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abril 10, 2014

Quatrohorasevinteminutos

Eu podia ouvir a voz estridente do Gui e dos demais, ao longe, pela sala ou pela cozinha. Era confuso. Afundei as minhas mãos sob o travesseiro, me aninhando no tecido macio; a tarde havia trazido algumas nuvens para o céu paulistano. O calor continuava, não obstante. Eu havia dormido, completamente desmaiada de tanta erva que fumara; a janela trazia agora um fim de tarde abafado para dentro do quarto. Uma São Paulo cada vez mais cinza.  Não sabia se era o horário ou a iminência de uma tempestade. Tomara que chova, pensei, vendo as nuvens escurecer. E logo tornei a fechar os olhos, num marasmo a que dava gosto de ceder. O corpo todo frouxo.

Ao final do corredor, a casa seguia agitada – podia escutá-los gritar e rir, a música alta, mexendo nos copos da pia. O Du tinha sumido por algum tempo, com o tal do André, horas antes e um pouco antes de eu apagar na cama. Volta e meia escutava a voz da Marina também, falando e rindo alto, na sala. A da Mia a seguia – falando algo num tom empolgado. Todos pareciam se divertir. Sem sentir a minha ausência. De repente, ouvi a porta se entreabrir e o som das conversas ao longe se tornou nítido, por um instante. Passou-se um segundo. E então ficou tudo em silêncio novamente. Sentia o ambiente escurecer junto ao tempo do lado de fora. O colchão se moveu lentamente. Eu havia entreaberto os olhos para ver o que era. Mas a brisa toda da maconha me forçava a fechá-los, quase por inércia. O Du deitou ao meu lado, de bruços. Apoiando a cabeça sobre as mãos.

_Posso ficar aqui com você? – ele murmurou.

Pode. “Que foi?”. E ele respondeu, baixinho, “não quero ir pra sala”. Ouvi o Du dizer algo mais. Não pude escutar direito o quê; um ventilador no chão soprava contínua e lentamente pelo cômodo. Forcei as minhas pálpebras a abrir. Ele tinha o cabelo bagunçado e estava sem camisa, com a cara apoiada nas mãos, olhando na minha direção. Eu esfreguei um dos antebraços sobre os meu olhos – num suspiro cansado. Toda a fumaça tragada horas antes me pesava. De um jeito confortável. Tornei a olhar para o Du, com um sorriso preguiçoso no canto da boca. “Que que cê aprontou?”, sussurrei e ele riu. “Nada”.

_Nada, né. Sei...
_Eu tava trancado no quarto. O Martin mandou mensagem, me ligou.
_E o...?
_O André tá lá na sala.
_Cê é louco, mano. Ele e o Gui ainda – eu achei graça; falávamos baixo, em segredo.
_Ele não sabe, meu. Falei que tava sozinho. Mas agora é foda, cara, não quero mais voltar pra lá...
_Fica aí um tempo...

Os meus olhos pesavam, de fato, sem querer deixar passar aquela brisa boa. Senti o Du ajeitar o corpo ao meu lado na cama e permiti que as minhas pálpebras se fechassem novamente. Podia ouvi-lo digitar algo no celular, trocava mensagens com alguém. Provavelmente o Martin. Ele ia arranjar para a própria cabeça – e o coração – desse jeito. Comecei a sentir certa fome. Droga. Nem a pau que ia me mover, ir até a cozinha. Temia que fosse uma daquelas laricas doídas, que te dobram o estômago. Mas quis voltar a dormir. Assim resolvo. O Du se moveu mais uma vez ao meu lado. E escutei a sua respiração, inquieto. Pouco depois se acalmou. E o silêncio durou alguns minutos.

_Tá acordada ainda?

Sua voz me despertou de um início de sono, desses bem lentos. Subitamente.

_Hum?!
_Tá?
_Tô.
_Eu...
_Cê tá bem?
_Eu sinto falta dele, meu...

