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dezembro 25, 2013

Sa.pa.tão

s.m. pej. vulg. designação atribuída às lésbicas

A verdadeira abordagem da Mia era, todavia, menos corajosa. As suas discussões com a mãe estendiam-se até o direito de existência, digamos; mais tarde naquela noite, ambas brigariam pelo não direito da mãe de interferir na sua vida e pelo consequente direito da Mia de fazer o que bem entendesse. “NÃO É DA CONTA DELA! Mandei não te ligar mais, meu... Deu pra se meter agora?!??”, ela gritou ao telefone, ainda exaltada. Eu a escutava pacientemente. Nenhuma das duas, entretanto, conseguia falar a palavra. 

Lés.bi.ca (etm. grega “lesbos”) s.f. mulher que sente atração afetiva e/ou sexual por outra mulher.

Esta só falavam para mim. Eu colava o velcro nas ameaças de uma e nos sorrisos imprestáveis da outra. Entre elas, a natureza do nosso relacionamento permanecia impronunciada. Não que houvesse algum problema nisso. Ou não particularmente. Eu não dava a mínima para o quanto a família da Mia sabia (mesmo!). Preferia que ela fosse livre para sair do que para falar sobre mim na mesa. Isso pouco me importava. Era algo que tinha que incomodá-la e não a mim – havia certa calma intrínseca em mim desde que ficáramos juntas. Eu me divertia. Com como ambas falavam sobre o mesmo assunto, subentendido, e eram incapazes de o dizer de fato.

Na quinta, naquela mesma semana, foi a Marina que se enrolou. Num drama do mesmo gênero. “O meu editor acha que tatuagem eh coisa de homem”, me escreveu num SMS. Eu saía do metrô Consolação, voltando do trabalho. São mais de sete horas, Marina, sai dessa porra de redação que eles tão te explorando, porra. Eu fazia bastante hora extra, mas as dela extrapolavam o absurdo desde a época em que namoráramos. Eu ficava indignada. Outra mensagem se seguiu: “ele aqui tá discursando como ñ é atraente e ñ ficaria cmg... COMO SE EU QUISESSE!”. Eu ri. As mensagens dela se sucediam rapidamente, sem que eu tivesse tempo de respondê-las.

A imaginei sentada numa cadeira com cara de paisagem, escutando àquele asno enquanto me relatava a conversa toda. “Essa eh otima... ’tatuagem no braço eh feio, eh coisa de caminhoneira’. MEU DEUS, ME DESCOBRIRAM!!!”, ela me escreveu. E eu sorri. Lhe sugeri então – “diz que anda achando a mina dele mais gata desde o fds...”. “Hahahahaha <3 i="">”. “Escroto”. “Mto, me da preguiça, ñ pedi a opinião dele tava mostrando pra outra das jornalistas”. “E qdo vou te ver, ô? Sdds”. “Qdo vc sair do casulo com essa mia...”. “Idiota”. “Vdd. Antes me ligava qse td dia =(”. “Marina pfvr ne...”. “To brincando, flor... vai, tira o atraso a vontade =)))”. “Sei”. “Q?”. “Eu nem to vendo ela, faz dias ja”. “'Dias, aham”. “Eh”. “Msm? Qtos?”. “Desde 2a”. “NOSSA! E VC TA VIVA AINDA???”. “Mano, ñ vou mais falar com vc...”. “Meu! Para! Vai me largar com esse imbecil?”. “Caralho, ele ainda ñ calou a boca?”. “Ñ. Fala cmg”. “Affe”. “Agora ta dizendo: ‘uma estrelinha eh ok, uma coisinha discreta’”. “Zzzzzzzzz...”. “Vem me salvar”. “Hj ñ posso... :P”. “Nossa, eu vou qdo vc me chama, ok”. “Ñ eh, linda. O Du ta mal”. “Pq? =/”. “Algo com um cara, ele me ligou faz 10 min...“. “Oq? Foi hj?”. “Nem, meu, ta rolando a semana td ja... ontem ouvi eles no tel...”. “Ai. Manda um bjo meu, tadinho =/”.

Pois é. Era estranho. Até aquele momento, eu nunca havia pensado no meu colega de apartamento como alguém, digamos, com sentimentos. Não os pra valer – que envolvessem algo mais complexo emocionalmente do diversão e putaria nas noites paulistanas. E não, não era por mal. Desde que se mudara eu o vira com tantos caras pelos cômodos que não havia passado pela minha cabeça que ele podia realmente estar sofrendo – o que era ridículo, admito. Especialmente dada à quantidade de pessoas com quem eu me envolvi enquanto a Mia namorava o Fernando. E eu me despedaçava, enchendo a cara de rum na cozinha madrugada afora. Por assim dizer.

