Naquela quarta, o meu martírio domiciliar foi interrompido pela
Marina.
_Oi! – ela sorriu e arregalou os olhos, assim que abri a porta – Nossa...
Cê tá bonita, flor!
_É? – ri, apoiada no batente – E você tá mais de uma hora atrasada, o que acontece?
Umas duas horas antes, tinha me mandado um SMS um tanto dramático.
Um “vms jantar? PRECISO te ver agora!!” que me soava como se ela tivesse
algo muito importante para me contar. Se eu bem conheço a fofoqueira da Marina,
não é. A real é que eu andava um tanto ausente nas últimas semanas,
engolida pela situação no apartamento – da qual ela sabia meio por cima. Mas seu
atraso incomum me deixou curiosa. Algo tem aí.
_Hein? – insisti, com os braços de fora numa regata butch
preta.
_Já te conto... – ela foi marchando apartamento adentro, daquele seu jeito – Como tão as coisas com você? Já achou alguém pra dividir?
_Não. Nem fui atrás...
Me olhou por trás dos seus óculos pretinhos. E me repreendeu –
“flor, você não pode ficar adiando isso!”. “Eu sei”. “É sério, linda, você vai
se afundar em dívida assim”. “Me deixa, Má”, resmunguei, “vou lidar com isso no
meu tempo”. Ela se limitou a revirar os olhos e seguiu andando pelo
apartamento, em direção à cozinha. Estava estranhamente acelerada.
Se serviu um copo de água da jarra na geladeira e aí logo voltou
para a sala – eu a seguia como uma barata tonta. Se sentou por fim no sofá e
descalçou os sapatos para cruzar as pernas em frente ao corpo. Estava com uma
saia mostarda dessas bem esquerdista, com cara de acabei-de-sair-dum-filme-cult-no-Belas-Artes,
que batia abaixo do seu joelho, e uma blusa preta de alcinha metida por dentro
da cintura alta. Ah é, e com o cabelo solto – o que, em termos de
Marina, era tão raro quanto o atraso. O que diabos tá rolando?
Talvez qualquer outra pessoa sequer se desse conta. Não era nada realmente explícito. Mas sabe quando você conhece alguém bem demais para se deixar enganar pela aparente normalidade? Pois é. Algo tinha ali. Estava com um ânimo diferente, não sei. Observei-a tomar um gole da água, enquanto me juntava a ela no sofá e abria uma cerveja que peguei na nossa rápida passagem pela cozinha. Achei certa graça na agitação toda.
_E então?
_Ai... – cobriu o rosto com a mão, se contendo – ...eu conheci alguém.
_Ah, jura? – ri – Dá para perceber, né, Marina.
_Dá?
_Vai, me conta.
_E-ela... – sorriu, mal se aguentando de felicidade, mordendo a ponta do dedo – ...chama Vivian. E, e a gente saiu quatro vezes.
_Hum...
_Não, não, cinco! – corrigiu e confessou – Vi ela rapidinho antes de vir pra cá.
_Ah, entendi tudo agora... – comecei a rir, de novo, imaginando o motivo do atraso – ...mas e aí? Tá sério já, cê já tá apaixonada assim?!
_Flor, você não tá entendendo. Eu nunca, nunca saí com ninguém assim. E-ela... – suspirou – ...ela é tão, tão bonita e, e inteligente. É advogada de, d-de direitos humanos, a, a gente se conheceu n-numa... – se enrolava para falar, emocionada – ...coletiva de imprensa. E, e ela me chamou pra tomar uma cerveja depois, a gente conversou a noite toda e, e d-depois ela me... m-me beijou contra o carro, quando a gente tava indo embora. E e-eu... meu, não sei nem explicar!
_Eita, Marina.
_Não. Cê não tem ideia! Sabe tudo o que eu passei com a Bia?
Revirei os olhos com a mera lembrança, acenando.
_Não tem nada daquilo. Zero! Sabe quando você não tem que ficar
indo atrás? Quando as duas se querem do mesmo jeito? – apoiou a cabeça no
encosto do sofá por um instante, toda boba-alegre – Mano, a gente troca
mensagem o dia todo, e-ela se interessa por tudo o que eu falo, pelo meu
trabalho, me liga para saber minha opinião toda vez que surge algum debate
interessante no escritório dela. A gente, meu, juro, a gente fica horas no
telefone!
Nunca vi ninguém gostar tanto de telefone quanto a Marina.
_Ok, tô convencida. É o amor da sua vida.
_Muito engraçadinha.
_Não tô fazendo graça, Má, ela parece maravilhosa mesmo – sorri.
