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agosto 25, 2014

Tecnologia

Admito que ter um celular decente – uma vez na vida – tinha lá as suas vantagens. Eu me sentia uma idiota por só agora estar baixando os aplicativos que meus amigos tanto falavam. E passava minhas horas tentando recuperar o tempo perdido. Fiquei tão obcecada nos primeiros dias que meus colegas de trabalho começaram a dar apelidos engraçadinhos para mim. Nem meia semana depois de comprar o aparelho, na terça-feira, fui almoçar com o estagiário numa padaria perto da Brigadeiro e ele achou um jeito de fazer piada com literalmente tudo o que passava na nossa frente. Como se eu fosse uma porra de uma caipira. “E isso é uma estação de metrô, olha”, brincava, “já entrou numa antes?”. Revirei os olhos – “Na boa, velho? Vai à merda”.

Ele se divertia. “Bom, para quem nunca tinha usado o Whatsapp...”. Há-há. Que seja. Não era como se eu tivesse outra coisa para fazer também. O nível de tédio na produtora estava páreo a páreo com um filme do Terrence Malick naquela semana. Passei a tarde toda seguindo amigos no Instagram e curtindo suas fotos, rodando à toa na minha cadeira. Me entretinha especialmente com o perfil da Marina, era o meu favorito entre todos. Ela basicamente publicava fotos de comidas fofas, xícaras, bolos, coisas assim. Só. Ah! E paredes. Incluindo a sua última – postada na volta do almoço na Vila Madalena –, era um muro perto lá da redação onde ela trabalhava, tinha uma plantinha nascendo no meio dos tijolos. Sua cara mesmo essas coisas, pensei. Eu curtia tudo. Como era nova naquilo, chequei umas mil vezes com a Lê se a Mia não conseguia mesmo ver as fotos em que eu colocava corações– porque ô aplicativo dos infernos. Aquele treco me recomendou seguir todas as minas que já peguei na vida, puta que pariu. A única pessoa que não estava na lista de importados do Facebook, mas que segui mesmo assim, foi o Fer. Achei ele nos comentários do perfil de outro amigo. Aproveitando a nossa fase relativamente boa, adicionei – ainda que o seu perfil só tivesse vídeos curtos de vinis tocando. Ska, rocksteady, punk antigo. Essas paradas assim.

A minha primeira foto foi o relógio da parede da produtora, exatamente às quatro e vinte. Não muito original. Mas levei quase meia hora para escolher um filtro e estreou a minha conta.

Aquela minha falta absoluta de conhecimento tecnológico parecia divertir todo mundo. Tão logo descobriu que eu tinha agora um smartphone, o Gui me mandou uma mensagem de voz no Whatsapp me chamando de PI-RA-NHA – que eu escutei em alto e bom som no meio do trampo, é claro. Desavisada daquela funcionalidade de merda. Argh. Eu te mato. Ele passava as horas agora me enviando prints dos caras que encontrava no Tinder. O aplicativo que a Marina me proibiu de baixar antes mesmo da Mia se pronunciar a respeito. A verdade é que tudo aquilo me soava um tanto novo. Não era como se eu não soubesse o que eram as coisas, eu só nunca tinha realmente usado nada daquilo. Não com minhas próprias mãos – e soava muito mais babaca na boca dos outros.

O meu máximo de engajamento digital anteriormente limitava-se a uma enxurrada de SMS, raros acessos ao Facebook e talvez uma webcam aqui e outra ali quando o MSN ainda existia. Sempre com o status invisível, geralmente para fugir da Roberta. Fora isso nada. Não tinha paciência: preferia sair e encher a cara, pegar alguém – não que isso tenha mudado muito. Para se ter ideia, eu ainda tinha um PC lata-velha em casa ao invés de um laptop. Então, é, era um mundo novo.

Naquela noite, sentada na cozinha com o Du jantando o resto da comida que ele fez no almoço, baixei também o Skype. O Du usava ele para ver o Martin. Seu amor mal-resolvido de Barcelona. Entre uma garfada e outra, mandei uma mensagem para a Mia – , eu meio que me sentia cool, ultraconectada –, perguntando se ela também tinha um. E logo veio o pedido de autorização do seu usuário. Não demorou muito e ela estava na minha tela, tendo uma visão privilegiada da minha boca mastigando a comida, num mau enquadramento que durou alguns segundos até eu me ver no canto da tela.

_Foi mal. Não saquei que a minha câmera também tava ligada – falei.

Ela achou graça e o Du, que estava sentado do meu lado, deu um tapa na minha cabeça.
“Cê é muito lerda, velho”, ele comentou rindo, já terminando o seu prato. Podia vê-la se divertir com aquilo, provavelmente em seu quarto em Higienópolis. Estava escuro no fundo da tela.

_Que vocês estão comendo por aí, afinal?
_Macarrão requentado – virei o celular para o meu prato para que ela pudesse ver –, tinha milho enlatado também, mas já acabou...
_E tá gostoso isso? Parece horrível.
_Valeu, hein... – o Du resmungou, brincando.
_Ah. Tá “ok”.
_Hum. E você vai demorar muito ainda?
_Não, já tô acabando quase...
_Então tudo bem. Me avisa... – a Mia sorriu; com o cantinho da boca, imprestável – ...viu, quero te mostrar uma coisa depois.

