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janeiro 13, 2014

O Retrovisor

Lá estava. A cara de descontentamento da Marina, assim que as duas nos alcançaram com o carro na Paulista. Franziu a boca e as sobrancelhas ao mesmo tempo. A Vivian ria ao seu lado. E a Mia tentou se explicar, mas acabamos nos enrolando ainda mais, sem uma justificativa aceitável. O fato é que achamos a peça um porre. E ela não quis saber, detrás dos seus óculos pretinhos, virando para o banco de trás repetidas vezes e nos fuzilando com os olhos, enquanto tagarelava. Meio brincando, meio séria. “Pois eu devia fazer vocês pagarem o dobro pelos ingressos”, resmungava contrariada. Imagina alguém que me obrigou a assistir Volver três vezes – é. Eu lhe garanti então que pagaria de volta. Em dobro. E em tequila.

_Eu não vou beber hoje, flor. Estou dirigindo.
_Ah, vai, sim... – eu ri, afundada atrás com a Mia, lhe respondendo alto – ...deixa o carro na minha garagem e vamos, mano! Aí cês dormem lá em casa, a gente pode ir a pé...
_É, mô... – a Vivian a incentivou, com as pernas dobradas no banco do passageiro, em seu shorts verde-escuro – ...parece uma boa, meu.
_Não. Dormir fora?
_AH, VÁ! MARI-NÁ... – empurrei o seu banco com o meu joelho, reclamando – Deixa de ser mala, mano. Só uma vez na vida, porra. Qual o problema?
_É, mor... – argh, todo meu horror a quem diz “mor” romanticamente, revirei os olhos brevemente – A gente fica lá, assim você pode beber junto, meu. Qual o problema?!
_Não quero. Primeiro que eu ainda estou brava com vocês. As duas aí atrás. E segundo que, meu, nem a pau... Mas-nem-a-pau-mesmo! Eu tenho certeza que vou acabar de babá das três – argumentou – e ainda é capaz de todo mundo ficar bêbada e saidinha, a gente ir pra sua casa... e isso não vai dar certo.

Quê?

_Mas que diabos...? – eu comecei a rir, claramente entendendo antes das outras duas – Que é agora? É um plano maquiavélico? Você tem medo de dormir na minha casa, é isso?!
_Eu não falei sério. E você entendeu o que eu quis dizer...
_Marina... – eu gargalhava – ...você tem problema, cara. Mesmo.
_Do que cês tão falando, meu? – a Mia nos olhava confusa, ao meu lado.
_”Do quê”. Ela acha que eu quero comer ela... – a zombei, de forma não muito sutil, levantando as mãos sobre os ombros – As duas. AS TRÊS, ALIÁS! – ri – Né, ô, Sra. Motorista?
_Não foi isso que eu diss...
_Ah! Foi. FOI, SIM! – a interrompi, já gritando dentro do carro, exaltada; sem nem ter começado a beber ainda – Sim, senhora! Meu, muito foi... MUITO! – eu ria – Não vem querer consertar agora!
_Não. Eu não disse que você queria. Eu só estou dizendo que conheço a Vi e que te conheço o suficiente, bêbada do jeito que você e do jeito que posso imaginar que a Mia também é – “ei!”, ela contestou e a Marina continuou, como se explicasse logicamente –. E depois vai dormir todo mundo na sua casa, assim, como se nada fosse?
_DO QUE CÊ TÁ FALANDO, MANO?!
_Olha. Eu acho assim... – a Mia interferiu, de repente, dando com as mãos para cima – ...na boa? Só você pensou isso, Marina. Ninguém mais falou nada.
_É! Verdade! – eu concordei e nos divertíamos, sentadas no banco de trás com os olhos no retrovisor, nos dela – Pegou mal, meu. Tem que ver isso aí... Fica subvertendo as coisas assim. Isso é sinal de que quer.
_Relaxa que eu divido, Má...

Divide?, pensei surpresa, levando a brincadeira a sério por um milésimo de segundo e beijei a Mia impulsivamente, antes de tornar a rir. Olhando-a entre as sombras do banco de trás.

