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novembro 20, 2013

Acordos silenciosos

Ficou por aquilo. E os minutos seguintes se desenrolaram bons, descomplicados. Digo, é a Mia, não é. A garota levou mais de dois anos para terminar um namoro, cacete, vá lá. Eu não estava esperando um anúncio oficial de envolvimento romântico em nenhum momento ainda neste século. Meia palavra de ciúmes me bastava. Para alguém que terminava e começava namoros como se fossem vídeos no Vine – isto é, eu –, consistência não era lá uma demanda interna. Eu não ligava de não definir a minha situação com a Mia. Não mesmo.

As minhas experiências passadas com rótulos não haviam sido bem-sucedidas. “Namoradas” – o que isso quer dizer afinal? Cada pessoa tem o seu próprio entendimento das palavras que não inventou por si mesmo; e sem isso, você é obrigada a prestar atenção em si mesma e no que a outra pessoa demonstra ou sente. Evolui-se em simbiose. De um jeito particular de vocês, não do dicionário ou da porra da cabeça dos outros. Algo como o que eu tivera, da maneira mais espetacular, com a Clara uns meses antes – até eu meter o pé na merda toda, claro. E sim, havia uma parte de mim que queria que a Mia dissesse ‘sim’. Que fosse ‘minha’. Era mais para satisfazer uma necessidade conceitual de que fosse enfim minha e não dele. Uma vez. Anos de incertezas depois, depois de tudo o que acontecera entre nós. Eu gritaria para o mundo – bêbada na Augusta, provavelmente – algum dia daqueles. Que era minha garota. Por ora, todavia, me bastava estar com ela. E saber que me queria de volta.

Enfim. Por fim.

Sorri ao vê-la debruçar sobre o meu armário. Completamente bagunçado. “Você tem alguma coisa aqui que não esteja amassada?”, resmungava, jogando peça atrás de peça no chão. Eu piscava para ela e negava, com a cabeça. “Faz parte do meu estilo, gata!”. Ela revirava os olhos então. E eu me divertia. A sua mãe chegaria em alguns minutos para pegá-la – ela se desesperava. Iam visitar a avó da Mia, uma senhora respeitável do lado mais-do-que-podre-de-rico da cidade. Dessas com mais grana do que a minha família, a do Du e a do Fernando combinadas. Ou algo assim. E a Mia mentira para a patroa ao telefone, dizendo que havia trazido uma troca de roupa para depois balada daquele sábado – só para evitar ter de ir até Higienópolis, de ressaca, pela manhã de domingo. Arrependia-se visivelmente.

_Não tem um maldito vestido! Uma blusa que preste. Zero!
_Você que inventou essa porra, mano, e agora – ri – vem acusar as minhas roupas que não fizeram nada contra você?! Pra quê cê foi mentir??
_Quê?! Eu achei que fosse esse todo o propósito de se dormir com uma merda de menina. Não? Poder pegar roupa emprestada dela no dia seguinte...
_Mas você pode pegar o que quiser aí, oras.
_Jura? – ela ergueu uma camisa social preta minha e me desprezou com o olhar, antes de descartá-la ao chão – Na boa, você não podia ser mais sapatão?!
_Essa blusa é bonita. Ok?
_Arghhh. NÃO TEM NADA AQUI QUE EU POSSA USAR! Nada. Eu não posso aparecer em Moema com um Nike, skinny jeans e uma porra de uma camiseta xadrez!! Não posso. Minha vó sequer sabe das minhas tatuagens, até hoje, meu. A minha mãe vai me matar...
_É. E a propósito, sua mãe não vai achar estranho te buscar aqui, não ô?
_Não. Ela sabe que somos amigas. Sei lá! Ela nem tem falado direito comigo esses tempos.
_Mas você acha que...

