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setembro 03, 2013

Nostalgia, gays e jazz

Aquele beijo – aquilo ainda era um beijo? – nos tomou mais tempo do que o antecipado. Eu me afundava em seus cabelos e na pele do pescoço dela, enquanto o seu coque desmoronava contra o batente do primeiro andar. E as minhas mãos procuravam desastrosamente tirar o tecido preto da sua – minha? – regata de dentro daqueles recém vestidos shorts jeans e aquela cintura alta maldita; e impossível. Como você enfiou isso aqui?, pensei, frustrada. E emendei um comentário, rindo, entre beijos, voltando os meus olhos e esforços rapidamente à sua cintura – “Quão longa pode ser essa porra dessa blusa?”. A Mia achou graça. Resmungou: “Sei lá. É sua!” e tornou a me beijar. Os seus dedos me agarravam pela camiseta e me puxavam em sua direção – era como um flashback de dois anos antes. Houve um tempo em que gastávamos nossos tecidos e bocas em beijos intermináveis. Nuns amassos adolescentes. Ela me contestou – “você não pode tirar a minha blusa aqui”, ria e eu seguia beijando-a, “não?”, perguntei entre fôlegos. “É dia ainda!”. Ela colocou os braços sobre os meus ombros, me abraçando. Eu a agarrava pela cintura – vorazmente. “Eu só quero sentir a sua pele”, justificava. E pressionava novamente os meus lábios nos seus. A Mia era mais minha naquela escada do que jamais fora, em todo aquele tempo juntas. E – ah, garota –, eu espero mesmo que você fique.

Já escurecia. Quando chegamos ao Ibirapuera, para o festival, as redondezas estavam completamente congestionadas. Sentamos num ônibus por uma eternidade. Conversávamos e por ora não notávamos a possibilidade de ir a pé pelo trecho restante. A Mia segurou a minha mão e sorriu – “foi engraçado hoje”. Eu a observei, ali pensante ao meu lado. E então olhei pela janela, dispersando os meus próprios pensamentos por um instante. E me ocorreu – “Ela sabe, sua mãe?”. “Não”. Voltei o rosto ao escutar a resposta e antes que eu pudesse, todavia, questionar por que portanto discutiram, ela continuou. “Não com certeza, mas acho que suspeita”. E “tudo bem”? A encarei, um tanto confusa. “Ela está inquieta com o fim do namoro, fez todo tipo de pergunta”. A Mia abaixou os olhos, de repente melancólica, afrouxando inconscientemente os dedos entre os meus. O pensar dela no Fernando me dava pânico – houve outros momentos assim naqueles dias, mas eu tentava não interferir. Era difícil.

_Hum. E por que ela me odeia, então? – forcei uma graça, distraindo-a, estávamos num dos bancos ao fundo.
_Ah! Ela nunca foi com a sua cara...
_Está vendo?! Isso não é JUSTO!
_Não, é?! – ela me olhou, convencida de que eu era um motivo ambulante para que pais não gostassem de mim, e eu ri – No que diz respeito à minha mãe, bom, você é a garota que me descabelou e me deixou completamente suada numa madrugada na sala de casa. Depois ainda voltou e deixou entrar fumaça na preciosa sala dela.
_Ei! Você fumou aquele cigarro comigo!
_Mas ela não sabe disso... – a Mia riu, também.

Mordi a boca, achando graça e encarando-a, sem acreditar em tamanha cara de pau. Não ajudava em nada. Nossa. Parece que faz, meu, mil anos. Sequer lembrava do flagra na primeira noite em que fui no seu apartamento. Éramos pessoas completamente diferentes. Eu não conseguia tirar os olhos de você, garota; ficava ali deslumbrada, pescando por qualquer sinal, qualquer frase que sua boca dissesse e validasse a minha completa obsessão infiel, desleal. A minha submissão às suas aventuras e incertezas. E você – ah, você adorava. O assunto abria caminhos deliciosos em minha memória adormecida. O cigarro na sacada, na segunda vez; o banheiro ao fundo, o outro cigarro numa janela mal iluminada. E depois disso, ficou sério. Ficou pesado. Mas de alguma forma passara – passara? Observei de repente onde estávamos, havia uma massa de pedestres caminhando na calçada, indicando a proximidade do parque. Sugeri que saíssemos também.

