O silêncio entre nós agora já não era mais constrangedor. Era uma
quietude sincera. Tranquila. Todas as nossas palavras – as minhas, pelo
menos – foram gastas e não havia muito mais o que dizer. Restou no ar uma compreensão
mútua, um respeito carinhoso. Ou talvez fosse apenas exaustão depois de tanta tensão
daquelas últimas semanas, não sei. O relógio da cozinha ressoava na
parede, conforme eu terminava o copo d’água que a Mia me ofereceu antes de eu
ir.
Sentada sobre o balcão, minhas pernas se suspendiam na beirada no
ar. A 20 centímetros de onde nos beijamos meses antes e os dedos da Mia deslizaram
às escondidas no meu jeans enquanto sua mãe a chamava. Não, afastei aquelas
memórias bobas, distantes, pra quê entrar
nessas, meu? Respirei fundo, de que me adiantavam nostalgias àquela altura?
Era tudo, de repente, tão diferente. Tirei as mãos da superfície do balcão,
ignorando a sensação saudade repentina. E tomei outro gole do meu copo.
_Me diz... – a Mia me observou, deixando escapar um breve riso – Cê
tem algum problema com cadeiras?
_Olha... – achei graça – Não sei. Podia até mentir, dizer que é
rebeldia, mas acho que eu só gosto de balcões mesmo.
_Balcões, mesas... – listou, desatenta, apoiada contra a geladeira
– ...pias.
É. Isso,
sorri e abaixei a cabeça. Um sentimento estranho me cutucou, desconfortável com
a observação, com como deixava escapar o quanto sabíamos uma da outra, dos nossos
jeitos. Respirei fundo. A Mia também ficou em silêncio, desviando o olhar de
mim. Merda, preciso falar alguma coisa,
as minhas mãos dedilharam ansiosamente o vidro do copo, ou isso vai tomar proporções maiores. Deixei o copo sobre o balcão
e apoiei as minhas mãos, inquietas, contra a superfície fria – mas não consegui
formular uma frase sequer.
A Mia se moveu, como se também não soubesse o que fazer consigo,
colocando o próprio copo na pia.
_Você quer mais? – perguntou agora por mera educação.
_Não, eu... – hesitei – ...acho que já v-vou indo.
Eu e ela nos olhamos, mais uma vez. E eu... senti em todo
lugar. Preciso sair daqui, logo. Desci
da pia num salto e a tranquilidade conquistada minutos antes desapareceu. Só vai, cacete, repeti para mim mesma.
Não queria prolongar o desconforto – mas, de repente, era difícil deixar aquele
apartamento. Deixar tudo o que fora nosso. Perto do fim, não sei, os
pensamentos se tornam apocalípticos. Como se não fosse mais vê-la, como se aquela
conversa tornasse tudo tão definitivo e, no segundo em que passasse pela porta,
já não seríamos mais as mesmas. Inferno. Engoli seco, tentando afastar a
sensação.
Caminhamos até a porta e a Mia a abriu, apoiando-se na madeira.
Encostei contra o batente oposto e a observei, por um instante, na minha
frente. Eu enrolava, nitidamente. Droga – abaixei a cabeça, mais uma vez.
_V-você... – murmurei, subitamente confusa, e aí ergui o queixo novamente
na sua direção – ...você acabou não me dizendo o, o que queria dizer no outro
dia, como v-você vem se sentindo...
_É, sei lá, achei que já não fazia mais sentido... – sorriu meio à
toa, falando baixinho, e cruzou os braços em frente ao corpo – ...você sabe, d-depois
de tudo o que você disse lá no quarto e o que a gente... combinou.
Nossos olhares não se soltavam. Diabo. Vê-la sorrir, ali, me quebrava as pernas de tal forma que, q-que
elas realmente pareciam se recusar a sair. É
a Mia. A Mia, porra! Toda a minha segurança naquilo, no que eu disse, no
que fora até a sua casa só para fazer, do nada, perdia a força. Ali, já na
linha final, na porta. O que foi mesmo,
hein, que combinamos?, me perdi na
sua boca entreaberta, a meio metro de mim. E por um segundo, longo demais, os
meus olhos se fixaram nela, hesitantes. Tão óbvios, inferno, que a Mia percebeu.
Respirei fundo. E ela me observou de volta, reajeitando o corpo
suavemente contra a porta. Como se mostrasse que não ia a lugar nenhum. Tinha
as mãos escondidas atrás do corpo, sutilmente, à espera – de um movimento,
um gesto meu. Qualquer um bastaria. E eu quis. Toda a nossa história até
aquele momento, tudo o que enfrentamos, as dificuldades, as falhas, dela e
minhas, tudo o que conversamos naquela tarde sumiu da minha mente. Por um
milésimo de segundo, eu quis. Como quis. Estava deixando tudo para trás de forma tão consciente
e me odiava por isso, em partes. A Mia me olhava ainda.
_É... é-é melhor eu... – hesitei, virando o corpo para o corredor,
quase com urgência – ...eu ir.
_É... melhor.
_É. Certo.
Dei um passo. E antes que conseguisse dar o segundo, a Mia disse um
“se cuida”. Eu odiava aquilo. Por
que diabos falar isso, assim? Como quem se preocupa, como quem continua ali,
sabe, não como quem realmente diz adeus – me tirava do sério. Argh. Me fazia querer ficar, essa era a
verdade. Mas andei até o elevador, me forçando a ignorar as emoções que atropelavam
o meu coração. As portas abriram. E um a um, os andares foram passando dentro
do elevador. Quando foi que decidi por isso?,
um desespero tomava conta de mim, quanto mais descia. Devia ter a beijado mais uma vez, passei a mão no rosto, em agonia.
Só uma vez. Ia descontando em mim mesma, em gestos impulsivos. A minha
respiração me sufocava, inferno. Era
a Mia. A minha Mia, caralho! A garota
que eu amei por tanto tempo, a única que já tinha importava na porra da minha
vida, na droga do meu coração. Mas que...
que merda!
Deixei o elevador me sentindo uma idiota. Não queria voltar atrás –
com todas as minhas forças, não queria. O
que eu tô fazendo?! Inferno. Inferno. Inferno. O sentimento, o mesmo
sentimento de quando a Mia era minha, o gosto da sua boca, o jeito como me
segurava, como me beijava, me enchiam a cabeça violentamente. Contra a minha
vontade. Sem saber quando a veria de novo, como tudo seria dali em diante. Assim
que passei pelo portão na entrada do prédio, alcançando um cigarro no maço, me
bateu o arrependimento, uma vontade quase estabanada de retirar cada uma das
minhas palavras. Não vou conseguir, tirei o cigarro da boca,
voltando cinco passos até a guarita, apressada, e pedi que interfonasse de
novo, eu precisava subir.
O guarda entrou e... não.
Merda!
Não. Não podia fazer aquilo. Não era justo com a
Mia, comigo, com a porra da Clara. Com o Fernando. Puta que pariu, mas que droga.
O meu corpo parecia brigar com o meu coração, fixado na ideia de tê-la de novo.
Por um breve momento que fosse. Um beijo. Só um beijo. Caralho, não. Não! Um
beijo e eu mudava o rumo da minha vida de novo. De volta para as bordas do
namoro dela, para as migalhas da sua vida com o Fer no quarto ao lado. Não. Não dá. Dei um passo para trás. Eles ainda estão juntos e eu...
_Ela disse que a senhora pode subir... – o porteiro ressurgiu, me
avisando.
_Não... – relutei – ...deixa.