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setembro 14, 2013

Borrões, uns sanduíches e uma ligação depois

O terceiro dia amanheceu, ela continuava ali. Comigo. Da madrugada de quinta para sexta e até aquele domingo. Numa série de dias surreais e desgastantes. A noite anterior havia sido permeada por uma extensa caminhada, do Ibirapuera até quase a Paulista. Todos os estabelecimentos estavam fechados no caminho e, nós, com uma larica descomunal. Rimos o tempo todo. Até encontrarmos uma Subway – 24 horas – nos arredores da 23 de Maio. E então nos entupimos. Chegamos no apartamento com as pernas absolutamente moídas e os estômagos estufados – e então fumamos mais, na sala, para aliviar o inchaço. Ótima ideia.

Eu li em algum lugar”, a Mia argumentava enquanto bolava um, naquela madrugada, “é verdade, meu, faz bem pra essas coisas”.

Nossas pálpebras agora pesavam toneladas. Claro. Eu tinha acordado minutos antes. E não conseguia evitar senão observá-la, assim em absoluta paz, apoiada num dos meus braços. Dormia. Estávamos completamente destruídas. E tudo o que eu conseguia acompanhar com os meus olhos – as costas da Mia estavam voltadas para mim, tinha o seu corpo contra o meu ventre – era o vagaroso e calmo movimento dos seus pulmões. O subir e descer da sua pele despida à minha frente.

Deslizava a ponta de um dos meus dedos pela sua nuca e pelo decorrer dos seus fios de cabelo, na base. Conforme ela respirava. Levemente, sobre os pelos no meu antebraço. Os sons de São Paulo infiltravam-se pela janela. Ah, morena – se eu achava que estava perdida antes, prepara que agora é que vem a porrada. O calor ensolarado da Frei espalhava-se pelo cômodo. Os lençóis amarrotados, rejeitados ao pé da cama. Esta é a primeira vez em tanto tempo, pensei, que estou feliz assim. Havia dramas pendentes, sim, mas isto. Isto era real. O meu sentimento por ela. E ela era real agora – também. Sorri.

Em silêncio, havia leveza e havia ainda peso naquele momento. Ali, ao seu lado. Queria ser suficiente. Numa ansiedade angustiante e deliciosa – de querer acelerar o tempo; de ser tudo, plenamente; protege-la da tempestade que estava por vir em sua casa, em sua vida; navegar aquelas águas. Era estranho. Os meus olhos a acompanhavam, o contorno, e a minha cabeça disparava. Deitada naquela cama, queria ser suficiente. Numa vontade de tê-la comigo. Havia algo novo – não só pesado e leve. Eu desejava genuinamente fazer-lhe bem, como poucas vezes vivenciara com uma pessoa.

Não – não que alguma vez tenha querido o mal para ninguém. Não quis. Para nenhuma das garotas com quem saí e nem mesmo a Dani, apesar das nossas brigas. Apesar de, inevitavelmente, o sermos – o mal – para outra pessoa, em algum momento de todo relacionamento. Não o quis, não deliberadamente. Mas, por outro lado, um sentimento assim tão forte na direção contrária também não me era comum. Acostumada com  protocooperação, com vezes de parasitismo. Consumia garotas não por elas, mas por mim. E em ocasiões me deixava consumir. Agora – agora era diferente. Era outra coisa. Simbiose. Sentia-me responsável por aquela garota. Pela Mia. De um jeito pleno e complicado. Completamente suscetível ao seu contentamento, ao seu coração.

Havia momentos assim – de lucidez. E eu me sentia estranha. Com medo do que estava por vir e, ao mesmo tempo, feliz. Tudo era, de repente, tão real. E está acontecendo, caralho. Pressionei os meus olhos, fechados, e foi quando o toque do meu celular cortou o silêncio. Me virei num impulso e estiquei para alcança-lo no bolso do meu jeans, largado no chão ao pé da cama, tentando evitar um escândalo maior. A Mia moveu-se, o barulho deve tê-la incomodado. Olhei para o visor e então para o horário, no relógio de cabeceira. Não eram nem onze.

_Oi? Alô, mãe?! – senti as mãos da Mia me envolverem na cintura, ainda em estado inconsciente.
_Minha filha – soava descontente –, o que acontece, hein?!?
_Hmm... – o meu raciocínio seguia lento – Eu... não entendi. Do-o que você tá falando?
_O seu porteiro não deixa a gente subir. DE NOVO. Toda vez é isso! É a mesma coisa. E você não atende o interf...

É. Porque vocês fazem isso! Aparecem do nada, revirei os olhos. Eu havia pedido especificamente, uns anos antes, para que não deixassem ninguém subir. Regra esta que era quebrada apenas pela Mia. E a Clara, ocasionalmente, no passado.

_Fala pr... ela... – ouvi, parcialmente, meu pai resmungar ao fundo – ...já d... avisado.
_E você acha que eu não falei?! – os dois começaram a discutir do outro lado da linha, me esquecendo por um instante – Quantas vezes você acha que eu já não m...
_Mãe. Mãe! – chamei, interrompendo-os – Mas onde vocês estão agora?! No prédio?!?
_É, minha filha. Onde você acha?!?