_Mas você – a Mia me perguntou ao saltar do ônibus, com sarcasmo – faz esse sucesso absurdo com todas mães, eu imagino?
_Olha, é até que dividido, algumas gostam de mim. Geralmente aquelas que a filha é pior ainda – eu ri.
_Hum. Tipo a Dani?
_É. A Dani é uma delas... – a observei, chegando à calçada – tá espertinha você, hein?
_Eu detestava ela. Sério. Você ainda me faz a menina ficar uma semana naquele apartamento! Só consigo lembrar do Fê me contando um dia na sala, animado, como você tinha dormido com ela e outra garota, no quarto do lado do nosso – você sabe disso?? –, e eu não sabia se odiava mais você; ou ele, pela empolgação toda. Queria morrer, na boa. Fiquei tão feliz quando ela foi embora, nossa!
_Você odiava todo mundo... – zombei – ...e mano, como TODA VEZ a gente acaba falando do MEU passado? A gente devia falar das suas más escolhas, pra variar. Que tal?
_Eu sou mais nova, fiz menos merda do que você – piscou então, para mim.
_Não tão mais nova e eu tenho certeza que em algum momento já rolou algo desprezível com algum namorado babaca de colégio ou um cara de banda escroto, desses que toca na Augusta e se acha o Deus da porra toda só porque tem três minas perdedoras que aparecem em todo maldito show.
_É. Talvez o segundo – ela riu, admitindo –. Era um babaca, ele me traía loucamente; tratava como um nada na frente dos outros. O Fê trombou com ele uma vez no Manifesto, os dois já se conheciam; ficou inventando desculpa a noite inteira para ir lá arranjar briga.  
_Eu conheço?
_Não sei, pode ser...
_Tá, isso foi uma péssima ideia – maldito ovo de Augusta! –. Eu não quero saber.
_Pois é... – ela achou graça e concordou – E acho que pessoas como nós tendem a escolher bem mal mesmo, a cena já é predestinada ao fracasso. Por outro lado, não consigo imaginar como diabos você namorou a Marina.
_Bem-vinda ao clube. Você não está sozinha... ninguém entendia.
_Ela é um amor. Queria ter conhecido direito antes, ela não tem medo de falar de você.
_É, não sei se concordo muito com essa amizade aí, não... – ri – Espera.

O meu celular começara a vibrar. Tirei o telefone do bolso e atendi, era o Gui. “PIRANHA, CADÊ VOCÊ?” – ele gritou no meu ouvido, competindo com o som alto. Expliquei que estava chegando; ele estava com o Du e outros amigos invariavelmente gays e lindos, segundo o Gui, afastados do palco. Do lado esquerdo. “Ok”. Entramos no parque e o Ibirapuera estava realmente charmoso, com luzes penduradas nas árvores e um misto de pessoas descoladas, claramente fãs de jazz. O som rolava ensurdecedor no palco – rápido e entusiasmado. Demoramos algum tempo para encontra-los na multidão.

_Oh, my! Você é mais gostosa do que eu lembrava... – o Gui fez um escândalo na direção da Mia, quando nos viu, e ela começou a rir – ...mas você está um caco, credo. Que diabos aconteceu com você, mulher?
_Eu tô cansada... – respondi.
_É. De tanto comer essa daí, isso sim... – o Du resmungou, gatíssimo, de jaqueta com uma bermuda jeans e um par de coturnos de cano médio – ...eu entro na sala ontem e tão as duas mandando ver no chão, o som no último, porra!

Obrigada pela discrição.

