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novembro 23, 2013

Aquém

Fodeu. A recepcionista me olhava como se esperasse a minha entrada, ali parada com o telefone no ouvido. Os meus lábios congelaram, completamente sem reação. Estava em pé na porta da produtora. Merda. Mil vezes merda. A minha cabeça começou a disparar, aflita – como ela conseguiu o meu telefone? Elas brigaram? Como sabe quem sou? E tão logo a minha falta de reação fez com que a mãe da Mia adiantasse, do outro lado da linha. A sua voz ressoava com firmeza – e com uma contenção, uma educação, quase agressivas:

_Eu sei que a minha ligação pode não ser esperada. Ou talvez seja – disse, séria –. De qualquer maneira, eu gostaria de conversar com você. Você pode falar?
_P-posso.

A minha mão começou a tremer, num súbito nervoso que me subia pelo estômago. E antes que eu pudesse compreender a dimensão daquele momento, a realidade daquele telefonema, ela prosseguiu:

_É o seguinte. Eu vou ser bem direta – disparou –, eu não sei que tipo de relacionamento você tem com a minha filha. E não acho que seja da minha conta. Mas a Mia parece estar levando a vida dela numa direção com a qual eu não concordo. E a qual, tenho certeza, ela não compreende integralmente.
_Desculpa; mas eu não sei se – menti – entendo perfeitamente do que você está falando. A Mia nã...
_Você entende, sim – me interrompeu –. Entende. E precisa entender também que as decisões que ela assume têm um impacto direto na vida e na integridade dela. E na nossa, como família. Você, o seu modo de vida; isso pode não ser um problema para você. Nem para os seus pais. Mas para mim é. E eu não vou permitir que alguém chegue e envolva a minha filha numa anomalia dessa como se não houvesse consequência.
_Olha, sinceramente a m-minha intenção nunca foi... – murmurei, ainda atordoada, sem saber como lidar.
_Não me importa – cortou –. Escuta, eu tenho certeza de que você é uma boa garota; ainda que eu não aprove a sua opção, eu entendo que você tem sido boa amiga para Mia, principalmente agora com o término. Eu tenho consciência disso. No entanto, a sua presença também interfere na vida dela e interfere de uma forma que eu não considero nem um pouco positiva – espera aí, quem é você para julgar? –. Se você acha que eu posso permitir is...
_Tudo bem. Mas n...
_NÃO COM a minha filha. Não com a minha filha – repetiu –, você entendeu?
_Sim. E desculpa, mas eu não sei de onde está partindo isso – me irritei com a grosseria dela –. Você sequer falou com ela?! Com a Mia? Porque não é como s...
_Eu sei o bastante – seguiu me cortando, ríspida –, você pode ter certeza. Pelas mensagens que vocês trocam, pela maneira como ela reage ao assunto. Eu seie você acha que pode se intrometer assim? Invadindo a privacidade dela?? –. Seja qual for o sentimento que ela acredita ter por você, eu te garanto que não é sincero. Dou menos de um mês para passar. Você e eu sabemos o quanto ela ama o Fernando – ah, é mesmo?  –, como sempre amou e continua amando – nossa, não, cala a boca –. Eu espero sinceramente que tudo isso não passe de um mau entendido. Entre os dois e com você, senão nós vamos ter um problema...
_Um “problema?
_Sim, um problema – levantou a voz para mim –. Porque eu posso não te conhecer, mas eu sei O QUE você faz e a Mia não tem parte nisso. É esse tipo de p...
_Não. Quer saber?! Você não conhece. Não me conhece mesmo – me ofendi –. É exatamente isso: a senhora não me conhece NEM UM POUCO; zero, NADA! – retruquei por impulso –. E olha, com todo respeito, a sua filha tem 23 anos. Ela é perfeitamente capaz de tomar as próprias decisões – argumentei – Se isso é um erro ou não, se é passageiro, só diz respeito a ELA! É a vida dela.
_VOCÊ ESTÁ RESPONDENDO PARA MIM?! – ela se alterou.
_Minha senhora, é VOCÊ quem está me ligando e ME acusando de todo tipo de coisa, como se a sua filha fosse incapaz de responder por si mesma ou pelos seus atos. Eu posso te GARANTIR que você não sabe NADA sobre o relacionamento da Mia comigo e que sabe menos ainda sobre o que se passa na cabeça dela ou com o Fernando. Se você acha que pode me ligar assim e...
_Você escuta aqui, eu estou falando muito sério – engrossou a voz –, VOCÊ NÃO VAI MAIS FALAR com a minha filha. Eu não quero te ver NEM PERTO da Mia, VOCÊ ENTENDEU?
_Na boa? Eu realmente acho que isso É ESCOLHA DELA e não sua.
_Não. NÃO É! Isso é escolha SUA!! É VOCÊ quem vai terminar o que quer que seja que você começou, você está me entendendo? Ou vão ter consequências.
_Espera. Vo-você ESTÁ ME AMEAÇANDO? – me segurei para não rir – O que é isso?? É o SÉCULO 15 agora?? NÓS ESTAMOS FALANDO DE UMA ADULTA! – subi o tom, indignada – A Mia não é uma criança! Nenhuma de nós é! Como você pode ligar para uma pessoa e presumir que sabe alguma coisa sobre ela? Fazer todo tipo de acusação, de ameaça?? VOCÊ NÃO ME CONHECE, não sabe quem eu sou!!
_Pois eu estou tendo uma ideia MUITO CLARA agora. E eu TE GARANTO que VOCÊ não é o tipo de gente que eu quero minha filha envolvida.
_COMO ASSIM? “TIPO DE GENTE”, C-COMO ASSIM?? QUEM VOCÊ PENSA Q... – me controlei para não mandá-la à merda e respirei fundo, segurando a minha voz já exaltada; essa é a mãe da Mia, porra, presta atenção no que você fala, caralho, me convenci antes de continuar – Olha...  Vamos nos acalmar, isso está indo para o lado errado. Eu não tenho a intenção de causar qualquer dano à Mia ou à sua família e eu tenho certeza que podemos conversar e resolver isso de outra forma. Isso é ridículo! A Mia não tem treze anos! Ela sabe o que está fazendo. Nós todas somos adultas aqui, meu, ela devia ter a oportunidade de participar dessa conversa. Sei lá, de se defender...
_Você NÃO ME DIGA o que fazer! EU NÃO QUERO A MINHA FILHA ENVOLVIDA COM SAPATÃO, COM GENTE COMO VOCÊ! – retrucou aos berros, intolerante.
_Vamos com calma, POR FAVOR! – pedi mais uma vez, tentando manter a tranquilidade –. Vamos só colocar as coisas sob perspectiva. Sabe, eu realmente sinto que você está interpretando isso da forma errada...
_Olha, se você acha – ela insistiu, em tom de ameaça – que pode agir assim, não só comigo, mas com a minha filha, e sair impune; você está muito enganada...
_Mas eu nã... Isso nã... n-não É ASSIM! Nós não q... – a ignorância dela me confundia, me tirava do sério; como alguém pode pensar assim em pleno século 21? Isso não é São Paulo, cacete??
_Você fique avisada! – não recuou – Eu não quero mais SABER do seu envolvimento com a Mia, EU QUERO ISSO ENCERRADO. E quero encerrado JÁ, ESCUTOU?!?

