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outubro 25, 2013

A ilha

As paredes me espremiam ali, agachada num banheiro sujo. As costas contra a porta da cabine. Mas que porra – cerrava os olhos com força e os abria, caralho. Atordoada. Olhava então para os ladrilhos, embriagada; e o vaso e todos aqueles papeis empilhados sobre a lata, largados, molhados no piso. Num escuro que me forçava a vista. Naquela meia luz de merda. Sentia o espaço ao meu redor ser devorado. Cada vez mais. E mais. Por uma crescente ansiedade. O desespero de existir e machuca-lo. E aquilo ia me apertando. Comprimindo cada célula minha. A minha garganta; a minha visão; os meus olhos, físicos, em si. Esmagando meus pulmões. Inferno! Tentava focar na minha respiração. Numa tentativa estúpida de qualquer controle – do ar, pelo menos do ar, mano, que metia corpo adentro, que expirava. E inspirava. Repetidas vezes. Mas o cheiro de mijo impregnava em mim; a imundice das noites paulistanas. E aí me subia uma vontade engasgada de vomitar. Eu sou uma porra de um gênio mesmo. Revirava os olhos. E pressionava o rosto contra as mãos, suando frio ali dentro. É. Seria engraçado se não fosse trágico – todo aquele meu relacionamento recorrente com banheiros e pisos sujos de balada; e a situação de merda, o tempo todo, com quem realmente importava na minha vida. Seja quem fosse.

Empurrei a parte detrás da cabeça contra a porta, me preparando psicologicamente para levantar. Conformada. Não devia ter bebido. Nem fumado. Uns. Não devia ter feito nenhum dos dois. E não devia ter aberto a porra do celular. Sério. Que merda eu tava pensando? – me ergui do chão, um tanto cambaleante. E me inclinei sobre a privada, velha de guerra. Teria metido os dedos goela adentro, para ver se me livrava de parte daquele veneno voluntário, mas não conseguia me lembrar se colocara ou não a mão no chão. Argh. Que se dane – deixa pra lá. Resolvi sair. Com o pouco de consciência que me restava. Sem arriscar ou forçar porcaria alguma para fora de mim. Mantive tudo em minhas veias. E destranquei a porta da cabine. Apoiei a testa contra ela por um instante, antes de sair, e tirei o celular do bolso.

ler o nome do Fer na tela já me fazia contorcer. De culpa. De raiva. De, sei lá. Era horrível saber que o feria. Digitei o melhor que meus dedos alcoolizados conseguiam – “eu amo ela,) e amo vc. tanto porra. E ñ qria q fosse essa merda,ñ sei q fazr fer.” e enviei, sem pensar a respeito. Saí. Lavei as mãos e o rosto; e me livrei daquilo. Foda-se. Estava pronta para a segunda fase de todos os meus surtos emocionais e babacas – a raiva. A absoluta falta de bom senso. De comedimento. Às vezes passava tanto tempo me dilacerando internamente e tentando recuperar o fôlego, em banheiros fechados, minúsculos e porcos, que tudo o que precisava depois era expirar, soltar todo o ar que acumulara. A decência (pouca) de dentro de mim. Eliminar qualquer boa moral. Comer quem viesse pela minha frente. Gritar. Dançar. Encher a cara, fazer merda. E era imaturo, que se dane, eu não ligava. Não era pensado, nem refletido. Era visceral. Uma vontade física. E muito real. Desviei de uns e de outros, sem cautela. Corria os meus olhos agora pelo aglomerado de pessoas no Emme. Cadê a porra da Mia?

_Vem – puxei então ela pelo pulso, assim que trombei com aqueles fios desalinhados morenos, dançando imprestáveis entre a multidão e toda suada. O Du e o Gui agora se agarravam em uma decisão passível de arrependimentos. A mão do segundo sobre, é, do primeiro. Sem sinal do promoter. Estava abafado e barulhento na pista – Vamos.

Cortamos caminho entre desconhecidos; atordoadas e, eu, sem paciência. A Mia trançava as pernas naqueles shorts indecorosos, dos quais suas tatuagens arriscavam despontar. Descendo pelas suas coxas em traços magníficos. Me debrucei sobre o caixa. “Nós estamos indo embora?”, ela riu. Não lhe contara sobre a mensagem. E nem pretendia. Pra quê? Até onde ela sabia eu apenas me metera no banheiro por tempo demais. Ficaria assim – ou assim decidira a minha bebedeira, por ora. Pagamos sem resmungar. Uma hora de balada não nos dera oportunidade de gastar tanto assim. Meia garrafa de vodka na fila menos ainda. Eu só queria dar o fora – para longe do Igor e para o mais perto possível, uhm, dela. Sentia uma irracionalidade violenta.

