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fevereiro 14, 2014

Bobalegrice

Dormi bem aquela noite. . Pode ter sido toda a bebida e bendita endorfina nas minhas entranhas, acumulada dos banheiros e cozinhas, mas nada descarta o fato de que eu simplesmente me sentia bem. Pra caralho. Logo eu, que já havia prometido amor pelos quatro cantos de São Paulo, como quem não é capaz de segurar uma promessa sequer aos outros; eu, que devia saber melhor. E devia mesmo? Sei lá. Palavras não costumavam significar porra nenhuma para mim. Eu até preferia que não as dissessem – que não me comprometessem, que me deixassem fora daquilo. Não tinha pretensão de ser o “amor” de ninguém, a “namorada” de garota nenhuma. Detestava que me envolvessem em seus problemas. E sim, eu costumava ser um problema. Mas dessa vez era diferente. Parecia sentir cada uma das sílabas que a boca da Mia formara naquela noite. Que se dane, não era babaquice romântica ou nada disso. Eu realmente me sentia segura. Com ela.

O relógio marcava 10:49 quando eu pulei da cama, numa disposição ridícula que não costumava existir nas minhas manhãs de sábado. Prendi o cabelo de qualquer jeito e cacei uma calcinha limpa na gaveta, cantarolando Lou Reed pelo cômodo. Estava louca para tomar banho e tirar do meu corpo toda aquela imundice da madrugada na Augusta. Desfilei sem roupa pelo apartamento, crente de que poderia entrar logo no banheiro. Mas não. Estava trancado. Inferno! Ouvi o chuveiro ligado e detestei quem quer que fosse que estivesse ali. Veio então um outro barulho do fim do corredor, de pratos na cozinha – e me meti a investigar imediatamente. Coloquei a minha cabeça – e o resto todo, completamente despido – através da porta e avistei a minha adorável ex-namorada de frente para a pia em seu vestidinho amassado da noite anterior, de costas para onde eu estava.   

_Ei. Que tá fazendo aí?
_Resol... – ela virou o rosto para falar comigo e o escondeu rapidamente, abaixando-o frente ao corpo – POR QUE VOCÊ TÁ PELADA?! VAI VESTIR ALGUMA COISA!!

“Calma, meu”, eu ri. Balançando a cabeça. E voltei para o corredor, indignada, gritando no meio do caminho – “é minha casa, porra!”, em alto e bom som, “não posso nem ficar sem roupa??”. Busquei uma camiseta larga no meu armário, a contragosto, como se ela já não tivesse visto tudo isso um milhão de vezes. Eu revirava os olhos. Deitada com as mãos entre os joelhos, de lado no colchão, a Mia seguia dormindo na minha cama. Capotada da noite anterior. Olhei-a com carinho. E voltei para a cozinha com algo que cobria minimamente a minha falta de inibição. A Marina me olhou por cima dos ombros, sorrindo, levemente vitoriosa. “Obrigada”. Piscou na minha direção. Aquela água da torneira parecia uma boa ideia em pleno ao sábado quente. Caminhei até ela e abracei suas costas, apoiando o queixo no seu ombro.

_Não precisava ter lavado a louça, Má...
_Eu não ia conseguir deixar do jeito que estava, na boa – riu.
_Não tava tão mal. Mas, enfim, obrigada.
_Vocês precisam se organizar melhor, hein?
_Isso que eu fiz o Du lavar esses dias. É que a gente acumula muito, meu. Eu tinha que ter aqueles esquemas de só um de cada talher e um prato, manja, mais nada.
_Ah! Então é o Du que lava a louça por aqui... – insinuou.
_Não, cada um lava a sua – me soltei dela e apoiei na beirada da pia, ao seu lado –, é que foi uma parada excepcional. Ele tava se redimindo...
_Se redimindo por quê?
_O idiota deu em cima de mim essa semana...
_TÁ ME ZOANDO, NÉ?! – a Marina arregalou os olhos na minha direção, com as mãos ainda na água fria – Como assim? Ele não gostava de homem??
_O Du gosta de putaria.
_Mas...
_É, meu. A orientação sexual dele é: “qualquer coisa que me faça esquecer o bofe” – brinquei.
_Sei. Parece alguém que eu conheço...
_Nem vem! Eu nunca dei pra um cara, mano.

“Fato” – ela achou graça e admitiu. E não era qualquer coisa, pensei, “eu selecionava”. Ajudei a Marina a encerrar o resto dos copos já ensaboados. “E cadê ele, aliás?”, me perguntou sobre o Du e dei de ombros, sem ideia alguma. A Vivian estava no chuveiro, agora já há alguns minutos, com uma toalha emprestada do meu armarinho do banheiro. Peguei uma calcinha velha para lhe emprestar e a Marina a pendurou na maçaneta. Nos sentamos então na sala e coloquei num canal de desenhos, estava passando Papaléguas. O meu desenho cura-ressacas favorito. Acendi um cigarro e traguei, coordenando a ação com a abertura de uma latinha de Coca-cola sobre a mesinha de centro, conforme já soltava a fumaça. O filtro ainda entre os lábios.