Merda. Tirei o telefone do ouvido, tapando a entrada de som com uma das mãos e acordando a Mia com a outra, às pressas. “Meus pais estão aí embaixo”, sussurrei. “O-o quê?!”, ela  tentava abrir os olhos e compreender o que estava acontecendo. “Meu pais. Eles vieram me visitar”,  tão logo expliquei ela arregalou os olhos, pulando imediatamente da cama. ”É sério isso?!?”, começou a procurar algo decente para vestir, em visível desespero e ainda meio sonolenta. “Caralho! Cadê a porra do meu shorts??”. Eu comecei a rir.

_Oi, mãe? – voltei à linha – Eu não posso encontrar vocês aí? Cês precisam subir?
_Como “precisam”?? Por que? A gente não pode subir, é isso agora?!?
_Não, não é “isso”. É só que... – a Mia me encarava com as roupas já pela metade, esperando uma confirmação se eles viriam ou não; e eu me divertia – ...eu n-não estava... esperando. E a casa tá uma bagunça, tem gente aí. Sei lá.
_Você sabe que não nos importamos com isso – jamais, só me olham como se a desorganização física de todo o ambiente refletisse o estado da minha sanidade mental –, só queremos conhecer o moço que veio morar aí, resolvemos dar uma passada. Nós queremos conversar algumas coisas com você, também.
_Mãe, o Du nem deve estar aí e e-eu realm... – me contive – ...nada, esquece. Vou interfonar aí e liberar vocês. Pera!

Desliguei o celular. Mas que porcaria, alguma coisa não tá certa. Tinha algo por trás daquilo e isso me deixou inquieta. Levantei e comecei também a me trocar, sem deixar a minha preocupação transparecer para a Mia.

_E então? Eles estão subindo?? Eu me escondo? Eu vou embora?? – a Mia me perguntou, aflita, vestindo uma das blusas que trouxe da casa dos pais – Hein? O que eu faço?!??
_Não, mano... Relaxa – eu ri – É de boa.
_Pra você! – ela riu comigo, completamente surtada – Eu não quero encontrar seus pais assim!! Tem ponta de baseado pela casa toda, a gente ainda não arrumou nada.
_Eles nem sabem quem você é, meu...
_E-e daí?! E se sua mãe lembrar de mim?? Ela já me viu uma vez aqui. E eu não q... – se olhou rapidamente no espelho – ...ah, puta merda! Eu tô um desastre, eles não podem me ver assim!
_Ei, ei. Relaxa, mano – segurei-a – Te garanto que meus pais já viram pior sair do meu quarto – brinquei –. E você está linda, não tem por que se preocupar, meu. É tranquilo. Eles não vão te encher de pergunta, não vai rolar nada. Isso não é nada oficial, eles só estão passando.
_Então é melhor eu ficar no quarto, não? Eu posso ficar no quarto?!
_Faz como quiser, Mia – eu ainda achava graça –. Eles provavelmente nem vão ficar... Mas eu preciso ir lá, preciso avisar lá embaixo. Já venho.

13 comentários:

Anônimo disse...

"Ali, ao seu lado. Queria ser suficiente.Numa ansiedade angustiante e deliciosa"
cara tu és uma puta escritora a melhor de tudo que leio.

Anônimo disse...

Cara, nada se compara ao medo de conhecer os pais da namorada, nada! Se eu fosse a Mia não saia do quarto nem que me pagassem haha

Anônimo disse...

FM linda e apaixonada *-*

Anônimo disse...

Preciso dizer muito bem escrita,envolvimento total com a história . Passei o olho por essa historia a alguns anos e essa semana me bateu uma vontade de retomar a leitura,na boa perfeito demais ><cada linha lida é imaginando a cena. parabéns,continuo acompanhando como leitora fantasma rs'

Anônimo disse...

Huuuum, delícia! FM super apaixonada, que lindinha rsrs
Adorei Mel, como disse a primeira menina, muito bem escrito!

Anônimo disse...

O post todo lindo e a FM toda apaixonada, imagino a aflição da Mia em "conhecer" os sogrões. Mas CORREEEE PRA ESCONDER AS PONTAS rs.

Ianca' disse...

Não acredito que tu parou? O que os pais dela querem? Vão dar um carro pra ela???? Velho, conversas com os pais sempre me deixam ansiosas, pq parou???????

Ianca' disse...

Desde que conheci os pais da minha namorada eu fico nessa ansiedade, não consigo nem parar de comentar, poste logo o outro, Mel

Anônimo disse...

Sou bióloga e fui ao delírio com o trecho sobre protocooperação, parasitismo e simbiose <33 Sério velho, que foda!

Ficou mt lindo esse post. Amo as duas!!

Anônimo disse...

"Era outra coisa. Simbiose." Caralho! Foda!

Nadu

Anônimo disse...

"mulher que sabe bolar é feita pra casar" hahahaha

Anônimo disse...

Estou adorando essa fase mais "leve" do relacionamento delas (apesar de ser #teamClara hahaha). Acho que é a primeira vez que as imagino juntas sem aquela sensação de fragilidade, de que tudo podia acabar por qualquer discussãozinha idiota. Parece mais sólido, mais "simbiótico", sei lá.
Está de parabéns mais uma vez, Mel, sua lynda <3

Anônimo disse...

Os pais dela vão falar sobre o Fernando, né? Acho q tem algo a ver com isso...