Saímos para a calçada. Completamente bêbadas e chapadas. Não havia um pingo de bom senso na forma como aqueles caras conduziam os “esquentas” no meu apartamento. Algumas pessoas fumavam, ali, detrás de uma grade – em uma espécie de zoológico humano, boêmio. O som que vinha da outra esquina era intolerável. Bar de playboy. Atravessamos a rua, a avenida logo em frente. E eu andei, encarando o fluxo de carros. Acendi um cigarro, agora segurando-a pela mão. Nenhum maldito parava para nós. A Mia se divertia com o meu surto, “a gente sequer consegue pegar um táxi?”. “Eu tenho dinheiro”. Era melhor do que andar até a Augusta e ser assaltada, pensei. Mas nem um puto passava – e eu não tinha calma, os meus pés caminhavam incessantes. Nada. O coração acelerado. Não consegui esperar nem cinco minutos.

_Isso! Vão à merda! – gritei, bêbada; para o nada, para os carros na rua – Isso é São Paulo, CARALHO?! NÃO TEM UMA PORRA DE UM TÁXI, MEU??! São duas da manhã... DUAS!!
_Cala a boca, sua louca... – a Mia ria, tão inconsequente quanto eu, e eu a puxei.
_Quer saber... que se dane!

Me seguiu por uma das ruazinhas perpendiculares. Joguei o cigarro ainda aceso no asfalto e a encostei contra um muro. De cimento, sem sutilezas. As suas mãos me encontraram quase simultaneamente. Com avidez. Me puxava pela cintura, por debaixo da camiseta. E eu a segurava de volta, num beijo sem precedentes. De tão absurdo, tão intenso. Eu estava fora da minha sanidade. E descontava nela. Que se contorcia. Sorriu para mim, em meios sorrisos, entre um beijo e outro; o calor distribuía-se. Entre nós. O seu corpo pressionava a pele dos meus dedos contra a superfície áspera do muro – o cimento lascado me fazia pequenas ondulações ardidas, conforme as minhas mãos tomavam os seus braços. E nos agarrávamos, numa atração passivo-agressiva; eu contra ela e vice-versa. Num impulso; irracionais. Naquele jogo que jogávamos tão bem. Quis consumi-la. Inteira. E não por ser ela, mas por ser agoraentende? Na minha mente fazia sentido.

Os carros passavam ruidosos ao fundo. Escondidas numa viela largada de Pinheiros. Eu a beijava. A minha consciência escapava por entre os meus dedos, preenchidos com a sua pele e o seu gosto e a forma como se movia. Poderia ter sido qualquer uma. Mas era ela. E ela me procurava, acariciava a linha do meu maxilar com o seu toque, a sua boca. Me segurando o corpo. Com vontade. “Eu memorizei todas”, murmurou de repente. “Todas as vezes que você disse ‘vem’ – para mim”, ela falou no meu ouvido e me beijou a lateral do pescoço, lentamente os ombros. Me provocando. A sua língua descia, lasciva. E me tocou então a pele, com a sua, pressionando por um instante o rosto contra o meu colo aberto. Como se parasse, num peso involuntário. E sussurrou: “E eu fui”. Toda vez. Ela sentia o meu coração bater.

Ali. Ele desacelerou. De tudo. Por qualquer motivo que fosse. Da raiva que sentira minutos antes, de toda a adrenalina. Garota, se você soubesse – a observei. Agora com um carinho devastador. Ela tinha os olhos castanhos suavemente fechados; deslizei os meus lábios nos seus, erguendo o seu queixo. E a olhei em lassidão. A luz amarelada da rua delineava agora os seus contornos delicados. Magnífica. Se soubesse, garota; que sou eu quem te segue. Aonde você for.

33 comentários:

Anônimo disse...

Q fofas!! Eu AMO os posts trashs!

Anônimo disse...

Ah.. aí sim! Se desligue do mundo e de quem te faz mal, por mais que o motivo dessa pessoa te fazer mal seja você mesmo. Um dia passa (ou não)! Que seja.. Viva o momento e vida que segue. Amo as duas!

Pathy disse...

a mensagem que ela mandou foi a coisa mais maravilhosa do post!!!!!!
Não que pegar a Mia não tenha sido, é só que ela se posicionou (?)..
Vai FM, vai ser feliz mulher! <3

Anônimo disse...

Elas sao tao lindas juntas ! E a FM fica tao fofa quando faz essas declaraçoes mesmo q silenciosas !

Bárbara Batista

Anônimo disse...

Já perdi as contas de tds os posts q comentei "Esse foi o melhor!". Então, vou dizer q este é um dos melhores. Demais! E elas, lindas!

Rachel disse...

Uaauuuu.... nossa... me identifiquei muuuuito com os dois primeiros paragrafos. E com o penultimo! Pqp..... que nostalgia!
Hoje to praticamente casada, mto feliz na minha relacao.... espero que a FM chegue nisso um dia...rs. e com a Mia, obvio!
#chegadebanheirossujoseporcos!

Anônimo disse...

Mel, eu nao consegui entender o titulo do post em meio ao contexto dele. Ficaria muito grata se voce pudesse explicar um pouco :D

( the girl fucking Mia ) disse...

