora, vacilo! hahahaha. e nem é o caso.. tapete e mesa checked, mas chão do box eu nunca consegui sentar! hahaha. my fault.

( the girl fucking Mia ) disse...

Falei de propósito, só pra fazer o raciocínio e ver se te convenço: não seria o chão do chuveiro mais fácil de limpar e mais limpo do que o tapete? #giveboxachance hahahaha

(Chat nos comentários!)

Anônimo disse...

hahahaha... toda trabalhada na hashtag. mas sim, de fato, é mais fácil de limpar, mas sei lá, rola um bloqueio desde a infância, qnd eu tapava o ralo e deixava encher até onde dava pra brincar de piscina [hahaha], ainda assim, eu nao sentava, era de joelhos, no maaaaximo! enfim, acho q preciso de um terapeuta pra ver isso ae.

(e vc devia me pagar comissão, pq eu sempre comento e agito isso aqui. haha)

( the girl fucking Mia ) disse...

Amo <3 agite sempre! E você é a da namorada e da cinta (comentário em um post passado)? Se for, te devo uma resposta! Respondi imensamente na época e o Blogger comeu meu comentário. Preciso voltar lá! E escrever de novo, porque adoro aquela discussão :)

Anônimo disse...

HAHAHAHAHAAHAHAHAHAHAHA. yep, that's me!!! eu acompanhei os comentários no grupo, mas nem curto mt dar as caras por lá, é raro. [terapeutaaaaa, eu disse.] devo voltar em sp mês q vem, te aviso, tu marca um mini-encontro e a gnt retoma o assunto num barzinho qlqr.

Flavs disse...

achei meio suspeito esse post, sei nao hahhaha

( the girl fucking Mia ) disse...

Demorou, vamos marcar! (E quem é você no grupo?)

Anônimo disse...

Humm... Acho q a última vez q interagi por lá foi pedindo pra vc fzr uma lista das músicas com os links dos posts. Ah, e comentei em algum sobre pelos e depilação tbm! =)
Enfim, Larissa o nome. Não assino aqui pq acho q não faz diferença, não é isso q importa, mas sempre comento pq acho legal (e pq ia gostar se o blog fosse meu).

(Essa opção "responder" devia ficar visível na versão do PC tbm, não só no cel)

Beatryz Ramos disse...

Amei e me deliciei lendo esse post, não sei porq, é só simples assim! <3

Ianca' disse...

Banhos juntas <3 Coisa linda!!!
Já tomei alguns banhos com um colega bicha que dividia apê cmg, eu sempre tomava susto quando ele entrava de repente, cara HAHAHAHA
É divertido, mas essa pitada de interesse em buceta que o du tem deve botar um pézinho atrás, é a mia, porra HAHAHAHA
Imagina se o colega de apartamento BICHA tomasse a Mia da FM agora? Que hilário? Com seus potenciais 2% de heterossexualidade.

Juliana Nadu disse...

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH adorei essa ousadia do Du!! me diverti!

Juliana Nadu disse...

GEnte!! quem já não sentou no box do banheiro!?!?!? :O

Anônimo disse...

Ah, tá. Falou a q não empresta/pega emprestado roupa, calcinha e chinelo. Hahahahahahahaha ;P

Anônimo disse...

"Meia-bicha"! Hahaha!

Anônimo disse...

Cadêêê?rs
Quero maaaaaiisss...kkkk

Céu disse...

Obrigada! Já tava me sentindo the only fresca in the world... HAHAHAHA Acho que também preciso de um terapeuta. ):

Anônimo disse...

vai ter mais post nao?

Anônimo disse...

blogueira..posta uma foto sua pra gente ver..

Anônimo disse...

Cade post novo, mel?