- »

maio 10, 2014

A percepção da nossa existência

O arrependimento veio logo na manhã seguinte. Havíamos ido dormir cedo, exaustas, depois de nos recusarmos a explicar o que acontecera a uma Marina, um Du e um Gui ansiosos, bem como os seus respectivos acompanhantes. Fomos deitar e os deixamos na sala. A Mia capotou. Acordei com o seu movimento na cama. Antes de abrir os olhos, senti como se o meu corpo tivesse amadurecido uns cinco, seis anos durante a noite. A minha pele. A minha vida. E ainda que fosse estranho, isso não me incomodou. Hoje já é domingo? Virei para o lado e deixei que minhas pálpebras apartassem. 

A Mia estava sentada a uns centímetros de mim, com os joelhos contra o corpo e os pés sobre o colchão. Sem roupa, nem motivo aparente para estar ali, já acordada. Tinha as costas na parede. Encarei-a e cocei a lateral do meu ombro, por cima da tatuagem, achando graça. Sorri. “Que foi?”, ela perguntou, mordiscando, nervosa, a ponta do dedo.

_Você aí – eu ri, sentindo certo carinho por ela – Por que você já tá toda tensa?
_Eu fiz merda ontem, linda...
_Calma. Cê nem acordou ainda – me ergui, sentando também na cama e prendendo o cabelo de qualquer jeito sobre a cabeça, igualmente nua –. A gente pensa nisso mais tarde...
_Não. A-as coisas que eu falei, na f-frente da minha...
_Relaxa, meu. Não foi tão ruim, vai dar tudo certo.
_Mano, como você não me deus uns tapas? Como você me deixa sair gritando daquele jeito, expondo as coisas sem noção nenhuma? Cê tinha que ter me sacodido, me feito acordar daquela... brisa toda errada.
_Toma café primeiro – eu não podia evitar senão achar graça na sua confusão; e a verdade é que eu me sentia bem, por motivos totalmente egoístas – Vai, eu pego lá. Que cê quer comer?
_Não, velho. Não tô com fome. Eu só quero... – franziu as sobrancelhas, afundando a cara nas próprias mãos – ...eu só quero morrer. É isso. Quero me matar.
_Não foi assim também, vai.
_É sério – mergulhou no travesseiro, deitada de lado – Me joga dessa janela. Me empurra da escada.

“Pára”, eu ri. Deixa disso, garota... Sentia um estranho e quase incontrolável orgulho dela. “Eu quero te beijar, isso sim”, segurava-a perto e ela se desvencilhava. Agora que não havia mais ninguém por quem eu precisasse manter as aparências, o bom senso, me tomava uma felicidade boba. Escalei o seu corpo, ainda curvado sobre o travesseiro, e a forcei a tirar as mãos da cara. “Sai”, ela riu, “não tem graça!”.

_Vem – eu insistia, em cima dela, me divertindo – Agora encara o mundo, Sra. Assumidinha!
_Não, meu. Pára! Foi horrível – ela ria, desesperando-se – Eu tô preocupada de verdade...
_Que preocupada, o quê! Você faz isso amanhã, vai. Hoje vamos só fumar uns e comemorar.
_Comemorar?
_Com sexo lésbico. Muito, muito lésbico.
_Affe! Cala a boca! – gritou, sorrindo – COMO VOCÊ É IDIOTA.
_Cê já foi deserdada mesmo. É melhor começar a me fazer favores, acha que vai ficar aqui de graça?
_Ah, é assim?!

Pôs a língua entre os dentes, achando graça. E levantou para me beijar. “É”, eu disse – milésimos antes – e pressionei os meus lábios contra os dela. Não sei como explicar, havia uma sensação de reconhecimento naquela confusão toda. Como uma vitória: nós existimos. Pulei da cama por um instante. E dei dois passos até a minha escrivaninha, onde estavam o dichavador e cinco ou dez gramas enroladas em papel filme. Voltei para o colchão logo em seguida. A Mia estava deitada e espreguiçava os braços, as mãos. Olhou para as minhas pernas, me ajoelhando ao seu lado, e se sentou comigo de novo.

