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março 28, 2014

Carneiros, veados e leões

Que porre. A Marina cantarolava Jesus and Mary Chain numa ponta do sofá; e eu observava o movimento das suas mãos no cabelo da Vivian, deitada em seu colo. Os seus dedos afundavam e percorriam os fios lentamente. E eu ali, completamente torta na poltrona. Entediada pra porra. O marasmo seguia os acontecimentos acalorados daquela manhã. And she’s crazy...,  o rádio dizia, arrastando o último “a” em sincronia com os lábios da minha ex. Numa típica e tediosa tarde de sábado. Isto é. Não fosse a superpopulação incomum daquele apartamento. A Mia se debruçava sobre a mesinha de centro, ajoelhada no chão, ao lado do peguete do Du; ambos dedicados a dichavar uma quantidade descomunal de erva.

Vocês são loucos, mano. Me estiquei atravessada na poltrona e deixei cair o pescoço para trás, observando o Du passar de ponta-cabeça.

_O Gui vem? – perguntei, ainda às avessas.

E ele acenou positivamente com uma expressão pouco interessada. Perambulava descabelado pela casa, usando uma das suas regatas clássicas. Tão rasgada que parecia um trapo. E nem aí para as visitas, óbvio. Esse cara da vez se chamava André – um publicitário de braços tatuados e voz grossa, loiro; parecia dinamarquês ou algo do gênero –; não tinha certeza do quanto ele sabia sobre o Gui. Ou sobre o Du. Não fazia ideia de como os dois se conheciam. Ele e a Mia haviam embarcado em uma conversa animada sobre astrologia já fazia meia hora. Tinha isso como hobby, pelo que entendi, naquele eu-tenho-o-sol-em-touro-e-a-lua-no-cu que o tal moleque tagarelava incessantemente. O Du sequer ouvia. Andava de um lado pro outro do cômodo, atarefado. Não sei com quê. E a TV agitava-se ao fundo, sem som, exibindo um documentário qualquer sobre natureza. Pois é – tédio.

_E ela? – a Mia o perguntou de repente, me entreolhando por um instante, sorrindo.

Eu estava em meio a um dilema interno. Entre levantar – ou não levantar – para ir pegar o meu maço no quarto. Completamente enfadada. E seguia torta na poltrona. Olhei para os dois, sem entender do que conversavam. O meu signo?, cogitei, numa suposição óbvia. A Mia o ouvia, atenta. Ele balbuciou algo incompreensível e então ergueu o queixo na minha direção, com as mãos ainda ocupadas com a maconha, e me perguntou – “que dia você nasceu?”. “Treze”. “De quê?”. “Abril”. Então a Marina, que até aí escutava tudo quieta, resmungou o horário três segundos antes de beijar a sua atual. Como você se lembra? Nem a minha mãe deve ter essa informação, pensei. A Mia ainda o encarava, fixamente. “Hum. É áries...”, ele calculou, “ascendência leonina”.

E os três me olharam com julgamentos. Quê? Todos eles, menos a Vivian – que estava deitada no colo da Marina e virada em sua direção.

_Meu, na boa – ele riu –, você deve ser um tsunami. Um trator.
_Ah, é. Certeza. Delicadeza zero, paciência nenhuma. E humildade nem pensar... – a Marina achou graça – ...essa daí é a definição de fogo no rabo.
_Cala a boca. Essas merdas não existem, mano... Isso é tudo história pra boi dormir.
_Ah, porque você não é impulsiva, né? Intensa? Egoísta? Sai falando o que pensa?
_Não. Não necessariamente...

A Mia começou a rir da minha resposta para a Marina, na mesma hora. QUÊ, MEU?! E o tal do André se aproximou do seu ouvido, confidenciando-lhe algo que eu presumi – pelos olhos dela na minha direção – ser sobre a minha pessoa ou personalidade. As pontas dos dedos da Mia despejavam pouco a pouco agora a erva já dichavada, sobre uma seda larga. Começou a bolar um, com as pupilas ainda em mim, admirada. Ela ria e comentava algo entre uma frase e outra dele, mas eu não conseguia mais ouvir do que conversavam – distante de onde estavam, ajoelhados no tapete.

_Eu tenho leão também, acho... – a Vivian ressurgiu do nada, murmurando sonolenta – ...em algum lugar.
_Eu não sei os meus – a Mia mordeu então a ponta do baseado, retirando a parte torcida da seda.
_Bom... Eu sou virginiana.
_Você eu já tinha sacado – o André piscou rapidamente para a Marina e tornou a observar a Mia, intrigado, que agora arrastava as mãos pelo tapete, engatinhando na minha direção – já você... é mais difícil.

