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novembro 09, 2013

Heteronormatividade

Dispenso saber. Os detalhes da vida sexual do Du pouco me interessavam. Mais ainda por envolver, especificamente neste caso, umas descrições bem gráficas do corpo e desempenho de um dos meus melhores amigos. É, o Gui. “Mano, eu tô comendo aqui, você podem não falar disso agora?”, resmunguei e os dois riram. Não que o meu protesto tenha impedido a boca do cidadão com quem eu dividia o apartamento. Joguei a garrafinha vazia de água na sua direção. E ele seguiu, despreocupado. Eca. Não tenho vontade ALGUMA de entender o funcionamento do corpo masculino. Já a Mia, todavia, o escutava entretida, com um misto de curiosidade e estranhamento. Particularmente admirada pela variedade de posições cometidas – ou um tanto surpresa, talvez. Eu lamentava continuamente pelo meu sagrado café-da-manhã.

_E-eu sei que parece idiota, quer dizer, agora eu me sinto idiota por sequer ter pensado isso algum dia... – ela balançou a cabeça para o Du, debruçada sobre a mesa, se desculpando de antemão –. Mas eu realmente nunca imaginei nada disso, nada além do óbvio...
_Do “óbvio”? – o Du questionou, achando graça.
_É! Nossa. É tão ridículo! Da minha parte, digo. N-não que, assim... – ela conversava sentada ao meu lado,  as pernas de fora sobre a cadeira – É que, tipo, não vinha na minha cabeça, sei lá. Nada! Nunca imaginei sexo entre caras e eles, por exemplo, se olhando, não achava que dava para fazer assim de frente mesmo, se encarando ou se beijando no decorrer. Parece bobo agora. Realmente bobo! E todas essas outras coisas, também. Desculpa.
_Tudo bem – ele riu, achando esquisito – Por que você tá se desculpando?
_Porque é idiota! Nós somos idiotas – revirou os olhos, constrangida –. Achamos que só o sexo hétero é sexo, digo, com intensidade real, complexo. Como se o resto fosse só uma sucessão de comidas rápidas ou uma punheta, não sei. Juro que nunca parei para pensar em dois caras transando, realmente transando, envolvidos um com o outro.
_Tá, não sei se dá para dizer, assim, tecnicamente, como se eu e o Gui estivéssemos muito envolvidos...
_Sim, mas você entende o que eu quero dizer?! –  eu escutava a conversa dos dois – Nossa... – colocou as mãos no rosto – ...eu sou uma pessoa horrível, horrível. Como eu nunca pensei nisso? É tão egoísta! Como se vocês fossem menos ou a gente fosse mais, melhor. Não sei bem explicar...
_”A gente”? – me intrometi, provocando-a.
_Não “a gente”. Nós héteros, digo – se ajeitou no lugar, abraçando uma das pernas, com o pé descalço apoiado sobre a cadeira e parte da tatuagem à mostra.
_”Nós”?
_É. Não! Quer dizer... Não eu. Ah! Você me entendeu!
_Entendi – eu achava graça – Sabe que... a primeira vez que eu e a Mia fizemos alguma coisa... – comentei, ainda me divertindo com a sua completa ausência de identificação – o que durou, o quê, talvez uns cinco minutos? Sei lá...
_Nós?!
_É. Antes da sua mãe interromper, aquele dia lá com as meninas na sua casa... Não sei se você lembra, mas na manhã seguinte, você me perguntou o que mais a gente fazia. Assim, convencida de que só aquilo já contava como sexo lésbico. 
_Nossa, eu nem lembrava disso, meu...
_Não? Meu, Du, sem brincadeira, foi meio amasso e uma cantada¹. E essa aí já estava se achando a que tinha trepado com uma garota – eu ri e ela me bateu de leve, no braço –, só com isso.
_Pára – murmurou – Agora eu sei, tá?
_Vocês, héteros – arqueei a sobrancelha para ela –, são mesmo umas gracinhas.
_Idiota.

