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dezembro 29, 2013

O Atlântico

O Du se afundou ainda mais no sofá. Com as pernas largadas, num dos poucos pares de jeans que ele tinha. O cabelo estava completamente amassado; tinha os olhos pequenos e reluzentes por causa da bebida. Estava sem camiseta, descalço. Dois cabides quase perpendiculares – presos um ao outro pela parte curva e superior – apareciam tatuados no seu antebraço. Num traço simples e preto. Nonsense. Ele subiu as mãos à lateral da cabeça e suspirou ao contar:

_Eu quase namorei com ele – resmungou –, no último ano. Nós temos amigos em comum. Ou, bom, não sei se chegamos a quase namorar... A gente já se conhecia fazia tempo e ele saiu, até namorou com outros caras aqui no Brasil, não é como se, sei lá. Nós não tínhamos nada. Acabamos ficando só uns meses antes dele ir pra Espanha. Foi tudo muito louco e intenso, foi... – bufou e apertou os olhos, chateado – Não sei. Foi na pior hora possível.
_Mas ele foi fazer intercâmbio ou...? O quê, ele não é daqui? – me afundei ao seu lado no sofá, prestando atenção no que dizia.
_Não. Ele veio só fazer o mestrado. Em vários lugares, na verdade... É que, assim, ele estudou Ciências Sociais, sabe? Um curso desses, parecido. E a tese dele era sobre política e a ascensão da esquerda na América Latina; então ele veio morar no Brasil, ficou por praticamente dois anos e aí fazia viagens para a Venezuela, para o Uruguai...

Logo no primeiro desses anos,  foi quando o Du o conhecera. Numa festa no MIS, disse; e ficou completamente fascinado. Não tanto pelo porte, mas pela maturidade e pela cultura do tal catalão, pela forma como ele falava. Ele tinha uma visão completamente diferente do Brasil, da maneira como nós fazíamos as coisas; uma “admiração consciente”. E ambos conversavam por tardes inteiras. Por motivos nunca muito claros, porém, eles não ficaram – até rolar mais de um ano depois numa festa na casa de um amigo. E aí passaram a ficar o tempo todo, desenvolveram compulsão um pelo outro. Se pegavam em todas as festas que se viam, em todas as oportunidades. Cada vez mais próximos. Eles sabiam que não ia durar, mas perderam o controle das emoções. “Eu fiquei a última semana inteira com ele, na casa dele; tinha um apê lá na Marquês de Itu”, contou.

Agora o Du lamentava, por ter se deixado envolver – “a gente não era mais só dois amigos trepando e aí deu merda”. Foi já na terceira vez que ficaram que o Du percebeu. Assim que se beijaram, contra a parede em um show no Beco 203, ele soube que ia se apaixonar. E esse sentimento continuou pesando nos dois, até mesmo agora, dez meses depois que terminara.