_Ela é! – ela sorriu também – Linda, juro, e-eu nem sabia que podia ser assim. Sempre me senti tão insegura nos meus relacionamentos, você sabe... dava tudo de mim e ficava recebendo migalha em troca. E a Vi, mano, ela parece que me enxerga, sabe? Fora que, né, a diferença absurda que faz estar com outra mina preta. A gente tem conversado muito sobre isso e, meu... para ela tá sendo o mesmo processo, não sei, é como se a gente fosse construindo tudo juntas. É tão bom, flor!
_Espera. Como assim? Cês já tão construindo uma porra dum relacionamento e eu só tô ouvindo sobre essa mina agora? Olha, Marina, tô meio ofendida... – ri – ...eu te conto tudo sabe.
_Ai, não, e eu nem contei de ontem!
Me pegou pela mão, empolgada.
_Ontem?
_É. A Vi dormiu em casa.
_Hum... – arqueei as sobrancelhas – ...e?
_E meu, foi intenso. Nossa, f-foi como... – se ajeitou no sofá, cruzando os braços em volta das pernas – ...não sei, o jeito que ela me pegou, que ela me olhava enquanto a, a gente... flor. Juro. Tô desconcertada até agora. Foi muito perfeito. O beijo dela... e-eu não sabia nem quem eu era mais de tão, tão intenso, tão perdidas uma na outra que a gente tava...
_Hum, quem é essa aí? – de repente, o Fer perguntou.
Olhamos para trás e ele vinha pelo corredor, rindo da descrição entusiasmada
da Marina. Ver o Fer assim, andando pela casa, fazia parecer como se ele fosse
estar sempre ali – ainda era difícil encarar a realidade. Argh. A
cumprimentou com um beijo no rosto, por cima do encosto. Mas, a essa altura, a
Marina já estava toda constrangida. Muda e retraída no sofá. Eu ri do seu
susto, pega desprevenida falando tão apaixonadamente sobre uma mulher. Desviei
os olhos e aí vi a Mia, vindo alguns metros atrás do namorado.
_Quem é quem?! De quem cês tão falando? – ela chegou, desavisada,
enquanto prendia o cabelo, e notou a Marina ali – Ah, oi!
_Oi... – a minha ex murmurou, querendo cavar um buraco no chão pra se esconder.
Eu ri ainda mais. O Fer sentou na poltrona ao nosso lado, curioso,
acendendo um baseado.
_Num é, é que a Marina tava aqui me contando sobre um encontro que
ela teve essa semana – comentei – Não sei se você reparou, né, no calor todo que
fez ontem em São Paulo...
_É, pelo jeito, devia tá bom mesmo... – ele deu um trago – ...porque, olha, nunca ouvi ela falar assim de você, não.
Ah, vá. Idiota.
_É? – ri, apoiada no batente – E você tá mais de uma hora atrasada, o que acontece?
_Já te conto... – ela foi marchando apartamento adentro, daquele seu jeito – Como tão as coisas com você? Já achou alguém pra dividir?
_Não. Nem fui atrás...
Talvez qualquer outra pessoa sequer se desse conta. Não era nada realmente explícito. Mas sabe quando você conhece alguém bem demais para se deixar enganar pela aparente normalidade? Pois é. Algo tinha ali. Estava com um ânimo diferente, não sei. Observei-a tomar um gole da água, enquanto me juntava a ela no sofá e abria uma cerveja que peguei na nossa rápida passagem pela cozinha. Achei certa graça na agitação toda.
_Ai... – cobriu o rosto com a mão, se contendo – ...eu conheci alguém.
_Ah, jura? – ri – Dá para perceber, né, Marina.
_Dá?
_Vai, me conta.
_E-ela... – sorriu, mal se aguentando de felicidade, mordendo a ponta do dedo – ...chama Vivian. E, e a gente saiu quatro vezes.
_Hum...
_Não, não, cinco! – corrigiu e confessou – Vi ela rapidinho antes de vir pra cá.
_Ah, entendi tudo agora... – comecei a rir, de novo, imaginando o motivo do atraso – ...mas e aí? Tá sério já, cê já tá apaixonada assim?!
_Flor, você não tá entendendo. Eu nunca, nunca saí com ninguém assim. E-ela... – suspirou – ...ela é tão, tão bonita e, e inteligente. É advogada de, d-de direitos humanos, a, a gente se conheceu n-numa... – se enrolava para falar, emocionada – ...coletiva de imprensa. E, e ela me chamou pra tomar uma cerveja depois, a gente conversou a noite toda e, e d-depois ela me... m-me beijou contra o carro, quando a gente tava indo embora. E e-eu... meu, não sei nem explicar!
_Eita, Marina.
_Não. Cê não tem ideia! Sabe tudo o que eu passei com a Bia?
_Muito engraçadinha.
_Não tô fazendo graça, Má, ela parece maravilhosa mesmo – sorri.
