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janeiro 07, 2014

O Beijo pt. 2

Rolou pela primeira vez ao acaso, na casa da Dri. Quase seis anos atrás. Naquele dia, nos reunimos entre amigas para ver um filme e jantar – e quando cheguei, a Marina estava lá. Foi como disse: a vi e sorri, inevitavelmente. Ela estava usando um vestido laranja-queimado de mangas curtinhas e losangos pretos estampados, tinha uns botões miúdos na frente, costurados ao tecido fino. A casa da Dri ficava em Ipiranga, numa rua tranqüila. Na hora do filme, a Marina se sentou ao meu lado, como já era esperado, em meio às meninas amontoadas no sofá. E assim, as duas descalças, assistimos todos os 130 minutos de Tomates Verdes Fritos abraçadas – a sua cabeça pendia levemente sobre o meu braço, apoiado ao redor dos seus ombros.

Era o tipo de coisa que se tornara habitual. Entre nós duas.

Tudo muito sutil, impronunciado. Nos abraçávamos, andávamos de mãos dadas, nos tocávamos durante as festas – mas não definíamos a nossa situação. Não lembro bem como começou e nem porque nunca falamos a respeito. Só o fazíamos. E ainda que fosse claro – mais do que óbvio – que queríamos estar uma com a outra, eu tinha dificuldade de aceitar que estava realmente interessada nela. Talvez por não nos conhecermos direito ou pelos seus óculos pretinhos; ou ainda por aquele jeito inseguro de quem ficara com poucas meninas, que ela tinha na época, não sei. A Marina também não se manifestava, ficava sempre subentendido. E ela era difícil de ler.

A Marina era o oposto das garotas com quem eu normalmente me envolvia. No fim de semana que antecedera aquela terça-feira, por exemplo, eu voltara de um encontro malsucedido com uma delas, chamada Dani – uma outra Dani –, e que agora me ligava todo santo dia. Estava de saco cheio. De todas as garotas. E sem paciência para joguinhos. Sentar na mesa aquela noite com a Marina foi, portanto, um alívio para mim. Eu me sentia confortável do lado dela. Conversávamos incessantemente; ela divagava sobre o filme, de uma maneira atraente; tagarelava sobre os diretores que gostava e eu a ouvia, fascinada. Achando graça em tudo. Discordamos minutos depois sobre “Volver”, do Almodóvar, e ela se indignou.

_Você está levando isso muito a sério – eu ri.

E a Marina contestou, claro, revoltada e maravilhosa, prendendo os cabelos morenos em um coque improvisado sobre a cabeça. Eu lhe prometi então que ia assistir de novo e dar uma segunda opinião. “A próxima vez que a gente se esbarrar eu te falo”. “Acho bom”. “Tá, meu”. “Nossa. Certeza que você não vai ver de novo, você só está falando...”. “Não estou”, eu ria. E ela resmungava, por gostar demasiadamente do filme (e de mim). Essa incongruência, aliás, só seria resolvida durante o nosso namoro, quando – em determinada ocasião, meses depois – ela me fez assistir “Volver” três vezes numa mesma semana. Até eu começar a gostar. Esse era o estilo sutil da Marina de não aceitar que discordassem dela. E funcionou.

Depois de acabarmos com três caixas de pizza – estávamos em sete garotas –, sentamos na sala por algum tempo. Tomando cerveja e conversando, noite afora. A Dri e a Lê se revezavam no único violão da casa, tocando mais para elas mesmas do que para nós. Em algum momento da noite, lá pelas onze e pouco, eu me levantei para ir ao banheiro, tendo bebido mais cervejas do que a minha bexiga aguentava. E no caminho de volta, encontrei com a Marina no corredor – a casa da Dri tinha uma passagem estreita que ia dos quartos ao banheiro, pela lateral da casa.

Ali, meio no escuro, ela me perguntou se eu queria voltar para a sala. Tinha as mãos de leve entre as minhas, com as costas apoiadas na parede. “Quer fazer outra coisa?”, respondi, encostada na parede oposta. Entramos então no quarto, meio escritório, onde a Lê ia dormir. Devemos ter conversado por mais de uma hora ali. Sozinhas, sentadas na cama. Sobre ansiedades e empregos, sobre as nossas vidas. Eu acabara de começar num extra provisório no shopping Eldorado para conseguir pagar a faculdade. Aquele foi num dos meus piores anos morando sozinha; o Fer ainda estava na casa dos pais. A Marina me escutava; tinha um dos pés sobre os meus e o joelho deitado de lado sobre a minha perna.

