julho 25, 2012

Baque

Foi como se me roubassem o tempo.
 
Quando se vive junto assim, por tantos anos, é difícil cogitar qualquer outra possibilidade. Aquela era a minha realidade – o nosso apartamento, a nossa vida ali, porra. Sempre foi. Do segundo em que saímos da casa dos nossos pais, cada dia, cada mês, sempre fomos eu e ele. Nunca tinha morado com outra pessoa e a ideia de deixá-lo ir me partia o coração.
 
O entendimento veio aos poucos. Conforme os dias foram passando, fui me dando conta de que meu amigo não ia mais estar no quarto ao lado. Ia perder o meu companheiro de conversas no sofá de madrugada, de tantas cervejas e ressacas, abraçando a porra da privada juntos e nos metendo em encrenca, voltando para casa cambaleando, desperdiçando domingos inteiros na frente da TV jogando videogame. É o Fer. O Fer, caralho. O que diabos eu ia fazer sem ele ali?
 
Inferno.
 
A situação ganhava, cada vez mais, a devida dimensão. A dura e devida dimensão. E a ansiedade começou a invadir o meu sono, as minhas madrugadas. Aí fumava dois, três cigarros na beira da cama, desperta. Sem conseguir pregar os olhos. Depois deitava ao lado da Clara, ainda sem solução para o que estava sentindo, para aquela angústia. E ela me abraçava, me beijando carinhosamente os olhos – “vocês ainda têm tempo, linda”. Não o suficiente. Já era metade de dezembro. E com a proximidade das festas em família, combinamos que ele só se mudaria em janeiro. Por insistência minha, isto é, para poupá-lo de passar a pior época do ano metido numa casa com os pais.
 
Ao mesmo tempo, me recusava a achar alguém para entrar no seu lugar. Sentia como se aquilo, de alguma forma, fosse tornar real demais a sua saída. Então postergava. Fui ignorando o máximo que pude e o Fer fez o mesmo – não empacotava uma só coisa naquela casa. Nada. Eu estava triste. Puta merda, mano, como eu tava triste. Mas sabia que ele também estava e não o queria chatear ainda mais. Então a gente ria. O tempo todo. Quando foi a semana antes do Natal, estávamos virando noites inteiras, fumando maconha na sala e tagarelando – a nossa nova tradição. Como se pudéssemos compensar o que estava por vir. Ou evitar que as horas rodassem no relógio. Que mais um dia virasse e o meu melhor amigo fosse, de fato, embora.
 
Cacete. Existe vida sem o Fernando aqui?

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