Ela riu. E eu a provocava deliberadamente. A conversa prosseguiu para o quanto havíamos mudado desde então. Numas nostalgias. Nós duas tínhamos repulsa por nós mesmas, por quem costumávamos ser, e nenhuma uma pela outra. Pouco tempo depois, o Du levantou-se para ir ao banheiro e pedi que me trouxesse o celular. “Quero checar como vai a tatuagem da Má”, argumentei, agora sozinha com a Mia na cozinha. “Provavelmente coçando horrores”, ela riu. Será? Defendi que ainda não dera tempo, “deve estar na fase dolorida”, por ora. Mas, conhecendo a Marina, era provável que estivesse receosa. Agora que amanhecera com aquele rabisco permanente no braço, digo. Começamos a tirar a mesa, bem quando o Du voltou com o telefone em mãos. Eu e a Mia já iniciáramos a louça acumulada na pia.

_Ei – comentou, entrando na cozinha – Tinha alguém te ligando quando peguei.
_No meu? – perguntei, com as mãos debaixo d’água, e olhei para o Du por cima do ombro – Vê aí para mim, por favor.
_É. Uma tal de Isa.

¹ “Cantada”, neste caso, é gíria para sexo oral. Achei que pudesse ficar ambíguo.

18 comentários:

Liv disse...

"Cantada" é sexo oral? :O
Juro que não sabia dessa gíria, haha.

Vish, quem será essa Isa? (eu não me lembro de nenhuma Isabela ou Isadora que a FM tenha pegado...)

( the girl fucking Mia ) disse...

É. Como quando dizemos, por exemplo, "cantei para ela".

Anônimo disse...

Não conhecia essa gíria :O

E quem é isa mesmo?

Vitória Régia disse...

tbm não conhecia essa gíria hahaha amei o post <3

Anônimo disse...

HAHAHAHA a mia td sem noção no começo, eu lembro!!! <3333

Anônimo disse...

Nossa, cantada?! No sentido de "levar pro canto"?! hahahaha
E eu digo o mesmo que todo mundo "WHO DA FUCK IS ISA?!"

( the girl fucking Mia ) disse...

Não, acho que tem mais a ver com boca... cantar uma música para alguém, hahaha, sei lá.

Anônimo disse...

De "cantar para alguém" gurias...

Anônimo disse...

Achei fofa a mia se sentindo mal em nome dos heteros. E doida para saber qem ée isa!!!

Anônimo disse...

Acho que a Isa ainda não apareceu, deve ser uma ex qualquer da FM. Medo dessa gente que vem pra balançar as coisas!

Mel por favor, não deixa. Elas tão muito lindas juntas =//

Anônimo disse...

Tb não conhecia a gíria... mas achei ótima!!
Amo as provocações da FM.. a implicância com a Mia... <3
Isa??
Vlw Mel!! ;)
(Mariana Curi)

Ianca' disse...

Cantada é? Adorei hahahahaha

Anônimo disse...

gente, só a mel q usa é essa gíria, né? ngm conhece! hahahahaha...

enfim, super me lembrava desse diálogo delas no dia seguinte da "cantada". me marcou! =) achei mt legal elas voltarem ao assunto.

Anônimo disse...

Who the fuck is: Isa???????
provavelmente um ser obscuramente lindo tentando atrapalhar a vida das duas, mwahahaha

Pathy disse...

Essa da cantada eu também não conhecia mas adorei. hahaha

Anônimo disse...

Bca:
Amei o post mas, to com medo do proximo.. Quem é essa Isa? Aiaiai
Mel, elas estao lindas assim, espero que nao mudem.. Quero um amor na minha vida "////

Babi Leão disse...

Que bom que não fui só eu que não sabia o q era "cantada"!
Já tava me sentindo menos sapata por isso!
hahahashahaha

Juliana Nadu disse...

Nosssaa!! não sabia essa parada da cantada não!! :O Ainda bem que tinha uma nota de rodapé! HAHAHAHAHA