A Mia meteu a cabeça entre o bolo de roupas empilhadas dentro do armário. Em resignação. E eu interrompi o que dizia para perguntar, aos risos, o que diabos ela estava fazendo. “Não vai rolar”, choramingou, já sem esperanças, “não tem nada que não grite ‘dormi na sarjeta da Frei Caneca’ aqui, não tem nada que preste”. Eu ria. Deitada confortavelmente na minha calcinha e camiseta velha, atravessada na cama. Levantei então e passei por ela, ignorando as claras ofensas ao meu estilo. Vasculhei aquele caos todo por alguns segundos até encontrar um vestido-bata verde-musgo que a minha mãe me dera uns dois Natais antes, numa tentativa inútil de me fazer vestir como uma cidadã normal. Joguei na sua direção e a Mia pareceu surpresa – “não sei se vai servir, nunca experimentei”. Ela o abriu adiante de si mesma. E sorriu. “Vai! É perfeito”.  

_Tá. E aí... Quer ajuda para se trocar? – ofereci, imprestável.

Ela me olhou, como se eu fosse a pessoa mais brega do planeta. E retrucou: “Não precisa”, me dispensando, antes de puxar toda a blusa para fora do corpo e largá-la como se não fosse nada no chão. “Eu tiro sozinha”. Caralho, garota. Quer me matar? Virou. E vi o seu corpo caminhar adiante, as suas costas traçadas com flores amarelas, rosadas. As linhas pretas. Acompanhei o seu compasso, alcançando-a no meio do quarto. E peguei na sua cintura, completamente nua.

_Se não posso ajudar, o que você acha... – abracei-a, de frente mim, e a segurei no ar – ...de eu atrapalhar um pouco?

Aquela mulher me arrancava o fôlego, à força. Puta que pariu. Sentia as suas coxas nas minhas mãos e de repente toda a minha boca ansiava pelo gosto da sua pele, como se carecesse de água. Ou de qualquer porra vital. Ela sorriu e me beijou no ato. Um beijo inebriante daqueles. Não tinha como não se deixar envolver, pelas suas mãos, pelos movimentos do seu corpo. Contra o meu. Lentamente, ofegante. Ou nem tanto – a coloquei sem delicadeza sobre a escrivaninha. Correndo os meus lábios pelo seu pescoço, o seu colo. E para a nossa infelicidade a sua mãe tão logo começou a ligar, estacionada em frente ao prédio na Frei Caneca.

16 comentários:

Juliana Nadu disse...

HAHAHAHAHAHAHA "Não tem nada que não grite 'dormi na sarjeta da Frei Caneca' que, não tem nada que preste". hahahahaha ai ai ai como vc adora essa palavra!!

Anônimo disse...

eu achava a mãe da mia hot, agora acho ela uma maldita. queeeeeime no inferno por interromper!!!! kkkkkkkk

Anônimo disse...

Eu gosto dos posts mais curtinhos e gostosos de ler (L)

Anônimo disse...

"Se eu não posso ajudar, o que você acha... de eu atrapalahr um pouco?" <3333

Pathy disse...

Coito interrompido é uma merdaaa!!!
HAHAHAHAHAHAHA

( the girl fucking Mia ) disse...

"Coito", hahahahaha. :P

Anônimo disse...

Estava eu aqui, estudando neurologia e eis que me deparo com o post. Obrigada por me salvar do tédio!
Manda mais, please! Essas duas.. ♥

Anônimo disse...

Fucking Mia define o que penso de relacionamentos. FODA.

Anônimo disse...

Uou!

Anônimo disse...

Q lindaaaaaaas, morri!

Anônimo disse...

Ja da pra Mia deixar umas roupas na casa da fm hein? hehehehe

Anônimo disse...

Lindo lindo!
"Evolui-se em simbiose. De um jeito particular de vocês, não do dicionário ou da porra da cabeça dos outros.

Anônimo disse...

fm ficou na mão.

Anônimo disse...

como a mia é apaixonante, pqp!

Beatriz Alves disse...

Super concordo! ;DD

Beatriz Alves disse...

Aiaiaia x.x linda Mia e a agonia para encontrar uma roupa boa com a fm em vez de ir em casa... Mas que triste a mae da Mia atrapalhando elas.. aff
Cade o transito messas horas, cadê? Hahahhaahaha ;p