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maio 18, 2014

Encontros

Pelas semanas seguintes, a Mia passou o máximo tempo que pôde fora de casa. Quando não estava na minha casa, se enrolando nos meus lençóis e me matando do coração, ela estava na casa de alguma prima ou amiga – geralmente a Michelle, que me detestava. Em boa parte do tempo, ficava também na faculdade. Estava no último ano de Arquitetura e Urbanismo, metida em um projeto bam bam bam da área que queria seguir. Não entrava na minha cabeça como alguém como ela aguentava passar tanto tempo em meio ao povo do Mackenzie. Observava aquelas garotas com três estrelinhas tatuadas atrás da orelha, a cada vez que eu passava lá para dizer um ‘oi’ para a Mia, e puta que pariu. Tinha vontade de sair correndo. De picar a mula e ir me refugiar entre os porraloucas, ratos de boteco da Augusta.

Ainda assim, era ali que ela preferia passar as suas horas: antes o inferno a que se acostumara do que a casa dos pais. Para você ver como eram os pais, não é. Pois ela não se encaixava com eles. E nem entre aquele povo coxinha da sua faculdade. Não a Mia e as suas tatuagens de verdade, me tirando o fôlego, deitada na calçada imunda e fumando um atrás do outro comigo, me xingando pelos meus atrasos. Aquilo se tornara semanal. Eu inventava qualquer ida ao Correio ou ao banco para fugir do trabalho e ia encontrá-la. Nunca chegava no horário. E ela sempre perdia os dez primeiros minutos da aula seguinte ao seu intervalo.

Sentávamos as duas no meio-fio e eu a ouvia falar minutos a fio sobre jardins verticais e paisagismo, completamente intrigada. Sentia então uma vontade louca de sequestrá-la, de levá-la de volta para o apê. Toda santa vez. De resgatá-la – e umas vezes eu bem tentei... Com as mais puras intenções, eu juro. Ahm, é. Mais ou menos. A Mia se divertia e me beijava, pedia para que eu ficasse. Mas não havia amor que me fizesse entrar numa sala de aula com aquela gente.

Todo mundo na sua faculdade morria de curiosidade. De mim, de nós. Como se aquela ceninha na Maria Antônia uns meses antes não tivesse sido suficiente, eu praticamente vivia na porta do Mackenzie. Nos víamos nos intervalos, almoçávamos juntas,  ia até uma festa ou outra. A Mia ainda achava estranho ficar comigo na frente dos amigos, sendo que a maioria passou o curso todo vendo ela com o Fer, então os nossos beijos aconteciam moderadamente. Nem sempre na frente dos outros. Mas eu estava sempre lá, do seu lado. Óbvia e constante. Todo mundo fofocava e todo mundo sabia.

_E como vocês vão fazer? – a Lê me perguntou, semanas depois, enquanto eu contava da briga toda com os meus sogros pais da Mia.

“Ah, sei lá”, dei de ombros. E coloquei um pouco mais de cerveja no meu copo, espiando a hora no visor do celular. Estávamos num desses bares-meio-lanchonete da Frei Caneca. Bem perto de casa. A Lê tinha ido me encontrar mais cedo para eu ajudar a “aparar” as laterais do seu moicano – um daqueles programas nem um pouco héteros – e depois descemos para beber umas na esquina. Arranjamos uma mesa na calçada, o que era praticamente um milagre num sábado à tarde. E eu contava para ela sobre a última peripécia da mãe da Mia. Uns dois dias antes, a velha tinha dito que não ia mais pagar a festa caríssima de formatura. Ao que a filha respondeu: fique à vontade. Quando a Mia me contou pelo telefone, eu gargalhei. E desejei ter visto a cara da mãe. Havia me acostumado com as falsas ameaças dela, mas elas ainda rendiam uma boa dor de cabeça para a Mia.

_Sua mina tinha que mudar. Arranjar um emprego, sair de lá... – a Lê sugeriu, alisando quase compulsivamente a lateral da cabeça recém-raspada; e a verdade é que a Mia vinha se esforçando para isso – ...cês não tem vontade de morar juntas, não?

A encarei por um instante. Já indignada, deixa de ser ridícula.

_Quê?!
_Menos, Letícia.
_Qual o problema? Cês já passam esse tempo todo juntas, mano...
_É um pouco diferente – muito diferente – ela poder ir lá em casa o tempo todo e eu ficar sozinha quando quiser, mandar ela embora – argumentei –, do que a gente morar juntas de fato, dividir as contas, as tarefas. Ter que conviver todos os dias.
_Ah, mas... Só provisoriamente, porra! Até ela arranjar uma parada só dela...

Não dá ideia, mulher.

