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janeiro 10, 2014

“Vermelho!”

_Não... – eu ri e entreguei o ingresso para a Mia, observando com certa graça a pressa nos seus fios mal presos e na sua expressão – ...vai começar agora, acho.
_Menos mal.
_Muito tenso para chegar?
_Ah, saí atrasada! Tive uma merda de discussão com a minha mãe antes de vir...

A fila andava lentamente, nós duas íamos à frente da Marina e da namorada. A Mia suspirou ao meu lado, meio afobada, recuperando o fôlego. Estava estranhamente bonita. Essa regata te deixa mais sapatão do que o normal, pensei por um instante, admirando a forma como o tecido contornava a curva dos seus ombros.

_Mas por que? Assim, do nada? – questionei; conversávamos casualmente.
_Não. Ela não queria que eu saísse. Ela sabia que eu ia sair com você, essa semana foi um inferno.
_Como assim?? Vocês estão brigando?
_Ah! Ela fica fazendo cara feia, resmungando pela casa... – a Mia reclamou, se tornando inquieta – E eu fico puta, meu! Daí acabo começando as brigas. E não é de propósito, sabe, mas, porra, vai à merda!
_Mas ela chega a dizer que é por isso? Por causa da gente?
_Fala. Lógico que fala! Ela te ligou segunda, mano, cê acha que eu já não ouvi dez vezes mais desde então? Ela nem sabe quem você é, o que tá rolando. E fica querendo me controlar. Aí hoje deu a maior treta... Eu já tava para sair e ela veio até meu quarto perguntar se eu ia pra rua, já de cara feia, e eu disse que sim, daí ela me olhou atravessado. E fez uns comentários desnecessários, meu, acabei brigando com ela. Aí não queria deixar eu sair. Assim! Como se eu tivesse quinze! Porra!
_Você devia ter me falado, linda. Eu não sabia que estava desse jeito, meu... – me tornei preocupada, colocando a minha mão na curva das suas costas sobre a regata preta – Mas e você, você está bem?
_Tô, meu. Eu fico com raiva, não fico mal. Foda-se ela! Eu só não quero que ela conte pro meu pai – entregou o ingresso para um rapaz ao lado da porta –, fora isso... Ela que engula, a vida é minha, caralho!

Entreguei o meu também e esperamos um segundo já do lado de dentro até que as meninas fizessem o mesmo. A Mia se aproximou da Marina, cortando por um instante o assunto, e as cumprimentou.

_Desculpa, eu nem falei oi direito. A gente ficou aqui conversando... – sorriu para as duas e a minha adorável ex-namorada disse que não importava, claro, enquanto guardava na bolsa o celular.
_Mas então... – puxei a Mia de novo para perto de mim, indo com ela em direção ao palco – Por que? Você acha que seu pai vai encanar mais?!
_Não é isso, meu. É só que, sei lá. Eu tenho outra relação com ele; com a minha mãe eu tive todas as discussões quando era mais nova, quando queria ir tatuar ou queria sair com as minhas amigas, com os caras. Ela sempre encanou. Mas ele não, sempre foi de boa. Não sei, acho que nunca decepcionei ele de nenhuma forma, sabe?
_Mas você acha que ele vai ficar decepcionado?

Bem. A Mia me lançou um olhar de “faça-me o favor”, como se a resposta fosse óbvia, e eu ri. “Tá, desculpa...”, admiti. Sentávamo-nos numas cadeiras ao centro, em uma arquibancadinha do subsolo do Centro Cultural. Eu sequer sabia o nome da peça – mas estava ansiosa por voltar àquele teatro. A minha experiência ali sempre fora positiva, peças fora do convencional. A última montagem que vira chamava Lou & Léo, narrada e interpretada pelo próprio Léo, que inspirara a obra autobiográfica.

E era sensacional. De explodir os neurônios. Uma peça suja, delirante, permeada por rock ‘n’ roll e cenas impressionantes, sobre a vida de um homem trans no Brasil e as suas prisões – sociais e literais, em diferentes cadeias femininas. Humilhado pela ditadura, estuprado pelo cunhado quando ainda o conheciam por Lou e sobrevivente, fascinante, reconstruíra sua vida e sua identidade inúmeras vezes, tornara-se traficante, integrante de banda feminista, vivera alucinada e corajosamente, se descobrira, se apaixonara, fora casado por dez anos com uma travesti magnífica, em cenas de tirar o fôlego. A dinâmica das luzes e a música gritada eram o único cenário em palco. Eu – claro – perdi a cabeça assistindo, de tão boa que era a peça. A assistira com a Lê e saímos ambas apaixonadas pela atriz que interpretava a esposa do Léo.