Ela desligou. Na minha cara, logo em seguida. Mas que palhaçada! Continuei ali parada, em frente à produtora e sem entender o que acontecera. A recepcionista me encarava estarrecida. Como eu ia explicar isso para a Mia?

22 comentários:

Anônimo disse...

Meu Deus, fudeu, só pelo próximo .

Anônimo disse...

"Mia, sua mãe louca!" pronto. explicado.

Anônimo disse...

a mia tem q sair de casa. apenas. bjs mãe

Anônimo disse...

Eu ja passei por isso e ée horrivel!! Admiro a coragem da FM.... eu não consegui me defender na hr =// mto bom o post!!

Anônimo disse...

É foda. Também já aconteceu comigo!

Ianca' disse...

Existem muitas mães assim, meu. Senti a tensão dela.

Anônimo disse...

Estava demorando para alguém as jogar de volta na "realidade"... Complicadíssimo!

Anônimo disse...

F.O.D.E.U !!!1

Guíh Romano disse...

Já rolou uma parada dessa comigo, a mãe me ameaçou e tudo, que ia me processar e o caralho a quatro!

Vamo Meeeel, manda logo o outro, coração acelerou nesse, se for pra parar que pare logo kkkkkkk

Beeeijos <3

Anônimo disse...

Minha mãe fez isso com a minha namorada. Ameaçou de tudo que teve forma... Até que conseguiu o contato do pai dela e ele começou a me ameaçar de morte e me seguir na rua.
Manda a mãe da Mia ir caçar o que fazer.

Anônimo disse...

Na primeira asneira arcaica que essa velha vomitou, tinha mandado ela se foder e desligado na cara dela. Sim! Sou dessas que não escuta desaforo de ninguém seja lá quem for.

Juliana Nadu disse...

O que mais me incomoda não é o fato dela ser contra a filha dela se relacionar com outra mulher, mas o sentimento de que pode fazer o que bem entende com alguém por sua condição social. #escrota

( the girl fucking Mia ) disse...

Meninas ♥

Estou lendo e aprovando os comentários de vocês e não posso deixar de me sentir abalada. Gostaria de dizer que sinto muito mesmo por todas que tiveram que passar por situações assim, de absoluta ignorância dos outros. Nós brincamos e relevamos, fazemos pouco caso, mas essa é uma agressão que oa héteros poucas vezes vivenciam tão gratuitamente. Espero que tenham consciência da coragem e da sinceridade que uma existência como LGBT demanda, ao lado de quem se gosta, e tenho muito orgulho de todas vocês!