_Não. Tô de boa.
_Você é muito cagona... – a Lê riu e tomou outro gole da sua cerveja – Aliás, como tá o lance com o Fer? A Má me disse que cês conversaram.
_Ah, naquelas... Faz umas semanas já. Ele apareceu na frente do prédio, mas depois não nos falamos mais.
_E que cara é essa?

Argh. Deslizei os braços pela mesa do boteco e abaixei a minha cabeça, sem nem coragem de tocar no assunto. Eu sou uma tosca mesmo. Me ergui de novo e alcancei o meu copo, indisposta, enquanto a Lê achava graça da minha cara. “Você tá sempre na merda”, ela riu. E eu concordei. Não tinha nem como discordar. Vinte e cinco anos nas costas e a minha vida parecia mais uma novela mexicana brega, cansativa do que qualquer coisa remotamente parecida com um cotidiano normal. Bravo! Tirei o maço do bolso e acendi um cigarro. A Lê ainda me encarava.

_Eu encontrei com um amigo nosso uns dias atrás... – contei relutante – ...o Benatti.

16 comentários:

Glaucia disse...

Casar... Ownt *----*

Iully Desiderio disse...

O medo de ir morar junto *-*

Anônimo disse...

Meu 1o comment nao foi, entaode novo: adorei o comecinho, 1a vez q imaginei de vdd o cotidiano delas duas e achei fofo!!!

( the girl fucking Mia ) disse...

Ai, desculpa, gente! O Blogger comeu todos os comentários hoje, quase. Não sei por quê! Que raiva :(

Tentem mandar de novo ❤ pfvr.

Anônimo disse...

Nossa, finalmente descobri o que a Mia cursa! Já tinha perguntado aqui outra vez... se ja foi mencionado, faz muiiiiito tempo! Eu achava q ela fazia Comunicação, mas ok, Arquitetura tá bom. hahaha

O banatti, é quem mermo? um q sabia dela e da mia ha mil anos?

( the girl fucking Mia ) disse...

Hahahaha, já tinha sido mencionada, vez ou outra. Tipo quando ela fez o desenho pra FM, lembra?

http://fucking-mia.blogspot.com.br/2013/06/223758.html

E não! Esse era o Marcos (é muito nome para pouco blog, hahaha). O Rafa Benatti é um mais amigo dela e do Fer, vivia com eles. Ele tava quando elas saíram junto com a Dani, na Augusta; tava em todas as festas; e foi ele que "rejeitou" a FM logo que o Fer e ela brigaram :/

Anônimo disse...

ahhhhhhh, sim, verdade!!! <3 adooooro essa sequencia de posts com as horas pro dia que a merda foi pro ventilador! hahaha. deu saudades do início da história. tô nostálgica!

obrigada por sempre responder! =)

obs: wtf! como diabos vc acha essas coisas antigas tão rápido? hahaha

( the girl fucking Mia ) disse...

Own. Que linda!

E juro que tô relendo essa seqüência nesse instante. Abri para pegar o link (eu tenho uma memória bizarra para os meses e anos dos posts!) e fiquei lá... HAHAHA é bom reler, às vezes surgem novas ideias :3

Obrigada por comentar, isso sim <3

Anônimo disse...

" A Lê tinha ido me encontrar mais cedo para eu ajudar a “aparar” as laterais do seu moicano – um daqueles programas nem um pouco héteros" KKKKKKKKkkkkKkk

deia disse...

FM super receiosa com essa possibilidade de "casar" hahahshha nao eh mto o perfil dela msm

Anônimo disse...

Tá tão bom o clima entre essas duas,a fm parou de pegar deus e o mundo e se prendeu a mia ...awwnnn

Anônimo disse...

Mel, a gente sabe a visao da FM em relaçao a toda essa turbulencia de emoçoes, - ou nao rs- mas e a Mia, que deve ta sofrendo e tals. Ce podia fazer um post da Mia, relembrando a primeira vez delas, o primeiro beijo, sei la, so uma sugestao HAHA

Anônimo disse...

Mel que lindo post. A Fm toda com medo dessa possibilidade...
Eu sei bem como é, todo mundo tem uma "Lê" na vida, pra cogitar essa ideia de morarem juntas. Tenho passado por isso quando minhas amigas souberam que minha namorada vai ja ter que sair do ape que ela mora. Eu me recuso a falar algo, só sinto medo. E fico quietinha. Rss
Ansiosa por mais ((:

Anônimo disse...

um postzinhoooo! =)

Anônimo disse...

Mellllllll,kd mais post :(

Anônimo disse...

Ui! Tenho que concordar com FM...vamos mais devagar. Já foi tããão difícil pra Mia assumir, além da encrenca com a família, formatura.
E antes que esqueça...mais post, pfr Mel!?