Oi flor,

Tem a ver com a forma como a F.M. lida com as frustrações dela e com como ela reage. Primeiro se isolando fisicamente no banheiro e depois emocionalmente (esta é a ilha), porque não estava conectada com a Mia no começo dos amassos no muro. Ela só queria se jogar em alguma coisa e ela mesma reconhece que poderia ter sido qualquer garota. Mas a Mia a "puxa" pra perto dela no final! <3

E também tem a ver com o próximo post, vocês vão ver... ("As Ilhas")

Obrigada por comentar! Aliás, todas vocês, suas lindas (:

Anônimo disse...

Aaawnnn q post lindo. Tonara q o próximo n demore mto

Anônimo disse...

chorando emocionada aqui, por favor hahahaha

Ianca' disse...

Achei o fim tão lindo que tô chorando(?) Aff, lindas demais. Vou casar com as duas só pra ficar olhando hahahahahaha

Anônimo disse...

To chorando aqui ???? Hahah que final perfeito, elas são muito amorzinho juntas, coisa mais linda!
A mensagem da FM pro Fer tbm achei demais.
Não demora com o proximo hein Mel <3 hahah

Patricia Corrêa disse...

Amor define, quero mais por favor.

Anônimo disse...

Cara... Parabéns! Post de tirar o fôlego! Sem duvida, ja um dos meus preferidos... Vivo renovando essa opinião, rs.

Muito bacana o movimento da historia, especialmente nessa situação: enquanto a FM descontava as aflicões de tudo nela, numa vontade que parecia pressa em justificar os proprios motivos, a Mia resgata tooooda uma historia bem particular delas, relembra o sentimento que existe e tira mesmo a razão de tudo. Nem precisa mais de respostas. Lindo! Adoro seu ponto de vista e o modo como conduz as personagens, tão completas. Espero que cê tenha mais tenho livre pra escrever bastaaante (:

bjo

Mylena Azevedo disse...

Acho digno um segundo post hoje, que é para acabar de vez com meu coração.

Anônimo disse...

Q post lindo! Sensacional. Muito, muito foda! Tudo. Toda a construção e o rumo q tomou. Amei. As personagens são maravilhosas, a intensidade q passam, com q vivem... É muito gostoso de ler. Adorei o comentário da amiga das 17h. Bem isso msm. =)

Cris F Santana disse...

Tão delícia esse casal gente?!
*-*

(voltando só pra comentar a postagem que li "escondida" no trabalho xD)

Di disse...

Adorei o rumo do post.
Elas são umas fofas.

Parabéns, Mel.

Anônimo disse...

Nossa Mel <3

Anônimo disse...

Eu amo ver essa paz q a FM encontra na Mia!! Por mais problemático e louco que seja o que elas vivem.. e elas por sua vez...
Nesse post ficou tão explícito a entrega espontânea... incontrolável.. #aiai
É por essas e outras que sou #TeamMia até o fim!!
Você é genial Mel!! Obrigada de verdade!! Vou dormir sorrindo!!
(Mari Curi)

Anônimo disse...

Me lembrou...

"No man is an island,
Entire of itself,
Every man is a piece of the continent,
A part of the main."

Anônimo disse...

:~ <3

Juliana Nadu disse...

AI ai ai ai #TeamMia <3

Anônimo disse...

Que post mais lindo, Mel!AMO essas duas, estou adorando a Mia finalmente decidindo o que quer e se jogando.
#TeamMia!<3 <3

Gabi disse...

meio aleatório, mas li o post ouvindo Paper Trails do Darkside e achei q deu um ritmo bom, combinou, sei lá...

Anônimo disse...

Maravilhoso como sempre!! Quando vamos transformar tudo isso em um filme rodado nas ruas de São Paulo? Ou em uma minissérie da web? Vamos agitar isso... Beijos cheios de admiração.

Anônimo disse...

Concordando em numero,genero e grau *----*
Sonho em ver o blog em uma serie!

Anônimo disse...

vim aqui apenas para comentar algo q não tem relevância com esse post específico, mas que enfim...

obrigada melissa e obrigada fucking mia, por terem colocado "peixoto e maxado" na minha vida! <3

lembro q a primeira vez q li na OST o nome deles eu pensei "wtf, sertanejo universitário?!" HAHAHAHAHA... mas cara, q surpresa boa, o som deles é sensacional! me apaixonei! =)

é isso. beijo.

Anônimo disse...

Cade pot novo meeeeeel

Anônimo disse...

kd o proximo?:(

Fernanda disse...

Podia ser qquer uma, mas não era,era a Mia.E fiquei tão feliz que ela tenha notado! :) E a mensagem dela tb. Me tirou o fôlego mais que tdo,se é q é possível!hahah. No meio daquele tumulto de sentimentos, ela disse o que precisava ser dito, disse q sim,traiu ele, mas n foi uma foda,foi por amor... óinnnn

Beatriz Alves disse...

Aaai, to atrasadinha na leitura, mas tirei o domingo prs ajeitar isso ((((((:
E ja adoreei, sao lindas demaid, quero uma fm na minha vida! ♡
Embora a marina seja mais o meu tipo haha
Adorei elas ai na rua e foda-se o mundo..

Babaloodeuva disse...

Fofura esse fim, sempre demais.