Não deixem que as derrubem. Não acreditem nas palavras maldosas, nas ameaças. Temos direito de existir! E certamente cada uma de vocês vai ensinar muita cabecinha pequena por aí durante a vida de vocês, mesmo sem intenção... (:

Um beijo! Obrigada pelos comentários!

Mel

Juliana Nadu disse...

:') "Temos o direito de existir"

Pathy disse...

Só tenho uma coisa pra dizer: Tadinha da Mia e FM :(

Beatriz Alves disse...

Linda Mel no sru comentário aqui... O post foi bem pesado. Eu nao sei como reagiria a isso. Nao passei por isso, mas ja passei com minha propria mae me proibindo de ter amizade com uma menina. E nem eu mesma era ligada que era mesmo apaixonada pela guria.. Mas foi foda, e eu não soube defender a amizade e falar que era só aquilo, no fundo eu sempre soube o que sentia por ela, só tinha medo..

Cris F Santana disse...

Vixi!
Fodeu a porra toda! :z
#tensa

Anônimo disse...

Acho que a maioria de nós ja passamos por situaçoes assim , com a familia da namorada , ou com a nossa propria, e esse tipo de situaçao requer muita auto-confiança e senso critico pra lidar. Ja vi meninas que foram persuadidas pelos pais de que isso realmente era um "caminho errado/perverso" e que as "culpadas" eram si mesmas , e isso é um absurdo. E alias, outro dia mesmo eu conversei com uma homossexual na faixa dos 35 anos, que achava ser verdade que ainda no século XXI temos que aceitar que nao temos direito de andar de maos dadas , ou beijar uma pessoa do mesmo sexo na rua. Um absurdo, claro, mas esse pensamento lhes foi implantado quando eram pequenas. Acho que cada um deveria ter o minimo respeito e senso de compreensao pela vida do outro, porque o diferente nao deveria ser um problema né.

- Marta C.

Anônimo disse...

aaah, que desgraça :(

Rachel disse...

Sabe, eu nunca passei por nada assim.
Minha mãe morreu quando eu tinha 14 anos. E quando me assumi para meu pai, aos 21, foi tenso mas depois foi tudo tranquilo. E eh ate hoje. Conheceu todas as minhas ficantes, namoradas e ate alguns rolos. Minha familia toda sabe, exceto minhas avós. E eu nunca sofri nenhum tipo de preconceito direto.
Hoje, aos 28, namoro ha 2 anos. E a familia da minha mulher me recebe sempre muito bem, me adoram e eu adoro todos. Assim como minha familia adora a Rê.

Eu sei que, infelizmente, o que aconteceu com a FM acontece MTO. Muitos amigos passaram e passam por coisas assim.
E eu fico sempre horrorizada. Tbm nao consigo entender como alguem pensa assim ainda nos dias de hoje.

Meninas, tenho muito orgulho da nossa classe. E temos SIM que lutar e brigar pelos nossos direitos, vontades e sentimentos.

E a FM e a Mia tbm.
A Mia tem que ir trabalhar e sair de casa. Ponto.rs
E a FM tem q relaxar. A Mia eh doida por ela, e a mãe da Mia, amando a filha, em algum momento - mesmo que demore anos - vai olhar pra isso diferente.
Assim espero. Hahahaha

Anônimo disse...

tenso demais!!! vontade de estar nessa ligacao e falar umas poucas e boas.

lembro que a mae de uma namorada veio ate minha casa e fez o maior aue na portaria ate minha mae descer. minha mae desceu e escutou todas... que eu era o filho do demonio e que ela fez parte disso tudo. senod que minha mae tb era super contra eu ser gay. mega complicado....

ja eh taaao dificil encontrar uma garota que se gosta, ainda mais ela ser gay, ainda mais ela querer namorar com voce rs... e ai vem esses problemas. parece que os relacionamentos gays tem prazo de validade, ate quando sao 'descobertos'.

cho incrivel como as pessoas acham que podem se meter nas vidas das outras.

como quando a mae da mia disse que eh escolha da FM parar de falar com a mia.... ha ha ha e por que ela faria isso? mt ridicula a mae da mia...

Déia disse...

já passei por poucas e boas, até pedrada na paulista eu levei quando morava em SP, não é fácil, como também não é fácil assumir para si mesmo....minha família não sabe da minha boca,mas convenhamos mãe não é boba .....
cara, não aceitar é uma coisa, respeitar é outra..... muitas vezes é confuso e complicado pros pais, pelo fato de saberem o preconceito que o próprio filho sofre perante a muitas pessoas,mas o tempo sempre concerta as coisas.
É uma barra que a FM e Mia iram passar, mas faz parte .... é a educação da épocas dos avós e pais, mas estamos caminhando a um grande progresso.