Ela trazia o baseado entre os dedos, escapando para o meu lado. Está gigante o bagulho. Conforme ia deslizando os braços à frente do corpo, o seu cabelo castanho escorregava suavemente contra sua pele. Era insuportável ver aquela mulher de calcinha e regata na porra da minha sala. E não por a boca, não tocar. Ela se aproximou e ajoelhou em frente à poltrona, acendendo o não tão fino na minha frente. “Você vai fumar?”, falou, ainda que os seus lábios segurassem a ponta. Tragando em seguida e soltando a fumaça pouco depois. Numa nuvem branca e densa, é, cês sabem. Eu acenei para ela, em resposta. E ela tragou uma segunda vez, erguendo o corpo e apoiando-se então sobre o assento onde eu estava. Curvou-se sinuosamente sobre mim – e eu entreabri a boca. Puxei toda fumaça da sua boca para a minha e respirei, liberando-a em seguida no ar.

Foi quase um beijo. Ou a versão subversiva de um. E a Mia sorriu ao final, achando graça. Puta que pariu. Escrota do caralho, mas que porra!! Eu tinha vontade de xingar toda vez que olhava para aquela mulher. Inferno. A desgraçada tinha um magnestismo absurdo – difícil de absorver e aceitar sem me sentir uma completa idiota. E perdedora. À mercê absoluta dela. Puta merda. Os nossos olhos se demoraram um no outro por alguns milésimos – milésimos estes que ninguém mais percebeu além de nós. O André e a Marina ainda discutiam os signos.

Para a minha ex-sabe-de-tudo, as características da Mia eram muito “óbvias” e transparente. Hum – a Mia virou o rosto na direção deles ao escutar um trecho da conversa e riu, “quero ver, então!”. O desafio estava feito. Eu seguia crente que tudo aquilo não significava nada. Mas a Marina ajeitou os seus óculos pretinhos, animada para exibir as suas habilidades. Após meses de observação. “Você é Libra, não?”. “Sou”. “Essa tá fácil, não vale. A Má sabe quando foi seu aniversário!”, eu a provoquei; no último ano, não falei de outra coisa por dias. E ela rebateu: “eu ia saber de toda forma, tá?”.

_Ia nada... – eu me diverti.
_Você é de outubro?
_É. Dezenove.
_Que horas cê nasceu? – o André continuou, interessado no resultado.
_Ih. Foi de manhã. Tipo seis, seis e meia...
_Do que cês tão falando? – o Du entrou novamente na sala, agora sem a regata e com as mãos ávidas para "emprestar" o nosso baseado.
_Hum. O ascendente é escorpião, mas preciso confirmar.
_E isso é bom ou ruim? – a Mia olhou para o André e eu para o Du, que agachava ao lado dele.
_É sensacional. E um desastre também, a combinação é meio tensa.
_E o seu Du?
_O meu o quê?
_Seu signo... – respondi.
_O meu é veado, meu bem...

12 comentários:

Anônimo disse...

_Meu, na boa – ele riu –, você deve ser uma tsunami. Um trator.

_Ah, é. Certeza. Delicadeza zero, paciência nenhuma. E humildade nem pensar... – a Marina achou graça – ...essa daí é a definição de fogo no rabo
kkkkkkkkkkkkk
acordo e encontro um post desseskkkadoro
http://eunaoqueroperdervc.tumblr.com/..

Karla disse...

Ai deus 13 de Abril,eu faço dia 16 >< tá explicado porque entendo e amo essa Fernanda Maria,muito eu essa mulher, hahahahahaha

Anônimo disse...

SIIIIIIMMMMM!!! Mto aries com leao e libra com escorpiao, ai mia por isso vc e tao irresistenvek e taooo indecisa!!!! Kkkkkkkk ameiiiiiiiii

Anônimo disse...

Aries... Por isso amo a Fm , tao eu kkkk

Chel disse...

Siimmmm. Eu adorei.
E ainda acho que a Lua da F.M. TEM que ser Touro. HaHahhaa. Ela eh muito noiada tbm.. na forma de se relacionar com pessoas/coisas/mundo.

Adorei a Mia ser libra com escorpiao. E acho que a Lua dela deve ser peixes... ou aquario.

Marinaaa Virginiana Linda.
Ascendente em que?! Capricornio talvez...ou a lua. E dai falta um signo de ar... talvez libra, ou gêmeos.
Virgem, com Capricornio, em Libra - (eh, acho q fica mais ela).

Hahahahahahaha, nossa.... acho que eu ficaria hoooras viajando no mapa de cada uma...rs.

Adorei o "veado" do Du. Hahahah

Anônimo disse...

Nunca sei quem é ascendente de quem :/ hahaha

Priscila disse...

"_E o seu Du?
_O meu o quê?
_Seu signo...-respondi.
_O meu é veado, meu bem..."

Eu ri com esse final ASPOKAPOKSPAOKSPOAKPSOKAPOKSPAKOS

Anônimo disse...

Como vale a pena esperar! *---*

Anônimo disse...

sou dessas que "tem-o-sol-em-touro-e-a-lu-no-cu". não me conformo que a posição de planetas e estrelas no céu possam interferir e influenciar tanto na personalidade das pessoas. hahahaha. inventem outra explicação, galera. =P

Anônimo disse...

Mel, poste com mais frequência, por favor! Tô em abstinência e preciso de algo p/ esquecer.

Anônimo disse...

Então...quando vem a continuação do mapa astral? Rsrsrsrs

Anônimo disse...

Mano, ainda sai post novo esse ano?