Deslizei eu então a minha mão pela sua, intercalando os nossos dedos e soltando-os, em seguida. Ela sorriu. “Já o meu problema é começar”, argumentou, “não tenho nenhum outro jornalista que me indique nas redações e só as revistas e jornais grandes que têm acordo com o sindicato”, reclamou, “os que não têm não podem ter estudantes como estagiários”. Quê? “Mas não dá para contornar?”, questionei, a observando com admiração. Sentia um frio na barriga por estar ali com ela. E tentava me lembrar da última garota que eu ouvira falar a palavra “sindicato”, eu ria. “O meu problema é que esse não é o tipo de Jornalismo que eu quero fazer”, suspirou, frustrada. E eu sorri, a acalmando. Disse para que se preocupasse menos – “você vai ter tempo”. “É, tem razão”, deu de ombros, não muito convencida.

Os nossos braços estavam entrelaçados. Sentadas lado a lado na cama, as costas contra a parede. Nos tocávamos com certa intimidade. A Marina tinha um jeito de intelectual descolada, eu a observava; era absolutamente deslumbrante. Corria o indicador pela palma da minha mão, aberta sobre as minhas pernas. Deslizando-o a esmo. Ficáramos agora em silêncio. E foi quando eu soube que queria beijá-la. Puta merda. Me senti presa em mim mesma. No meu próprio corpo; tudo com aquela garota era incerto e devagar. Tão devagar. Eu não sabia o quanto tínhamos uma pela outra era platônico e o quão real eu o poderia tornar. Eu sorria, vendo-a ajeitar os seus óculos, pretinhos. Ela tinha os olhos fixos nas nossas mãos.

_Eu fiquei feliz que você veio hoje... – disse para ela.

“Hum”, a Marina murmurou e encostou a cabeça no meu ombro, com as mãos ainda nas minhas. Não respondeu mais nada. A verdade é que estava nervosa, insegura por não ter passado por isso antes com outra garota, mas se forçava a uma postura tranquila. Sabia que se tornava iminente. Eu o sentia na sua respiração, quando enfim soltei os meus dedos dos seus. E os levei à lateral do seu rosto. O seu pulmão se encheu, pressionando o meu braço, encostado de frente ao seu corpo. Deslizei o meu polegar pela sua pele, pelas maçãs do seu rosto, bem de leve. Já o fizera um milhão de vezes, com outras garotas – mas ela não. A Marina namorou uns caras, na adolescência, e só agora começava a beijar mulher. Uma ou outra nas festas de faculdade. Meio bêbada. Aquele chove-não-molha comigo, acreditem ou não, era o mais próximo que chegara de algo mais sério.

O que me acarretava certa responsabilidade. A sua respiração deixava transparecer uma ansiedade crescente. Tínhamos experiências distintas. Eu me aproximei. Em gestos lentos e cuidadosos. Parte de mim receava que a pudesse transgredir; ainda que fosse tão madura, em momentos não parecia mais do que uma garotinha. De 20 anos, sim; mas que nunca se apaixonara de verdade por ninguém. Ela fechou os olhos. Insegura. Eu a observava, ainda de perto; não tinha como voltar atrás agora. Não falávamos. A tocava o rosto, numa busca velada por sincronia e sem pressa. Já ela tinhas as suas mãos imóveis, o corpo inteiro como se à espera. Como se segurasse a respiração. Por mim. Encostei a minha testa suavemente na dela e logo a ponta do seu nariz tocou a minha. Ela se aproximava, também. Eu sorri. E me juntei a ela no escuro, fechando os meus olhos. Foi quando levei a minha boca à sua.

_Ai. Me desculpa... – a Mia chegou de repente, me arrancando violentamente dos meus delírios nostálgicos, e pressionou os lábios brevemente nos meus; toda afobada e magnífica em uma regata preta e de calça jeans, os fios morenos presos de qualquer jeito como quem saíra correndo de casa – ...porra, foi mal mesmo. E aí, já começou?

37 comentários:

Anônimo disse...

Morri. Umas dez vezes, pqp!!

Anônimo disse...

Mas mas mas! eu já estava imersa na Marina, que isso... nao pode parar assim hahaha

Anônimo disse...

Várias observações:

Marina usa a mesma armação de óculos há séculos! hahaha

Mel = Marina

Esse post = Second First Kisses do OBC.

Amei. <3

Anônimo disse...

" Eu sorria, vendo-a ajeitar os seus óculos, pretinhos." apenas posso comentar com varios: <3 <3 <3 <3 <3

Anônimo disse...

hahahaha pensei a mesma coisa "mas meu, a marina usa os mesmos oculos ainda?"

Anônimo disse...

Ahhhh.. aconteceu algo parecido comigo. Na verdade, não foi parecido, foi do mesmo jeito. Sem tirar e nem por. Nostalgia agora. =)

( the girl fucking Mia ) disse...

Achei que ia chocar muito, gente. A Marina com óculos de outra cor, hahaha! Mas pode ser outro modelo :)

Anônimo disse...

eu quero casar com a marina, socorrr

Ianca' disse...