O Du lamentou e eu me virei, só então abrindo os olhos. Ele tinha levantado os dois braços sobre o rosto, atravessados na horizontal. “Du”, cochichei com ele, “não fica assim, meu”. “É que é tão, porra, foda...”. “Mas cês já se encontraram no mundo, caralho. Vocês tão juntos, de um jeito ou de outro”, afundei o rosto no seu ombro, ainda sonolenta, “não fica triste”. “É. ‘Juntos’ naquelas, também...”. “Não. Existe um milhão de tipos de relacionamento, cara. Nenhum vale mais que o outro”. Argumentei. E assim que terminei de falar, senti a minha consciência apagar por um instante. E logo tornei a despertar, num susto. Eu dormi? Abri os olhos e o Du estava apagado do meu lado. Eu dormi mesmo?! Senti como se parte do tempo tivesse sido roubado da minha memória. Era uma sensação horrível.

O quarto já estava completamente escuro. Um daqueles ventos que antecedem chuvas se unira ao sopro do ventilador, no chão do quarto, esfriando um pouco o ambiente. Ergui os olhos e vi alguém tateando no breu. Tinha as pernas descobertas e um dos meus moletons antigos no corpo. Só podia ser uma pessoa. “Mia?”, murmurei. Que cê tá fazendo no escuro, garota? Ela seguiu a minha voz até a beirada da cama e se ajoelhou, sussurrando – “preciso falar com você”.

_Que foi?
_Vem lá fora um pouquinho comigo?
_Aconteceu alguma coisa? – me alarmei, sentindo uma fome desgraçada me apertar o estômago de repente, como um soco – Vou levantar. Espera.
_Não qu...

Antes que terminasse a frase, eu já estava sentada, com o cabelo bagunçado e certa sensação de deslocamento no tempo-e-espaço. Isso não é uma vida saudável. Me arrependia momentaneamente de ter fumado tanto. Engatinhei para fora do colchão, a fim de não acordar o Du, e saí por uma das pontas da cama. Trombei com a Mia no escuro, o seu corpo estava quentinho naquele moletom – e o meu gelado, exposta ao ventilador e à janela aberta por sabe-se lá quanto tempo, desmaiada. Fomos até a porta. E mal entramos no corredor (a luz machucou os meus olhos), pude ouvir o pessoal conversando na sala. Ainda. Que horas são? “Eu não quis te acordar”, a Mia se desculpou. E eu disse que não tinha problema, sorrindo, mas meio perdida ainda. Passei os dedos entre o cabelo, tentando amenizar o emaranhado. E notei que a Mia tinha uma expressão preocupada no rosto.

_Que foi? É coisa séria?
_Minha mãe fica ligando, ela tá insuportável. Ela quer que eu volte pra casa.

Fiquei olhando para ela. Meio chapada, sem reagir. Que casa? Demorei algum tempo para entender o que dizia.

_Eu acho que ela tá vindo pra cá.

12 comentários:

Anônimo disse...

Ouch

Bruna Araújo disse...

FM ♥ Mel, como vc é ruim poxa ):
Posta o outro logo!

Pathy disse...

Primeiramente QUE BRISA MEU, É COMO SE EU TIVESSE FUMADO TBM. HAHAHAHA
Segundamente FODEU! CORRE FM

Anônimo disse...

Falta um e no entender da penúltima frase. (eu sendo chata) Hahaha. ;p

Não aconteceu muita coisa nesse post, né? Ela só dormiu... Haha. Cadê o próximo? =D

( the girl fucking Mia ) disse...

Vou corrigir, obrigada! :)

Anônimo disse...

Hahahaha caralho,até eu me senti brisada lendo :s ...e sobre a mãe da mia : ETA PORRA ETA CARALHO,vai dar merda

Anônimo disse...

Acabou a brisa da FM, certeza hahahaaha

Bárbara Leão disse...

Eu no final do post: O.O

Mano, eu me senti a Mia!
Quero, preciso, necessito do próximo!

Anônimo disse...

Essa é a parte que a tela congela com um close da cara da FM.

Anônimo disse...

'-'

Iully Desiderio disse...

tadinho do Du :(
e que jeito de cortar uma brisa :s

Anônimo disse...

Pra mãe da Mia: bitch dont kill my vibe