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maio 29, 2014

A Dificuldade

_Me senti uma criminosa indo falar com ele. Todo mundo que me encontra parece que tem medo de ser visto comigo, JURO! É ri-dí-cu-lo – revirei os meus olhos e a Lê riu.
_E medo por quê?
_Ah! Medo do Fer, né, meu. Dele saber que falaram comigo. Sei lá eu! – traguei mais uma vez e soltei a fumaça para o lado em seguida – É uma merda, todo mundo me ignora quando me vê, quando mando mensagem... O Benatti mal olhou na minha cara e depois ainda quis prestar favor à causa, aí me solta que o Fer tá saindo com uma mina aí... Como se dissesse que ele tá “muito bem” apesar da minha existência, manja? Que tá numa boa e o caralho a quatro...
_Mas isso é bom, não? – a Lê argumentou, com o olho fixo em uma garota que atravessava a rua – Quer dizer... Aí ele para de encher o saco, por causa da...  – por um instante, perdeu a linha de raciocínio – ...da, da Mia lá.

Virei a cabeça para olhar direito o que ela tanto estava encarando e vi a tal menina, uma garota que parecia dessas héteros que vão no clube todo dia pra pegar sol. Vinha vindo na nossa direção com um top crop branco e uma saia longa florida, cor de vinho. Voltei o rosto mais uma vez para a minha amiga, já sorrindo. Sua imprestável.

_Quem é essa aí, ô?!
_Oi?
_A mina atravessando a rua – ri –. Quem é?
_Ninguém. Não é da sua conta...
_Caralho. É ASSIM AGORA?? – me ofendi, arregalando os olhos – Tomar no seu cu, Letícia. Eu te conto as minhas merdas... – coloquei o cigarro de volta na boca, rindo, vendo que logo teria que ceder meu lugar.
_Não é ninguém, mano! É irmã da Ju, BELEZA?! Nada demais... Ela só veio conversar.

Espiei novamente para trás, para a garota. E comecei a gargalhar.

_Cê tá pegando a IRMÃ DA SUA EX??
_FALA BAIXO, PORRA!
_Tá mesmo?? – me surpreendi com a sua reação, quase pulando da cadeira para me debruçar sobre a mesa, encarando-a – Hein, cê tá falando sério?!
_Meia irmã, tá? E não foi assim – explicou –, a gente não se pegou...  Ela só, sei lá, tá me mandando umas mensagens aí de madrugada... mas FICA NA SUA! – me apontou o dedo – E vamos falar de outra coisa, vai, rápido. Disfarça aí. Que cê tava dizendo antes, hein? Do Fer? Da mina lá... Como era mesmo?
_Ah. Nada. Só que fiquei feliz pra cacete por ele. Quer dizer, não sei se é sério... nem deve ser. Mas é alguma coisa... – baguncei o meu cabelo, um tanto desanimada – Porra, cheguei em casa e fui direto mandar mensagem pra ele...
_Ahm. E aí?
_E aí nada. Não consegui mandar!
_POR QUE, meu?
_Porra, Lê... – passei a mão no rosto, me detestando. Eu e toda aquela novela de merda em que eu me metera, magistralmente – Como que eu vou falar com ele de mulher agora, caralho?! Ele ia me mandar à merda! Ia levar dois segundos pra ele falar pra eu ficar longe...

Nem deu tempo de terminar e ela esboçar uma resposta e a minha amiga já estava lá, direcionando toda a sua má intenção à irmã da ex, que se aproximava da mesa. Meia irmã, tá. Que seja. Eu me divertia com a cena – a parte mais inescrupulosa de mim queria falar em alto e bom som o que ela bradou meses antes quando a Marina estava tatuando. Pois é. Não era você que não queria pegar hétero nem se implorassem? Ver aquela cena era como corrigir a sua professora de primário na frente da classe toda. Sensacional. Pelo bem da amizade, todavia, fiquei na minha – favor este que a Letícia raramente fez por mim no passado. Vale lembrar.

