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janeiro 05, 2014

Tiro e queda

Pois bastou chegar o dia seguinte que o arrependimento se estampou na cara de pau amassada do meu colega de apartamento. Trombei com ele – recém desperto e numa ressaca violenta, ao que me parecia – durante o meu horário de almoço. Atrasada e com pressa naquela manhã, após a bebedeira toda da madrugada, eu esquecera o meu celular sobre a pia do banheiro. E lá para meio dia e meio apareci de novo no apê, entrando apressada e seguindo corredor adiante. Logo recuperei o desgraçado. Agora tinha só vinte minutos para almoçar correndo e pegar o metrô de volta para a produtora. O Du estava na cozinha, em estado zumbi de existência.

_E aí, Don Juan... – zombei dele, já pegando o arroz na geladeira.
_E aí... – ele riu, constrangido, se afundando na palma de umas das mãos – ...veio comer em casa, é?

É. Meti o pote de arroz e o pouco de feijão que restara noutro tupperware dentro do micro-ondas, colocando-os para esquentar. Enquanto eu fritava o pior ovo frito da história, numa frigideira suja de hambúrguer e óleo amanhecido que eu fiquei com preguiça de lavar. Isso é nojento, mano, até para os meus nulos padrões. Olhei para os meus dois ovos cobertos de resquícios pretos duvidosos. Ah! Dane-se. Juntei tudo num prato caminhoneiro e me sentei à mesa, com pressa.   

_Muita ressaca aí? – perguntei, colocando a primeira garfada na boca, e ri, olhando-o franzir as sobrancelhas para a luminosidade da cozinha.
_Nossa. Tá foda. E você, nada?
_Incrivelmente não fiquei tanto, só com um pouco de dor de cabeça... Mas já passou. Tá puta correria lá no trampo hoje também, meu. Nem deu tempo de pensar ainda.
_Ei. Eu queria falar com você, meu...
_Fala aí – mandei a segunda garfada para dentro, ainda apressada.
_Sobre o que rolou ontem. Eu queria pedir desculpas...
_Meu, de boa. Relaxa.
_É sério, mano. Não vai acontecer mais.
_Bom, espero que não... – eu ri.
_Mesmo. Eu não quero que você pense que eu tenho qualquer intenção de..., sabe? Eu não te vejo assim. Nem por um segundo! E eu respeito o seu relacionamento com a Mia. Eu não sei que merda me deu... – ele passou a mão no rosto, detestando a si mesmo – ...sei lá. Não tem desculpa, meu.
_É. Realmente, né, Du...
_Para de rir, velho. É verdade!
_Eu tô levando a sério. Aliás... – coloquei a terceira ou quarta garfada na boca e pisquei para ele – ...você pode começar a sua redenção pegando uma cerveja pra mim lá, vai.
_Pára de tirar, meu...
_Não tô tirando. Eu quero mesmo a cerveja.
_Tá – ele achou graça, se levantando, e eu completei:
_Aproveita e lava a minha louça depois que eu acabar aqui...

Ele riu e concordou. Eu não ligara de fato. Me incomodava, todavia, a falta inadmitida que eu sentira do Fer desde então – o meu primeiro impulso havia sido pegar o telefone e ir contar para ele, queria rir com ele. E isso me desconcertara a manhã toda. Com a latinha já em mãos, instantes depois, observei-o sentar do outro lado da mesa. Puxou a cadeira, vestindo uma das suas regatas cavadas, e sentou com as costas apoiadas na parede. Cada vez que eu olhava para o Du, eu descobria uma nova tatuagem nonsense no seu corpo. A da vez era um Woodstock – o desenho, não o festival – rabiscado em seu ombro. Em proporções minúsculas.

