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outubro 03, 2013

Bubo virginianus

Rodei a cadeira. A cabeça largada para trás, por cima do encosto, e o corpo meio de qualquer jeito. Ansiosa para fumar. “Pára”, a Marina implorou sobre a maca, “você não está ajudando”. Ela estava com tontura e me ver girando dificilmente melhorava a situação. O tatuador nos encarava pacientemente, esperando a pressão dela voltar ao normal. “Mano, você devia cobrar a hora-parada que nem taxista”, a Lê comentou com o cara – um mineiro que tinha tatuagens por toda a extensão dos braços e um penteado de Elvis –, perambulando pelo estúdio enquanto observava os quadros dele na parede. A Lê estava inquieta também, esperávamos há quase quinze minutos. Eu ri. Ela estava com um colete jeans desfiado e uma regata branca por debaixo, raspara um moicano alguns dias antes e eu a observava. O cabelo ainda cobria as laterais da cabeça, mas estava curto. Realmente curto.

Rolei então a cadeira na direção da Marina, ali deitada, alcançando a sua mão – “quer mais água?”. “Não”, ela respondeu e avisou o cidadão que estava pronta para recomeçar. Quase todo o traçado já estava feito; era uma coruja que escolhêramos juntas, mais cedo naquela semana. Na parte interna do braço – a dor era visível nos olhos pressionados, com força, da minha ex-namorada. Eu segurava a sua mão. “Quantos por cento?”. “Oitenta”, sussurrei para ela e sorri, numa tentativa de acalmá-la. A Marina abriu os olhos e me olhou – respirava com parcimônia, em suspiros breves. E lá se iam mais vinte minutos. Ao terminar o restante do contorno, decidimos eu e a Letícia instaurar um “intervalo” para o cigarro. A Marina ficou para iniciar a segunda sessão de tortura.

_Ela tá sofrendo – a Lê riu da desgraçada alheia, já do lado de fora – Mas também, pô, eita lugarzinho que foi escolher!
_É...
_Bom, vai ficar legal, pelo menos... – acendeu o seu cigarro, eu ainda tirava o plástico do meu maço.
_Vai. Mas mano, eu tenho que me controlar. Não posso ficar olhando muito... – ri – Acho que tenho problema, na boa... Juro, é involuntário. Não posso ver mina sendo tatuada assim...
_Orra. Ela é sua ex! Essas paradas é melhor nem começar...
_Eu sei. Não vou. Não estou! É que é muito automático... – peguei o seu isqueiro emprestado –sério, me dá um tesão tão absurdo, chega a ser ridículo... Tenho que ficar olhando para a cara de sofrimento dela, para ver se acalma os meus ânimos – brinquei.

A Lê ergueu a mão, me dando um tapa de leve na cabeça. Eu ri. E não – não era a Marina em si. Apenas o ato. A tinta preta, a pele sendo marcada, o sangue e a sujeira, a porra toda. Encostei contra a parede do lado de fora estúdio, dando a primeira tragada.

_É. Preciso ver se a Mia não quer dar um rolê, depois daqui...
_Boa menina – a Lê achou graça da solução e deslizou os dedos pela lateral da cabeça, nos cabelos curtinhos –. E como cês tão, aliás?
_Bem. Muito bem, porra. Nossa! Nem dá para acreditar, vai fazer um mês já... – calculei por um instante, duvidando eu mesma do tempo que já se passara desde a noite em que o Fernando descobrira – ...eu tou completamente idiota por ela. Meu, sério, não achei que pudesse ser mais obcecada por essa garota. Tanto assim.
_Vocês duas vão acabar casando...
_Cala a boca! Não. Não consigo nem fazer ela dizer que me ama, e se ama – ri, comentando com ela –, se eu arrancar um “namorada” que seja num futuro próximo eu já fico feliz.

“Tá certo”, ela disse, soltando a fumaça no ar. E de qualquer forma, aquilo sequer incomodava. Aquelas três últimas semanas haviam sido tão surreais – e tão perfeitas – que a única coisa que eu poderia pedir da Mia era para que continuasse do meu lado. Desde o rompimento deles e aquele fim de semana conturbado, com os meus pais e a mãe dela – e uma visão desagradável do Du sem roupas –, nós duas passamos a viver num espécie de mundo alternativo, à parte da realidade.

A Mia vinha evitando a família o máximo que podia. Com medo. Sem ter certeza quem sabia e de quê – desde a “temporada” que passara no meu apartamento, a lei em sua casa vinha sendo a de silêncio absoluto –, a questão permanecia provisoriamente enterrada. E com o seu TCC em vias de ser entregue, faltava-lhe ainda tempo. Nos víamos em períodos esburacados. Mas a cada oportunidade que tinha de escapar do clima estranho da sua casa, ficava comigo na minha. Nada era falado. Nem entre nós, oficialmente; nem entre ninguém – apenas subentendido. E conforme os meus próprios amigos começavam também a captar o que acontecera, as pessoas iam progressivamente se afastando de mim – e migrando provavelmente para o lado do Fernando da história. Isso, sim, me incomodava. No fundo, nós duas sabíamos que aquela falsa estabilidade não duraria muito mais.

_Nossa! Que demora, vocês fumaram o maço inteiro ou o quê?! – a Marina resmungou e eu fiz uma careta para ela, sentando numa maca vazia do outro lado do cômodo – Não. O que você está fazendo? Senta aqui comigo.

Me levantei – droga – e caminhei até ela, ficando ao seu lado. E da sua pele, sendo tatuada.