_Sério. Foi traumático.
_É, né. Ô Mia – eu disse, bem alto –, eu já te contei que o Du queria comer o Fernando?!
_O-o quê?! – ela quase engasgou no próprio riso, gargalhando.
_Não. Não foi assim. Você não está contando direito! Ele que ficou sensualizando na minha frente, sem camiseta. Nada disso é culpa minha. E de qualquer forma, agora eu acho ele um merda. Foi só uma vez...
_”Só uma vez”, mas você me perguntou, nessas exatas palavras, se ele “dava o cu”.
_Ok. Pausa. Podemos voltar a você de quatro no chão da sala, por favor?
_Hum, logo você, de quatro... – o Gui me cutucou.
_Não – murchei os olhos em sua direção –, não DESSE jeito. Eu estava EM CIMA dela.
_Isso. Conta mesmo! – a Mia me bateu na cabeça – Vai!
_Quê? Você sequer SABE o que ele está sugerindo?!
_Dica: – o Gui disse, imprestável – envolve uma cinta e alguns centímetros de dilação.
_Ah! – a Mia arregalou os olhos e então refletiu, virando-se para mim – E a gente pode arranjar uma dessas?
_Deus do céu... – suspirei – ...e vocês nem beberam ainda.

21 comentários:

Camyla disse...

kkkkkkkkkkk "E a gente pode arranjar uma dessas?". Mia safadinha :3
Tá, eu sou fã da Clara, mas essas duas tão cada vez mais lindas juntas ><

Anônimo disse...

HAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAHA... Mia vai colocar a FM de quatro e mandar ver!

PinkPrincess disse...

O post está fantástico, pude me sentir lá, junto da galera, conversando e sorrindo!

Anônimo disse...

Eu também me senti lá, morri de rir aqui! Esse blog é muito amor, gente! <3

Anônimo disse...

Como faz com essas duas lindas?

Anônimo disse...

HAUAHUAHU PQP! Muito bom. Amo essas duas!!! Mia <3

Cris F Santana disse...

Eu já disse o quanto eu estou curtindo essa relação namoradinhas dela com a Mia?! *----*
#TeamMia

ps. Mel.. Eu levanto as 5h pra trabalhar e você me faz um post no meio da madrugada e eu tenho que parar e ler antes de dormir?! =x #maldade

Anônimo disse...

AAAAHHHH, QUE LINDAS!!!

E o post nem tá tão longo assim. rum. QUERO MAIS!

Patricia Corrêa disse...

"E a gente pode arranjar uma dessas" Como não amar a Mia? Hahahaha

Anônimo disse...

HAHAH, mia está levando tão bem, apesar de todo o ocorrido. Adorando!

Mylena Azevedo disse...

Eu to apaixonada e o pior é que não sei por qual das duas. ^^

Pathy disse...

Devo confessar que elas nesse clima de namoradas está tão lindo <3
Cara como eu amo as bixas, falam e não ficam nem um pouco de vergonha. HAHAHHAHAHAHAHHAA e a Mia, safadinha! <3

P.S.: Eu me senti no meio desses loucos aí. hahaha

Anônimo disse...

Obrigada Melissa
Eu morrendo de rir e fazendo cara de safada em plena linha vermelha lotada. Foi demais esse post

Juliana Nadu disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk que deliiiiiiiiiiiiiiiiicia de post!!! Aiii como eu adoro esss viados meu!!!!!

"Hum, logo você, de quatro..." qhahahahhaahahaha o Gui é foda!!

Anônimo disse...

HAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHA MUITO BOM!!! E que vibe boa!!

Ianca' disse...

Me sentindo amiga deles >< aff que lindos!
Bando de salientes hahahahaha
Obg Melzita <3

Anônimo disse...

post delicioso Mel <33,rindo muito no último parágraf..AMOOO esse blog demaais :DDD

Anônimo disse...

HAUAHUAHAUAHUA "de quatro, vadia"

Thays disse...

Ia amar ver isso (;

Anônimo disse...

Delícia, delícia, delícia de post!
Obrigada Mel, estou amando essas duas. Depois daquele stress todo com Fer, vamos curtir uns dia (meses, anos? rsrs)de paz e namoro das duas? Please? :)
#TeamMia

Anônimo disse...

Team Mia desde sempre! Muito amor! Hahaha