Em contraste, porém, a que viéramos ver com a Marina naquela noite começava (e permanecia) no absoluto escuro. As palavras eram soltas no ar. E então, numa brisa muito errada de quem a dirigiu, flashes de luz piscavam apenas quando a atriz – que recitava um texto infindável no centro do palco – dizia a palavra “vermelho”. Algo sobre comunismo ou menstruação, sei lá. Desnecessário dizer que eu estava quase adormecendo na minha cadeira. Tomada por uma raiva abrupta a Marina. Sério. Aquilo era um porre. Talvez o pior monólogo que eu já testemunhara.

Sequer ouvindo mais as cores ou seja lá quais palavras decoradas eram ditas à minha frente, em meio à minha semi-sonolência involuntária, senti o pé da Mia trombar com o meu. No breu:

_Meu... – a sua mão então tocou o meu antebraço e cochichou – ...você está gostando?
_Não... – ri, sussurrando de volta.
_Quero fumar, vamos sair? – disse ao meu ouvido, com os dedos ainda envolvidos na minha pele – A gente espera elas na entrada...
_Nossa, por favor... – murmurei, prontamente.

E nos levantamos, no maior silêncio que pudemos. Não deixamos a sala, entretanto, sem antes atropelar seis ou sete pessoas que estavam sentadas na nossa fileira. Torcendo para que a tal garota não dissesse um “vermelho” nesse meio tempo e nos denunciasse em pé. A abertura da porta causou furor, deixando entrar luz na tão dramática climatização de palco. Que se dane. Eu só queria dar o fora.

11 comentários:

Anônimo disse...

"Algo sobre comunismo ou menstruação" hahahaha fm: melhores comentarios

Pathy disse...

Já quero ver essa peça. Fiquei louca aqui <3 (Lou & Léo, que fique claro)



P.S.: "Vermelho" achei que fosse menstruação! Tipo, uma das 4 estarem no vermelho. hahahahhaha
#Desculpa

Anônimo disse...

é a primeira vez que penso isso, mas achei mt chato esse post. hahaha desculpa, mel.

( the girl fucking Mia ) disse...

Hahaha, tudo bem :)

Anônimo disse...

Mano qro dar umas na cara da mae da Mia! Pqp!! E é interessante como a Mia reage com ela, imagino ela td tatuada e de saco cheio kkkk mas ainda acho q a mia não pensa na situação com a fm como definitiva ou algo q muda a vida dela... Ainda q as duas aos poucos estejam entrando numa dinamica de casal. Sei la... Mto louco! :P

Anônimo disse...

Eu amo o jeito da fm. E imaginei a Mia muito sapa agr!!

Anônimo disse...

Estou passando pelo motivo de: estou adorando essa Mia mais "articulada", sem gaguejar e tal. Achei que está até com um pouco do jeito da FM hehe

Anônimo disse...

Tinha ate esquecido q a mia tava tendo umdia ruim, ela falou no sms. Tadinha :/

Lu disse...

Pô, Mel, decepcionado?!?
Acho q meu mundo ruiu na realidade dos "normais" ... tudo era tão maravilhoso, até as brigas com a mãe pareciam cheias de auto-confiança e agora, essa?!? Não dá pra dizer q provavelmente um pai ou uma mãe ficariam decepcionados - seria maravilhoso se fosse apenas "surpresos", mas é uma barra ... você admitir q pode decepcionar alguém que lhe dá suporte e lhe compreende dentro de casa!!! :(
Mais um ângulo de uma relação dificil, né? :P

Dea disse...

tou há uma hora e meia tirando o atraso do blog... a Isa se revira ao lado, cada vez que me escuta rir, hahahahahaha! amanhã ela vai reclamar, mas foda-se. quis comentar neste, porque tou rindo desenfreadamente com a descrição da peça... eu imagino a FM olhando praquele breu e levando um leve susto toda vez que a mina fala "vermelho". ai ai... como é bom estar aqui (:

bru disse...

Amei esse post, foi uma situação tão real, me senti estando lá entendiada com elas. Mel, escreve um livro, sério. Você é demais.