_Ela é! – ela sorriu também – Linda, juro, e-eu nem sabia que podia ser assim. Sempre me senti tão insegura nos meus relacionamentos, você sabe... dava tudo de mim e ficava recebendo migalha em troca. E a Vi, mano, ela parece que me enxerga, sabe? Fora que, né, a diferença absurda que faz estar com outra mina preta. A gente tem conversado muito sobre isso e, meu... para ela tá sendo o mesmo processo, não sei, é como se a gente fosse construindo tudo juntas. É tão bom, flor!
_Espera. Como assim? Cês já tão construindo uma porra dum relacionamento e eu só tô ouvindo sobre essa mina agora? Olha, Marina, tô meio ofendida... – ri – ...eu te conto tudo sabe.
_Ai, não, e eu nem contei de ontem!
_É. A Vi dormiu em casa.
_Hum... – arqueei as sobrancelhas – ...e?
_E meu, foi intenso. Nossa, f-foi como... – se ajeitou no sofá, cruzando os braços em volta das pernas – ...não sei, o jeito que ela me pegou, que ela me olhava enquanto a, a gente... flor. Juro. Tô desconcertada até agora. Foi muito perfeito. O beijo dela... e-eu não sabia nem quem eu era mais de tão, tão intenso, tão perdidas uma na outra que a gente tava...
_Hum, quem é essa aí? – de repente, o Fer perguntou.
_Oi... – a minha ex murmurou, querendo cavar um buraco no chão pra se esconder.
_É, pelo jeito, devia tá bom mesmo... – ele deu um trago – ...porque, olha, nunca ouvi ela falar assim de você, não.
Uau, post novo às 8h da madrugada,rsrsrs
ResponderExcluirMas...o que acontece com Marina? Ciúmes da FM/Clara? Será?
rsrsrsrs
Tá ótimo, agora só esperando a hora da Mia "se oferecer" pra dividir o ap...kkkkkkkkkkkk
Go, Mia, go!!!!
Marina <3
ResponderExcluirA Mia podia ser a solução né hehe
Parabéns Mel, pelo post nº500!
ResponderExcluirAliás, isso foi um post de meio? Medo do que possa vir no próximo, rs.
Coisa linda essas duas!
ResponderExcluirDani não, pfvr
ResponderExcluirChega de mulheres complicadas na vida da FM.
eu aqui pensando: mas esse post não é novo. fui ver os comentários: zero. fiquei toda confusa, cara! hahahahaha :D volta logo. quero Ibotirama com Mel e Mia, rs! eu vou pra SP essa semana. acho que lá pelo dia 3. devo ficar uns 4 dias, no máximo. façamos algo ;)
ResponderExcluirParabééns! Post 500 o//
ResponderExcluirQual a implicancia? E antes de desejar saber o que se passa pela cabeça da Marina, gostaria de saber que ideias passam pela cabeça da escritora... Hmmm
quédêcontinuação?
ResponderExcluirq lindas =) hahaha
ResponderExcluirEu bem que gostaria de ver FM, Clara e Dani passando uma noite juntas,, hehehehe
ResponderExcluirAhhhhh, que peninha do Fer :S
ResponderExcluirhahaha a Mia poderia se candidatar a dividir o apê com a FM, seria no mínimo curioso...
Fiquei imaginando a cena do barraco da FM com a Dani... tô rindo tem mais de meia hora kkkkk aguardando o próximo!
ResponderExcluirAdorei esse post. E achei tão estranho do nada a Dani surgir de novo HSIUAHSA Quero só ver no que vai dar isso. Depois daquele barraco todo será que a Dani aceitaria facil assim ir morar por uns tempos com a FM?! E a FM ficaria tão desesperada assim pra realmente cogitar chamar a Dani? Curiosíssima pra saber o que vai rolar *--* Muito bom Mel, muito bom mesmo!
ResponderExcluirDani, volta?! Quero animação e barraco nesse blog. rs
ResponderExcluirCaramba, acho que só eu ainda não tinha atinado pra opção da Mia dividir o apê com a FM UHSAHUSA quase que eu mesma já estava me oferecendo pra dividir o apê e ajudar a manola FM.
ResponderExcluirparabens pelos 500 posts
ResponderExcluirto com a FM:"o que ha com as mulheres hoje, cacete?" :/
eu só consigo pensar que uma hora a Mia vai falar 'ei, eu posso morar com você até o Fer voltar' e o Fer vai apoiar e não vai ter como dizer não e ai fodeu :~
ResponderExcluireu sei q é horrívl, mas acho esses relacionamentos "problema" dela tão atraentes. as brigas com a dani, as noites louca, msmo o lance com a mia....
ResponderExcluircara, e essa marina fazendo biiirra? awnnnnnn <3
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