_Meu, isso aí é aquele passarinho do Snoopy?!
_O quê... – ele olhou para baixo, para onde eu apontava com o garfo – ...ah, é.
_De onde cê tira essas paradas, meu? – eu ri.
_Ah, sei lá. Eu vou na casa dum amigo que tatua e mando ele desenhar qualquer porcaria. Odeio quem fica inventando significado pros rabiscos. Tipo, mano, foda-se... É só pele!
_Cê é louco... – balancei a cabeça e deixei a lata mais adiante na mesa, enchendo o garfo novamente.
_E você, que vai fazer hoje? Cê vai na Recalque?
_Acho que não. A Marina queria fazer alguma coisa comigo e com a Mia e a namoradinha nova dela... – revirei os olhos – ...velho, tenho muita preguiça desses rolês de casal, mas fazer o quê, enfim. Tô com saudades da bicha.
_Ou, e ontem, meu... Que cê foi deitar e eu fiquei acordado mais um tempo, lá na sala, e acabei falando com o Martín, acredita?
_Sério?? Mas falaram o quê?
_Ah, mandei um monte de SMS nada a ver. Metade putaria, metade paixonite – o Du passou as mãos no rosto, os seus olhos pareciam abatidos, estava cansado –; disse que não conseguia dormir pensando nele. Aí ele acabou acordando, acho que com o barulho. E me respondeu.
_Mas, assim, bravo?
_Não. Bom... – esfregou as pupilas fechadas – Não sei se ele que tava meio dormindo ainda e aí não tava pensando direito ou se, sei lá...
­_...acabou vencido pela baixaria?
_É. Talvez – o Du achou graça.
_Mas cês ficaram numa boa então?
_Sim. Acho que sim. Por enquanto, pelo menos, sei lá... É complicado – encostou a cabeça na parede e riu, me entreolhando – Ridículo, né?! Eu tirei um print de uma das mensagens dele. Um print, mano. Pode me dar um tiro agora!

Eu ri, fazendo um sinal com a mão para que me desse o celular. Ele tirou o aparelho do bolso e me mostrou uma foto de um dos SMS do Martín, às 4:27, em que se lia – “pues si, la verdade es que me he acordado todos los dias de ti. No hagas caso de este viejo tonto!”*. Junto vinha uma foto de parte do rosto do Martín, deitado em travesseiro.

_Ele parece ser bonito... – comentei, lhe entregando o celular de volta – ...para um cara.  
_Bonito?? Esse babaca é um atentado à minha sanidade, porra. Na boa. Eu preciso, preciso achar um jeito de esquecer esse cara.
_Ah. Boa sorte... – arqueei as sobrancelhas para ele, irônica, ciente do meu fracasso em tirar a Mia da cabeça. Por exemplo.


*Em tradução, do espanhol: "Pois é, a verdade é que tenho me lembrado de você todos os dias. Não ligue pra esse velho tonto (que eu sou)".

16 comentários:

Anônimo disse...

MARINA NO PRÓXIMO POST! <3

Anônimo disse...

Du com ressaca moral. hahahaha

Anônimo disse...

(acho que seria interessante traduzir o sms ao final do post. nem todo mundo entende) ;)

Anônimo disse...

acho que o próximo post é uma excelente oportunidade da FM recordar um transa antiga com a Marina! :)

Anônimo disse...

"dois ovos cobertos de resquícios pretos duvidosos" HAHAHAHAHAHAHA

Anônimo disse...

M.I.A

( the girl fucking Mia ) disse...

Anônimo das 20:20, tentei usar palavras parecidas com português, mas você tem razão. Já coloquei :)

Anônimo disse...

E a todo momento acho q o Du é a versão masculina da FM!! kkkkkkkkkkkk

Sabrina disse...

sdds Mariana, sdds.

Anônimo disse...

E a todo momento acho q o Du é a versão masculina da FM!! kkkkkkkkkkkk

Liv disse...

Ressaca moral...quem nunca?

Anônimo disse...

oooooooobrigada pela tradução!!


Meeeeeeeeeeeeeeeelll to com tanta saudade do Fer!! =/

(Nadu)

Anônimo disse...

Marina is coming!!! mal posso esperar pra ler um "ajeitou seus oculos de armaçao preta" <3 <3 <3 hahaha

Ianca' disse...

As vezes tenho nojinho de umas coisas da fm e morro de rir com isso, mas que se dane minhas manias HAHAHAHA

Marina vindo <3

Anônimo disse...

"Meti o pote de arroz e o pouco de feijão que restara noutro tupperware dentro do micro-ondas, colocando-os para esquentar. Enquanto eu fritava o pior ovo frito da história, numa frigideira suja de hambúrguer e óleo amanhecido que eu fiquei com preguiça de lavar." - MTO MEU ALMOCO! sem tirar nem por! Hahahaha

Anônimo disse...

Acho que peguei mania de beber cerveja enquanto como com a F.M hahahaha