Tinha impressão de que a questão com o cara, o que iniciara o desânimo da segunda e que ligara na noite anterior, era bem diferente. Mas não entendera o quê. E era difícil, para mim, conceber. O Du me divertia cotidianamente, putão e todo porralouca. Ele não parecia estar submerso em romance algum. Ficara com a impressão que estava solteiro há tempo o suficiente para ter superado quaisquer possíveis fossas. E aproveitando bem – com o Gui e inúmeros outros. Até outras. Mas aparentemente, não.

_Você vem pra cá que horas? – ele me perguntou ao telefone, uns minutos antes, com a voz amarga.
_Tava pegando o metrô agora. Aconteceu alguma coisa?
_Não. Sim – hesitou – Uma merda aí. Não quero falar a respeito. Precisava sair, encher a cara, ir pra Augusta. Qualquer porcaria.
_A gente pode ir, eu chego em tipo vinte minutos...
_Desculpa se eu tô sendo aleatório; se você tiver outra coisa pra fazer, tudo bem. É que eu, sei lá. Eu n-não... – bufou – ...não consigo ficar aqui e não quero sair sozinho, saca... – parecia frustrado, tenso – ...eu n-não, NÃO POSSO pegar ninguém, meu. Preciso de alguém que não vá me fazer pergunta nenhuma.
_Não, meu... Vamos! Demorou.

Ele me agradeceu. E disse que ia tomar um banho rápido. A verdade é que eu era a melhor companhia para essas ocasiões. Ao contrário da minha ex-namorada e sua curiosidade latente, por exemplo, eu bebia mais do que puxava assunto com os outros. Era ótima em respeitar o espaço alheio. Quinze minutos e eu já descia a Frei Caneca, a pé.

17 comentários:

Anônimo disse...

o Du é a versão femina da antiga FM. hahahaha. e guess what? ele tem até uma "Mia" tbm! haha

adorei o título e as conversas subentendidas entre ela e a mãe.

OI MARINA!!!! QUANTO TEMPO!!! =D

Anônimo disse...

que saudades da Marina ):

Anônimo disse...

a tadinho do Du meu :( ae Mia é isso ae enfrenta a mãe msm...

Patricia Corrêa disse...

Marina linda :)

Anônimo disse...

qm ta dxando o du assim?O_o

Karla Mucily disse...

Eu já tinha feito um puta comentário,mas não foi...enfim nele dizia que com esse dias mais tranquilos peguei pra reler o blog desde do inicio novamente pela milésima vez ;3 to na fase das bads da Mia por ciumes da clara toda desesperada e confusa,já chorei demais e vendo todo progresso espetacular dessa historia,toda a evolução,quebra de ideologias,esteriotipos enfim fora a verdade visceral descrita em cada linha,acompanho desde dos meus 16 anos e agora com 20 e revivendo tudo te digo Porra Mel!PORRA PORRA muito obrigada,tu não imagina como cada post tem um significado pra cada uma aqui. acho que é só por hora ♡♡

Bárbara Leão disse...

Meu que post louco!
Adorei!
Um pouco mais de vida real ~não que eu não goste do mundo F.M~ mas esse tchan de vida real é bom demais!
Amigo na fossa, a Mariiiiina <3...
Chefes otários...
Aliás, to me preparando psicologicamente pros comentários dos meus tios depois que eu fizer a minha tattoo! ¬¬'

Anônimo disse...

wtf! escrevi tudo errado lá em cima. o Du é a versão masculina da fm antigamente!

Anônimo disse...

sabe o que eu acho? fm vai pra balada com o du e bla bla bla e de repente nessa balada surge quem??? QUEM??? CLARA. imagina que louco ver a clara de longe assim... e bom, aí é tu que sabe o que rola depois. mas sério: por favor a clara, nem que seja só pra aparecer como quem não quer nada apenas uma troca de olhares e sumir de novo.

mas te falar que meu sonho é: threesome entre fm, mia e clara. se um dia isso acontecer eu financio a websérie. bjo

Anônimo disse...

Marina = Mel tagarela

Anônimo disse...

Olha, genial a FM encontrar a Clara na balada. De preferência, que ela esteja pegando outra! Estou morrendo de saudades e quero notícias dela. Agora, na minha opinião, Clara-FM-Mia é algo que está fora de cogitação! Seria mt forçado, gente! Cês só querem putaria, suas sapatonas, coerência na história pra que, né? Hahahahaha

Anônimo disse...

Imagina que louco se o Fer aparece pegando a Clara nessa balada? hahaha

Anônimo disse...

Fiz a mesma coisa que voce, to nessa parte tbm HAHAHA

Anônimo disse...

Nooooooossa, Fer e Clara é tenso!

Anônimo disse...

se o fer aparecer pegando a clara vou ficar puta. clara é fancha, sempre será. se botar homem no meio vai estragar tudo. nem tô sentindo falta do fer, na verdade.

Anônimo disse...

A Clara é da Marina!!! Parem de se enganar!shauhsush

Anônimo disse...

a clara é minha!