_Não, muito obrigada – a Marina me rejeitou, fazendo graça –. Pode ficar. Dessa daí não quero mais nada... Já deu a minha cota.
_Bom, né?! – a Vivian riu.
_Ah, não? Não, é? Não quer? Sei bem... – fui mais para a frente, cutucando-a no banco do motorista, enquanto ela tentava dirigir e me bater simultaneamente, para que eu parasse de encher o saco – Quer, sim... Quer. Vai. Admite. Se denunciou toda aí, fica desejando a gente, meu. Com medo de ir pra casa e não se controlar, agora vai. Se solta, Má... Vem! – , era óbvio que ninguém ali estava falando sério, mas provocar a Marina até ela me dar uns tapas desajeitados, enquanto a Vivian e a Mia assistiam aos risos, era fácil demais – Vem, meu. Dorme lá com a gente, pô. Cabe todo mundo... Eu e a Mia ficamos tão sozinhas naquele apartamento...
_Olha, eu já tô consentindo... – a tal Vivian brincou.
_AMOR!

Cara, gostei de você, pensei. E a Marina lhe lançou um olhar indignado, por sua vez, sem saber se ficava brava ou se achava graça.

_Quê? A gente só tá brincando, meu...
_Eu não. Meu voto é que a gente nem vá pra Augusta, meu... – a Mia sugeriu, com as pernas entrelaçadas na minha no banco de trás, rindo.
_É! Vamos direto. Vira aí, Má... – indiquei conforme nos aproximávamos da Frei Caneca, no semitrânsito da Paulista às dez.
_Ninguém mandou sugerir...
_Nossa, verdade, Má... – mudei de tom, me tornando séria – ...eu nunca que esperava isso de você. Sabe, de mim, da Mia, ok. A gente é porralouca, já fez um monte de merda na vida. Desculpa, Vivian, eu não te conheço; mas você, cara... Você, Marina?! Logo você! Que, meu, que sempre foi tão certinha. E agora fica aí convidando pra essa pouca vergonha...  
_Quando você acha que conhece uma pessoa, né... – a sua nova namorada lamentou, em clima de esquenta para o que seria uma longa noite de bullying na Marina.
_Não é, meu?! Você acha que ela é boa amiga, que te escuta. Que não tem segundas intenções. Quando na verdade...
_ESCUTA AQUI! EU VOU PARAR O CARRO E VAI TODO MUNDO DESCER!

Nós rimos. E soltamos um sonoro “ahhh!” em coro, tirando com a cara dela. As suas bochechas se tornavam progressivamente vermelhas – via-se pelo reflexo do retrovisor –, completamente constrangida pela brincadeira. A verdade era que eu tinha tanta intenção de comer a Marina, a Mia e a Vivian juntas quanto tinha de dar para o Du 24h antes, no lamentável incidente do sofá.

Ou seja, zero.

Mas brincar com o conceito era divertido – especialmente pela reação exagerada da Marina atrás do volante. Eu ri no trajeto todo. A região da Augusta já começava a lotar. E o relógio do carro marcava dez. Após certo convencimento – e três promessas de que nos comportaríamos –, a persuadimos a estacionar na garagem do meu prédio. O cara que alugava a minha vaga a deixava livre aos finais de semana.

Subimos e largamos tudo o que fosse importante – as bolsas delas, chave e documento do carro – no apartamento. Metemos apenas o dinheiro e o R.G. nos bolsos. Isto é, nos da Vivian, já que a Marina estava de vestido. Aproveitei para trocar a minha calça por um shorts e mudar de tênis. Andava viciada em um antigo, surrado meu, da Adidas. Vermelho. De cadarços pretos. A Mia roubou um shorts do meu armário e manteve a sua regata, soltando o cabelo pouco antes de sairmos. A Marina fez uma trança. À exceção dela, nós três estávamos visivelmente dykes ao chegarmos no elevador e darmos de cara com o espelho.

Inclusive a Mia. O que particularmente me tirava do sério. Porque não era como se eu sempre tivesse algo por garotas héteros. Muito pelo contrário, aliás. O que sempre me fez perder a cabeça foi o oposto, era ver essa fome no olhar das garotas, essa vontade de estar com outra mulher. Comigo, no caso. E a Mia sempre tivera isso; ainda que no começo não fosse claro se ela o tinha mesmo ou se era eu quem estava enxergando o que bem queria. E naquela noite, em particular, puta que pariu. Ela estava maravilhosa. Era impossível não ficar fascinada por aquela mulher, assim. Devolvendo a careta para a Marina, ao acender um baseado na calçada da Frei, e sorrindo para mim. Uma das suas pétalas de cerejeira se tornava visível por cima do seu ombro – mesmo de frente. E eu a observava.

