Aquilo me fez, de certo, algum bem. Estar
com a Clara me fazia bem. Assim que cheguei na loja em que trabalhava, ela deu
uma desculpa qualquer para o chefe e vazou comigo. Fomos caminhando até o seu
prédio. E chegando lá, transamos em todos os cômodos do apartamento. Um por um
– só porque podíamos. A sua roomie estava trabalhando e não tinha ninguém
ali para nos julgar, exceto a gata preta da Clara, a Luna, que nos observou com
certo desprezo do alto de uma prateleira da cozinha, enquanto nós duas ríamos e
nos comíamos contra a pia.
Não voltei
para casa até terça de manhã. É.
Dei uma
passada rápida antes do trabalho só para pegar uma troca de roupa, já que
naquela noite ia ter festa na casa do Benatti. Ele fazia aniversário quatro
dias depois de mim – o que, quando o Fer conseguia organizar festas forçadas
pra minha pessoa, significava uma semana inteira de bebedeira entre os nossos
amigos. Às vezes, a comemoração era tanta que se estendia até o aniversário do Fer
quase um mês depois. Tudo era desculpa pra encher a cara. E vejam bem, o
meu problema com aniversários é só com o meu próprio – o dos outros eu gostava.
Passei o
dia inteiro animada, atazanando a Clara para que fosse comigo, sem muito
sucesso. “Cansou de mim?”, brinquei, enviando SMS para ela no meio de
uma gravação. “Ñ! Tonta!”, ela me respondeu em seguida, “hj ñ da,
dsclp! :3”.
Argh.
Fiz hora extra até tarde naquela noite e quando finalmente cheguei
no prédio do Benatti, numa ruazinha perto da praça Tiradentes, já era quase
hora de eu voltar para casa – isto é, caso quisesse dormir antes de ter que ir trabalhar
de novo. Fico só um pouco, pensei, é terça-feira, meus amigos vão
pegar leve. Mas assim que abri a porta e dei de cara com o Rafa lambendo as
bolas do Fer, ali, de calça arriada no meio da sala, trêbados, cercados por uma
multidão aos gritos – logo percebi que não.
Tá. Vai ser esse tipo de festa.
O Rafa era um dos melhores amigos do Fernando, estava em todas. O
conhecemos por acaso nos rolês punks do ABC que a gente ia na adolescência. Era
um pivete magrelo com um moicano verde, normalmente desbotado. Estava fazendo
22. Morava numa república com três outros caras e as ocasionais namoradas, num
apartamento caindo aos pedaços em que eles pixaram todo tipo de merda e uns
símbolos anarquistas pelas paredes. Era um inferninho.
Atravessei toda a marofa e a gritaria, já rindo daquele
caos, e fui até a cozinha ver se descolava alguma coisa para beber. A situação
era deplorável. Tinha tanta latinha e garrafa vazia espalhada pelo chão, pela
mesa, pela pia que parecia que a festa tinha começado uns três dias antes. Caralho.
O rádio tocava Discharge no último volume. Numa área de serviço apertada, achei
o tanque transbordando de gelo – enfiei a mão e peguei uma cerveja. Abri a
latinha e me virei para voltar, desviando de duas ou três pessoas na cozinha,
quando vi a Mia.
Ela estava acendendo um cigarro no corredor, encostada na
parede e, por algum motivo, só de sutiã preto. Com uns shorts rasgados e uma
meia-arrastão que começava na metade da sua barriga e terminava nos seus
coturnos surrados. Puta merda. Deu um primeiro trago, soprando a fumaça
para o lado, depois subiu à boca um copo plástico com conteúdo duvidoso. E foi
quando os seus olhos cruzaram comigo ali, saindo da porta da cozinha. Tirou o
copo da boca e veio até onde eu estava, caminhando como se já tivesse tomado
alguns daqueles.
_E aí...
_E aí... – ri.
A Mia encostou no batente oposto, sorrindo para mim. Era um
tanto desconcertante vê-la tão bonita assim – fazia alguns meses que não a
notava desse jeito. Qual o meu problema? A encarei ali na minha frente.
E ela respirou fundo, aí abaixou os olhos por um milésimo de segundo, quase
como se tentasse não se constranger.
_Obrigada... – me encarou logo em seguida e sorriu – ...pelo
outro dia.
_E aí... – ri.
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