Podia sentir todos os olhos em nós, mesmo com os meus fechados. Expostas
ali, pela primeira vez – em meio aos sons exagerados da festa, o rádio gritando
e as pessoas que nos rodeavam, bêbadas, atentas a cada gesto nosso. Avancei no
vazio. E as nossas mãos se encontraram sobre o piso de madeira, as pontas dos meus
dedos tocaram os dela, assim, de leve. E a minha pressão caiu na mesma hora.
Não, me retraí. Não posso d-dar
bandeira.
Dei-me conta de que não sabia como beijá-la assim. Em público. Não
sabia o que não fazer. Confusa do bancar
ou não na frente de todo mundo – porque, se por um lado eu não podia me conter
demais, perigando transparecer o quanto aquilo me afetava; por outro, também
não podíamos demonstrar intimidade. Na forma como nos segurávamos. E logo me
dei conta de que eu não sabia como fingir desconhecimento. Da sua boca, do seu ritmo,
de como inclinar a porra da cabeça, de como me encaixar nos movimentos dela, inferno.
Tudo isso, em milésimos de segundo, passou pela minha mente – milhares de
pensamentos revirando meu cérebro, o meu estômago. Argh.
Embriagada e ainda com os olhos fechados, podia sentir a Mia sorrir
a meros milímetros do meu rosto. Tá se divertindo, desgraça? Fui me aproximando,
me inclinei para frente, cacete. Cacete, cacete. Até os nossos
lábios, enfim, se tocarem. Puta merda, tá
acontecendo mesmo. O nervosismo desceu meus braços, lambendo meus ossos e
se espalhando pelas minhas mãos, plantadas no chão. Agora menos firmes do que
um segundo antes. Mas então a Mia entreabriu a sua boca e o seu gosto se fundiu
naturalmente em mim.
De repente, tudo era como sempre fora. Fácil, instintivo. Nosso. A sala, o som do rádio, tudo ao
redor se tornou líquido num instante – a Mia a única coisa sólida restante, real,
e meus dedos tomados pela vontade de a tocar, de me agarrar à sua presença,
agora tão palpável, concreta. Durou quatro, seis segundos no máximo. O
suficiente, no entanto, para empurrar a Mia com tudo de volta à minha realidade
– me lembrando de todos os beijos que eu ainda tinha guardados para ela dentro
de mim. Como é difícil te negar, garota.
E quando acabou, reabrimos os nossos olhos e nos encaramos
rapidamente. Inferno. O que
diabos estamos fazendo? O constrangimento cobriu meu rosto. E eu tentei não
a olhar por tempo demais, abaixando logo a cabeça. Forcei uma expressão de revolta
– “eu vou matar todos vocês”, reclamei em voz alta. Todo mundo na roda riu. Minhas
bochechas ainda queimando. Nos afastamos, engatinhando ao revés até voltar para
os nossos devidos lugares, num teatro até que convincente. E assim que sentei
de novo, o Fernando abriu a boca:
_Quer dizer, então... – fez graça, tragando um cigarro – ...que agora
eu posso dar uns beijos na Clarinha?!
_N-não ouse, babaca!
O ameacei. E no segundo seguinte, um copo plástico voou na sua
direção das mãos da Mia, com um resto qualquer de bebida. Ele riu e se curvou,
sendo atingido na altura do ombro. Todo mundo riu também. A situação parecia
que seria esquecida logo, sucumbindo entre os demais desdobramentos da festa e passando
despercebida – mas é claro, claro, que não acabou aí. Ah, não.
Não. Os idiotas dos nossos amigos não iam deixar tão barato assim. Madrugada
afora, pelas horas seguintes, fizeram questão de me atazanar incansavelmente
por causa daquela porra de beijo.
_Mandou bem, hein... – um dos nossos amigos comentou por cima do
meu ombro, me alcançando no corredor – ...pegou e com aval ainda.
_Cala a boca, Igor.
_Quê?! – retrucou, achando graça – A Mia é mó gata, meu.
_QUAL O SEU PROBLEMA?!?
Desviei do idiota, encerrando aquela “conversa”, e entrei pela
porta da cozinha. Mas não importava aonde fosse, eu não conseguia fugir. Em
todos os cantos daquela merda de apartamento, tinha algum engraçadinho com um
comentário a respeito do maldito beijo. Haja
paciência. E se não eram os meus amigos cara-de-pau, era a Mia – quem eu
pretendia, sim, evitar pelo restante da festa. Para não levantar mais suspeitas.
Não tô podendo.
Lá pelas tantas, saí no corredor do prédio para respirar em paz
por um segundo. E vi a Thaís mais adiante, perto do elevador, conversando com
quem presumi ser a Ju. Uma butch gorda e forte que tinha um undercut
com topete, desses meio anos 50. Puta merda. Rapidamente entendi todo o
nervosismo da minha amiga em falar com ela – a mina é gata mesmo. Sorri
ao ver as duas ali e sentei ao lado da porta do apartamento, com as costas
apoiadas na parede. Acendi um cigarro e estiquei as pernas, aliviada por ter um
momento tranquilo.
Foi quando alguém abriu a porta do apê, deixando o som da festa
escapar para o corredor. Virei o rosto para cima para ver quem era e dei de
cara com o Marcos, com a mão ainda na maçaneta, fechando a porta atrás de si.
_Ah, maravilha... – murmurei, irônica – ...era só o que faltava
mesmo.
Ele riu, tendo ouvido parte do comentário e captando minha empolgação.
Bati as cinzas do cigarro no chão, sem paciência para ouvir sermão, e ele se sentou
ao meu lado, me olhando rabugenta ali. Por
que diabos eu fui aceitar esse desafio?