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setembro 07, 2013

Avante!

Ela mantinha os braços cruzados, a poucos metros de mim. Muda. Os seus olhos me evitavam, de repente. Parecia constrangida e estava, entretanto, irritada o suficiente para resistir. Sem pronunciar uma palavra. Mas que inferno! Encarava agora, introvertida, o chão; via um de seus pés alisar o cimento, sem sair do lugar, a esmo. Fiquei observando-a – a minha respiração estava pesada; aquela discussão me agitara. As pessoas passavam ao longe. Distantes de onde estávamos na ponte.

_Que seja. Escuta, eu vou cair fora... – eu me enchi – Toma todo o espaço que cê precisa para, sei lá, lidar com essa merda. O tempo que for. Não quero me impor, a vida é sua e é você quem sabe o quanto isso te afeta...

Dei de ombros. Argh. O silêncio dela me incomodava como um repetitivo disco riscado – dos meus favoritos, que não consigo passar uma droga de dia sem ouvir, infelizmente. Revirei os olhos, cansada. Mas tão logo virei as costas para ela, a Mia me contestou – “Não”. Soando arrependida. “Não vai”.  

_D-desculpa... – murmurou – ...eu não quero brigar com você, eu só, não sei. Eu só não esperava por isso hoje.
_E você acha que eu planejei? – resmunguei – Porra!
_Se acalma...
_CARA, POR QUE? POR QUE A GENTE ESTÁ TRETANDO??! – ri, nervosa – É só o que eu quero, uns dias em paz. Mas parece que isso não é possível na minha vida... Você acha que eu não sei que é uma merda? E eu realmente sinto muito que você tenha descoberto assim. Mas eu tô exausta e vocês acabaram de terminar e eu sequer sei o que é isso, o que nós duas somos! Você já voltou para ele uma vez. E eu não quero que aconteça de novo. N-não consigo lidar com isso, não agora.
_“Isso”?
_Você. O Fer, porra. Porque – me aproximei dela –, porque ontem e hoje foi sensacional, garota. E você pode ter certeza que eu vou estar lá para você, a partir agora – assegurei –, para tudo. Só não me pede para te consolar por ele... – isso não, lamentei.
_Desculpa – a Mia me olhou de volta, compreensiva –. Eu não quis te acusar e acho que não percebi a posição em... q-que te coloquei.
_Não, tudo bem, sabe. Só... me diz se você precisar de espaço ou sei lá. Que eu te dou. E se quiser ficar no apê ainda, também, eu posso dormir na sala ou no quarto do Du... sei lá... – brinquei exagerada.

A Mia achou graça. E o clima mudou.

_Ei, espera. Isso foi um sorriso? – eu sorri, em reação.
_Não. E eu não terminei o meu namoro para ficar longe de você – riu –. Agora, ok, vamos comer alguma coisa, por favor?! Você está tentando me matar de inanição.

Ri, aliviada, junto a ela – “vamos, vem!”. Saímos do parque no contra fluxo das pessoas que chegavam para o festival. E esquecemos de avisar o meninos que íamos. Compramos qualquer coisa numa barraquinha dessas em frente ao Ibirapuera, só para “enganar” o estômago. Não comêramos o dia todo. Decidimos pegar o ônibus mais adiante e jantar na Paulista, seguimos a pé na direção oposta ao trânsito, tentando fugir do congestionamento. A Mia não dizia nada. Desta vez, porém, o seu silêncio não me incomodava. Eu gostava. De caminhar ao lado dela, assim, em meio às luzes de São Paulo.

“Olha! Olha!”, apontei às pressas, ao passarmos pelo Monumento às Bandeiras. Alguém tinha subido na cabeça de um dos cavalos de pedra – que se erguem a uns dez ou quinze metros do chão. A Mia sorriu – “Como ele chegou ali?”. “Não sei”, ri. Outras três ou quatro pessoas também circulavam pela base, mais abaixo, passando em frente aos feixes de luz no escuro. “Eu nunca subi, acredita?”, ela comentou e eu mal acreditei, de fato. O quê?! Escalar o Monumento às Bandeiras era como pré-requisito aos paulistanos, uma espécie de tradição contracultural.

_Você está brincando, né?! – olhei para ela, indignada – Você nunca subiu?! Nunca? Nem na base? – ri – Nossa, eu e... – o Fer – ...o-os meus amigos praticamente não descíamos dessa porra quando a gente era adolescente. Eu já fumei tanta, tanta maconha aí.
_Bom. Você tem alguma agora? – a Mia me encarou, caminhando para trás na direção da estátua, como num convite.

