_Ficou tarde – resmunguei, de boca cheia – Precisava trampar.
_Cê tava lá quando baixou a polícia?
_Não...
_Acho que era umas sete. Nossa, fiquei mó cara te procurando, meu... – pôs os braços sobre a mesa e aí sorriu – ...mas, pô, foi do caralho essa festa.
_Hum... – murmurei, sem paciência.
_Mano, rolou uma parada... – se curvou para frente para contar, animado – ...cê num tem ideia.
_Hum.
_...porra, sério, foi do caralho.
_Hum.
_Fui quase até o fim. Foda que a Mia quis parar, se não acho que...
_C-como assim? – perguntei, desconfortável.
_Não sei, a gente tava lá q-quase... – ele hesitou – ...tipo, quase... cê sabe, no banheiro e, e e-ela... – pareceu escolher as palavras, tentando não expor a namorada – ...ela, tipo, desceu lá n-na mina, enquanto eu...
Espera. Como é?!, larguei o garfo no prato e encarei o Fernando ali, pega de surpresa. Repete. A Mia fez o quê?!? A minha respiração começou a acelerar e o meu coração disparou. Não, não, mano. Não repete essa merda nunca mais, me arrependi na mesma hora. Nunca mais. Puta que pariu, não conseguia tirar a imagem da cabeça e ele seguia contando.
_...e-eu me pegava com a mina, então não vi bem, só vi quando a Mia já tava de pé de novo. Parou no meio do bagulho e me puxou, quis ir embora. Mas, porra... tava animal! A mina já tava b...
Cacete. Forcei a comida que restara na minha boca garganta abaixo, sem ouvir direito o restante da história – a muito contragosto. O meu estômago se embrulhava numa ansiedade repentina. Sem saber o que pensar ou, pior, o que sentir. Inferno.
_Nunca achei que fosse rolar qualquer coisa assim, mano... – ele continuou, empolgado, praticamente num monólogo – ...cê já imaginou, meu?
_O q-quê?
_A Mia dando a louca aí, beijando mina – riu – Cê imaginaria?
_Hum. Foi da hora – sorriu – E ô, cê... c-cê acha que... – já não queria mais ouvir aquela merda toda, perdera todo o apetite e infeliz agora enrolava, irritantemente – ...q-que se eu lançar, ela dorme comigo e outra mina?
_Como não?! – sequer me deixou terminar e riu, se exaltando – Ela que começou, pô! Quando vi já tava metendo a mão na...
_Sei – o cortei, grosseira, sem querer ouvir os detalhes.
_Olha... – ele sorriu – Acho que, se pá, rola, sim.
_Meu, por que cê tá me perguntando isso?! – retruquei, revirando os olhos, num impulso – Sei lá, mano! Tal... t-talvez... – comecei a vasculhar a porra da minha cabeça atrás de algo para encobrir o meu rancor, qualquer resposta que não fosse o “qual o nome da filha-da-puta dessa garota?” que era a única maldita coisa que me ocorria, latejando na minha cabeça – ...eu, e-eu não sei, Fer. Ela tava bêbada, quis parar no meio, meu, não acho que, q-que ela sabia o que tava fazendo...
_Tá, mas...
_E outra, meu... – o interrompi – ...a Mia é sua namorada. É furada, porra... – argumentei, fazendo um esforço desgraçado para apagar a merda daquela imagem da minha cabeça, a da, d-da Mia com, c-com a desgraçada da garota, caralho – ...na boa, Fer, vai por mim. Isso vai dar maior rolo depois... se... se ela... – me enrolei para justificar, enquanto olhava o meu amigo ali, ô carma dos infernos, e rezava para que desistisse da ideia – ...se ela já ficou mal só de ter pegado a mina com você, imagina s-se... se cê for lá comer outra na frente dela, meu? A, a Mia vai surtar, cara... – suspirei – ...sério, não faz isso. Vai ser puta bad pra vocês!
_Eu?? Falar o quê?!
_Ah, mano, não sei... – riu – ...tenta sacar qual é que é, o que ela achou da parada. Dá uma sondada!
_Não... – me indignei – ...não, meu! Fora que nem sei quando vou trombar com a Mia de novo... Não dá, não rola!
_Amanhã?!
_É, pô! No lance lá do Gui!
Merda. Tinha me esquecido. Duas semanas antes, enchi o saco do Fernando para que comprasse ingressos para a nova peça do Gui – era um dos primeiros papeis principais que ele pegava e estava com medo de que ninguém fosse ver. Não era nada demais, uma peça pequena no circuito alternativo paulistano, mas eu azucrinei o Fer para que fosse comigo. E obviamente, porque eu era a rainha de me meter em situações como aquela, já sabendo que meu amigo levaria a Mia, eu convidei a Clara. É. Só para não ir sozinha com os dois.