_Faz tanto tempo já... Ele tem a vida dele e eu tenho a minha, não é como se eu devesse qualquer coisa a ele. Não somos comprometidos. Só que gente ainda conversa e, meu, eu ainda gosto dele...
_Vocês se falam com frequência?
_Mais ou menos. Às vezes sumimos um da vida do outro e então, do nada, voltamos a nos falar. Daí passamos semanas nos vendo, falando todos os dias no Skype. Ele é diferente de todos os caras com quem eu já me envolvi, meu. E é muito foda, sabe, lidar com isso.
_Dá pra ver – sorri, bêbada – Só pelo jeito que você fala dele, pela sua expressão...
_É. É uma bosta. Porque ao mesmo tempo não temos nada, nunca tivemos nada. Mas, que nem, essa semana alguém contou para ele do Gui... E eles se conhecem, temos os mesmos amigos. Aí o Martin ficou chateado.
_Mas você mal ficou com o Gui, mano. Não significou nada! Não é como se tivesse rolado algo sério entre vocês...
_É, eu sei. E ele sabe, também. Tipo, não é como se ele esperasse que eu não ficasse com ninguém aqui ou s-sei lá... – o Du afundou a cara no encosto, virado de lado no sofá, e depois me encarou, com o olhar derrotado – ...e-eu sei que ele sabe. Só que não é racional.
_E ele veio te falar alguma coisa? Sobre o Gui e tal?
_Ah. Ele me mandou uma mensagem na segunda, pela internet. Disse que sentia minha falta, que sabia que eu tinha a minha vida, mas que tinha dificuldade de aceitar a forma como as coisas eram para nós. E eu pirei. Fiquei louco, porra! A gente não costuma falar sobre o que ainda sentimos um pelo outro, não é como se eu vivesse pensando nele. Eu tenho consciência de que não estamos juntos. Eu faço as minhas merdas e ele faz as dele lá. Mas são essas vezes, quando ele dá uma dessas, que fodem com a minha cabeça, com tudo. E é uma porcaria, caralho! Voltou tudo com um peso enorme e de repente toda minha rotina aqui parece um nada. Eu não quero mais ficar aqui, assim, cacete, sem ele. E ver ele falando de mim e dele, porra. Puta merda! Quis falar com ele imediatamente. Entrei em êxtase, cara! Sei lá. E aí ele não respondia minhas mensagens, não aparecia online, nada. Me ignorou por dias...
_Mas você não sabia que ele sabia do Gui?
_NÃO! Não fazia ideia. Só ontem que ele apareceu no Skype e foi completamente frio, até então não fazia sentido pra mim, manja. Ele ter mandado aquela mensagem segunda para depois sumir e então começar a ser grosso, a me criticar...
_Mas por quê? O que ele falou??
_Ontem eu liguei para ele assim que ele ficou online e ele tava agindo muito estranho, foi aí que ele me falou que sabia do Gui. Disse que se arrependeu de ter mandado a mensagem, que não devia ter falado nada. Que a vida era minha, que eu que ficasse com quem eu quisesse... E isso me machucou. Porque, porra, eu SEI que é assim, que a gente tá separado e que cada um tem as suas merdas, mas não quer dizer que eu GOSTE, que eu queira que seja assim. Eu amo ele pra caralho. Saber que ele tem ciúmes me faz sentir BEM, porra! Eu quero que ele sinta, que ele fale comigo. Mas àquela altura ele já tava puto, já tinha processado a informação e há dias e sem vir conversar comigo. Aí ele disse que “percebia” que eu ainda era um moleque; que, segundo ele, eu continuava vivendo do mesmo jeito que quando ele morava no Brasil, antes de a gente ficar; que eu nunca ia mudar o meu jeito...
_Affe. Que babaca.
_Não é. É que ele sente que nunca vamos ter as mesmas vidas – o Du se contorcia no lugar a cada frase, com raiva de si mesmo –. Disse que ele se engana quando pensa em mim, que eu não sou como ele imagina. Nossa, foi muito foda de ouvir, você não faz ideia. Isso me destruiu, porra.
_Ah, Duduzinho, mas ele está com ciúmes, meu. É só porque ele conhece o Gui...
_Não sei. Mesmo. Eu sinto que, em partes – passou a mão no rosto, tinha a voz embargada –, ele tem razão. Eu não sei o quanto mudei ou o quanto teria mudado do lado dele. Eu sou mesmo um moleque, olha pra mim, mano! Puta bicha idiota. Sabe, eu tomo porre na Augusta e pego caras como o Gui e porque... Porque, sei lá, p-porque tô entediado, porque quero meter, porque não sei que porra me dá na cabeça quando eu encho a cara e é tédio, é só tédio. Eu tenho medo de que um dia ele acorde e perceba isso, saca? De verdade. Que eu não sei que porcaria eu quero fazer com a minha vida, que eu sou mesmo um caos. E ele TEM razão, nós levamos mesmo vidas completamente diferentes. E eu, porra, eu não sou metade do que ele é, meu! Agora ele está chateado por um lance que eu fiz e que não precisava nem ter existido... entende?
_Du: não. Pára com isso. Nada a ver! Vocês dois se gostam, caralho, vocês se dão bem... – ele deu de ombros, melancólico – E ele gosta de você, é óbvio que gosta. TÁ NA CARA! Ele sabe quem você é, sempre soube. E ele te curte inteiro. Ele só está machucado, tá com o ego ferido, meu. E tá tentando te agredir de volta, é só um jogo idiota...
_Nossa, meu. Eu tenho certeza que foi Bruno que contou, certeza, mano. Certeza... – balançou a cabeça, se tornando irritado – Eles se pegaram, meu, logo quando o Martin entrou pro grupo. E eu sei que foi esse invejoso de merda que foi lá, abrir a boca.
_Mas e daí, importa? A questão é que, mano... Já foi. É assim agora. Vocês tão separados! Essa é a realidade. Esse cara vai esperar que você não pegue bicha nenhuma que ele conheceu nesses dois anos que ficou aqui?! Pera lá. Vocês sabem o que sentem um pelo outro. Os dois. Isso não mudou. Mas a vida segue... Que cê vai fazer, porra? Não vai meter nunca mais? Você nem sabe se vai ver ele de novo, meu. Não dá pra ele ter um surto de ciúmes toda vez que você come alguém do outro lado do oceano...
_Eu sei disso. Esse é meio que o “acordo” – o Du encheu e virou mais uma dose de rum, me entregando a garrafa em seguida –; mas na prática é outra coisa, né. Eu também já fiquei mal. Eu também já dei os meus chiliques com ele. Que nem, nuns meses atrás, eu vi uma foto dele com um outro cara. Foi besteira. Um dos amigos dele que postou no perfil do Martin, junto com um comentário fazendo gracinha. E eu, nossa, eu perdi a cabeça.
_Ai, Du, mas também... – eu ri do ridículo da situação descrita.
_Acha engraçado? Pois eu fui lá e curti a foto, fiz questão que ele visse que eu tinha visto. Não deu nem dez minutos e ele apagou do perfil. Veio todo manso, depois, querer conversar, como se nada tivesse acontecido...
_Affe. Você também, hein. Se merecem... – revirei os olhos.
_E nem dei bola. Falei que tava saindo, que não podia conversar. E isso que eu tinha ficado a tarde inteira surtado por causa daquela porra, fumei um inteiro olhando pra merda da tela. Não desgrudar da ideia que tinha outra merda de, de cara com a mão no Martin. Todo ridículo, não? – ele riu – Mas, ah! Não tô nem aí. Ainda saí, saí mesmo, e passei o rodo na Society. Peguei até gripe de tanto dormir com a bunda pra fora naquela semana...
_Naquelas reações bem “proporcionais” ao fato... – eu gargalhei.
_Quê?
_Nada, uai... Não é como se eu já não tivesse feito igual e por menos até – passei a mão na nuca, lamentando –. Nossa, eu já fiz merdas homéricas só por achar que a Mia estava com o Fer, mano, sem nem saber se estava mesmo. Isso enquanto eles namoravam ainda. Bastava encontrar o apartamento vazio num dia que eu já não tivesse muito bem... e pronto!
_Cara – ele deslizou a cabeça pelo encosto e a apoiou no meu colo –, tira essa garrafa daqui, por favor – empurrou o Bacardi para longe –. Que eu já tô ficando muito bêbado...