A FM lembra até a roupa que a Marina tava, Xesus...
"Ela me fez assistir Volver três vezes numa mesma semana. Até eu começar a gostar. Esse era o estilo sutil da Marina de não aceitar que discordassem dela." awwwwwwwwwwwwwn hahahahahaha


Velho, pq a Mia chegou? Que ódio HAHAHAHAHA Eu tava aqui toda abobalhada

Ianca' disse...

Mas acho que a Marina já nasceu com os óculos pretinhos.
Pq a mina mais fofa e perfeita do blog tem que ter a tua formação acadêmica, Melissa? Hein, hein?

( the girl fucking Mia ) disse...

Porque eu sou fofa e perfeita, beijos.


(hahahaha, brincadeira! Porque a Marina é meio que a "consciência" da FM e eu achei que ela precisava ser articulada, então a coloquei em Comunicação Social. Mas ela ser jornalista já é informação velha, ô, Ianca! Hahaha)

Patricia Corrêa disse...

Marina <3 porque tão perfeita?

Patricia Corrêa disse...

Quero a Marina todinha para mim, agora, por favor, obrigado, de nada, kkkkkk

Anônimo disse...

esse post combinou com a música: Second brain - kaki king (trilha sonora de paraísos artificiais)

Anônimo disse...

A Marina da minha cabeça: https://fbcdn-sphotos-g-a.akamaihd.net/hphotos-ak-frc1/578992_421107307943830_106647834_n.jpg

Anônimo disse...

Aaaauhmmmmm..... S2

Anônimo disse...

Serio, esses dois posts foram mt amor! Sempre quis saber como tinha rolado entre as duas.... <33

- Mcc

Anônimo disse...

Awn que fofo, Mel. To in love pela Marina. ♡♡

Anônimo disse...

Marina,marina,marina pronto galera já tiveram muita marina u.u Quero MIAAAAAAAAA agr pfv!

Anônimo disse...

Na verdade, eu ainda quero a Clara (linda!) hahaha

Pathy disse...

Eu também fiquei de cara com a FM que lembrava até a roupa que a Marina usava <3
E não coloque Má no post, pq ai eu já co-relaciono com a sua Má, Mel. hahahhaa

Rebecca Bittencourt disse...

Odiei a chegada da Mia! hahaha
Eu estava tão compenetrada na Marina! =/

Anônimo disse...

eu quero que a clara apareça. fim.

Anônimo disse...

Quando a história mudar de nome e se chamar "Fuckin' Clara", ela deve aparecer. Enquanto isso.. Mia, please!

Anônimo disse...

Pode parecer meio estranho, mas queria saber um pouco mais sobre a Mia. Elas não têm uns diálogos muito profundos, né? A Clara tinha mais conteúdo do que a Mia aparenta ter.

Anônimo disse...

Ai linda(o) vem cá me abraça...ctz chega de Clara u.u queremos Mia! ♡

( the girl fucking Mia ) disse...

É que a relação delas sempre foi muito limitada, a Mia é uma observadora e é parte do que intriga a FM. Mas elas estão se abrindo e redescobrindo :)

Você tem razão na observação!

Anônimo disse...

Outra opção é você realmente trazer a Clara de volta, junto com todo aquele encanto, personalidade e conteúdo. Hahaha...

Anônimo disse...

Sendo team Mia, pode até trazer a Clara, mas q FM não invente de tocar um dedo sequer na argentina rs.
Falando sério agora, acho q o momento é de imersão no cotidiano entre FM e Mia, estreitamento sentimental (pq físico já é) entre elas. Até porque se for pra "balançar" a relação, basta o reaparecimento do Fernando...

Anônimo disse...

Não é pra balançar a relação delas, é apenas que acho a Clara uma personagem mais interessante do que a Mia. Daí a saudade...

Anônimo disse...

Acho que a Mel tem que criar uma história da Clara p/ matar a saudade do seu team. Mas, se ela tiver que aparecer novamente por aqui, que seja ao acaso e rapidamente suma. #teamMIA

Anônimo disse...

Spin off Fuckin' Clara

Anônimo disse...

Concordo velho! Geral tem curiosidade de saber como a Mia pensa?como tá sendo essa situação com a familia dela,provas de amor ela tá dando *.* ...só queria que de verdade as coisas fluiam bacana entre elas #TeamMia

Anônimo disse...

sdds obc

Anônimo disse...

Anônimo das 12:42 do dia 7, sempre imaginei Marina meio assim também, mas com mais cachinhos e pouca coisa mais "delicadinha". <3

MEL!!! Sacanagem Mia me tirar desse oceano de Marina. )=

Juliana Nadu disse...

Morri...

bru disse...

Parem de querer marina e clara!!! O que importa nesta porra é a mia. Ah, a mia...