E eu sorri. Não me faça propostas que não sei recusar. Fomos até o centro do balão onde fica o Monumento e só a base era duas vezes o tamanho da Mia. Ela foi na frente. E eu um pouco atrás, a observava quase sem intenção – a forma como o seu corpo se movia, as suas pernas e parte das suas tatuagens magníficas, na pele. Era como assistir pornografia em pleno Monumento às Bandeiras. De certa forma descarada. Subi também. E logo a alcancei no topo da base. Decidimos então ir até o barco, onde ela ralaria o joelho mais tarde ao descer naquele shorts jeans.

_Você sabe que vamos ficar famintas depois disso, né? – comentei, tirando um baseado do bolso, que não fumara inteiro naquela tarde e ri.

A Mia achou graça. Passei ele para ela e ela acendeu com um isqueiro meu. As nossas pernas pendiam sobre a pedra, no topo do barco. Assisti conforme ela soprava aquela fumaça branca e massiva no breu. Os meus olhos a admiravam. E ela sorriu ao notar, rindo em seguida – estava maravilhosa ali, a noite nos envolvia em uma brisa morna. Ela me devolveu, aceso. Traguei e tirei o celular do bolso da frente do meu shorts, simultaneamente. Puxei mais uma vez, desta vez em lentidão. E segurei aquilo nos pulmões. Abri então a tão abandonada câmera do meu telefone.  E soltei a fumaça.

_O que você está fazendo? – a Mia disse, subitamente constrangida.
_Não se move. Está bonita assim. Eu quero tirar uma foto sua aí...
_E vai sair alguma coisa nessa lata velha?! – ela zombou do meu aparelho, que parecia mesmo ter saído de uma loja em 1999 – Vamos tirar uma com o meu, vem. Vai ficar melhor!
_Não. Nem pensar. Eu nunca pude ter uma foto sua no meu celular, mano – ri –, me deixa!
_Tá. E eu estou bem assim? – riu.
_Não. Aqui – entreguei o baseado de volta para ela, queria fotografá-la em meio à fumaça; ela tragou, ainda achando graça, e eu logo me frustrei – Merda. Esse celular é uma porcaria mesmo!

Ela começou a rir. A foto tinha ficado um borrão.

16 comentários:

Anônimo disse...

Aaaaawwwwn! Meninas queridas e fofas de volta.
Lindo, Mel! <3

Anônimo disse...

Aiii essa cena delas no momumento vai ficar pra sempre na minha cabeça <3

Patricia Corrêa disse...

Muito amor pro meu coração, perfeitas.

Cris F Santana disse...

Preciso dizer que esse relacionamento está cada vez mais fofo?!

*---*

(suspiros)

Pathy disse...

Só a Mel pra fazer a gente ir do Céu ao inferno em menos de uma semana. HAHAHAHA

Mylena Azevedo disse...

Quando eu for pra essas bandas não posso esquecer de visitar todos esses lugares aí... <3

Anônimo disse...

Aaaaawnnnnnn <33333

Anônimo disse...

"o silêncio dela me incomodava como um repetitivo disco riscado - dos meus favoritos, que eu não consigo passar uma droga de dia sem ouvir" ADOREI!!!!

Camyla disse...

Alguém fala pra FM que tens uns celulares baratinhos pra vender, por aí.. kkkk
Tão cada vez mais lindas e eu já me rendi! Como não amar elas duas e ainda mais, nesse clima que dá vontade de viver um igual? :)
<3

Sabrina disse...

Com certeza o borrão mais lindo do universo. <333

Anônimo disse...

Opa, post em sequencia, que linda surpresa!
E graaaaaças a Deus (e a Mel, claro rs) a paz volta a reinar.
Coisa mais querida essas duas...

Anônimo disse...

Que lindas essaa duas, que lindo esse sossego <3

Anônimo disse...

Desculpa, é bom um bafão, movimenta os comentários, sacode o pessoal mas...deixa a FM e a Mia curtirem uma paz e namorarem por um tempo, deixa Mel ;)

Juliana Nadu disse...

hahahaha que delicia! Mulheres são muito complicadas, mas em compensação incrivelmente compreensivas!!! <3 aii que post delicinha!

Thays disse...

Que bom que tudo se acertou. Ela são umas fofas *____*

Anônimo disse...

Construçao do texto em si, como sempre, apaixonante! Mantenho minha expectativa d ser surpreendida pelo desfecho!
Parabens!
(Sarah)