Pulei imediatamente da mesa. Bastou aquele sorriso filho-da-mãe dela e eu já estava largando o meu prato semi-terminado sobre a pia. Indo me trancar no quarto. “SUAS CACHORRAS!”, o Du riu e gritou, quando eu já estava no corredor. Provavelmente tendo presumido o mesmo que eu. “Cê escutou isso?”, comentei para a câmera achando graça, instantes antes de entrar no quarto, e a Mia acenou que ‘sim’ com a cabeça, também rindo. Fechei a porta atrás de mim e encostei contra a madeira, com o braço esticado na minha frente. “E aí”, pedi, vendo o celular, “o que era?”.

“Hum”, ela riu. E pareceu engatinhar sobre a sua cama com o celular na mão. Por algum tempo vi só uma tela escura e alguns flashes perdidos de teto até que, de repente, tornei a vê-la bem, segurando o celular com as duas mãos como se o ajeitasse sobre alguma coisa. “Mostra aí, meu...”, falei, já com um sorriso involuntário na cara. “Espera”, ela achou graça, ajeitando-o, “deixa eu colocar aqui”. Nisso, o celular se desequilibrou algumas vezes e ouvi a Mia xingar; eu me divertia. “Eu queria te perguntar uma coisa”, falou, já quase conseguindo. “Pergunta...” – sem tirar os olhos da tela, aproveitei o meio tempo para ir até a cadeira e empurrei a lateral dos tênis (um no outro) para fora do pé, me livrando deles. “É que...”, a Mia se ajoelhou na cama frente à câmera, que enfim parara sozinha sobre a mesinha de cabeceira, com um camisetão desses de dormir. “...eu tô preocupada”. “Ahm”. Eu a olhava. “Apareceu uma manchinha em mim”, ela se inclinou de quatro, com os cotovelos apoiados sobre o colchão e começou a puxar com as mãos a camiseta sobre a cabeça. Descobrindo a calcinha, as costas e suas tatuagens curvilíneas – progressivamente. Levei a minha mão à boca. “Sei”, coloquei a lateral do dedão entre os dentes. 

Observando-a, entretida.

Agora com o cabelo magnificamente bagunçado, tendo largado o camisetão à sua frente na cama, ela se ergueu mais uma vez de joelhos – “não sei se você consegue ver”, continuou, olhando para o próprio corpo. E eu segui na brincadeira: “Hum”, me inclinei na cadeira com os olhos na tela, “onde é?”. Os seus dedos começaram a percorrer o seu abdômen, como se caminhassem na ponta dos pés sobre a sua pele. Descendo da sua cintura na direção das suas coxas – “por aqui”. “Ahm”. “É que é bem pequenininha”. Eu ri. “Chega mais perto”, pedi, literalmente já com água na boca. Como eu sou babaca por você, garota, puta que pariu; eu me admirava. 

 Mas interrompendo, do nada, meu telefone apitou.

15 comentários:

Anônimo disse...

C-L-A-R-A!!!!!!!!! <3

Glaucia disse...

Hahahaha.. Logo nessa hora FM

Ianca' disse...

Esse post teve uma pitada a mais na minha vida, pq ô lindeza! São as safadezas de sempre, só que minha amiga FM ta conhecendo só agora hahahaha

Anônimo disse...

gente, que Clara o que, parem

Karla disse...

Menine esse post ta me judiando desde cedo,só imagindo aqui tudo e com aquele risinho de canto (pura malícia) já encaminhei prasamiga que não sou obrigada sofrer sozinha u.u


ps*Mel tá tudo lindo,peace and love demais (lá vem bomba)

ps2* Certeza que é Clara pra regaçar nosso pobre core.

Beija sua linda

Anônimo disse...

Classico. Quando a gente ta se divertindo, sempre vem um empata foda

Anônimo disse...

Veeeem Clara, sua linda! *-*

Anônimo disse...

"chequei umas mil vezes com a Lê se a Mia não conseguia mesmo ver as fotos em que eu colocava corações– porque ô aplicativo dos infernos. Aquele treco me recomendou seguir todas as minas que já peguei na vida, puta que pariu." SAFADA, VELHO!! kkkkk qse passou despercebido qdo li kk

Anônimo disse...

Queee finalzinho gostoso. Amo as duas juntas!! Adorei, Mel.

Anônimo disse...

Mas deixa a Clara pra la, gente! Xô! rsrsrs
FM com whattsapp não vai prestar...mais ainda :)

Anônimo disse...

Mas deixa a Clara pra lá, minha gente! Cabou! Fim! rsrs
Adorei o post, Mel...uma delícia essas duas juntas.

Anônimo disse...

FM empolgadíssima com as tecnologia tudo. hahaha. Mas ok, traz a Clara pra mim agora. =)

Anônimo disse...

eu ri do: "E isso é uma estação do metrô, olha". hahahaha. estagiário abusado!

Anônimo disse...

Marina hipster. hahaha

Anônimo disse...

te enchi de comentários, agora, por favor, não me decepcione quanto ao motivo do telefone apitar: CLARA! <3