Recebi então uma mensagem da Mia, me avisando que já estava quase na Paulista. Tinha combinado de encontrar com ela no Conjunto Nacional e ainda havia umas boas quadras para subir a pé. Ela estava atrasada – para variar, a mãe deve ter feito uma ceninha antes que saísse. Argh. Me despedi rapidamente da Lê e da sua futura dor de cabeça. E quando cheguei na Cultura do Conjunto Nacional, notei que o meu celular não pegava lá dentro. Mas que inferno! Voltei para a calçada e digitei uma mensagem rápida para a Mia, pedindo que me procurasse no primeiro andar da livraria. Coloquei o telefone de novo no bolso de trás da calça. E só então entrei. Algo me incomodava.

Como será que ela é?, pensei com meus botões, enquanto vagava entre as estantes de livros. Deve ser bonita. O Fer sempre saiu com minas bonitas. Eu ria sozinha – menos a Karina: essa era um horror. Homofóbica de merda, balancei a cabeça. E me veio à mente o dia em que falamos dela, entre caixas e mais caixas com coisas dele, do meu amigo, dias antes dele se mudar. Nós dois e a Mia na sala do apartamento, bebendo rum. E rindo. Deus, aquilo parecia estar tão distante. O Benatti já deve ter mencionado nosso encontro na Augusta. Fofoqueiro, arqueei a sobrancelha. A livraria estava cheia. E a minha cabeça dava voltas. Por que ele quis que eu soubesse do Fer? Ou será que foi o Fer que quis que eu soubesse da mina?

Passei por algumas meninas em um dos corredores. Ele mencionou ela uma vez. Numa mensagem, é. Ou espera, será que essa é outra? Os títulos dos livros cruzavam os meus olhos, mas eu não retinha nenhuma informação. Aquele escroto de merda... Se ele já está em outra, por que não me perdoa? Peguei um livro qualquer na mão e logo o devolvi na prateleira. Eu detestava falar sobre o Fernando com qualquer pessoa e me arrependia de tê-lo feito com a Lê. Meio segundo dele numa mesa de bar e a minha mente passava o resto do dia obcecada: era insuportável. E idiota. Que diferença faz, afinal? Não é como se fosse voltar ao normal...

Subi mais um andar na Cultura e lá estavam as obras fotográficas, os títulos de arte. Foto e dança. Graffiti e urbanismo. Música e tatuagem – tudo junto e misturado. Uns meses antes e eu teria passado reto por aquela capa quadrada, reluzente, estampada com formas geométricas e as suas consequentes sombras. Os meus dedos deslizaram pelas folhas a esmo. A Mia me fazia gostar de arquitetura; era bizarro como eu achava agora bonito umas coisas que antes eu sequer reparava. Isso é ridículo. Eu devia ser capaz de falar com ele. Fomos amigos por dez anos, caralho... Não era pouco. E num ímpeto de coragem, tirei o celular do bolso e digitei – “E ai? To sentindo tanta sdds de conversar com vc. Vms fazer alguma coisa?? Prometo q. ñ falo merda. Encontrei com o benatti dia desses...”. Enviei. E aquela droga de telefone logo vibrou, me indicando a falta de sinal para mandar.

_Posso te ajudar com alguma coisa? – ouvi de repente.

6 comentários:

Pathy disse...

Gente eu amo a Lê, sério. A sapatonice dela eu wykggkgragshvlbogoifq
Menina FM e ss suas loucurad, lá vai ela tomar no cu com o Fer

Anônimo disse...

Eu acho que eles vao comecar a se acertar... o fer du o primeiro passo!! :))

Anônimo disse...

Feeeer <3

Anônimo disse...

To perdida na historia :/ nao lembro quando eles conversaram sobre essa nova garota..

( the girl fucking Mia ) disse...

Não conversaram, flor. Foi só uma mensagem! Aqui, ó: http://fucking-mia.blogspot.com.br/2014/03/2-3-na-cama.html?m=1

Anônimo disse...

o porra, achei que tivesse enviado a msg. quem foi falar com elaaaa? vou ler o próximo! bj tchau