_Não tá muito cedo, não? – a Marina me observou – Pra “isso” aí.
_Hum?!
_Você não devia fumar de manhã, flor...
_Bom... E você não devia comer ninguém na minha sala – argumentei de volta, tirando o cigarro da boca – Mas cada um faz as suas merdas, não é?
_Para! Não fala assim. Eu fiquei tão constrangida.
_Eu sei... – eu ri e olhei para ela, levando o filtro de volta nos lábios.
_Vocês viram muita coisa? – murmurou, envergonhada.
_Não, meu, relaxa...

Menti. E encarei a TV por um segundo, deixando escapar um sorriso quando o Coiote despencou de um abismo e atingiu o único cacto num raio de quilômetros, no deserto norte-americano. Sempre gostei mais do azarão. A Marina revirava os olhos – “isso é bizarro” –, disse. Me ver assistindo as mesmas merdas no Cartoon Network há anos era bizarro, segundo ela, porque eu o fazia desde quando nós namorávamos. Me curvei por um instante para bater as cinzas no cinzeiro. Esse sofá está quente demais para onze da matina, bufei. “Será que existe algum episódio em que ele consegue?”. A Marina deu de ombros, “deve existir”. E eu sorri com a possibilidade. “Ia ser legal se eles fizessem um, tipo, especial de aniversário ou algo assim, manja?”. A Marina acenou e eu senti os seus olhos julgarem a minha idade mental. “Que foi? Ia, sim!”. “Eu não discordei...”, ela riu. Ficamos em silêncio por alguns segundos, vendo a TV.

_Meu... – a cutuquei pouco depois, cochichando –  ...ontem a Mia disse que me amava, cara. Pela primeira vez.
_Awn! E você??
_Sei lá. Foi legal.
_Me diz que você não lembrou disso por causa do Papa-léguas...
_Não! – eu comecei a gargalhar.

E ela me olhou por detrás dos seus óculos pretinhos.

_Tem lá sua semelhança...
_Nossa, não! Eu odeio o Papa-léguas, porra... – fiz uma careta – ...se bem que, né, eu também já odiei a Mia.
_Você nunca odiou a Mia. Você só odiava gostar dela.
_Pois me pareceu a mesma coisa...
_Você é besta, meu. Eu gosto da Mia, a gente se dá bem.
_Você gosta de todo mundo...

A Marina contestou. Claro. E foi quando o Du entrou pela porta, acompanhado de um cara de shorts com tatuagens por todo o antebraço. Bunda-amiga, certeza. Largou a sua mochila de qualquer jeito no chão e antes mesmo de nos apresentar ao seu convidado, olhou na minha direção – “advinha com quem eu acabei de cruzar lá embaixo”. Ergueu a sobrancelha.

16 comentários:

Anônimo disse...

Fer?! Clara?! Ai deus... hahahaah.
São tantas emoções..rs.

Fora que pirei com a FM curtindo papaléguas, hahahaah.

E não sei bem porque, senti um clima de que a FM vai levar algum tipo de rasteira, bem quando finalmente se sente segura com alguem...

Anônimo disse...

A CLARA!!!!!!!!!!!!

Anônimo disse...

Com quem? Com quem?

Iully Desiderio disse...

Puuuuuuuuta que pariu, posta o outro logo MELISSA DE MIRANDA! serio!

saudades de manhãs com desenho animado.

Anônimo disse...

É o fer! É o fer! É o fer! Teeeeem que ser o fer!! To com saudades da amizade deles, meu!!!

Anônimo disse...

Tomara que seja o Fer. Mas tomara que ele nao dê nenhum xilique hahahaha

Anônimo disse...

Fer

Anônimo disse...

Agora tô curiosa!! Quem??

Bárbara Leão disse...

AAAAAAIII CARALHO!!
SÓ CONSIGO PENSAR NO FER!
SOCORROOOOOOOO!!!

Anônimo disse...

o du nem conhece a clara. lógico que foi o fer!!! foi o q, ver se tem correspondencia?
e assim, FM, cá entre nós, a mia não disse q te amava, né? mas blz, conta da forma q vc quiser pra marina. tem problema não. hahaha

Ianca' disse...

Fernando ou Clara? Eta cabaré!!!

Cris F Santana disse...

Com quem??? :Z

Iully Desiderio disse...

e pq vc nao posta logo a coisa toda??? tem que ficar agoniando a gente u.u fala logo, mulher, desembucha. o que acontece??

Anônimo disse...

FM, querida, acabo de ler essa informação e faço questão de compartilhar com você:

"Na vida real um coiote pode correr até 69 KM/H. E um papa-léguas pode correr até 32 KM/H."

=)
<3

Anônimo disse...

segue ainda esse link, em sua homenagem:

http://www.youtube.com/watch?v=Id92JKS5hNI

HAHAHAHAHAHAHAHA <3

Juliana Nadu disse...

O FEEEEEEEEEEEEEER!!!=D