Andávamos sem saber direito onde íamos. A Vivian quis ir no Mono. E eu rejeitei prontamente. “Não, meu”, resmunguei, “lá é caro pra caralho”. Passamos na frente então da Outs e do Caos, ambos com gente transbordando para fora da porta. Às onze, o que era cedo e mau sinal – a Augusta ia ferver.

21 comentários:

Ianca' disse...

Que post gracinha, sou apaixonadinha pela Marina, cara...
Sempre tive curiosidade sobre a vaga da garagem da FM, obrigada Mel

Anônimo disse...

*_* A Marina fica cada vez mais linda!! Toda vez q ela aparece me apaixono mais!!

Liv disse...

Eu sei que elas estão na fase amorzinho, e tal (e tá super fofo) maaaaas tá muito parado! Cadê o b.o.???
A sogra sumiu... o Fer sumiu...

Anônimo disse...

Má <3

Anônimo disse...

Marina, hein! hahahaha
Lages.

Anônimo disse...

meeeu, que coisa mais fofa essa Marina quando fica brava <3

Anônimo disse...

Tudo na paz, uhul

Anônimo disse...

To com medo de que nesse fervo todo apareça o Fer e que role uma treta gigantesca ):

Anônimo disse...

Ah, essa Mia está apaixonante!

Anônimo disse...

Ai, que lindas. Só acho que falta pelo menos um meio post quente com a Marina, mesmo que fosse uma lembrança da FM com ela. <3

Bárbara Leão disse...

Caaaraaa!!!
Amei esse post!
Post gostoso, me lembra as minhas brincadeiras com minha amor e toda a nossa roda de amigos!
Ri tão frouxo, como se estivesse participando do bullying coletivo, que por sinal eu amo!
Minha irmã queria saber o q eu tinha!
Posta loooogoo!!!

Anônimo disse...

concordo com a fm, chamar a pessoa de "mor" é horrivel! nao dá! hahaha

( the girl fucking Mia ) disse...

Liv, como assim? A Mia ACABOU de brigar com a mãe. Hahaha! Mas não pede o B.O. que ele vem.

Cê sabe que sempre vem... ;P

OBRIGADA A TODAS PELOS COMENTÁRIOS LINDOS. VOCÊS SÃO DEMAIS <3

Anônimo disse...

Nao sei se ja perguntaram isso aqui e/ou isso é uma pergunta obvia e idiota, masss... um dia saberemos o nome da nossa tão amada FM? Acho que sempre ficou claro que ela é 'the girl fucking mia', mas essa duvida me consome, isso dela nunca ter sido chamada pelo nome, mesmo que isso seja proposital!

Anônimo disse...

É FERNANDA

( the girl fucking Mia ) disse...

Ela não tem e acho que nem nunca terá. Sempre me perguntam isso. Eu demorei para colocar o nome nela, porque achava que nenhum contemplava a personagem como um todo e acabou criando esse mistério em volta dela, tomei gosto. Hoje nem me preocupo com isso! Assim cada uma pode imaginá-la como quiser. Ela virou meio que a "garota sem rosto", então acho que cabe em todos, ao mesmo tempo. Sinto muito! (Resposta decepcionante?) :/

Mas tem leitoras que chamam ela de Fernanda Maria (por causa do "FM") e eu brinco que ela fazia dupla sertaneja no apê, "Fer & Fer", o hit da Frei! Hahahaha!

Anônimo disse...

Nem um pouco decepcionante! Hahahahahahaha
Obrigada por responder. E acho que Fernanda combina mesmo com ela. <3

Pathy disse...

A Marina só sofre bullying, coitada! Hahahhahaa
tô amando esse rolê <3

Anônimo disse...

pra mim o nome da FM é FM. não tem fernanda, muito menos maria. é assim oh: Éfieme. e acabou.

e eu tbm quero B.O. Por favor! Barraco, confusão, caps lock. Quero saber do fer, da clara, do pai da Mia. quédê? =D

Ianca' disse...

Eu conheço uma menina que se chama Fiama, pq não poderia ser Fieme? "Prazer, meu nome ~É-Fieme." '-' Pronto, F.M

bru disse...

EFIEME, HAHAHAHAHA. agora sim!