10 comentários:

Mylena G disse...

Eles dois são identicos, até nas merdas... isso me faz pensar que esse relacionamento dele com o Martin, esse caos, é um espelho do que Mia e FM podem se tornar... nem sei, só a imaginação de domingo. Espero que não.

Anônimo disse...

Meeel, não aceita esse, é só pra avisar que lá pela oitava linha do terceiro parágrafo tem um "mas" que acho que deveria ser um "mais" ;)

O post tá ótimo por sinal, o Martin lembra muito os meus amigos hahaha

Ianca' disse...

Então o nome da FM agora é Eduarda? Po, gêmeos HAHAHAHAHA

( the girl fucking Mia ) disse...

Corrigi, obrigada :)

Anônimo disse...

A FM manja pra caralho em como analisar relacionamenntos, orra!
Não a toa estão bêbados aí.
u.u

Anônimo disse...

Du is the new Fernando

Anônimo disse...

Bom saber um pouco mais do Du. Ele é realmente muito parecido com a FM de uns anos atrás

Anônimo disse...

Me identifiquei mt com o du!! ja nmorei uma menina do maranhao e moro em sp... Td mundo tem dramas de relacionamento, acho q ngm deixa de ser assim. A fm, o fer, o du, a mia, eles sao tds assim. É mt legal ler sobre as vidas deles <33

Anônimo disse...

MELZINHA LINDA, NÃO TEM COMO NÃO SE APAIXONAR POR ESSA HISTÓRIA! Acho que surto se/quando ela acabar... :(

(Um pergunta que não tem nada a ver com o blog... Tava pensando no seu livro esses dias - que não sei onde foi parar, acho que me roubaram. :~~ - e lembrei de uma moça que era ~stripper virtual~. Você sabe o site? HAHAHA Não consegui lembrar por nada no mundo!)

Anônimo disse...

Esperando o primeiro post de 2014...rsrs