_Está doendo muito, sério. Me sinto num açougue. Ele está me matando!
_Já, já termina, linda... – ri.
_Mesmo. Eu não sei quem de vocês foi a infeliz que me disse que o preenchimento doía menos, mas, nossa...
_Ih. Essa discussão é mais velha que a do ovo e da galinha.
_E por falar em galinha – a Lê comentou em voz alta, um tanto distante de onde estávamos na sala –, essa daí abandonou o poleiro, viu. Acho que nunca ouvi ela assim, toda apaixonadinha. Bicha!
_Vai à merda, Letícia.
_É, para você ver, né. O que uma Mia não faz... – a Marina sorriu, entre um reflexo involuntário e outro de dor – Acho que até a sua expressão mudou, sabe, flor? Você está diferente. No bom sentido, parece mais feliz. Mais leve. Não sei explicar...
_Bem... Eu estou mais feliz mesmo... – murmurei.

O som da maquininha seguia ininterrupto. A Lê continuou falando, ao fundo – não prestei bem atenção no que dizia. Encarei a Marina por algum tempo. Acho que, de todas as pessoas, ela era a que melhor entendia o que eu estava vivendo. A dimensão da minha conquista. E ela sabe – havia um contentamento silencioso entre nós, um sentimento bom. Observei o seu braço por meio segundo, os marrons e amarelo de tinta se misturavam, borrando a sua pele fininha. Só eu para achar isso excitante, haja problemas psicológicos. Voltei a prestar atenção então no que a Letícia dizia, caminhando com os braços à mostra num canto mais adiante do estúdio. Ela comentou:

_...e a hétero, hein, já tá comendo? Ou ainda não?!
_Lê! – a Marina arregalou os olhos para o comentário, constrangida pela presença do tatuador ali.
_Ah, a Mia nunca teve dessas – ignorei a minha ex –. Sempre foi tranquilo. Tem umas que esperam um ano até se acostumar com a ideia, né. Mas a Mia é muito curiosa, sei lá, ela nem liga. Vai mesmo sem saber o que fazer – ri –, foi assim desde o começo, muito foda! Ela tem uma sexualidade que, porra, na boa, eu... eu fico louca.
_Vocês poderiam não falar sobre isso aqui?
_Tá. Deixa só eu contar essa, Má! – pedi e continuei de propósito, a provocando – Eu estava com ela no apartamento, Lê... E a Mia tem umas, meu, sério. Escuta só. Era de tarde, esses dias aí, e a gente tava na sala sem fazer nada, não tava se pegando, nem nada. Eu ia sair. Tava colocando o tênis e falando com o Gui no telefone, nem reparei. Perguntei qualquer coisa para ela, no meio da conversa, tipo, se ela queria que eu comprasse um maço, nem lembro. E tava ouvindo o Gui falar, quando ela simplesmente segura na minha mão e coloca dentro da calça dela, enfia na calcinha. Assim, como se não fosse nada! Me observando, manja, com aqueles olhos castanhos...
_Ahm. E você?! – a Lê não conseguiu conter um sorriso, escutando a história.
_Eu, porra, eu?! Eu desliguei na hora. Nem falei tchau pro outro no telefone! – comecei a rir; e o tatuador seguia focado no desenho no braço da Marina, provavelmente com os ouvidos na nossa conversa.
_Foda, meu.
_Ai, mas... – a Má murmurou – ...não é estranho? Sem nem um beijo, nem, sei lá?
_Quê?! “Me come primeiro, me beija depois”. É o melhor tipo que tem... – falei bem alto, para constrangê-la, piscando brevemente para a Lê que ria do outro lado do cômodo; eu exagerava propositalmente – Fui sair só duas horas depois daquele apartamento.

13 comentários:

Anônimo disse...

A marina é virginiana ne ! Eu sabia u.u kkkkkk

Anônimo disse...

Hahahahahahaha muito bom

Juliana Nadu disse...

HAHAHAHAHAHAH "Me come primeiro, me beija depois" sou bem dessas! hahahahah Ai a Marina é muito lindinha!!!

Pathy disse...

Mas que sapatas canalhas <3 HAHAHAHA
Mia, melhor "hétero" com certeza! \0/ \0/

Marina e sua timidez..Awn *--------*

Anônimo disse...

elas tão vivendo numa bolha que vai estourar já-já. sem ozamigo não rola, vai dar merda.

eu queria q a FM encontrasse a clara, assim sem querer, saindo desse estúdio aí, tipo como ela reencontrou da outra vez. (foi assim, né?). saudades dela, queria saber por onde anda, como vai... (pq não me liga... hahahaha).

bring clara back!

Anônimo disse...

Mia safada! <3

Anônimo disse...

"Aquelas três últimas haviam sido tão surreias (...)"

acho q faltou um 'semanas' ali, não? =)

Anônimo disse...

"E por falar em galinha, essa daí abandonou o poleiro" Kkkkkkkk LÊ!!! <333

( the girl fucking Mia ) disse...

Faltou! Vou corrigir, obrigada (:

Athê disse...

Eu adoro a forma como a Marina e a FM são retratadas. Tenho um relacionamento assim com uma ex.. sem 2ª intenções mais ainda é alguém que com quem você era íntima, dormiu. E uauu, a Mia!!!!

Ianca' disse...

Mariiiiiina <3

Anônimo disse...

sapatao é um puta bicho foda hein, hahahahahaha

Anônimo disse...

cadê aquele segundo post já escrito? =) mostra pra gente!!!