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março 01, 2014

Mútuos esforços

_Não, não. Meu. Fala!
_Mano, na boa, cê não quer ouvir... – arqueou as sobrancelhas, amargo, sendo irônico.

E sobrou alguma coisa para dizer? Depois dos incessantes berros que vomitamos um ao outro, nos dois piores dias da minha vida. Sobrou? O cigarro queimava inacabado entre os meus dedos. Não. Não. Que eu tô falando? Cala a boca. Quem sou eu para reclamar?!, contestava a mim mesma, pode vir! Me acerta, porra. Vem. Fala. Grita. Xinga. Ofende até a minha quinta geração, foda-se! Eu mereço. Eu mereço muito mais do que isso! A minha mente mudava de ideia, conforme as minhas mãos puxavam a barra da bermuda mais para baixo. Escondendo uma mordida que a Mia deixara naquela coxa na madrugada anterior.

E por algum tempo, o Fernando ficou em silêncio. Provavelmente mais ciente agora de por que não nos falávamos há dois meses. Por ela. Os seus olhos arrependiam-se de sequer ter aparecido ali – eu sabia; podia ver nos mínimos movimentos que sua pupila castanha fazia na direção oposta a mim. À minha presença do seu lado, encostados contra o nosso antigo portão. Em meio à Frei Caneca. O sol nos castigava sem qualquer remorso.

_Mas por que cê... veio, afinal? – arrisquei.
_Eu? – ele me olhou e a minha cabeça seguiu baixa, murmurei:
_É. Achei que você não fosse querer olhar na minha cara por muito tempo ainda...

O Fernando riu, irritado.

_Te garanto que é uma porra de um esforço...
_Sim. Mas você tá aqui – sorri timidamente – e v-você t-também disse que não odiav...  
_Eu não disse que tinha te perdoado.

Engoli a minha resposta, o sorriso – ouch. Os seus braços estavam cruzados. Parecia já querer acender outro cigarro. O observei fixamente. Cada fio curtinho na sua cabeça, cada risco tatuado no seu braço; a sua barba por fazer. Me esforçando para entender o que se passava pela sua mente. “Você acha que é fácil pra mim?”, perguntou, já se alterando. E sem me encarar. “Não”. Claro que não! O Fer balançou então a cabeça ao meu lado, levando a mão à nuca, com certa frustração.

_Não é porque eu tô puto, também, qu... – hesitou – ...que eu aceito escutar merda de você, caralho. O que aquela vaca falou no telefone não tava certo; nem para você e nem para ninguém. Como se cê fosse uma porra de uma doença pra Mia, mano; eu tive vontade de mandar ela pra puta que pariu. “Anomalia” é ela. E ainda se acha no direito de cagar regra na vida dos outros. Mas isso nã... – se inquietou no lugar, bravo comigo – ...não quer dizer que tá tudo bem. Que tá suave agora. Que cê tem a porra da minha benção para continuar comendo a minha ex. Isso não. Cê pode esquecer!
_Mas eu não quero a sua benção, Fer...
_É. Deu pra perceber... – me interrompeu, cínico.
_Não, cacete. Me escuta... – traguei uma última vez o cigarro, praticamente esquecido àquela altura, e o joguei aceso na sarjeta – Eu não quero que você me perdoe. Não quero que cê ande comigo, com a droga da Mia. Eu não sou louca! Eu não quero nada disso... – soltei a fumaça para o lado e tornei a encará-lo, segura – Eu sei que eu tô errada. EU SEI. Que eu sou um lixo, que não tô certa. E eu seria uma grande escrota se me achasse ainda no direito de te pedir alguma coisa. Mas, porra, eu sinto a sua falta! E eu sinto muito. Muito mesmo, por tudo. Só de estar falando com você eu já, s-sei lá. Eu não tô pedindo mais nada...

O Fernando me escutava, em silêncio – sem me olhar de volta. Eu só quero poder te ver, moleque. “Sei lá”, ele murmurou, de cabeça baixa. E esfregou o rosto com um dos pulsos, cruzando os braços novamente em seguida. Vamos. À espera de qualquer reação. Qual é, tudo o que eu queria era uma brecha. Por menor que fosse. E então pouco me importava se levassem semanas ou anos – eu só não queria ele permanentemente fora da minha vida.  

_Eu s-sei que você ainda vê ela, que ela vem aí. Que v-vocês... – respirou fundo, murmurando – É foda.

Não. Desencostei do portão, sem pensar muito a respeito, e dei um passo na calçada.

_Cê não quer, sei lá... – comentei, sugerindo – ...ir tomar alguma coisa? Sair daqui? Subir na Peixoto?
_Agora?!
_É, porra! Longe daqui, do apê. Disso.

12 comentários:

Ianca' disse...

Ele vai se tocar que a Mia tá lá em cima e a fm não vai saber disfarçar. PUTA QUE PARIU!

Anônimo disse...

Li com o coração na mão, é muio foda a relação deles!!

Anônimo disse...

Fer. Fer. Fer. Fer. Feeeer <33

Juliana Nadu disse...

Ounnngggg <3<3<3<3<3

Anônimo disse...

Eu sei que é complicado, mas VOLTA, FER!

isabela rodolpho disse...

Cacete e a fm ta toda esculhambada kkkkkkkkkkkkkkk que situação meu :) eu amo esses dois <3 ~isa

Anônimo disse...

só notar que o cigarro acabou qnd ele queima o seu dedo de tanto que a conversa tá pesada. quem nunca? rs

Anônimo disse...

Ai que complicadooo. Não sei ainda meu posicionamento sobre o Fer.
Mas, poxa, ela ta com a Mia. E vai ser dificil ele querer amizade com a Fm...
Quero mais ((:

Anônimo disse...

Adorei o jeito como eles interagiram, foi natural e desconfortavel e tals. Simplesmente adorei! Sempre imaginei assim... Espero que se resolvam em breve!

Anônimo disse...

Que gostoso ver eles se acertando. NÃO FODE MEL <333

Anônimo disse...

eu sei que foda-se, mas meu melhor amigo se mudou do rio pra peixoto gomide. to sofrendo. haha

enfim.. deixa eu ler os outros posts pra descobrir se o fer vai aceitar o convite.

Mariana Pacheco disse...

Isso é amor de verdade!! Msm c toda mágoa tem aquela sdd!! Aquela vontade de estar junto!! Fer <3 FM