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setembro 19, 2013

Desvios sociais

_Mãe... – resmunguei por cima do ombro.
_Tudo bem. E-eu... – a Mia olhou para ela, um pouco constrangida – ...eu sou uma amiga, só estava... indo... no banheiro, a gente... foi num festival de jazz ontem e ficou, sabe... tarde... e eu acabei... – ela começou a se explicar e a falar demais, nervosa, eu ri – ...dormindo aqui, mas... eu já estou... indo. E, ah! Eu sou a Mia.
_Hum.

A minha mãe ficou observando-a imóvel da poltrona, com certa poker face, meio estranha, e eu quis matá-la por se comportar assim. Por favor, não faz isso comigo. Revirei os olhos, fuzilando-a em seguida com as pálpebras levemente apertadas – mas havia algo a mais. A Mia se virou para fugir para o banheiro, discretamente. E a minha mãe voltou o olhar imediatamente para o meu pai, que não acompanhava a ação toda, fora da área de visão até o corredor. Fui caminhando até a sala. Como se ele desse de ombros – mesmo sem eu conseguir vê-lo –, a minha mãe arqueou ainda mais as sobrancelhas e o encarou da poltrona. Ouvi a porta do banheiro se trancar ao fundo. Quando cheguei ao fim do corredor, notei um clima estranho.

_O que foi?! – questionei.
_Eu sei lá... – meu pai deu com as mãos para cima e riu – fala com a sua mãe, não entendi nada do que ela quis dizer com isso – fez um gesto engraçado, imitando sua expressão corporal.
_Mãe?
_Eu conheço ela, filha.
_A Mia?
_Sim, “a Mia”. Ela é namorada do Fer. Não é? – me encarou, em tom de bronca; e tecnicamente, elaera” – É a namorada do Fernando, bem – explicou em voz alta ao meu pai –, saindo do quarto da sua filha. Aquela era a namorada do Fernando.
_Mãe, não é assim. E eu sei o que você está tentando implicar, mas não é assim.
_Não?! Você quer me contar agora por que vocês brigaram? – soava irritada.
_Por favor, não começa com isso – respondi, séria.
_Eu não te criei assim – começou então, claro, o sermão –, não para fazer isso! Você pode achar que isso não importa, que não tem problema, que é uma vez só e sei lá, talvez você não veja mesmo como um problema, mas eu vejo. Não está certo. Não está nada certo. Você até pode ir lá, sabe, fazer as suas coisas, o que for... – ser sapatão? – mas não assim. Não desse jeito, você entendeu?! – me recriminava – Não com a namorada dos outros, do seu amigo. Seu amigo, filha!
_As “minhas coisas”, o que é isso?! Os meus relacionamentos, de repente, são uma “coisa” que eu “faço”?? – eu me irritava toda vez que a minha mãe vinha com meias palavras para falar da minha sexualidade – É assim??! E escuta, isso não tem nada a ver com vocês. Eu não pedi a sua opinião, isso não é da sua conta. Você está presumindo uma coisa e já está vindo para me atacar, me julgar, sem nem tentar entender.
_Entender? E depois vocês reclamam que ficam estereotipados. Eu não vou falar mais nada, mas você saiba que eu não concordo. Não concordo nada com isso.
_”Isso” não é tão simples... – revirei os olhos – você vai me escutar ou não?!
_Meu bem, vamos indo, vai... – meu pai pediu, nos apartando; começava a acalorar.
_”Não é tão simples”? O que poderia ter a mais de explicação, minha filha?! – discutíamos – Ele é seu amigo. Seu amigo! Eu vi o Fernando crescer dentro da nossa casa, você acha que tem mais alguma coisa para explicar? Como você vai e dorme – disse a palavra baixo – com ela? Faz a menina virar..., sabe?! O que que é isso agora?!
_Deus do céu – me irritei –, você pode pelo menos FINGIR que nós temos sentimentos?
_”Sentimentos”?
_É, mãe, sentimentos – eu me esforçava para impedir que a minha voz subisse e chegasse ao banheiro –. Lésbicas sentem, sabia? Amor, raiva, culpa, tudo isso que vocês sentem também. E eu não “dormi” com a Mia. Não é tão simples! – repeti.
_O quê? Você vai me dizer agora que vocês namoram? Você e a namorada, heterossexual, do seu amigo? – riu, sendo irônica.
_Não, mãe. Nós não namoramos, mas isso não q... – olhei para ela, suspirando – Não importa. Quer saber? Cara, você... Você consegue cogitar o fato de que, talvez, a felicidade da sua filha esteja atrelada a essa garota? E a felicidade dela a mim? Você consegue entender isso?! Hein, que pode ser um pouco mais complexo do que isso? Do eu dormindo, uma vez, com a “namorada heterossexual” do meu amigo? Que a gente também se apaixona, às vezes?!
_Eu sei que vocês se apaixonam, eu não quis implicar que... – hesitou – ...mas, mas só por isso não quer dizer que está certo! Que você pode agir assim, desse jeito.
_Não. E não está certo mesmo. Mas eu esperava um esforço um pouco maior, pelo menos da minha mãe – enfatizei –, para tentar entender o que a filha dela está passando. Sabe, antes de sair me atacando como se eu fosse a pior pessoa do planeta. Você não quer nem me ouvir!

A minha mãe revirou os olhos, como se ofendida.

_Ok. Nós vamos embora... – o meu pai interferiu, com a voz calma – ...e vocês logo esquecem isso, vão almoçar juntas amanhã, algo assim, tá bem? Chega. Não tem nada para discutir aqui, nós só viemos ver se estava tudo bem e está, então nós vamos embora.

O meu pai fazia a linha vamos ignorar o elefante rosa arco-íris no meio da sala.

8 comentários:

Ianca' disse...

Eita porra. Agora os pais dela sabem, veeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei.
Que intenso, nossa, fiquei vibrante aqui

Santa Pose disse...

O pai da FM eh o meu pai todinho hahaha ignora o problema que uma hora ele some kkkk

Pathy disse...

Mas gente, mãe são todas iguais. :/
e o pai faz a egípcia hahahaha
Isso vai ficar ainda pior :(

LU disse...

Q coisa! :/

Um mundo lindo colorido com as cores do arco-iris, sem mães, pais, amigos incompreensíveis, só a galera... Nem na ficção, mano?! ;)

Q calvário! :/

Eu achei q essa (familia da FM) ia ser fácil, imagina a da Mia!?! Oo

Aliás, já num tá na hora da FM ter um nome??? Essa briga era a típica q a mãe chamaria a filha pelo nome, prenome, sobrenome, terceira geração, toda a genesis da familia ia aparecer pra execrar a pobre! kkkk

Anyway, Mel, vc faz esse blog caminhar de uma forma super legal - quero dizer o blog é legal, a situação da FM por outro lado....





Anônimo disse...

Ahhhh não vamos generalizar,eu sou mae e sou legal ;)))
Vai da cabeça de cada um,a mae da FM lembra MUITO a minha mãe rsrsrs
Fico imaginando a familia da Mia,me da ate um aperto no peito ://
Mel como sempre o blog esta muito foda :D
Parabens!!!!

Anônimo disse...

CERTEZA que a Mia ouviu a porra toda! ansiosa pelo próximo, onde elas duas conversam! ;)

Dea disse...

vontadinha de estapear a cara da mãe da FM que é uma beleza.

Anônimo disse...

Como não apaixonar nisso? Na Mia na f.m no amor delas...