fevereiro 19, 2012

24

Na sexta daquela semana, por outro lado, veio a má notícia – era o meu aniversário.
 
Argh. Chamem de inferno astral, azar sazonal, azedume, me acusem de ser rabugenta, que seja – mas eu sempre me fodo nos meus aniversários. E esse ano não parecia que ia ser diferente. Trabalhei como uma condenada a semana toda numa série de ações publicitárias. E de todos os dias em que podia cair a maior gravação da porra da campanha toda, é claro que tinha que ser na sexta. Sério. Odeio aniversários.
 
Meu despertador tocou às 5 da manhã para que eu chegasse a tempo no set, que ficava pra lá de Interlagos. Amanheci tão sapatão quanto todos os outros dias da minha vida – com a diferença de que, agora, eu podia me dizer oficialmente viada. Aquela era a minha 24ª volta ao redor do Sol. E começou sem um pingo de luz, pisando para fora de casa enquanto ainda estava escuro para pegar a primeira de três conduções.
 
Inferno.
 
Meu azar em aniversários era tanto que, com o tempo, parei de comemorar. Não falava para ninguém, não fazia festa – sequer colocava nas redes sociais. Então, naquela manhã, quando finalmente cheguei no estúdio onde seria a gravação, quase duas horas de trânsito depois, tratei de ficar bem quieta para que nenhum colega meu descobrisse. Deus me livre ser vítima duma festinha de firma, pensei, enquanto colava o cronograma na parede do set.
 
As únicas pessoas que sabiam da infeliz data eram as já que me conheciam há tempo suficiente – como a Marina, com quem eu tinha um acordo de “comemorar” fora de época. Ainda assim, ela foi a primeira a me enviar um SMS de manhã, me desejando um “feliz não-aniversário”. Ha-ha, engraçadinha. Passei o resto do dia de um lado para o outro, resolvendo pepino atrás de pepino. Absolutamente tudo o que podia dar de errado naquela merda de gravação, é óbvio, deu – de ator atrasado a objeto de cena faltando e iluminação quebrada no meio da tarde.
 
Para piorar, o buffet esqueceu de mandar uma porra de opção vegetariana, apesar dos meus insistentes pedidos duas semanas antes. Fui obrigada a sobreviver o dia todo à base de amendoim e cigarro. Vai tomar no cu. Lá pelas 6 da tarde, numa das minhas pausas para fumar, senti o meu celular vibrando. Era uma mensagem da Clara, inteira em caixa alta “ENTÃO C Ñ IA ME CONTAR Q EH SEU CUMPLE, BO?? EH ASSIM??! PORRA KKKK”. Era só o que me faltava. Respirei fundo e meti o telefone de volta no bolso, frustrada, desejando que aquele dia acabasse logo. Mas espera, estranhei, como diabos ela sabe?
 
Peguei o celular de novo e disquei, já furiosa:
 
_PODE PARAR! – ordenei.
_Parar o quê, mano?!
_Fernando, eu não quero festa!
_Mas do que cê tá falando? – ele riu do outro lado da linha, nitidamente culpado – Que festa, meu? Eu, hein... Hoje é algum dia especial por acaso?
_É SÉRIO, PORRA! NEM VEM!
 
Todo ano, mano. Todo maldito ano, eu pedia a mesma coisa. E todo ano, um atrás do outro, o Fer me ignorava e organizava uma noite de bebedeira com os nossos amigos. Fala sério. Mais cedo naquela semana praticamente implorei para que ele não fizesse nada e expliquei que estaria ocupada. Mas o fato de a Clara ter sido informada no meio da tarde sobre a data só poderia ter o dedinho fofoqueiro do Fernando envolvido. Ahh, desgraçado.
 
_Fer, na moral, eu vou trabalhar até tarde, mano – resmunguei – Já são seis e a gente num tá nem perto de acabar aqui...
_Deixa de ser cuzona. Vem logo pra casa e a gente vai tomar umas, vai.
_Não posso! Tô numa puta gravação importante, meu. Não dá, real!
_Foda-se. A gente espera cê sair...
_Fer, não dá. Não sei nem que horas vou chegar em casa, porra... Provavelmente só de madrugada!
_Velho, é seu aniversário! – ele argumentou, indignado – Fala pra sua chefe que é uma emergência e vem tomar umas com a gente, meu. Vai! Comprei um whisky pro cê... Pode ser só nós mesmo, a Mia já tá vindo aí...
 
Ah, pronto. Agora é que não quero mesmo.
 
_Não vai rolar, Fer. Desculpa. Eu nem tô bebendo direito, meu... – o desencorajei – Deixa quieto, sai só vocês. Hoje não rola...
 
Contrariado, entre um xingo e outro, meio brincando, o Fer me desejou feliz aniversário e então desligou.
 
Ufa.  

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