_É boa essa que o moleque trouxe.
_Também achei. E ah, a propósito, eu não fui deserdada, ok.
_Não? – eu ri – Pareceu...
_Não. Cê tem que ignorar. Minha mãe sempre fala essas merdas... – revirou os olhos.
_Nossa. Mas são merdas meio sérias para se falar sempre... Ou não?
_Sei lá. Depois ela esquece.
_Na boa, fiquei com medo das brigas que cês tem em casa – fiz graça, enquanto debulhava a maconha com as mãos, sobre o lençol.
_Por quê? Cê não briga com seus pais?
_Ah, faz muito tempo que não. Desde que saí de casa, praticamente.
_Sério?
_É só pisar pra fora que, de repente, não tem mais gritaria. É tudo “fica mais, filha” – forcei uma voz mansa, fininha –, “não quer levar um pouco de feijão congelado?”, “você precisa de alguma coisa?”. Sei lá. Mudou muito a nossa relação. 
_Tanto assim? Eu queria sair da casa dos meus, mas acho que eles não vão mais falar comigo. Não se eu sair assim, nesse caos todo.
_Eles não vão fazer isso, Mia. É só ameaça.
_A relação de vocês mudou como?
_Ah, no começo eles acharam ruim. Disseram que eu tava fazendo tudo errado, que era pirraça. Hoje em dia eles até ligam às vezes pra encher o saco, geralmente reclamam da Augusta ou de alguma coisa minha, mas mesmo assim não é igual. A discussão é por telefone, não preciso mais dar satisfação. Não sei. É bem diferente quando cê tem que voltar pra casa e encarar, continuar cara a cara. Nossa! Quando eu era mais nova, sim, rolava umas tretas enormes. Eu saía batendo porta, ia pra casa do Fer... Era uma merda atrás da outra, também.
_Mas por causa de...
_De quê?
_Ah, de você. Quando eles souberam que você... – insinuou.
_Não. Isso, não. Isso foi bem diferente.
_Como diferente?
_Não foi que nem você e a sua mãe. Ou mesmo nossas brigas. Os meus pais... – hesitei – ...sei lá, foi mais guerra fria. O meu pai não falou direito comigo por um tempo, ignorava a Nana. E a minha mãe me criticava, chorava, eu era obrigada a ter conversas horrorosas por horas. Foi uma merda. Ninguém falava nada direito. Não tinha “sapatão”, não tinha “namorada”, ninguém pronunciava as palavras, as coisas. Era sempre subentendido, meio mal falado.
_Mas nem você?
_Eu falava mais. É que, tipo, depois da primeira vez que conversei com eles, eu me senti constrangida de forçar o assunto de novo... E eles também não diziam porra nenhuma. Com a minha mãe era sempre pelas bordas, manja, reclamava que não gostava dos meus “amigos” quando, na real, tava falando da Nana; dizia que eu tava uma fase problemática, que eu magoava muito o meu pai. A crítica era sempre pra mim, pro meu comportamento, nunca a minha sexualidade. E “ai, por que você insiste em trazer ‘essa pessoa’ aqui”, como se tudo bem eu viver a minha vida lá fora, mas que não forçasse aquilo pra dentro de casa e da nossa família. Como se eu tivesse provocando, fazendo de propósito para ser rebelde. Essas coisas – revirei os olhos.
_Mas você não acha que forçamos um pouco? Que impomos?

11 comentários:

Anônimo disse...

Não, Mia.

Anônimo disse...

"Não, Mia." *-*

Anônimo disse...

Achei fofa demais a fm feliz!!!! Elas tao lindas juntas <3333 Acho legal elas terem essas conversas, td mundo sente culpa e tem sentimentos assim no comeco, a fm vai ajdar mto a mia....

Anônimo disse...

<3<3<3

Cris F Santana disse...

Se a gente não achar normal.. Como querer que os outros achem?! :D

Anônimo disse...

Minoria que nao se impõe, não leva.

Glaucia disse...

"Nao Mia, nao forçamos" ... Foi isso que ei imaginei ...
Puts.. Contou minha vida, quando a fm falou sobre como foi sair de casa..

Anônimo disse...

Fico pensando se é assim mesmo quando sair de casa... Espero que sim, porque aqui ta com muita confusão. To cansada ja. Só juntando grana pra ir embora. :s
Ainda bem que existe esse blog pra gente saber que não é só aqui. Que nao estou sozinha..

Anônimo disse...

Meu na boa, sair de casa é bem assim. Te falo isso porq acabei de sair, e so tenho 16. O foda é que eu sinto falta do meu padrasto, da minha mae, de todo mundo. Quando eu me assumi, o assunto nao ficou sendo discutido, eu nao quis forçar o dialogo, mesmo que ele fosse necessario. Com o tempo meu padrasto veio converçar comigo sobre, já que ele sabia, nao vi problemas em me abrir com ele, e vou te dizer, foi a melhor coisa que eu fiz, ele me ajudou muito. Entao te digo, e so ter paciencia que tudo se resolve

Anônimo disse...

"é mia, agora vc já tá na porra da sapatolandia, nao tem jeito, sem voltas."

Bárbara Leão disse...

Passando por esse momento q a FM falou no final...
Um saco, mas a gente se acostuma!
=/

Mais posts please!!!!